Teologia do Corpo

16. Consciência do significado do corpo e inocência original

1. A realidade do dom e do ato de dar, descrita nos primeiros capítulos do Génesis qual conteúdo que forma o mistério da criação, confirma que o irradiar do Amor é parte integrante deste mesmo mistério. Só o Amor cria o bem e só este pode, afinal, ser percebido, em todas as suas dimensões e aspectos, nas coisas criadas e sobretudo no homem. A sua presença é quase o resultado final daquela hermenêutica do dom que estamos a praticar. A felicidade original, o “princípio” beatificante do homem que Deus criou “varão e mulher” (Gênesis 1,27), o significado esponsal do corpo na sua nudez original: tudo isto exprime a radicação no Amor.

Este dar coerente, que sobe até às raízes mais profundas da consciência e da subconsciência, até aos estratos últimos da existência subjetiva de ambos, homem e mulher, e que se reflete na recíproca “experiência do corpo”, testemunha a radicação no Amor. Os primeiros versículos da Bíblia tanto falam dela que tiram toda e qualquer dúvida. Falam não só da criação do mundo e do homem no mundo, mas também da graça, isto é, do comunicar-se da santidade, do irradiar do Espírito, que produz estado especial se “espiritualização” naquele homem, que de fato foi o primeiro. Na linguagem bíblica, isto é na linguagem da Revelação, dizer, “primeiro” significa precisamente “de Deus”: Adão, filho de Deus (cfr. Lucas 3,38).

2. A felicidade está em radicar-se no Amor. A felicidade original fala-nos do “princípio” do homem, que surgiu do Amor e deu início ao amor. E deu-se isto de modo irrevogável, apesar do pecado que veio depois e da morte. A seu tempo, Cristo será testemunha deste amor irreversível do Criador e Pai, que fora já expresso no mistério da criação e na graça da inocência original. Por isso, também o comum “princípio” do homem e da mulher, isto é, a verdade original do corpo humano na masculinidade e feminilidade, para a qual Gênesis 2,25 dirige a nossa atenção, não conhece a vergonha. Este “princípio” pode-se também definir como imunidade original e beatificante de vergonha, por efeito do amor.

3. Tal imunidade orienta-nos para o mistério da inocência original do homem. É mistério da sua existência, anterior ao conhecimento do bem e do mal, e quase “fora” deste. Existir o homem deste modo, anteriormente à ruptura da primeira aliança com o seu Criador, pertence à plenitude do mistério da criação. Se, como dissemos, a criação é dom feito ao homem, então a plenitude dele, a dimensão mais profunda, é determinada pela graça, isto é, pela participação na vida interior do próprio Deus, na sua santidade. Esta é também, no homem, fundamento interior e fonte da sua inocência original. É com este conceito — e mais precisamente com o de “justiça original” — que a teologia define o estado do homem antes do pecado original. Na presente análise do “princípio”, que nos abre os caminhos indispensáveis para a compreensão da teologia do corpo, devemos deter-nos tratando do mistério do estado original do homem. De fato, exatamente essa consciência do corpo — melhor, a consciência do significado do corpo — que procuramos pôr em realce mediante a análise do “princípio” revela a peculiaridade da inocência original.

O que talvez mais se manifesta em Gênesis 2,5 de modo direto, é precisamente o mistério desta inocência, que tanto o homem como a mulher trazem das origens, cada um em si mesmo. De tal característica é testemunha, “ocular” em certo sentido, o corpo mesmo deles. É significativo que a afirmação encerrada em Gênesis 2,25 — acerca da nudez reciprocamente isenta de vergonha — seja enunciação única no seu gênero, em toda a Bíblia de maneira que já não voltará a repetir-se. Pelo contrário, podemos citar muitos textos em que a nudez aparecerá junta com a vergonha ou mesmo, em sentido ainda mais pronunciado, com a “ignomínia” [1]. Considerando este contexto tão amplo, mais visíveis são as razões para descobrir em Gênesis 2,25 um vestígio especial do mistério da inocência original e um particular fator da sua irradiação no sujeito humano. Tal inocência pertence à dimensão da graça contida no mistério da criação, isto é, àquele misterioso dom oferecido ao íntimo do homem — ao “coração” humano — que permite a ambos, varão e mulher, existirem desde o “princípio” na recíproca relação do dom desinteressado de si mesmos. Nisto está incluída a revelação e ao mesmo tempo a descoberta do significado “esponsal” do corpo na sua masculinidade e feminilidade. Compreende-se porque falamos, neste caso, de revelação e ao mesmo tempo de descoberta. Do ponto de vista da nossa análise, é essencial que a descoberta do significado esponsal do corpo, que lemos no testemunho do Livro do Gênesis, se realize através da inocência original; mais, é tal descoberta que a desvela e a coloca em evidência.

