Obras

Sermão sobre a devastação da cidade de roma

I

Consideremos, irmãos, a primeira leitura, a do santo profeta Daniel. Nela, ouvimo-lo rezando e nos surpreendemos ao vê-lo não só confessar os pecados de seu povo, mas também os seus próprios. A oração dele é, não só uma oração de petição, mas também de confissão, pois, depois de orar, ele diz: “Enquanto eu rezava e confessava a Deus os meus pecados e os pecados de meu povo…” (Dan 9,20). Quem, pois, poderá declarar-se sem pecado, quando até Daniel confessa seus próprios pecados?

Daniel, de quem foi dito pelo profeta Ezequiel a um certo soberbo: “Acaso és tu mais sábio do que Daniel?” (Ez 28, 3).

Daniel, incluído entre aqueles três santos que representam os três tipos de homens que Deus vai salvar quando sobrevier a grande tribulação ao gênero humano. E Deus diz que ninguém se salvará, exceto Noé, Daniel e Jó. E é claro que por esses três nomes, como disse, Deus designa três tipos de homens. Pois esses três citados já dormiam, seus espíritos já estavam diante de Deus e seus corpos já se tinham feito pó; já estavam esperando a ressurreição – quando se situarão à direita do Senhor – e já não podiam ser afetados por nenhuma tribulação deste mundo, nem temê-las, nem ansiar por se livrar delas.

Como então se diz que daquela tribulação serão salvos Noé, Daniel e Jó? Quando Ezequiel dizia essas palavras só Daniel estava, talvez, ainda nesta vida. Pois Noé e Jó, estes com certeza, já há tempo dormiam e acompanhavam os ancestrais no sono da morte. Como então se fala de livrá-los de uma iminente tribulação, se já há tempo estavam libertos da carne? É que Noé aqui representa os bons governantes, que regem e governam a Igreja, como Noé governou a arca no dilúvio; Daniel significa todos os santos continentes; e Jó, todos os que vivem bem e santamente no matrimônio.

Esses são os três tipos de homens que Deus salva daquela tribulação. Contudo, quão especial é Daniel! No texto que citei (Ez 28,3), dos três, só ele é nomeado! E, no entanto, ele confessa seus pecados. Quando até Daniel confessa seus pecados que soberba não estremecerá, que vaidade não se esvaziará, que arrogância não se coibirá? “Quem se gloriará de ter um coração puro, de estar limpo de pecado?” (Prov 20,9)

 

II

E os homens se admiram – e oxalá ficassem só na admiração, ao invés de também blasfemarem – quando Deus corrige o gênero humano e envia o misericordioso flagelo do castigo, para que os homens se emendem antes do dia do juízo. E o faz, em geral, sem escolher os que prova, pois não quer que ninguém se perca. Atinge, pois, indistintamente, pecadores e justos; ainda que ninguém possa considerar-se justo, pois até Daniel confessa seus próprios pecados.

Irmãos, líamos há alguns dias uma passagem que, se não me engano, chamou-nos muito a atenção. É aquela passagem do Gênesis em que Abraão pergunta ao Senhor se pouparia a cidade se nela encontrasse cinqüenta justos ou se, pelo contrário, a perderia com eles (Gên 18,24).

O Senhor lhe responde que, se encontrar cinqüenta justos, poupará a cidade. E Abraão prossegue interrogando a Deus sobre o caso de serem cinco a menos, quarenta e cinco. Deus responde que pouparia a cidade por causa desses quarenta e cinco. E assim vai Abraão interrogando a Deus, diminuindo pouco a pouco, até chegar a dez, e pergunta ao Senhor se, havendo dez justos na cidade, Ele os perderia com a incontável multidão dos maus ou se por causa desses dez justos pouparia a cidade. Deus responde que também por dez justos não se perderia a cidade.

Que vamos dizer, então, irmãos? Temos diante de nós uma questão grave e importante, especialmente porque somos insidiosamente interpelados por homens que lêem a Escritura com espírito ímpio e dizem, principalmente a propósito da recente devastação de Roma: “Será que havia em Roma cinqüenta justos?”

