Se o Espírito Santo inspira, habilita, permite, causa, inicia (ou qualquer outro sinônimo que desejar) as nossas boas obras, como, então, podemos dizer  (segundo a teologia católica), que elas se originam conosco? Dizemos que o homem em estado de graça pode cooperar com Deus. Isto é – me parece – uma doutrina paulina explícita e inegável. Deus inicia o processo, e nós cooperamos com Ele (como Paulo usa o termo colaboradores).

É isso que ele diz? [1 Cor 3.5-11]

5. Pois que é Apolo? E que é Paulo? Simples servos, por cujo intermédio abraçastes a fé, e isto conforme a medida que o Senhor repartiu a cada um deles:
6. eu plantei, Apolo regou, mas Deus é quem fez crescer.
7. Assim, nem o que planta é alguma coisa nem o que rega, mas só Deus, que faz crescer.
8. O que planta ou o que rega são iguais; cada um receberá a sua recompensa, segundo o seu trabalho.
9. Nós somos operários com Deus. Vós, o campo de Deus, o edifício de Deus.
10. Segundo a graça que Deus me deu, como sábio arquiteto lancei o fundamento, mas outro edifica sobre ele.
11. Quanto ao fundamento, ninguém pode pôr outro diverso daquele que já foi posto: Jesus Cristo.

O texto que você cita significa literalmente “trabalhadores de Deus” e não “trabalhadores com Deus”. Isto quer não dizer que trabalhamos juntamente com Deus, mas em serviço de Deus.

O homem coopera com Deus, e este o permite, e isto não é nada além do que Paulo afirma (cf. 1 Cor 3,9). Uma obra protestante de referência, o Eerdmans Bible Commentary (ed. D. Guthrie & J.A. Motyer, Grand Rapids: Eerdmans, 3rd ed., 1970), afirma o seguinte sobre este versículo:

…o grego é provavelmente como AV, “juntamente com Deus” (cf. RSV mg.; Mc 16,20).

Mc 16,20 (RSV) mostra:

Os discípulos partiram e pregaram por toda parte. O Senhor cooperava com eles…

A KJV, em 1 Cor 3,9 mostra:

Somos operários juntamente com Deus…

Phillips: Nesta obra, trabalhamos com Deus…

Ampliada: Somos operários – juntamente promotores e trabalhadores – com e para Deus…

A palavra grega para operário, trabalhador é sunergos (Strong’s #4904). Aparece (geralmente operários ou ajudadores) também em Rm 16,3.9.21; 2 Cor 1,24; 8:23, Fl 2,25; 4,3, Cl 4,11, 1 Ts 3,2, Fm 1,24; e 3 Jo 8. Sunergeo (#4903) está em Mc 16,20, Rm 8,28; 1 Cor 16,16, Tg 2,22, e 2 Cor 6,1:

Na qualidade de colaboradores seus (isto é, de Jesus; cf. 5,21), exortamo-vos a que não recebais a graça de Deus em vão.

A.T. Robertson, protestante especialista em grego bíblico, em sua obra Word Studies of the New Testament, afirma:

…(colaboradores de Deus)…Deus é parceiro maior na vida de cada um, mas nos deixa trabalhar com Ele.

Da mesma forma, Marvin Vincent, em Word Studies of the New Testament, diz:

É por Deus que somos seus colaboradores

O famoso Expository Dictionary of NT Words de W.E. Vine:

‘Sunergos’ denota trabalhar com…Veja a RV., ‘Colaboradores de Deus’ (sob ‘Trabalho’).

Reafirmo, 1 Cor 3,9 claramente ensina a direta colaboração do homem com Deus.

Meu oponente trouxe a Vulgata latina para tentar demonstrar uma contradição interna da Igreja Católica a esse respeito. Decidi checar algumas traduções católicas da Vulgata. A principal é a Douay-Reims (revisão do bispo Challoner): 1 Cor 3,9:

Somos coadjutores de Deus…

Como essa é uma palavra diferente, fui procurar no dicionário seu significado. Ela vem do latim (co = junto / adjutor = assistente). Então, a definição é:

1. Um assistente; 2. alguém, geralmente outro bispo, designado a assistir um bispo, que geralmente será seu sucessor.

Perfeito. Vejamos, então, a versão latina recente de um grande apologista católico, Ronald Knox:

Vós sois o campo de Deus, a estrutura da vontade de Deus; e nós somos simplesmente seus assistentes.

O último grande biblista protestante, F.F. Bruce (muito bom!) baseava-se na tradução de Knox:

A versão de Knox possui a grande vantagem de ser a obra de um homem com singular capacidade de dispor a palavra certa ou frase correta em qualquer contexto. Como os leitores de sua obra sabem, Knox era um mestre do estilo Inglês…

É suficiente dizer que, diante de todas as limitações da versão secundária, Knox nos contemplou com a melhor edição inglesa da Bíblia.

(History of the Bible in English, New York: Oxford Univ. Press, 3rd ed., 1978, 208, 212)

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