Repórter Gerson Camarotti – Foi momentos antes deste encontro com a juventude no Rio, a Festa da Acolhida, que o Papa Francisco recebeu a nossa equipe para a 1ª entrevista exclusiva desde o início do pontificado. Estava comovido com os brasileiros:

Papa Francisco – É um povo maravilhoso. Maravilhoso…

Nessa conversa, Francisco mostrou-se muito preocupado com o que chamou de “descarte de jovens e idosos” no mundo atual:

Papa Francisco – Porque o futuro quem nos vai dar são os jovens, que seguirão adiante, e os idosos, que precisam transferir sabedoria aos jovens. Descartando ambos, o mundo desaba.

Censurou a idolatria do dinheiro, defendeu o diálogo entre as religiões e admitiu:

Papa Francisco – A Igreja sempre precisa ser reformada, para não ficar para trás.

A conversa de 40 minutos foi na Residência Assunção, no Sumaré, onde o Pontífice se hospedou nesta primeira viagem internacional. Muito simpático, o Papa disse que não se assustou com as temperaturas baixas e a chuva que enfrentou ao longo da semana no Brasil:

Papa Francisco – Eu não. Venho de um país mais ao sul (Risos). Conheço o frio de Buenos Aires. É uma temperatura de outono normal.

Repórter – O senhor não esperava mais quente o Brasil?

Papa Francisco – Não. Não. Talvez um pouquinho mais de calor, mas não senti frio.

Como repórter, eu vinha acompanhando a visita de Francisco desde a sua chegada ao Rio, no dia 22 de julho; e pude constatar as demonstrações de afeto e fé dos milhares de fiéis que enfretaram condições adversas para estar perto do Papa tanto em Aparecida quanto no Rio…

(Fiéis cantando – “Francisco, Francisco: nós te acolhemos com amor…”)

Repórter – Papa Francisco, o senhor chega ao Brasil e tem uma receptividade muito calorosa dos brasileiros. Há uma rivalidade histórica, Brasil x Argentina, pelo menos no futebol. Como o senhor recebeu esse gesto de afeto dos brasileiros?

Papa Francisco – Eu me senti recebido com um afeto que desconhecia, de forma muito calorosa. O povo brasileiro tem um grande coração. Quanto à rivalidade, creio que já está totalmente superada, porque negociamos bem: o Papa é argentino e Deus é brasileiro (Risos).

Repórter – Uma grande solução, não é, Santo Padre?

Papa Francisco – Creio que me senti muito bem recebido, com muito carinho.

Repórter – Santo Padre: quando o senhor chegou ao Rio de Janeiro, houve falhas na segurança; inclusive, ali, o senhor, o seu carro foi ali levado para o meio da multidão. O Papa Francisco ficou com medo? Qual foi o seu sentimento naquele momento?

Papa Francisco – Eu não sinto medo. Sou inconsciente, não sinto medo. Sei que ninguém morre na véspera. Quando for a minha vez, o que Deus permitir, assim será. Mas, antes de viajar, fui ver o papamóvel, que seria trazido para cá. Era cercado de vidros. Se você vai estar com alguém a quem ama, amigos, e quer se comunicar, você não vai fazer essa visita dentro de uma caixa de vidro. Não. Eu não poderia vir ver este povo que tem um coração tão grande, por trás de uma caixa de vidro. E nesse [outro] automóvel [fechado], quando ando pela rua, baixo o vidro, para poder estender a mão, cumprimentar as pessoas. Quero dizer: ou tudo ou nada. Ou a gente faz a viagem como deve ser feita, com comunicação humana, ou não se faz. Comunicação pela metade não faz bem. Eu agradeço, e neste ponto tenho que ser muito claro: agradeço à segurança do Vaticano, pela forma como preparou esta visita, o cuidado que sempre tem; e agradeço à segurança do Brasil. Agradeço muitíssimo, porque aqui também estão tendo todo o cuidado comigo, ao evitar que haja algo desagradável… Pode acontecer de alguém me dar um soco… Pode acontecer… As duas seguranças têm trabalhado muito bem, mas as duas sabem que sou um indisciplinado, nesse aspecto, mas não por agir como um menino levado, não, e sim porque vim visitar gente e quero tratá-las como gente, tocando-as.