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Ora, irmãos, será que entre tantos fiéis, tantas religiosas, tantos homens e mulheres dedicados ao serviço de Deus, não se podia encontrar cinqüenta justos, nem quarenta, nem trinta, nem vinte, nem dez?

Sendo isto inverossímil, por que então Deus não poupou a cidade por causa de dez justos? A Escritura não engana o homem, se ele não se engana. Trata-se aqui de justiça e Deus responde pela justiça: trata-se do homem que é justo segundo a medida divina e não segundo a medida humana. E respondo prontamente. Das duas, uma: ou Deus encontrou o número de justos e poupou a cidade; ou, se Ele não poupou a cidade, é porque não encontrou justos.

Mas, respondei-me: será assim tão evidente que Deus não poupou a cidade? Eu mesmo respondo: a meu ver, muito pelo contrário. A cidade não foi destruída como o foi Sodoma. Quando Abraão interrogou a Deus era a existência de Sodoma que estava em jogo. E Deus disse: “Não destruirei a cidade”, mas Ele não disse: “Não castigarei a cidade”.

Sodoma não foi poupada; perdeu-se. O fogo consumiu-a totalmente, sem esperar o dia do juízo; Ele fez com ela o que tem reservado para os outros maus no dia do juízo. Ninguém escapou de Sodoma; não sobrou nada dos homens, nem dos animais, nem das casas: tudo foi consumido pelo fogo. Este foi o modo pelo qual Deus perdeu a cidade.

Já quanto à cidade de Roma, é tudo diferente: muitos dela saíram e depois voltaram; muitos permaneceram e escaparam à morte e muitos ficaram incólumes por terem se refugiado nos santuários.

Mas – objetar-me-eis -, muitos foram levados como prisioneiros. Respondo: tal como Daniel, não em castigo próprio, mas para consolo de outros prisioneiros.

Mas – podeis me argüir -, muitos foram mortos. Respondo: o mesmo aconteceu com o sangue derramado pelos santos profetas, desde Abel a Zacarias (Mt 23,35); assim também foram tratados tantos apóstolos e até o próprio Senhor dos profetas e dos apóstolos.

Mas – objetar-me-eis ainda -, não foram muitos torturados com terríveis tormentos? Respondo: Será que tanto como Jó?

Não, irmãos, não nego o que ocorreu em Roma. Coisas horríveis nos são anunciadas: devastação, incêndios, rapinas, mortes e tormentos de homens. É verdade. Ouvimos muitos relatos, gememos e muito choramos por tudo isso, não podemos consolar-nos ante tantas desgraças que se abateram sobre a cidade.

 

III

No entanto, meus irmãos (que vossa caridade preste especial atenção às minhas palavras), ouvimos a leitura do santo Jó, que perdeu tudo: os bens e os filhos. E até a própria carne – a única coisa que lhe restava – não lhe ficou sã, mas coberta por uma chaga da cabeça aos pés. Ele sentava-se no esterco, com as feridas podres, sofrendo a corrupção do corpo, cheio de vermes, torturado por tormentos insuportáveis (Jó 2,7). Se nos tivesse sido anunciado que toda a cidade de Roma, vejam bem: a cidade toda, esteve sentada como Jó, sem nada são, com uma chaga terrível, comida pelos vermes, podre como os mortos, não seria isto mais grave do que aquela guerra?

Penso que é mais tolerável sofrer a espada do que os vermes; jorrar o sangue do que destilar a podridão. Quando vemos um cadáver corrompendo-se, horrorizamo-nos; mas isso é atenuado pelo fato de estar ausente a alma. Jó, porém, sofreu a corrupção em vida, com a alma presente à dor, a alma atada ao sofrimento, inclinada a blasfemar. E Jó suportou a tribulação e, por isso, elevou-se a uma santidade grande. Não importa o que um homem sofra, mas como ele se comporta no sofrimento. Ó homem, não está em tua mão sofrer ou não sofrer, mas sim se no sofrimento tua vontade se degrada ou se dignifica.

