Teologia do Corpo

8. A unidade original do homem e da mulher na humanidade

1. As palavras do livro do Gênesis “não é conveniente que o homem esteja só”[1] são quase um prelúdio da narrativa da criação da mulher. Com esta narrativa, o sentimento da solidão original entra a fazer parte do significado da unidade original, cujo ponto-chave parecem ser precisamente as palavras de Gênesis 2,24, a que se refere Cristo na sua conversa com os fariseus: “O homem deixará o pai e a mãe, e unir-se-á à sua mulher, e serão os dois uma só carne”,[2]. Se Cristo, referindo-se ao «princípio», cita estas palavras, convém-nos precisar o significado dessa unidade original, que mergulha as raízes no fato da criação do homem como macho e fêmea.

A narrativa do capítulo 1º do Gênesis não conhece o problema da solidão original do homem: o homem, de fato, desde o princípio é «macho e fêmea». O texto javista do capítulo 2º, pelo contrário, autoriza-nos em certo modo a pensar primeiro, somente no homem enquanto, mediante o corpo, pertence ao mundo visível, mas ultrapassando-o; depois, faz-nos pensar no mesmo homem, mas através da duplicidade do sexo. Corporeidade e sexualidade não se identificam completamente. Embora o corpo humano, na sua constituição normal, traga em si os sinais do sexo e seja, por sua natureza, masculino ou feminino, todavia o fato de o homem ser «corpo» pertence à estrutura do sujeito pessoal mais profundamente que o fato dele ser na sua constituição somática também macho ou fêmea. Por isso, o significado da solidão original, que pode referir-se simplesmente ao «homem», é substancialmente anterior ao significado da unidade original; esta última, de fato, baseia-se na masculinidade e na feminilidade, quase como sobre duas diferentes «encarnações», isto é, sobre dois modos de «ser corpo» do mesmo ser humano, criado à imagem de Deus[3].

2. Segundo o texto javista, no qual a criação da mulher foi descrita separadamente[4], devemos ter diante dos olhos, ao mesmo tempo, aquela «imagem de Deus» da primeira narrativa da Criação. A segunda narrativa conserva, na linguagem e no estilo, todas as características do texto javista. O modo de narrar concorda com o modo de pensar e de falar da época a que o texto pertence. Pode-se dizer, segundo a filosofia contemporânea da religião e da linguagem, que se trata de uma linguagem mítica. Neste caso, na verdade, o termo «mito» não designa conteúdo fabuloso, mas simplesmente um modo arcaico de exprimir um conteúdo mais profundo. Sem qualquer dificuldade, sobre o extrato da antiga narração, descobrimos aquele conteúdo, verdadeiramente admirável no que diz respeito às qualidades e à condensação das verdades, que nele estão encerradas. Acrescentemos que a segunda narrativa da criação do homem conserva, até certo ponto, uma forma de diálogo entre o homem e Deus-Criador, o que se manifesta sobretudo naquele período em que o homem (“‘adam”) é definitivamente criado como macho e fêmea (“‘is/’issah”)[5]. A Criação efetua-se quase contemporaneamente em duas dimensões; a ação de Deus-Javé ao criar desenvolve-se em correlação com o processo da consciência humana.

3. Assim pois, Deus-Javé diz: “Não é conveniente que o homem esteja só; vou dar-lhe uma auxiliar semelhante a ele”[6]. E ao mesmo tempo o homem confirma a própria solidão[7]. A seguir lemos: “Então o Senhor Deus adormeceu profundamente o homem; e, enquanto ele dormia, tirou-lhe uma das costelas, cujo lugar preencheu de carne. Da costela que retirara do homem, o Senhor Deus fez a mulher e conduziu-a até ao homem”[8]. Tomando em consideração o caráter próprio da linguagem, é preciso antes de tudo reconhecer que muito nos faz pensar aquele torpor do Gênesis, no qual, por obra de Deus-Javé, o homem cai em preparação para o novo ato criador. Sobre o fundo da mentalidade atual habituada — graças à análise do subconsciente — a ligar ao mundo do sono conteúdos sexuais, aquele torpor pode suscitar uma associação particular[9]. Todavia a narrativa bíblica parece ir além do subconsciente humano. E se admitimos uma significativa diversidade de vocabulário, podemos concluir que o homem (“‘adam”) cai naquele «torpor» para acordar «macho» e «fêmea». De fato, pela primeira vez encontramos em Gên. 2,23 a distinção “‘is/’issah”. Talvez, portanto, a anologia do sono indique aqui não tanto um passar da consciência à subconsciência, quanto um especifico regresso ao não-ser (o sono tem em si um elemento de aniquilamento da existência consciente do homem), ou seja, ao momento que antecede a Criação, para que dele, por iniciativa criadora de Deus, o «homem» solitário possa ressurgir na sua dupla unidade de macho e fêmea[10].