Jorge Mário Bergoglio se torna personalidade conhecida mundialmente num momento de mudanças surpreendentes na Igreja Católica. Não foi só um universo de 1 bilhão e 200 milhões de católicos que recebeu em choque a renúncia de Bento XVI. O gesto inédito em seis séculos foi motivado pela percepção do próprio Papa de que o rumo da Igreja precisava ser alterado. Como enviado especial da Globonews a Roma, participei da cobertura do conclave que elegeria o Papa Francisco e percebi o fortalecimento da candidatura do cardeal de Buenos Aires, Jorge Bergoglio, logo que cheguei (11/03/2013): “Os cardeais, pelo menos da Argentina, do México, de alguns países da América Latina, resistem, até mesmo por rivalidade histórica, a apoiar Odilio Scherer, e aí pode surgir a candidatura, pelo menos para o primeiro escrutínio, de Jorge Mario Bergoglio, que é arcebispo de Buenos Aires e que foi um forte candidato no último conclave; inclusive, ele foi considerado anti-Ratzinger no conclave de 2005”.

Repórter – Papa Francisco: quando o senhor foi escolhido no conclave, a Cúria Romana especialmente era alvo de críticas, inclusive de críticas internas, de vários cardeais, e o sentimento que eu percebi, pelo menos nos cardeais com quem eu conversei, é um sentimento de mudança. Esse sentimento está correto?

Papa Francisco – Vou abrir parêntese por um momento: quando fui eleito, tinha ao meu lado o meu amigo, cardeal Hummes, porque pela ordem do mais antigo estávamos um depois do outro. Foi ele quem me disse uma frase que me fez tanto bem: “Não se esqueça dos pobres”. É lindo. Quanto à Cúria Romana, ela sempre foi criticada, às vezes mais, às vezes menos. A Cúria se presta a críticas e como tem que resolver muitas coisas, algumas coisas as pessoas gostam, outras não; alguns trâmites estão bem direcionados, outros estão mal enfocado, mal direcionados, como em qualquer organização. Eu diria isto: na Cúria Romana há muitos santos: cardeais santos, bispos santos, sacerdotes, religiosos, leigos santos… Gente de Deus, que ama a Igreja. Isso não aparece. Faz mais barulho uma árvore que cai do que um bosque que cresce. Se ouvem os ruídos dos escândalos. Agora mesmo temos um: um escândalo de transferência de 10 ou 20 milhões de dólares, de um monsenhor… Belo favor faz esse senhor à Igreja, não é? Mas é preciso reconhecer que ele agiu mal e a Igreja tem que dar a ele a punição que merece, pois agiu mal.

Em junho deste ano, o monsenhor Nunzio Scarano foi acusado de levar 20 milhões de euros da Suiça para a Itália em um jatinho privado. Depois da renúncia de dois dos principais gestores do Banco do Vaticano, o Papa Francisco nomeou uma Comissão de Inquérito para o investigar o banco conhecido oficialmente como Instituto para Obras de Religião [IOR]. Limpar esta instituição conhecida pela falta de transparência é apenas um dos desafios do novo Papa, que nos revelou detalhes sobre as preocupações dos cardeais nas conversas antes de sua eleição:

Papa Francisco – No momento do conclave, antes tivemos o que chamamos “Congregações Gerais”, uma semana de reuniões dos cardeais. Nessa ocasião, falamos claramente dos problemas, falamos de tudo, porque estávamos sozinhos e objetivávamos saber qual era a realidade, para traçar o perfil do próximo Papa. E dali saíram problemas sérios, derivados em parte de tudo o que vocês sabem: do Vatileaks, e assim por diante.

Em janeiro de 2012, documentos secretos divulgados pelo mordomo do Papa trouxeram à tona a existência de uma rede de corrupção no Vaticano. O escândalo, que ficou conhecido como Vatileaks, revelaria contratos superfaturados, abusos de poder e falta de transparência financeira na Cúria Romana:

Papa Francisco – Havia problemas de escândalos, mas também havia os santos, esses homens que deram suas vidas para trabalhar pela Igreja de maneira silenciosa no Conselho Apostólico. Também se falou [nas Congregações Gerais] de certas reformas funcionais que eram necessárias. Isso é verdade. E foi pedido ao novo Papa que formasse uma Comissão externa para estudar os problemas de organização da Cúria Romana.

