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Seria FHC um “brazilian chicago boy”?

No Brasil se desenvolveu um fenômeno bem peculiar; enquanto o socialismo é blindado de todas as críticas – sejam elas filosóficas, sociológicas e antropológicas – e sequer pode ser medido pela régua infalível da história, o “neoliberalismo” não só é entendido como um regime político genocida e totalitário em essência como o responsável pelas grandes mazelas e misérias do mundo; para os esquerdistas todo liberal é produtor de opressão conscientemente, serve ao grande Capital e sonha com a submissão do nosso país as multinacionais estadunidenses (sic). Pois bem, diferentemente dessa caricatura, o pensamento liberal e, principalmente, os liberais – que ao contrário dos teóricos marxistas estão mais preocupados como a funcionalidade e eficiência de suas idéias – pensam no progresso dos homens – e não na opressão dos homens -, na melhoria da qualidade de vida – e não na desumanização da vida – e no aumento da riqueza entre os homens – não na proposital concentração de renda.

O imaginário do “neoliberalismo” tupiniquim se consolidou por conta de dois grandes fatores; primeiro, se deu graças a organizada ação da esquerda que, na construção do bode expiatório na figura do liberalismo internacional, imputou todos os problemas nacionais como conseqüências da adoção de uma política econômica que seguia a cartilha do “Consenso de Washington”. O mais irônico, e em segundo lugar, é que a América Latina – com raras exceções – nem de perto teve governos de claro cunho liberal. O que os movimentos de esquerda viam como uma óbvia adoção da ideologia burguesa era na verdade políticas econômicas essenciais que, se não vivenciadas, deixariam a míngua e colocariam tais nações foram do grande mercado internacional globalizado – não por menos muitos desses ardorosos críticos do passado tiveram que mudar esse discurso e se aproximar do que antes eles achavam o ápice do neoliberalismo-criador-de-miséria.

Aqui vale uma pequena análise histórica. Por conta do regime militar a “direita” – termo que não gosto de usar por ser extremamente simplório e esvaziado de sentido – foi identificada como essencialmente totalitária e adepta de políticas duras. Por outro lado, a revolucionária esquerda passou a ser entendida como veiculada a um projeto de governo libertário e anti-autoritário. A grande ironia dessa história é que a esquerda que hoje se encontra no poder era a mesma que, no passado, recebia financiamento e armas de Cuba, URSS, China e Albânia, nações mantenedoras de regimes que, por baixo, mataram 20 mil pessoas – como o cubano – e, por cima, 65 milhões de pessoas – como o chinês. Ou seja, não havia, nem de longe, esse sentimento de libertação anti-ditatorial, havia sim o claro objetivo de substituir um totalitarismo militar pela já “consagrada” ditadura do proletariado. Não obstante, ao mesmo tempo em que sonhava com a concretização da revolução comunista em terras brasileiras, o esquerdismo conseguia macular toda a direita, fazendo como que fosse essencialmente atrelada a um projeto totalitário de governo.

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A transformação do termo “liberal” em palavrão, um xingamento que de tão forte já carrega consigo uma refutação intrínseca, se deu graça a ação sistemática de movimentos esquerdistas. O liberal passou a ser aquele homem que de tão individualista só se norteava por sentimentos egoísticos, era guiado pelo anseio de poder e dinheiro, quase sempre era um burguês influenciado pelos capitalistas opressores americanos. Essa chuva de clichês que, de tão presentes, são facilmente reconhecidos, é reflexo de uma postura adotada pelo marxismo, desde Marx; o polilogismo. O polilogismo é uma superstição não-científica que passou a ser usado para justificar uma repulsa instantânea e infalível a todos os pensadores do liberalismo econômico e todos os homens e mulheres que buscavam o progresso da sociedade através do incremento produtivo. Desse modo, o burguês enquanto burguês, inebriado com a própria ganância, só reproduzia seus interesses, interesses que não só oprimiam os trabalhadores como incentivavam a miséria e a pobreza dos proletários.

Qualquer pessoa com sensibilidade percebe, facilmente, como esse raciocínio insufla o ódio e o totalitarismo. Não por menos o nazismo usou o polilogismo como base para a sua política racial; onde havia burguês opressor os nazistas colocaram o não-ariano e, no lugar do trabalhador oprimido, apareceu o ariano revolucionário.

