Teologia do Corpo

13. A Criação como dom fundamental e original

1. Voltemos à análise do texto de Gênesis 2,25, iniciada há várias semanas.

Segundo essa passagem, o homem e a mulher veem-se a si mesmos quase através do mistério da Criação; veem-se a si mesmos deste modo, antes de conhecerem “que estavam nus”. Este “verem-se recíproco” não é só participação na “exterior” percepção do mundo, mas tem além disso uma dimensão interior de participação na visão do Criador mesmo — daquela visão de que fala várias vezes o capítulo primeiro: Deus, vendo toda a sua obra, considerou-a muito boa (Gênesis 1,31) Dava-se a “nudez” cargo bem original da visão divina. Significa toda a simplicidade e plenitude da visão através da qual se manifesta o valor “puro” do homem como macho e fêmea, o valor puro do corpo e do sexo. A situação que é indicada, de modo tão conciso e ao mesmo tempo sugestivo, pela original revelação do corpo como ela resulta em particular de Gênesis 2,25, não conhece ruptura interior nem contraposição entre o que é espiritual e o que é sensível, assim como não conhece ruptura nem contraposição entre o que humanamente constitui a pessoa e o que no homem é determinado pelo sexo: o que é masculino e o que é feminino.

Vendo-se reciprocamente, como que através do mistério mesmo da criação, o homem e a mulher veem-se a si mesmos mais plena e mais distintamente do que através do sentido mesmo da vista, isto é, através dos olhos do corpo. Veem-se, de fato, e conhecem-se a si mesmos com toda a paz do olhar interior, que exatamente cria a plenitude da intimidade das pessoas. Se a “vergonha” traz consigo uma específica limitação do ver mediante os olhos do corpo, isto acontece sobretudo porque a intimidade pessoal é como que perturbada e quase “ameaçada” por tal visão. Segundo Gênesis 2,25, o homem e a “mulher não sentiam vergonha”: vendo-se e conhecendo-se a si mesmos com toda a paz e tranquilidade do olhar interior, “comunicam” na plenitude da humanidade, que se manifesta neles como recíproca complementaridade, exatamente porque eram ser “masculino” e ser “feminino”. Ao mesmo tempo, “comunicam” com base naquela comunhão de pessoas, na qual, através da feminilidade e da masculinidade, eles se tornam dom recíproco duma pessoa à outra. Deste modo atingem, na reciprocidade, particular compreensão do significado do próprio corpo. O original significado da nudez corresponde àquela simplicidade e plenitude de visão, em que a compreensão do significado do corpo nasce quase no coração mesmo da sua comunidade-comunhão. Chamar-lhe-emos “esponsal”. O homem e a mulher em Gênesis 2,23-25 surgem, exatamente no “princípio” mesmo, com esta consciência do significado do próprio corpo. Isto merece análise aprofundada.

2. Se a narrativa da criação do homem nas duas versões, a do capítulo 1.° e a já vista do capítulo 2.°, nos permite estabelecer o significado original da solidão, da unidade e da nudez, por isso mesmo nos permite também encontrarmo-nos no terreno duma adequada antropologia, que procura compreender e interpretar o homem no que é essencialmente humano[1]. Os textos bíblicos contêm os elementos essenciais dessa antropologia, que se manifestam no contexto teológico da “imagem de Deus”. Este conceito encerra em si a raiz mesma da verdade sobre o homem, revelada através daquele “princípio”, a que se refere Cristo na conversa com os fariseus (cfr. Mateus 19,3-9) , ao falar da criação do homem como macho e fêmea. É preciso recordarmo-nos de que todas as análises que fazemos aqui, se relacionam, pelo menos de maneira indireta, precisamente com estas Suas palavras. O homem, que Deus criou “macho e fêmea”, traz a imagem divina impressa no corpo “desde o princípio”; o homem e a mulher constituem quase dois pontos diversos do humano “ser corpo” na unidade daquela imagem.

Ora, convém retomarmos novamente aquelas palavras fundamentais que utilizou Cristo, isto é, a palavra “criou” e o sujeito “Criador”, introduzindo nas considerações feitas até agora nova dimensão, novo critério de compreensão e interpretação, a que chamaremos “hermenêutica do dom”. A dimensão do dom decide da verdade essencial e da profundidade de significado da original solidão-unidade nudez. Esta encontra-se também no íntimo mesmo do mistério da criação, que nos permite construir a teologia do corpo “desde o princípio”, mas exige ao mesmo tempo, que nós a construamos exatamente de tal modo.