Exatamente um mês depois de eleito, o Papa Francisco criou uma Comissão de Cardeais para discutir os caminhos da reforma. Entre os escolhidos, dois nomes engajados no combate a pedofilia:

Papa Francisco – Eu nomeei essa Comissão de oito cardeais, um de cada continente – para a América, dois: um da América do Norte e um da América do Sul – com um coordenador que também é latino-americano, e um secretário italiano. Essa Comissão começou a trabalhar, a buscar opiniões de Bispos, de Conferências Episcopais, buscando opiniões sobre reformas na dinâmica dos Sínodos. E já chegaram muitos documentos, obtidos pelos membros das Comissões, e que estamos examinando. Teremos uma primeira reunião oficial sobre isso nos dias 1, 2 e 3 de outubro, e aí discutiremos algumas pautas. Não creio que sairão decisões definitivas porque a reforma da Cúria é muito séria, e as propostas são muito sérias, que precisam ser amadurecidas. Calculo que serão necessárias outras duas ou três reuniões antes de alguma reforma. Por outro lado, os teólogos dizem – não sei se desde a Idade Média -, em latim dizem: “Ecclesia semper reformanda”. A Igreja sempre precisa ser reformada, para não ficar para trás. Então isto é importante, não só pelos escândalos do Vatileaks, conhecidos em todo o mundo, mas porque a Igreja sempre precisa ser reformada. Há coisas que serviam no século passado, para outras épocas, para outros pontos de vista, mas que agora não servem mais e é preciso reorganizar. A Igreja é dinâmica e responde às coisas da vida. E tudo isso foi pedido nas reuniões dos cardeais [anteriores ao conclave]. Falou-se disso muito claramente; foram feitas propostas muito claras e bastante consistentes. Iremos nessa linha. Não sei se respondi a sua pergunta…

Repórter – Respondeu muito bem… Santo Padre: no Brasil o senhor utilizou chegar e continua utilizando um carro modelo muito simples. Há notícias de que o senhor, inclusive, condenou padres que usavam carros de luxo pelo mundo. Eu queria saber, inclusive, que o senhor optou por morar na Casa Santa Marta… Essa sua simplicidade é uma nova determinação a ser seguida por padres, por bispos e por cardeais?

Papa Francisco – São coisas diferentes, é preciso diferenciá-las e explicar. O carro que estou usando aqui é muito parecido com o que eu uso em Roma: simples, do tipo que qualquer um pode ter. Sobre isso, penso que temos que dar testemunho de certa simplicidade; eu diria, inclusive, de pobreza. Nosso povo exige a pobreza de nossos sacerdotes; exige, no bom sentido; não pede isso. O povo sente seu coração magoado quando as pessoas consagradas são apegadas ao dinheiro. Isso é ruim. E realmente, não é um bom exemplo que um sacerdote tenha um carro do último tipo, de marca… Acredito que – isso eu digo aos párocos em Buenos Aires, sempre dizia – é necessário que o padre tenha um carro; é necessário porque na Paróquia há mil coisas a fazer, deslocamentos são necessários… Mas tem que ser um carro modesto. Isso quanto ao automóvel. No tocante à decisão de viver em Santa Marta, não foi tanto por razões de simplicidade porque o apartamento papal é grande, mas não é luxuoso; é lindo, mas não tem o luxo que tem a biblioteca dos andares de baixo, onde as pessoas são recebidas. Lá há muitas obras de arte, é muito bonito; mas o apartamento é simples. Mas a minha decisão de ficar em Santa Marta tem a ver com o meu modo de ser: não consigo viver só, não posso viver fechado; preciso do contato com as pessoas. Então resolvi da seguinte forma: fiquei em Santa Marta por razões psiquiátricas… (Risos) Para não ter que sofrer com uma solidão que não me faz bem e também para economizar, porque caso contrário eu teria que gastar muito dinheiro com psiquiatras e isso não é bom. Mas é para estar com as pessoas. Santa Marta é uma casa de hóspedes em que vivem uns 40 bispos e sacerdotes que trabalham na Santa Sé; tem uns 130 cômodos, mais ou menos, e sacerdotes, bispos, cardeais e leigos que se hospedam em Roma ficam lá. Eu como no refeitório comum a todos – café da manhã, almoço e jantar – e a gente sempre encontra pessoas diferentes; isso me faz bem. São essas as razões. E agora, a regra geral: creio que Deus está nos pedindo, neste momento, mais simplicidade. É algo interior que Ele pede à Igreja. O Concílio [Vaticano II] já tinha chamado a atenção para isso: uma vida mais sensível, mais simples, mais pobre também. Eis a regra geral. Não sei se respondi as suas perguntas sobre o carro, sobre Santa Marta e sobre a regra geral…

Repórter – Sim!