Seja como for, à luz do contexto de Gên. 2,18-20 nenhuma dúvida há de o homem cair naquele «torpor» com o desejo de encontrar um ser semelhante a si. Se podemos, por analogia com o sono, falar aqui também de sonho, devemos dizer que este arquétipo bíblico nos permite admitir, como conteúdo daquele sonho, um «segundo eu», também ele pessoal e igualmente relacionado com o estado de solidão original, isto é, com todo aquele processo de estabilização da identidade humana relativamente ao conjunto dos seres vivos (animalia), enquanto é processo de «diferenciação» entre o homem e tal ambiente. Deste modo, o círculo da solidão do homem-pessoa quebra-se, porque o primeiro «homem» desperta do sono como «macho e fêmea».

4. A mulher é feita «com a costela» que Deus-Javé tirara ao homem. Considerando o modo arcaico, metafórico e imaginoso, de exprimir o pensamento, podemos estabelecer tratar-se aqui de homogeneidade de todo o ser de ambos; tal homogeneidade diz respeito sobretudo ao corpo, à estrutura somática, e é confirmada também pelas primeiras palavras do homem à mulher recém-criada: “Esta é realmente o osso dos meus ossos e a carne da minha carne” (Gên. 2,23)[11]. Apesar disso, as palavras citadas referem-se também à humanidade do homem-macho. Devem ler-se no contexto das afirmações feitas antes da criação da mulher, nas quais, embora não existindo ainda a «encarnação» do homem, ela é definida como «auxiliar semelhante a ele» (cf. Gên. 2,18 e 2,20)[12]. Assim pois, a mulher foi criada, em certo sentido, sobre a base da mesma humanidade. A homogeneidade somática, não obstante a diversidade da constituição ligada à diferença sexual, é tão evidente que o homem (macho), despertando do sono genético, a exprime imediatamente, ao dizer: “Esta é realmente osso dos meus ossos e carne da minha carne. Chamar-se-á mulher, visto ter sido tirada do homem”[13]. Deste modo, o homem (macho) manifesta pela primeira vez alegria e até exaltação, de que anteriormente não tinha motivo, por causa da falta de um ser semelhante a si. A alegria para o outro ser humano, para o segundo «eu», domina nas palavras do homem (macho) pronunciadas à vista da mulher (fêmea). Tudo isto ajuda a estabelecer o significado pleno da unidade original. Poucas são aqui as palavras, mas cada uma tem grande peso. Devemos portanto ter em conta — e fá-lo-emos em seguida — o fato de aquela primeira mulher, «criada com a costela tirada (…) ao homem» (macho), ser imediatamente aceita como auxiliar semelhante a ele.

A este mesmo tema, quer dizer, ao significado da unidade original do homem e da mulher na humanidade, voltaremos ainda na próxima meditação.

