1. Cristo, respondendo à pergunta sobre a unidade e indissolubilidade do matrimônio, apelou para aquilo que sobre o tema do matrimônio foi escrito no Livro do Gênesis. Nas nossas duas precedentes reflexões sujeitamos a uma análise tanto o chamado texto “Eloísta” (Gên. 1) como o “Javista” (Gên. 2). Desejamos hoje tirar dessas duas análises algumas conclusões.

Quando Cristo se refere ao «princípio», pede aos seus interlocutores que transponham, em certo sentido, o confim que, no Livro do Gênesis, separa o estado de inocência original e o de pecaminosidade, iniciado pela queda original. Simbolicamente pode-se ligar este confim com a árvore do conhecimento do bem e do mal, que no texto javista delimita duas situações diametralmente opostas: a situação de inocência original e a do pecado original. Estas situações têm dimensão própria no homem, no seu íntimo, no seu conhecimento, na sua consciência, escolha e decisão, tudo isto em relação com Deus Criador que no texto javista (Gên.2 e 3) é, ao mesmo tempo, o Deus da Aliança, da mais antiga aliança do Criador com a sua criatura, isto é, com o homem. A árvore do conhecimento do bem e do mal, como expressão e símbolo da aliança com Deus quebrada no coração do homem, delimita e contrapõe duas situações e dois estados diametralmente opostos: o da inocência original e o do pecado original, e ao mesmo tempo da pecaminosidade hereditária do homem que do último deriva. Todavia as palavras de Cristo, que se referem ao «princípio», permitem-nos encontrar no homem certa continuidade essencial e um laço entre estes dois estados diversos ou duas dimensões do ser humano. O estado de pecado faz parte do «homem histórico», tanto daquele a que se refere Mateus 19, isto é, do interlocutor de Cristo nessa altura, como também de qualquer outro interlocutor, potencial ou atual, de todos os tempos da história, e portanto, naturalmente, também do homem de hoje. Tal estado porém — o estado «histórico» precisamente — em qualquer homem sem nenhuma exceção, mergulha as raízes na sua própria «pré-história» teológica, que é o estado da inocência original.

2. Não se trata aqui somente de dialética. As leis do conhecimento correspondem às do ser. É impossível compreender o estado de pecaminosidade «histórica» sem referência ou alusão (e Cristo de fato alude) ao estado de original (em certo sentido, «pré-histórica») e fundamental inocência. Surgir portanto a pecaminosidade como estado, como dimensão da existência humana, está desde os princípios em relação com esta real inocência do homem como estado original e fundamental, como dimensão do ser criado «à imagem de Deus». E assim acontece não só com o primeiro homem, macho e fêmea, como “dramatis personae” e protagonistas dos acontecimentos descritos no texto javista dos capítulos 2 e 3 do Gênesis, mas também assim acontece com o inteiro percurso histórico da existência humana. O homem histórico está portanto, por assim dizer, radicado na sua pré-história teológica revelada; e por isso cada ponto da sua pecaminosidade histórica explica-se (tanto para a alma como para o corpo) com a referência à inocência original. Pode dizer-se que esta referência é «co-herança» do pecado, e precisamente do pecado original. Se este pecado significa, em todos os homens históricos, um estado de graça perdida, então ele comporta também uma referência àquela graça, que era precisamente a graça da inocência original.

3. Quando Cristo, segundo o capítulo 19 de Mateus, apela para o «princípio», com esta expressão não indica só o estado de inocência original como horizonte perdido da existência humana na História. As palavras, que Ele pronuncia mesmo com a sua boca, temos o direito de atribuir ao mesmo tempo toda a eloquência do mistério da redenção. De fato, já no próprio texto javista de Gênesis 2 e 3, somos testemunhas de o homem – macho e fêmea -, depois de ter quebrado a aliança original que tinha com o seu Criador, receber a primeira promessa de Redenção nas palavras do chamado Proto-evangelho, em Gênesis 3,15[1], e começar a viver na perspectiva teológica da Redenção. Assim portanto o homem «histórico» — quer o interlocutor de Cristo naquele tempo de que fala Mt. 19, quer o homem de hoje — participa desta perspectiva. Participa não só da história da pecaminosidade humana, como sujeito hereditário e ao mesmo tempo pessoal e não repetível desta história, mas participa igualmente da História da Salvação, também agora como seu sujeito e concriador. Ele está portanto não só fechado, pela sua pecaminosidade, à inocência original, mas ao mesmo tempo aberto para o mistério da Redenção, que se realizou em Cristo e por meio de Cristo. Paulo, autor da carta aos Romanos, exprime esta perspectiva da Redenção em que vive o homem «histórico», quando escreve: “Também nós mesmos, que possuímos as primícias do espírito, gememos igualmente em nós mesmos, aguardando (…) a libertação do nosso corpo” (Rom. 8,23). Não podemos perder de vista esta perspectiva quando seguimos as palavras de Cristo que, na sua conversa sobre a indissolubilidade do matrimônio, recorre ao «princípio». Se aquele «princípio» indicasse só a criação do homem como «macho e fêmea», se — como já insinuamos — conduzisse os interlocutores só atravessando o confim do estado de pecado do homem até à inocência original, e não abrisse ao mesmo tempo a perspectiva de uma «redenção do corpo», a resposta de Cristo não seria de fato entendida de modo exato. Precisamente esta perspectiva da redenção do corpo assegura a continuidade e a unidade entre o estado hereditário do pecado do homem e a sua inocência original, se bem que esta inocência tenha sido historicamente perdida por ele, de modo irremediável. É também evidente ter Cristo o máximo direito de responder à pergunta que Lhe foi feita pelos doutores da Lei e da Aliança (como lemos em Mt. 19 e em Mc. 10), na perspectiva da Redenção sobre que se baseia a própria Aliança.