Papa Francisto – Está bem?

Repórter – Está muito bem!

O Concílio Vaticano II foi uma série de reuniões convocadas pelo Papa João XXIII a partir de 1962. O objetivo era modernizar a Igreja para aproximá-la dos fiéis. Depois do Concílio, as Missas, antes realizadas em latim, passaram a ser celebradas na língua de cada país com o pároco de frente para a comunidade. Os padres puderam usar roupas comuns no dia a dia. Foram repensadas as relações com outras religiões e não só com as cristãs. O Concílio foi pouco liberal em questões como o celibato e o sexo antes do casamento. Mas as discussões promovidas por João XXIII foram fundamentais para que a Igreja tentasse adotar uma postura mais ativa.

Repórter – O senhor tem muita inspiração no Concílio [Vaticano II]? O senhor – isso me chama muito a atenção – está canonizando o Papa Roncalli, Papa João XXIII; é um modelo que o senhor quer resgatar?

Papa Francisco – Creio que os dois Papas que serão canonizados na mesma cerimônia (=João XXIII e João Paulo II) são dois modelos de Igreja que se complementam em continuidade. Os dois deram testemunho de uma renovação da Igreja enquanto mantiveram a Tradição da Igreja. Os dois abriram portas ao futuro: João XXIII abriu a porta ao Concílio que até hoje nos inspira, mas que ainda não foi posto totalmente em prática. Para se colocar em prática as decisões de um Concílio demora em média 100 anos; então, estamos no meio do caminho. E João Paulo II pegou a mala e correu o mundo, foi um missionário, saiu espalhando a mensagem da Igreja. Um missionário. São dois grandes homens para a Igreja atual. Por isso, para mim, será um prazer ver os dois proclamados santos no mesmo dia e na mesma cerimônia.

A primeira encíclica de Francisco foi escrita de forma inédita – a quatro mãos – com o Papa Emérito Bento XVI. O texto chamado “A Luz da Fé” se baseia na crença de que a relação pessoal com Cristo é o cerne da vida da Igreja e que a fé ganha o seu sentido pleno dentro do amor.

Repórter – Papa Francisco: seu grande amigo, Cardeal Cláudio Hummes, aqui do Brasil, me falou algumas vezes da preocupação dele com a evasão, com a perda de fiéis católicos aqui no continente [latino-americano] e aqui no Brasil, especificamente, para outras religiões, especialmente para religiões evangélicas. Aí eu me pergunto: por que acontece isso? O que pode ser feito?