Jó sofreu. Só sua mulher lhe foi deixada e isso não para consolação mas para tentação; não para lhe suavizar os males, mas para aconselhá-lo a blasfemar: “Amaldiçoa a Deus, diz-lhe, e morre!”. Vejam como, para ele, morrer seria um benefício, mas esse benefício ninguém lho dava.

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Todas as aflições que esse santo sofreu exercitaram-lhe a paciência, provaram-lhe a fé para refutar a mulher e vencer o diabo. Que grande espetáculo! Em meio da infecta podridão, brilha a beleza da virtude. Um inimigo oculto, que corrói seu corpo e uma inimiga manifesta que o quer induzir ao mal, mais companheira do diabo do que de seu marido; ela, uma nova Eva, mas ele, não já um velho Adão. “Amaldiçoa a Deus e morre!”. Arranca com a blasfêmia o que não podes obter com tuas preces. “Falaste, responde-lhe Jó, como uma mulher insensata” (Jó 2,10). Reparai bem nas palavras desse forte na fé; desse que está podre por fora, mas íntegro por dentro.

“Falaste como uma mulher insensata. Se recebemos os bens das mãos de Deus, por que não receber os males?”. Deus é pai, e acaso havemos de amá-lo só quando nos agrada e rejeitá-lo quando nos corrige? Acaso não é Pai tanto quando nos promete a vida como quando nos disciplina? Esquecemo-nos do Eclesiástico (2,1,4 e 5)?: “Filho, quando te aproximas do serviço de Deus, permanece na justiça e no temor, e prepara a tua alma para a provação. Aceita o que vier e suporta a dor, e na tua humilhação guarda a paciência. Porque o ouro e a prata se provam pelo fogo, mas os homens se tornam gratos a Deus pelo cadinho da humilhação”. Esquecemo-nos da Escritura? (Prov 3,12; Hbr 12,6): “Deus repreende aquele a quem ama; e castiga a quem reconhece como filho”.

 

IV

Imaginemos todos os tormentos, todas as dores que um homem possa sofrer nesta vida, e agora comparemo-las às do inferno, e veremos que aquelas são leves. Estas são temporais; aquelas, eternas: tanto quanto ao torturado como quanto ao torturador. Acaso estão ainda sofrendo aqueles que sucumbiram ao saque de Roma? O rico epulão, no entanto, sofre eternamente as penas do inferno. Ele ardeu, arde e arderá vivo até o dia do juízo, quando recobrar a carne, não para seu benefício, mas para seu suplício. Essas são as penas que devemos temer, se tememos a Deus. Tudo o que nesta vida possa um homem sofrer, se ele o aproveita para se corrigir, é para o seu bem; senão é duplamente condenado: aqui, sofre as penas temporais; no além, pagará as eternas.

Que vossa caridade, irmãos, me escute: certamente louvamos, glorificamos e admiramos os santos mártires; celebramos piedosamente os dias de suas festas; veneramos os seus méritos, e, na medida do possível, os imitamos. Sim, sem dúvida é grande a glória dos mártires, mas não sei se a glória do santo Jó é menor. Ainda que a Jó não fosse dito: “Oferece incenso aos ídolos!”, “Sacrifica aos deuses estrangeiros!”, “Nega a Cristo!”; foi-lhe dito, no entanto: “Blasfema de Deus!”. Não que lhe tenha sido proposto: “Se blasfemares não terás mais essa podridão e tua saúde voltará”; mas sim: “Se blasfemares – dizia aquela mulher inepta e insensata -, morrerás e, morrendo, não terás já tormentos”. Como se ao que morre blasfemando não lhe sobreviesse a dor eterna. Aquela mulher fátua tinha horror à podridão presente, mas não considerava o fogo eterno.

E Jó suportava aqueles males presentes, evitando cair nos futuros. Guardava o coração dos maus pensamentos; a língua, da maldição; conservava a integridade da alma na podridão do corpo. Via do que escapava no futuro e assim suportava o que sofria.