Fazendo uma análise prática, algo que é importante também de se citar é a freqüente mitificação feita ao redor de nomes da política nacional que, de estatólatras, viraram verdadeiros representantes maiores do que se chama, bem rasamente, de “neoliberalismo”. No Brasil, onde a influência da esquerda centralizante-nacionalista-“progressista” é muito grande, criou-se uma idéia de que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso foi o expoente do estado mínimo, das privatizações, em suma, um ícone do Liberalismo em sua plenitude. Isso é, claramente, para qualquer pessoa com bom senso e conhecimento econômico, um erro crasso. O ex-presidente e os Partidos que o apoiaram (PSDB e PFL) eram, à época da instalação do Governo, defensores não de um estado Liberal, mas, sim, de um estado atuante, Keynesiano, Social Democrático. As privatizações realizadas, usadas pelos petistas como a prova inconteste do neoliberalismo-burguês-tucano, principalmente no segundo mandato, não foram guiadas por uma ideologia clara, fundamentadas na crença da necessidade da redução do Estado e na certeza do estímulo ao aprimoramento do capitalismo de livre iniciativa. De forma alguma. O ministro das Comunicações à época, Sérgio Mota, não queria nem ouvir falar, quando tomou posse, de privatizações das telecomunicações. Mesmo assim, mais a frente, realizou essa que foi uma das privatizações não só mais bem sucedidas mas das mais importantes, ainda mais quando aproximou um pouco mais o Brasil de um capitalismo verdadeiro, em que impere o livre direito a empreender. Mas por que uma mudança tão radical? Os representantes da esquerda, por certo, dirão que o “neoliberalismo”, opressor dos mais pobres e a favor das multinacionais, tomou conta do Governo, fazendo com que desse seguimento as privatizações. Isso é uma afirmação enganosa. O Governo privatizou na época não por ideologia, mas, por necessidade. Era necessário modernizar o estado brasileiro, não havia mais possibilidade de manter uma estrutura estatal paquidérmica, engessada, em que que o Estado produzia aviões, atuava na mineração e em vários outros setores típicos da iniciativa privada. O que o Governo FHC percebeu era que manter um país com um Estado empresário seria, mais a frente, um acelerador para a bancarrota da nação. Essas empresas que foram privatizadas eram muito burocratizadas, trabalhavam com custos altos e, conseqüentemente, não obtinham o resultado que poderiam alcançar caso fossem absorvidas pelo setor privado, notadamente mais ágil, dinâmico e competente.

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Tanto o Governo do PSDB não é, como chamam os marxistas, “Neoliberal” que só realizou algumas poucas, porém importantes, privatizações. Privatizaram a Vale do Rio Doce, a Embraer, abriram o capital da Petrobras e do banco do Brasil. Faltou fazer com que essas duas últimas e a caixa Econômica Federal, essa 100% estatal, fossem integradas ao setor privado. O Estado brasileiro continua sendo um Estado empresário, embora menos, visivelmente, do que era a 10 anos atrás. Só se poderia chamar esse Governo FHC de Liberal caso tivesse feito a redução do peso do Estado como um pilar ideológico. Como expusemos, não tinha esse clareza teórica sobre a essência do Estado; um mal necessário – quanto menor melhor. Privatizaram por questões meramente práticas e não programáticas.

Como afirma o jornalista e escritor Carlos Alberto Sardenberg, no Brasil não sobra Neoliberalismo, mas sim, falta capitalismo. As medidas de redução do Dinossauro demente e idoso chamado Estado brasileiro foram importantes, mas, não foram, nem de longe, suficientes. Falta ao Brasil um Partido que defenda claramente a redução do Estado como um princípio basilar de seu programa. Faltam Movimentos político-sociais que, de forma realmente organizada, defendam as privatizações e a diminuição do aparelho estatal, a fim de aproximar, efetivamente, a nossa nação de um modelo que possa ser chamado de Livre iniciativa. Enquanto isso não ocorrer, a esquerda brasileira continuará a acusar de todos os males os ditos “ neoliberais”, atacando espantalhos.