1. Na última reflexão do presente ciclo, chegamos a uma conclusão introdutória, tirada das palavras do Livro do Gênesis, sobre a criação do homem como macho e fêmea. A estas palavras, ou seja, ao «princípio», referiu-se o Senhor Jesus na sua conversa sobre a indissolubilidade do matrimônio (cf. Mt. 19,3-9; Mc. 10,1-12). Mas a conclusão a que chegamos não termina ainda a série das nossas análises. Devemos, de fato, reler a narração do primeiro e do segundo capítulo do Livro do Gênesis num contexto mais amplo, que nos permitirá estabelecer uma série de significados do texto antigo, a que se referiu Cristo. Hoje refletiremos portanto sobre o significado da solidão original do homem.

2. O ponto de partida para esta reflexão vem-nos diretamente das seguintes palavras do Livro do Génesis: “Não é conveniente que o homem (macho) esteja só; vou dar-lhe uma auxiliar semelhante a ele” (Gên. 2,18). É Deus-Javé quem pronuncia estas palavras. Fazem parte da segunda narrativa da criação do homem e provêm portanto da tradição javista. Como já recordamos precedentemente, é significativo que no texto javista, a narrativa da criação do homem (macho) seja um trecho completo (Gên. 2,7), que precede a narrativa da criação da primeira mulher (Gên. 2,21-22); além disso, significativo que o primeiro homem (‘adam), criado do «pó da terra», só depois da criação da primeira mulher seja definido como «macho» (‘is). Assim portanto, quando Deus-Javé pronuncia as palavras a respeito da solidão, refere-as à solidão do «homem» enquanto tal, e não só à do macho[1].

É difícil porém, só com base neste fato, chegar muito longe tirando conclusões. Apesar disso, o contexto completo daquela solidão de que fala o Gênesis 2,18, pode convencer-nos que se trata aqui da solidão do «homem» (macho e fêmea) e não apenas da solidão do homem-macho, causada pela falta da mulher. Parece, por conseguinte, com base no contexto inteiro, que esta solidão tem dois significados: um que deriva da própria criatura do homem, isto é, da sua humanidade (o que é evidente na narrativa de Gên. 2), e o outro que deriva da relação macho-fêmea, o que é evidente, em certo modo, com base no primeiro significado. A análise particularizada da descrição parece confirmá-lo.

3. O problema da solidão manifesta-se unicamente no contexto da segunda narrativa da criação do homem. A primeira não conhece este problema. Nesta aparece o homem criado num só ato como «macho e fêmea» (“Deus criou o homem à sua imagem (…) criou-os homem e mulher” (Gên. 1,27)). A segunda narrativa que, segundo já mencionamos, fala primeiro da criação do homem e, só depois, da criação da mulher da «costela» do macho, concentra a nossa atenção em o homem «estar só». Isto apresenta-se como problema antropológico fundamental, anterior, em certo sentido, ao problema apresentado pelo fato de tal homem ser macho e fêmea. Este problema é anterior não tanto no sentido cronológico quanto no sentido existencial: é anterior «por sua natureza». Tal se revelará também o problema da solidão do homem do ponto de vista da teologia do corpo, se conseguirmos fazer uma análise profunda da segunda narrativa da Criação em Gênesis 2.

4. A afirmação de Deus-Javé, «não é conveniente que o homem esteja só», aparece não só no contexto imediato da decisão de criar a mulher («vou dar-lhe uma auxiliar semelhante a ele»), mas também no contexto mais amplo de motivos e circunstâncias, que explicam mais profundamente o sentido da solidão original do homem. O texto javista liga primeiramente a criação do homem com a necessidade de cultivar a terra (Gên. 2,5), o que, na primeira narrativa, corresponde à vocação de encher e dominar a terra (cf. Gên. 1,28). Além disso, a segunda narrativa da Criação fala de o homem ser colocado no «jardim do Éden», e deste modo introduz-nos no estado da sua felicidade original. Até este momento o homem é objeto da ação criadora de Deus-Javé, que ao mesmo tempo, como Legislador, estabelece as condições da primeira Aliança com o homem. Já com este recurso é sublinhada a subjetividade do homem. Esta encontra nova expressão quando o Senhor Deus, após ter formado da terra todos os animais dos campos e todas as aves dos céus, os conduziu até junto do homem (macho), a fim de verificar como ele lhes chamaria (Gên. 2,19). Logo, o primitivo significado da solidão original do homem é definido em função de um «teste» específico, ou de um exame a que o homem é sujeito diante de Deus (e em certo modo também diante de si mesmo). Graças a esse «teste», o homem toma consciência da própria superioridade, quer dizer, de não poder colocar-se em igualdade com nenhuma outra espécie de seres vivos sobre a terra.