É desse modo, sim, é desse modo que todo cristão, quando padece aflições corporais na vida presente, deve considerar a geena e reparar em quão leve é o que sofre. Não murmure contra Deus, não diga: “Que te fiz eu, ó Deus, por que estou sofrendo?” Antes diga o que disse Jó, embora ele fosse santo: “Encontraste todos os meus pecados e os reunistes diante de Ti”. Não ousou proclamar-se sem pecado quando sofria, não para ser punido mas para ser aprovado. Também assim fale cada um quando padecer (…).

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VI

Ah! Se nossos olhos pudessem ver as almas dos santos que nessa guerra foram mortos, veríeis como Deus poupou a cidade. Pois milhares de santos descansam em paz, felizes, e dizem a Deus: “Nós Vos damos graças porque nos livrastes das tribulações da carne e dos tormentos. Nós Vos damos graças porque já não tememos os bárbaros, nem o diabo, nem a fome, nem a tempestade, nem os inimigos, nem os tribunais perseguidores da fé, nem os opressores. Estamos mortos na terra, mas imortais ante Vós, salvos no Vosso reino, por graça Vossa e não por mérito nosso”.

Qual a cidade que, em sua humildade, fala desse modo? Ou porventura considerais que uma cidade é feita de pedras e de paredes? A cidade são os homens e não as casas! Se Deus tivesse dito aos habitantes de Sodoma: “Fugi, pois vou incendiar este lugar”, não lhes atribuiríamos mais mérito se fugissem e o fogo do céu destruísse somente suas muralhas e suas casas? Não teria Deus poupado a cidade, se os cidadãos tivessem escapado aos efeitos devastadores daquele fogo? (…)

 

VIII

Oxalá tivéssemos um saudável temor e refreássemos a má concupiscência sequiosa do mundo, que apetece o gozo volúvel do que é pernicioso, perante os sinais com que Deus nos mostra a instabilidade e a caducidade de todas as vaidades do mundo e da mentira de suas loucuras. Aproveitemos esses sinais, em vez de ficarmos murmurando contra o Senhor.

Por acaso a debulhadora que lança ao ar a espiga para que se quebre não é a mesma que faz sair o grão puro? E o fogo que alimenta a fornalha do ourives e purifica o ouro das impurezas, não é o mesmo que consome a palha? Assim também a tribulação de Roma serviu para a purificação ou salvação do justo e para a condenação do ímpio: arrebatado desta vida para, com toda a justiça, sofrer mais penas; ou, permanecendo nesta terra, para tornar-se um blasfemador mais culpável. Ou ainda, pela inefável clemência de Deus, poupando para a penitência aqueles que, por ela, hão de salvar-se. Não nos confunda a tribulação que os justos sofrem; é uma provação, não a condenação.

Não nos escandalizemos ao ver o justo nesta terra sofrer agravos e ultrajes: acaso esquecemos o que passou o justo dos justos, o santo dos santos? O que sofreu toda a cidade de Roma, sofreu Ele sozinho. E vede quem Ele é: “O rei dos reis, o senhor dos senhores” (Apoc 19,16), preso, amarrado, flagelado, objeto de todas as ofensas, suspenso num madeiro e pregado, morto. Comparemos Roma com Cristo; a terra inteira com Cristo, o céu e a terra com Cristo; nenhuma criatura pode ser comparada ao Criador; nenhuma obra ao artífice : “Todas as coisas foram por Ele feitas, e sem Ele nada foi feito” (Jo 1,3). E, no entanto, foi tido pelos verdugos em nada.

Suportemos o que Deus quer que suportemos; Ele, que é o médico que nos cura e nos salva, sabe o que é útil para nós, mesmo que seja a dor. Como bem sabeis, está escrito “A paciência produz uma obra perfeita” (Tg 1,4). Ora, qual será a obra de nossa paciência se não sofrermos nenhuma adversidade? Por que recusamos sofrer os males temporais? Temos medo de nos aperfeiçoar? Não hesitemos em orar e implorar, gemendo e chorando diante do Senhor, para que, também em relação a nós, se cumpra o que diz o Apóstolo: “Fiel é Deus e não permitirá que sejais provados acima de vossas forças, mas com a tentação ele vos dará os meios de suportá-la e sairdes dela” (I Cor. 10, 13).