4. A inocência original pertence ao mistério do “princípio” humano, do qual o homem “histórico” se veio a separar cometendo o pecado original. O que não significa, porém, que não seja capaz de aproximar-se daquele mistério mediante o conhecimento teológico. O homem “histórico” procura compreender o mistério da inocência original quase através de um contraste, isto é, subindo também à experiência da própria culpa e da própria pecaminosidade[2]. Ele procura compreender a inocência original como característica essencial para a teologia do corpo, partindo da experiência da vergonha; de fato, o mesmo texto bíblico assim o orienta. A inocência original é portanto o que “radicalmente”, isto é, nas suas raízes mesmas, exclui a vergonha do corpo na relação varão-mulher, elimina-lhe a necessidade em ambos, no coração, ou seja na consciência. Embora a inocência original fale sobretudo do dom do Criador, da graça que tornou possível ao homem viver o sentido da doação primária do mundo e em particular o sentido da doação recíproca de um ao outro por meio da masculinidade e da feminilidade neste mundo, todavia essa inocência parece primeiro que tudo referir-se ao estado interior do “coração” humano, da vontade humana. Pelo menos indiretamente, nela está incluída a revelação e a descoberta da humana consciência moral, a revelação e a descoberta de toda a dimensão da consciência — obviamente, primeiro da consciência do bem e do mal. Em certo sentido, é compreendida como retidão original.

5. No prisma do nosso “a posteriori histórico” procuremos pois reconstruir, em certo modo, a característica da inocência original entendida como conteúdo da experiência recíproca do corpo como experiência do seu significado esponsal (segundo o testemunho de Gênesis 2,23-25). Como a felicidade e a inocência estão inscritas no quadro da comunhão das pessoas, como se fosse o caso de dois fios convergentes, vindos da existência do homem no mistério mesmo da criação, a consciência beatificante do significado do corpo — isto é, do significado esponsal da masculinidade e da feminilidade humanas — é condicionada pela inocência original. Parece não haver nenhum impedimento para entender aqui a inocência original como especial “pureza de coração”, que mantém interior fidelidade ao dom, segundo o significado esponsal do corpo. Por conseguinte, a inocência original, assim entendida, manifesta-se como testemunho tranquilo da consciência que (neste caso) precede qualquer experiência do bem e do mal; todavia, esse testemunho sereno da consciência é alguma coisa muito mais beatificante. Pode-se dizer, na verdade, que a consciência do significado do corpo, na sua masculinidade e feminilidade, se torna “humanamente” beatificante, só mediante esse testemunho. A este assunto — isto é, à ligação que, na análise do “princípio” do homem, se desenha entre a sua inocência (pureza de coração) e a sua felicidade – dedicaremos a próxima meditação.

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NOTAS

[1] A “nudez”, no sentido de “falta de vestuário”, no antigo Próximo Oriente significava o estado de abjeção dos homens destituídos de liberdade: escravos, prisioneiros de guerra ou condenados, aqueles que não gozavam da proteção da lei. A nudez das mulheres era considerada desonra (cfr., por exemplo, as ameaças dos profetas: Oseias 1, 2, e Ezequiel 23, 26-29). O homem livre, zeloso da sua dignidade, devia vestir-se suntuosamente: quanto maior era a cauda nos vestuários (cfr., por exemplo, o vestuário de José, que inspirava inveja nos irmãos; ou o dos fariseus, que alongavam as suas franjas). O segundo significado da “nudez”, em sentido eufemístico, dizia respeito ao ato sexual. A palavra hebraica “cerwat” significa o vazio espacial (por exemplo, da paisagem), falta de vestido e ação de despir-se, mas nada tinha em si de infamante.
[2] “Sabemos que a lei é espiritual. Mas eu, sou eu, ser de carne, vendido ao poder do pecado. Porque não compreendo o que faço; pois não faço aquilo que quero, mas sim aquilo que aborreço (…) E assim, já não sou eu que o realizo, mas o pecado que habita em mim. Porque eu sei que não há em mim, isto é, na minha carne, coisa boa, pois quero o bem, que está ao meu alcance, mas realizá-lo não. Efetivamente, o bem que eu quero não o faço, mas o mal que não quero, é que pratico. Se, pois, faço o que não quero, já não sou eu que o realizo, mas o pecado que habita em mim. Deparo, então, com esta lei: Querendo fazer o bem, é o mal que eu encontro. Sinto prazer na lei de Deus, de acordo com o homem interior. Mas vejo outra lei nos meus membros, a lutar contra a lei da minha razão e a reter-me cativo na lei do pecado, que se encontra nos meus membros. Que desditoso homem que eu sou! Quem me há de libertar deste corpo de morte!” (Romanos 7,14-15.17-24; cfr. “Video meliora proboque, deteriora sequor”, Ovídio, Metamorph, VII, 20).

  • Fonte: Vaticano, Audiência de 30.01.1980.
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