Papa Francisco – Não conheço as causas e tampouco as porcentagens. Ouvi falar sobre este tema em dois Sínodos de Bispos. Estou falando em 10 anos… Em 2001, com certeza; e depois, em outro Sínodo, desta preocupação com a evasão de fiéis… Não conheço a vida do Brasil o suficiente para dar uma resposta. Creio que o Cardeal Hummes foi um dos que falaram, mas não tenho certeza – mas se você está dizendo, sabe. Eu não saberia explicar esse fenômeno. Vou então levantar uma hipótese: para mim, é fundamental a proximidade da Igreja, porque a Igreja é Mãe; e nem você e nem eu conhecemos uma mãe por correspondência; a mãe… dá carinho, toca, beija, ama. Quando a Igreja, ocupada com mil coisas, se descuida dessa proximidade, e só se comunica por documentos, é como uma mãe que se comunica com o seu filho por carta. Não sei se foi isso o que aconteceu no Brasil. Não sei. Mas sei que em alguns lugares da Argentina que conheço isso aconteceu. Essa falta de proximidade, a falta de sacerdotes – faltam sacerdotes e então se deixa um local sem sacerdote – e as pessoas buscam, sentem necessidade do Evangelho. Um sacerdote me contou que partiu como missionário para um cidade ao sul da Argentina, onde não havia um sacerdote há quase 20 anos; obviamente, as pessoas ouviam um pastor [protestante], porque sentiam a necessidade de escutar a Palavra de Deus; quando ele foi até lá, uma senhora muito culta disse a ele: “Tenho raiva da Igreja porque ela nos abandonou. Agora vou ao culto [protestante] todos os domingos para ouvir o pastor, que foi quem alimentou a nossa fé durante todo esse tempo”; ou seja, a falta de proximidade. Falaram sobre isso, o sacerdote a ouviu e quando iam se despedir, ela disse: “Padre, um momento. Venha aqui”; e foi até um armário; abriu o armário e dentro havia a imagem da Virgem [Maria]; e disse ao padre: “Eu a escondo aqui para que o pastor não a veja”. Essa mulher ia ao pastor, respeitava o pastor; ele (=o pastor) falava a ela de Deus e ela aceitava; porque não tinha seu sacerdote [católico]; mas as raízes de sua fé, ela as conservou escondidas em um armário… mas estavam lá… Esse é o fenômeno para mim mais sério: este episódio me mostra muitas vezes o drama da fuga [de fiéis], desta mudança [de religião]… Falta de proximidade. Vou repetir esta imagem: a mãe faz assim com o filho – [acolhe,] cuida, beija, acaricia e o alimenta. Não por correspondência.

Repórter – Estar próximo, né? Na cercania…

Papa Francisco – Proximidade. É uma das pautas pastorais da Igreja de hoje. Eu quero uma Igreja próxima.

[Papa Francisco discursando no Hospital de São Francisco-RJ:] “Precisamos todos aprender a abraçar quem passa necessidade, como fez São Francisco. Há tantas situações no Brasil e no mundo que reclamam atenção, cuidado e amor, como a luta contra a dependência química. Precisamos todos de olhar o outro com os olhos do amor de Cristo; aprender a abraçar quem passa necessidade, para expressar solidariedade, afeto e amor. Tornemo-nos todos portadores da esperança”.

Repórter – Papa Francisco: neste momento, [em que] o senhor chega, gostaria de saber da sua mensagem aos jovens brasileiros – estamos na Jornada Mundial da Juventude -; a sua mensagem no momento em que os jovens estão nas ruas do Brasil protestando, demonstrando insatisfação, insatisfação de uma forma muito ampla. Queria saber: qual a mensagem para esses jovens?

Papa Francisco – Em primeiro lugar, preciso ser claro que não conheço os motivos dos protestos dos jovens. Então, se digo algo a respeito, sem tomar conhecimento, faço mal; faço mal a todos, pois daria uma opinião sem fundamento. Com toda a franqueza digo: não sei bem porque os jovens estão protestando. [Eis o] primeiro ponto. Segundo ponto: um jovem que não protesta, não me agrada. Porque o jovem tem a ilusão da utopia e a utopia nem sempre é negativa. Não. A utopia é respirar e olhar adiante. O jovem é mais espontâneo; não tem tanta experiência de vida, é verdade; mas a experiência nos freia; [já o jovem] tem mais energia para defender as suas ideias; o jovem é essencialmente um inconformista e isso é muito belo! Isso é algo comum a todos os jovens. Então eu diria que, de uma forma geral, é preciso ouvir os jovens, dar-lhes meios de se expressar e cuidar para que não sejam manipulados; porque há tanta exploração de pessoas – trabalho escravo, há tantos tipos de exploração… Eu me atreveria a dizer uma coisa, sem ofender: há pessoas que buscam a exploração de jovens, manipulando essa ilusão, esse inconformismo que existe neles, e depois arruínam a vida dos jovens. Portanto, cuidado com a manipulação dos jovens. Temos sempre que ouvi-los. Cuidado. Uma família, um pai, uma mãe que não escutam o filho jovem, o isolam, geram tristeza em sua alma e não têm uma experiência enriquecedora. Sempre há riqueza, evidentemente, com inexperiência; mas é preciso ouvi-los e defendê-los de manipulações diversas – ideológica, sociológica… O caminho é ouvir, dar-lhes voz.