3. A palavra “criou”, na boca de Cristo, contém a mesma verdade que encontramos no Livro do Gênesis. A primeira narrativa da criação repete várias vezes esta palavra, desde Gênesis 1,1 (“No princípio criou Deus os céus e a terra”) até Gênesis 1,27 (“Deus criou o homem à Sua imagem”) [2]. Deus revela-se a si mesmo sobretudo como Criador. Cristo recorda essa fundamental revelação encerrada no Livro do Gênesis. O conceito de criação tem aí toda a sua profundidade não só metafísica, mas plenamente teológica também. Criador é aquele que “do nada chama à existência” e estabelece na existência o mundo e o homem no mundo, porque Ele é amor (1João 4, 8. ). Para dizer a verdade, não encontramos esta palavra amor (Deus é amor) na narrativa da criação; todavia esta narrativa repete muitas vezes: “Deus vendo toda a sua obra, considerou-a muito boa”. Através destas palavras estamos a caminho de entrever, no amor, o motivo divino da criação, quase a fonte de que ela brota: “só o amor, de fato, dá início ao bem e se compraz no bem”(cfr. 1Coríntios 13). A criação, por isso, como ação de Deus significa não só chamar do nada à existência e estabelecer a existência do mundo e do homem no mundo, mas significa também, segundo a primeira narrativa “berechit bará”, doação; doação fundamental e “radical”, quer dizer, doação em que o dom surge precisamente do nada.

4. A leitura dos primeiros capítulos do Livro do Gênesis introduz-nos no mistério da criação, isto é, do início do mundo por vontade de Deus, que é omnipotência e amor. Por conseguinte, toda a criatura traz em si o sinal do dom original e fundamental.

Todavia, ao mesmo tempo, o conceito de “doar” não pode referir-se a um nada. Indica aquele que dá e aquele que recebe o dom, e também a relação que se estabelece entre ambos. Ora, tal relação surge, na narrativa genesíaca, no momento mesmo da criação do homem. Esta relação é manifestada sobretudo pela frase: Deus criou o homem à Sua imagem, criou-o à imagem de Deus (Gênesis 1,27). Na narrativa da criação do mundo visível, o dar tem sentido unicamente a respeito do homem. Em toda a obra da criação, só dele se pode dizer que foi beneficiado com um dom: o mundo visível foi criado “para ele”. A narrativa bíblica da criação oferece-nos motivos suficientes para tal compreensão e interpretação: a criação é um dom, porque nela aparece o homem que, como “imagem de Deus”, é capaz de compreender o sentido mesmo do dom no chamamento desde o nada à existência. Ele é capaz de responder ao Criador com a linguagem desta compreensão. Interpretando precisamente com tal linguagem a narrativa da criação, pode deduzir-se que ela constitui dom fundamental e original: o homem aparece na criação como aquele que recebeu em dom o mundo, e vice-versa pode dizer-se também que o mundo recebeu em dom o homem.

Devemos, neste ponto, interromper a nossa análise. O que dissemos até agora está em relação íntima com toda a problemática antropológica do “princípio”. O homem aparece nela como “criado” isto é,.como aquele que, no meio do “mundo”, recebeu em dom o outro ser humano. Precisamente esta dimensão do dom devemos submetê-la em seguida a análise profunda, para se compreender também o significado do corpo humano na sua justa medida. Será este o objeto das nossas próximas meditações.

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NOTAS

[1] O Conceito de “antropologia adequada” foi explicado no texto mesmo como “compreensão e interpretação do homem naquilo que é essencialmente humano”. Este conceito determina o princípio mesmo de redução, próprio da filosofia do homem, indica o limite deste princípio, e indiretamente exclui que se possa transpor este limite. A antropologia “adequada” apoia-se na experiência essencialmente “humana”, opondo-se à redução de tipo “naturalista”, que acompanha muitas vezes a par e passo a teoria evolucionista quanto aos inícios do homem.
[2] O termo hebraico “bará” (=criou), usado exclusivamente para determinar a ação de Deus, aparece na narrativa do capítulo 1.° só no v. 1 (criação do céu e da terra), no v. 21 (criação dos animais) e no v. 27 (criação do homem); aqui porém surge nada menos que três vezes. O que significa a plenitude e a perfeição deste ato, que é a criação do homem, macho e fêmea. Tal repetição indica que a obra da criação atingiu nisto o seu ponto culminante.

  • Fonte: Vaticano, Audiência de 02.01.1980.
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