Na verdade, como diz o texto, o homem impôs os nomes para que todos os seres vivos fossem conhecidos pelos nomes que o homem lhes desse (Ibid). O homem designou com nomes todos os animais domésticos, todas as aves dos céus e todos os animais ferozes; contudo — termina o autor — o homem (macho) não encontrou para si uma auxiliar adequada (Gên. 2,20).

5. Toda esta parte do texto é, sem dúvida, preparatória da narrativa da criação da mulher. Esta parte do texto possui contudo significado próprio e profundo, mesmo independentemente desta criação. É o seguinte: o homem criado encontra-se, desde o primeiro momento da sua existência, diante de Deus quase à busca da própria «entidade». A verificação de o homem «estar só» no meio do mundo visível e, em especial, entre os seres vivos, tem nesta busca significado negativo, na medida em que exprime o que ele «não é». Apesar disso, a verificação de não se poder essencialmente identificar com o mundo visível dos outros seres vivos (animalia) tem, ao mesmo tempo, aspecto positivo para esta busca primária: embora esta verificação não seja ainda uma definição completa, constitui todavia um dos seus elementos. Se aceitamos a tradição aristotélica, na lógica e na antropologia, seria necessário definir este elemento como «gênero próximo» (genus proximum)[2].

6. O texto javista consente-nos todavia descobrir ainda novos elementos naquele admirável trecho, em que o homem se encontra só, diante de Deus, sobretudo para exprimir, através de uma autodefinição, a própria autoconsciência, como primitiva e fundamental manifestação de humanidade. O autoconhecimento acompanha o conhecimento do mundo, de todas as criaturas visíveis, de todos os seres vivos a que o homem deu nomes para afirmar em confronto com eles a própria diversidade. Assim portanto, a consciência revela o homem como o ser que possui a faculdade cognoscitiva a respeito do mundo visível. Com este conhecimento que o faz sair, em certo modo, fora do próprio ser, ao mesmo tempo o homem revela-se a si mesmo em toda a peculiaridade seu ser. Está não apenas essencialmente mas subjetivamente só. Solidão, de fato, significa também subjetividade do homem, a qual se forma através do autoconhecimento. O homem está só, porque é «diferente» do mundo visível, do mundo dos seres vivos. Analisando o texto do Livro do Gênesis, tornamo-nos, em certo sentido, testemunhas do modo como o homem «se distingue», diante de Deus-Javé, de todo o conjunto dos seres vivos (animalia) como o primeiro ato de autoconhecimento, e de como, por conseguinte, se revela a si mesmo e ao mesmo tempo se afirma no mundo visível como «pessoa». Aquele processo delineado de modo tão enérgico em Gênesis 2,19-20, processo de busca de uma definição de si mesmo, não leva só a indicar — voltando nós à tradição aristotélica — o “genus proximum”, que no capítulo 2° do Gênesis é expresso com as a palavras «deu os nomes», a que corresponde a ” “diferença específica” que é, segundo a definição de Aristóteles, “noûs”, “zoón noetikon”. Tal processo leva também à primeira delineação do ser humano como pessoa humana, com a própria subjetividade sua característica.

Interrompamos aqui a análise do significado da solidão original do homem. Retomá-la-emos daqui a uma semana.

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NOTAS

[1] O texto hebraico chama constantemente ao primeiro homem “ha-‘adam”, ao passo que o termo “‘is” («macho») só é usado quando aparece o confronto com a “‘issa” («fêmea»). Solitário estava pois «o homem» sem referência ao sexo. Na tradução para algumas línguas europeias, é difícil porém exprimir este conceito do Gênesis, porque «homem» e «macho» são definidos ordinariamente com um vocábulo único: «homo», «uomo», «homme». «hombre», «man».
[2] «An essencial (quidditive) definition is a statement which explains the essence or nature of things. It will be essential when we can define a thing by its proximate genus and specific differentia. The proximate genus includes within its comprehension all the essential elements of the genera above it and therefore includes all the beings that are cognate or similar in nature to the thing that is being defined; the specific differentia, on the other hand, brings in the distinctive element which separates this thing from all others of a similar nature, by showing in what manner it is different from all others, with which it might be erroneously identified. «Man» is defined as a «rational animal»; «animal» is his proximate genus, «rational» is his specific differentia. The proximate genus `animal» includes within its comprehension all the essential elements of the genera above it, because an animal is a «sentient, living, material substance» (…). The specific differentia «rational» is the one distinctive essential element which distinguishes «man» and every other «animal». It therefore makes him a species of him own and separates him from every genus above animal, including plants, inanimate bodies and substance. Furthermore, since the specific differentia is the distinctive element in the essence of man, it includes all the characteristic «properties» which lie in the nature of man as man, namely, power of speech, morality, government, religion, immortality etc. — realities which are absent in all other beings in this physical world» (C. N. Bittle, “The Science of Correct Thinking”, Logic, Milwaukee, 1947, págs. 73-74).

  • Fonte: Vaticano, audiência de 10 de Outubro de 1979.
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