[Papa Francisco discursando na comunidade de Varginha-RJ:] “Aqui, como em todo o Brasil, há muitos jovens – vocês! é, jovens! – vocês, queridos jovens, possuem uma sensibilidade especial diante das injustiças, mas muitas vezes se desiludem com notícias que falam da corrupção envolvendo pessoas que ao invés de buscar o bem comum procuram o seu próprio benefício. Também para vocês e para todas as pessoas eu repito: Nunca desanimem. Não percam a confiança. Não deixem que se apague a esperança”.

Papa Francisco – Quando recebi um grupo de embaixadores que vieram me apresentar suas credenciais diplomáticas, disse que o mundo atual, em que vivemos, tinha caído na feroz idolatria do dinheiro; e que há uma política mundial – mundial! – muito impregnada pelo protagonismo do dinheiro. Quem manda hoje é o dinheiro. Isso significa uma política mundial economicista, sem qualquer controle ético; um economicismo autossuficiente que vai arrumando os grupos sociais de acordo com essa conveniência. O que ocorre então? Quando reina no mundo a feroz idolatria do dinheiro, se concentra muito no centro e as pontas da sociedade, os extremos, são mal atendidos, não são cuidados e são descartados. Até agora, vimos claramente como se descartam os idosos. Há toda uma filosofia para descartar os idosos: não servem, não produzem. Os jovens também não produzem muito; é uma carga que precisa ser formada. O que estamos vendo agora é que a outra ponta – a dos jovens – está em vias de ser descartada. O alto percentual de desemprego entre os jovens na Europa é alarmante. Não vou enumerar os países da Europa, mas vou citar dois exemplos sérios de desemprefo, de dois países ricos da Europa: um tem um índice [geral] de desemprego de 25%, mas nesse país o índice de desemprego juvenil é de 43/44% – 43/44% dos jovens desse país estão parados; o outro país tem um índice de trinta e tantos por cento de desemprego geral, enquanto o desemprego entre os jovens já passou dos 50%. Nós vemos um fenômeno de jovens descartados; então, para sustentar este modelo político mundial, estamos descartando os extremos. Curiosamente, os que são promessa para o futuro – porque o futuro quem vai nos dar são os jovens, que seguirão adiante; e os idosos, que precisam transferir sabedoria aos jovens – descartando ambos, o mundo desaba. Não sei se me expliquei bem… Falta uma ética humanista em todo o mundo; estamos falando de um problema mundial. Nestes termos, conheço o problema; os detalhes de cada país, nem tanto. E se me der um minuto a mais, direi algo a mais sobre esse tema…

Repórter – Lógico…

Papa Francisco – No século XII… – e me lembro [aqui] de São Tomás de Aquino… No século XII, havia um rabino muito sábio que escrevia; o rabino explicava à sua comunidade, mediante fábulas, os problemas morais que havia em algumas passagens da Bíblia. Certa vez, explicou sobre a torre de Babel. O rabino medieval, do século XII, explicava assim: qual era o problema da torre de Babel? Por que Deus castigou [aquele povo que erguia a torre]? Para construir a torre, era necessário fabricar tijolos; usar barro, cortar palha, amassá-los, cortá-los, secá-los, colocá-los no forno e, depois, levá-los ao alto da torre, para ir erguendo a torre… Se caía um tijolo, era uma catástrofe nacional; se caía um operário, nada acontecia. Hoje, há crianças que não têm o que comer no mundo; crianças que morrem de fome, de desnutrição… Basta ver fotografias de alguns lugares do mundo. Há doentes que não têm acesso a tratamento. Há homens e mulheres que são mendigos de rua e morrem de frio no inverno. Há crianças que não têm educação. Nada disso é notícia. Mas quando as Bolsas [de Valores] de algumas capitais caem 3 ou 4 pontos, isto é tratado como uma grande catástrofe mundial. Compreende?

Repórter – Sim…

Papa Francisco – Este é o drama desse humanismo desumano que estamos vivendo. Por isso, é necessário recuperar os extremos [jovens e idosos], as crianças e os jovens; e não cair numa globalização da indiferença em relação a esses dois extremos, que são o futuro da população. Perdoe se me estendi e falei demais, mas acho que com isso lhe passei o meu ponto de vista. O que está acontecendo com os jovens no Brasil eu não sei, mas não se deve manipulá-los e é preciso escutá-los, pois este é um fenômeno mundial, que vai muito além do Brasil.