4. Se no contexto substancialmente assim descrito pela teologia do homem-corpo, pensamos no método das análises seguintes a respeito da revelação do «princípio», em que é essencial a referência aos primeiros capítulos do Livro do Gênesis, devemos logo dirigir a nossa atenção para um fator que é especialmente importante para a interpretação teológica: importante, pois consiste na relação entre revelação e experiência. Ao interpretarmos a Revelação a respeito do homem, e sobretudo a respeito do corpo, temos por motivos compreensíveis de referir-nos à experiência, porque o homem-corpo é percebido por nós sobretudo na experiência. A luz das mencionadas considerações fundamentais, temos pleno direito de alimentar a convicção desta nossa experiência «histórica» dever, em certo modo, fazer alto no limiar da inocência original do homem, porque relativamente a ele mantém-se inadequada. Todavia, à luz das mesmas considerações introdutórias, devemos chegar à convicção de a nossa experiência humana ser, neste caso, um meio de algum modo legítimo para a interpretação teológica, e ser, em certo sentido, indispensável ponto de referência, para que devemos apelar na interpretação do «princípio». A análise mais particularizada do texto permitir-nos-á chegar a uma visão mais clara.

5. Parece que as palavras da carta aos Romanos 8,23, que citamos, indicam do melhor modo a orientação das nossas investigações centradas na revelação daquele «princípio», a que se referiu Cristo na sua conversa sobre a indissolubilidade do matrimônio (Mt. 19 e Mc. 10). Todas as análises seguintes, que a este propósito serão feitas com base nos primeiros capítulos do Gênesis, refletirão quase necessariamente a verdade das palavras paulinas: “Nós próprios, que possuímos as primícias do espírito, gememos igualmente em nós mesmos, aguardando a libertação do nosso corpo”. Se nos colocamos nesta posição — tão profundamente concorde com a experiência[2] — o «princípio» deve falar-nos com a grande riqueza de luz que provém da Revelação, à qual deseja responder sobretudo a teologia. O prosseguimento das análises explicar-nos-á porquê e em que sentido deve esta teologia ser teologia do corpo.

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NOTAS

[1] Já a tradução grega do Antigo Testamento, a dos Setenta, que remonta a cerca do século II a.C., interpreta Gên. 3, 15 no sentido messiânico, aplicando o pronome masculino “autós” referido ao substantivo neutro grego “sperma” (“semen”, na Vulgata). A tradição judaica continua esta interpretação. A exegese cristã, a começar de Santo Ireneu (Adv. Haer. 3,23,7), vê este texto como «proto-evangelho», que prenuncia a vitória sobre Satanás, obtida por Jesus Cristo. Embora nos últimos séculos os especialistas em Sagrada Escritura tenham interpretado diversamente esta perícope e alguns tenham contestado a interpretação messiânica, nos últimos tempos está-se a voltar a esta sob um aspecto um pouco diverso. O autor javista une, de fato, a pré-história com a história de Israel, que atinge o seu vértice na dinastia messiânica de Davi, a qual levará ao cumprimento das promessas de Gên. 3,15 (cf. 2Sam. 7,12). O Novo Testamento explicou o cumprimento da promessa na mesma perspectiva messiânica; Jesus é o Messias, descendente de Davi (Rom. 1,3; 2Tim. 2,8), nascido de mulher (Gál. 4,4), novo Adão-Davi (1Cor. 15), que deve reinar «até que ponha todos os inimigos debaixo dos pés» (1Cor. 15,25). E por fim, Apoc. 12,1-10 apresenta o cumprimento final da profecia de Gên. 3,15, que embora não sendo anúncio claro e imediato de Jesus como Messias de Israel, leva todavia a Ele por meio da tradição real e messiânica que une o Antigo e o Novo Testamento.
[2] Falando aqui da relação entre a «experiência» e a «Revelação», mais, de uma surpreendente convergência entre elas, queremos só fazer notar que o homem, no seu atual estado do existir no corpo, experimenta múltiplos limites — sofrimentos, paixões, fraquezas e, por fim, até a morte —, os quais, ao mesmo tempo, referem este seu existir no corpo a outro estado diverso ou outra dimensão. Quando São Paulo escreve sobre a «redenção do corpo», fala com a linguagem da Revelação; a experiência, na verdade, não é capaz de atingir este conteúdo, ou antes, esta realidade. Ao mesmo tempo, no total deste conteúdo, o autor de Rom. 8,23 retoma tudo quanto, não só a ele mas também em certo modo a cada homem (independentemente da sua relação com a Revelação), é oferecido através da experiência da existência humana, que é existência no corpo. Temos portanto o direito de falar da relação entre a experiência e a Revelação; mais, temos o direito de apresentar o problema da relação recíproca entre as duas, ainda que para muitos passe entre ambas uma linha de demarcação que é linha de antítese total e de antinomia radical. Esta linha, segundo julgam, deve sem mais ser traçada entre a fé e a ciência, entre a teologia e a filosofia. Ao formular este ponto de vista, são sobretudo tomados em consideração conceitos abstratos e não o homem como sujeito vivo.

  • Fonte: Vaticano, audiência de 26 de Setembro de 1979.
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