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Ressurreição da carne: o que essa alma ganha com isso?

Sou católico, creio em todos os artigos do Credo totalmente, contudo, isto não me impede de fazer certas conjecturas, como por exemplo, sobre o 11º artigo do Credo: “Creio na ressurreição da carne”. O cristão ao morrer, que procurou viver a vida em estado de graça, livre de pecados, em fim aquele que morreu santamente, como muitos santos, é de se esperar que ele seja contemplado, de imediato, com a maior das felicidades, isto é, a visão beatífica de Deus; a felicidade total, completa. Correto?

Não é na alma que estão as faculdades; inteligência, vontade e sensibilidade?

Ora, o que possa ser acrescentado a pessoa que já possue a visão beatífica de Deus; a total felicidade, a ressurreição do seu corpo físico? O que essa alma ganha com isso?

Eu bem sei que o ser humano é composto de corpo e de uma alma imortal, não é um puro espírito, não é um anjo. Mas, eu insisto: se essa alma está totalmente, plenamente, feliz gozando da visão beatífica de Deus que pode ainda ser acrescentado com a ressurreição do seu corpo físico? Que ela ganha com isso?

Bem sei que esse corpo será glorioso, não vai precisar se alimentar, não vai precisar dormir, de nenhuma necessidade fisiológica, embora continue tendo os seus orgão internos. Um corpo, obrigatóriamente, tem que ocupar um lugar no espaço.

Atualmente existe no mundo seis bilhões de habitantes, outros tantos inumeros bilhões viveram neste mundo desde Adão, todo esse aglomerado de pessoas deverá estar presentes no juizo final, ocupando uma imensa area. Os eleitos já sabem que estão salvos, que estão junto de Deus para sempre, os condenados também estão sabendo qual é o seu destino, nada vai mudar, o julgamento será só para aqueles que presenciaram o fim do mundo ou o fim dos tempos, que chegaram até lá?

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O próprio Credo é um mistério que tem que ser aceito pela fé, mas, nada nos impede de fazer reflexões sobre ele. Teologia não é isso?

O que vai ser acrescentado ao santo após a ressurreição do seu corpo?


Caríssimo,

Sou católico, creio em todos os artigos do Credo totalmente, contudo, isto não me impede de fazer certas conjecturas, como por exemplo, sobre o 11º artigo do Credo: “Creio na ressurreição da carne”. O cristão ao morrer, que procurou viver a vida em estado de graça, livre de pecados, em fim aquele que morreu santamente, como muitos santos, é de se esperar que ele seja contemplado, de imediato, com a maior das felicidades, isto é, a visão beatífica de Deus; a felicidade total, completa. Correto?


Não é na alma que estão as faculdades; inteligência, vontade e sensibilidade?
Ora, o que possa ser acrescentado a pessoa que já possue a visão beatífica de Deus; a total felicidade, a ressurreição do seu corpo físico? O que essa alma ganha com isso?

Existem dois tipos de bem-aventurança: a bem-aventurança essencial e a bem-aventurança acidental. A bem-aventurança essencial consiste na visão de Deus, como o senhor mesmo disse, completa. Mas nada impede que Deus agracie a alma com dons acessórios como, por exemplo, a felicidade de interceder por nós. Assim, podemos crer que faça parte também da bem-aventurança acidental que os corpos glorificados sejam devolvidos aos homens,

Há dois tipos de justificativa para a ressurreição: uma de natureza filosófica e outra de natureza teológica. A primeira se baseia no fato de que o homem é um ser híbrido, dotado de corpo e alma, e para isso Deus o criou, quando o dotou no início dos dons preternaturais. Para o cristão, o homem não é só alma, mas alma e corpo como constituíndo uma única substância, um único indivíduo: a alma é a forma substancial do corpo, forma esta que não prescinde do corpo, embora possa existir sem este. O homem não é um anjo, uma forma pura, mas distingue-se dos anjos na sua essência, naquilo que é.

A outra razão nos é dada ainda pelo teólogo Dom Estevão Bettencourt, em “A vida que começa com a morte”:

“a ressurreição dos cristãos é conseqüência de sua união com Cristo no Corpo Místico. Se tão íntima foi a nossa solidariedade com o primeiro Adão que todos dele herdamos a morte, espiritual e corporal, não menos estreita pode ser a nossa união com o segundo Adão, d’Este, portanto, havemos de herdar a vida, tanto espiritual, como corporal, e vida muito mais rica do que a que perdemos por obra do primeiro homem; na dispensação da salvação, Deus quis seguir uma norma estupenda: “Onde abundou o pecado, superabundou a graça.” (Rom 5,20)”

Os corpos ressuscitados terão essas três características:

1) Identidade numérica com a carne anteriormente mortal: haverá identidade não apenas específica, mas numérica, entre a carne ressuscitada e a carne mortal. E, então, os teólogos propõem duas soluções para o problema:

a) Bastará que uma parte da matéria que compunha o antigo corpo entre no novo organismo, e o que vier a faltar Deus suprirá como quando da multiplicação dos pães e dos peixes. Alguns teólogos como Santo Tomás, São Boaventura, Scoto e Suárez são de opinião que os anjos colaborarão reunindo as cinzas dos justos dispersas. Suárez pensa que serão recolhidas por seus próprios anjos da guarda, ao passo que as dos réprobos pelos demônios.

b) Teólogos recentes tem dito que a forma que torna a matéria corresponde a tal forma, portanto, Deus haveria de recompor os corpos a partir da matéria-prima, pura potência, a qual seria indiferente, não reteria suas notas individuantes anteriores. A matéria recomposta seria, através da forma, totalmente identificável com a do corpo anterior.

2) Incorruptibilidade.

3) Integridade

4) Impassibilidade

5) Fulgor

6) Agilidade

7) Sutilidade

Todas essas características e qualidades são deduzidas considerando o próprio Corpo glorioso de Cristo. Poderemos em um estudo mais aprofundado, comentar melhor sobre todas elas, mas acrescentaremos que algumas são trancendentais e outras são comuns a todos os corpos ressuscitados, incluindo os réprobos. Os corpos dos santos serão dotados de diferentes graus de glória (fulgor ou brilho).

“Adão, todo esse aglomerado de pessoas deverá estar presentes no juizo final, ocupando uma imensa area. Os eleitos já sabem que estão salvos, que estão junto de Deus para sempre, os condenados também estão sabendo qual é o seu destino, nada vai mudar, o julgamento será só para aqueles que presenciaram o fim do mundo ou o fim dos tempos, que chegaram até lá?.”

Diz Dom Estevão:

“Não resta dúvida de que, logo após a morte, as ações de cada indivíduo já são julgadas; o currículo de sua vida lhe é por inteiro apresentado sob a luz de Deus. Todavia, não basta esta tomada de consciência no foro privado apenas; já que todo indivíduo, segundo o plano divino, vive em comunhão, por vezes invisível a nós, de méritos e deméritos com os seus semelhantes, a ordem reta das coisas pede seja revelado, no fim dos tempos, em que grau cada homem é devedor ao seu próximo…

É preciso acrescentar que, no juízo final, não somente os homens como indivíduos, mas também os povos como tais, serão considerados. Sim, cada povo como tal traz uma parte própria de responsabilidade no desenvolvimento da História…”

Creio que isso esclarece em termos breves a importância e o significado do juízo final. Lamentamos aqui não poder transcrever todo o livro, mas recomendamos altamente a sua leitura: “A vida que começa com a morte”, do teólogo Dom Estevão Bettencourt.