[Papa Francisco discursando na Praia de Copacabana, neste 27 de julho:] “Acompanho as notícias do mundo, e vejo que tantos jovens, em muitas partes do mundo, saíram pelas ruas para expressar o desejo de uma civilização mais justa e fraterna. Os jovens nas ruas são jovens que querem ser protagonistas da mudança. Por favor, não deixem que outros sejam os protagonistas da mudança. Sejam vocês! Vocês têm o futuro! Por vocês é que o futuro chegará ao mundo! Peço que vocês também sejam protagonistas dessa mudança: sigam superando a apatia e oferecendo uma resposta cristã às inquietações sociais e políticas que se colocam em diversas partes do mundo. Peço que sejam construtores do futuro. Envolvam-se no trabalho por um mundo melhor. Queridos jovens: por favor, não assistam a vida passar… Envolvam-se! Jesus não ficou parado, assistindo; Ele se envolveu! Se envolvam, como fez Jesus.

Repórter – Qual mensagem o senhor falaria para os brasileiros católicos, mas também para os brasileiros que não são católicos, ou seja, de outras religiões – por exemplo, recentemente aqui teve, domingo, o rabino Scort, seu amigo lá de Buenos Aires. Qual mensagem o senhor deixaria para um país como o Brasil?

Papa Francisco – Creio que é preciso estimular uma “cultura do encontro” em todo o mundo. No mundo inteiro. De modo que cada um sinta a necessidade de dar à humanidade os valores éticos de que a humanidade necessita; e defender esta realidade humana. Neste aspecto, acho que é importante que todos trabalhemos pelos outros, cortando o egoísmo. Um trabalho pelos outros segundo os valores da sua própria fé. Cada religião tem as suas crenças, mas dentro dos valores de sua própria fé, trabalhar pelo próximo e nos encontrarmos todos para trabalhar pelos outros: se há uma crianã que tem fome, que não tem educação, o que nos deve mobilizar é que deixe de ter fome e tenha educação; se esta educação virá dos católicos, dos protestantes, dos ortodoxos ou dos judeus, não importa. O que importa é que o eduquem e saciem a sua fome. Temos que chegar a um acordo quanto a isso. Hoje, a urgência é de tal ordem que não podemos brigar entre nós à custa do sofrimento alheio. Primeiro, trabalhar pelo próximo; depois, conversar entre nós, com muita grandeza, levando em conta a fé de cada um, buscando nos entendermos. Mas, sobretudo, hoje em dia urge a proximidade; sair de si mesmo para solucionar os tremendos problemas mundiais que existem. Creio que as religiões, as diversas confissões religiosas, não podem dormir tranquilas enquanto existir uma única criança que morra de fome ou que não tenha educação, um só jovem ou idoso sem atendimento médico. “Porém, a tarefa das religiões não é a beneficência”… É verdade! Mas pelo menos, na nossa fé católica – e em outras fés cristãs – seremos julgados por essas obras de misericórdia; não vai adiantar nada falar das nossas teologias se não tivermos a proximidade de sair para ajudar e acolher o próximo, sobretudo neste mundo em que se cai tanto da torre e ninguém diz nada.

Repórter – Muito obrigado, Papa Francisco. Muito obrigado pela entrevista, pela mensagem ao Brasil…

Papa Francisco – Eu é que te agradeço. [O brasileiro] é um povo maravilhoso. Maravilhoso.

[Discurso do Papa Franscisco:] “Já começo a sentir saudades… Saudades do Brasil e deste povo tão imenso e de tão grande coração. Deste povo tão amoroso. Saudades desses corações tão abertos e sinceros que vi em tantas pessoas. Saudades do entusiasmo dos voluntários. Saudades da esperança, do ideal dos homens no Hospital São Francisco. Saudades da fé e da alegria em meio da adversidade dos moradores de Varginha. Obrigado pelo acolhimento e pelo calor da amizade que me foram demonstrados; também disso começo a sentir saudades. O Papa vai embora e lhes diz: até breve! Um “até breve” com saudades e lhes pede, por favor, que não se esqueçam de rezar por ele. Este Papa precisa da oração de todos vocês!”

  • Rio de Janeiro, 24 de julho de 2013 – Palácio Arquiepiscopal
  • Fonte: Globonews
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