_________
NOTAS

1. Gên. 2,18.
2. Mt. 19,5.
3. Gên. 1,27.
4. Gên. 2,21-22.
5. O termo hebraico “‘adam” exprime o conceito coletivo da espécie humana, isto é, o homem que representa a humanidade (a Bíblia define o indivíduo usando a expressão «filho do homem», “ben-‘adam”). A contraposição “‘is”/”‘issa” sublinha a diversidade sexual (como em grego “anér”/”gyné”). Depois da criação da mulher, o texto bíblico continua a chamar ao primeiro homem “‘adam” (com o artigo definido), exprimindo assim a sua «personalidade corporal»), pois se tornou «pai da humanidade», seu progenitor e representante, como depois Abraão foi reconhecido como «pai dos crentes» e Jacó foi identificado com Israel-Povo Eleito.
6. Gên. 2,18.
7. Gên. 2,20.
8. Gên. 2,21-22.
9. O torpor de Adão (em hebraico “tardemah”) é um sono profundo (latim “sopor”; inglês “sleep”), em que o homem cai sem conhecimento ou sonhos (a Bíblia tem outro termo para definir o sonho: “halóm”; cf. Gên. 15,12; 1Sam. 26,12). Freud examina o conteúdo dos sonhos (latim “somnium”, inglês “dream”), que formando-se com elementos psíquicos «recalcados no subconsciente» permitem – segundo a sua teoria – fazer surgir deles os conteúdos incônscios, que seriam, em última análise, sempre sexuais. Esta ideia é naturalmente de todo alheia ao autor bíblico. Na teologia do autor javista, o torpor em que Deus fez cair o primeiro homem, sublinha a exclusividade da ação de Deus na obra da criação da mulher; o homem não teve nela nenhuma participação consciente. Deus serve-se da sua «costela» só para acentuar a natureza comum do homem e da mulher.
10. «Torpor» (“tardemah”) é o termo que aparece na Sagrada Escritura, quando durante o sono ou diretamente depois dele hão-de dar-se acontecimentos extraordinários (cf. Gên. 15,12; 1Sam. 26,12; Is. 29,10; Jó 4,13; 33,15). Os Setenta [LXX] traduzem “tardemah” por “ekstasis” (=”êxtase”). No Pentateuco “tardemah” aparece ainda uma vez em um contexto misterioso: Abraão, por ordem de Deus, preparou um sacrifício de animais, excluindo as aves de rapina. «Ao pôr do sol, apoderou-se dele um profundo sono (torpor); ao mesmo tempo sentiu-se apavorado e foi envolvido por densas trevas» (Gên. 15,12). Precisamente então começa Deus a falar e conclui com ele uma Aliança, que é o ponto mais alto da revelação comunicada a Abraão. Esta cena assemelha-se um tanto à do jardim de Getsemani: Jesus «começou a sentir pavor e a angustiar-se …» (Mc. 14,33) e encontrou os Apóstolos «a dormir, devido à tristeza» (Lc. 22,45). O autor bíblico admite no primeiro homem certo sentimento de carência e solidão («não é conveniente que o homem esteja só»; «não encontrou para si uma auxiliar adequada»); de carência e solidão, mas não de medo. Talvez esse estado provoque «um sono causado pela tristeza», ou talvez, como em Abraão, «por um pavor de não ser»; como no limiar da obra da Criação «a terra era informe e vazia. As trevas cobriam o abismo» (Gên. 1,2). Seja como for, segundo ambos os textos, em que o Pentateuco, ou melhor, o Livro do Gênesis, fala do sono profundo (“tardemah”), realiza-se uma especial ação divina, isto é, uma «aliança» cheia de consequências para toda a história da salvação: Adão dá início ao gênero humano, Abraão ao Povo Eleito.
11. É interessante notar que para os antigos sumérios, o sinal “aunei”, forma para indicar o substantivo «costela», era o mesmo que indicava a palavra «vida». Quanto, portanto, à narrativa javista, segundo certa interpretação de Gên. 2,21, Deus cobre a costela de carne (em vez de cicatrizar a carne no seu lugar) e deste modo «forma» a mulher, que tem origem da «carne e dos ossos» do primeiro homem (macho). Na linguagem bíblica esta é uma definição de consaguineidade ou incorporação na mesma descendência (por exemplo, cf. Gên. 29,14): a mulher pertence à mesma espécie do homem, distinguindo-se dos outros seres vivos anteriormente criados. Na antropologia bíblica os «ossos» exprimem um elemento importantíssimo do corpo; dado que para os Hebreus não havia distinção clara entre «corpo» e «alma» (o corpo era considerado como manifestação exterior da personalidade), os «ossos» significavam simplesmente, por sinédoque, o «ser» humano (cf., por exemplo, Sl. 139,15: «não te estavam escondidos os meus ossos»). Pode-se portanto entender «osso dos ossos», em sentido relacional, como o «ser vindo do ser»; «carne vinda da carne» significa que, havendo embora características físicas diversas, a mulher apresenta a mesma personalidade que o homem possui. No «canto nupcial» do primeiro homem, a expressão «osso dos ossos, carne da carne» é forma de superlativo, reforçado pela tríplice repetição: «esta», «ela», «a».
12. É difícil traduzir exatamente a expressão hebraica “cezes kenedô”, que é traduzida de maneiras diversas nas línguas europeias, por exemplo: latim: «adiutorium ei conveniens sicut oportebat iuxta eum»; alemão: «eine Hilfe …, die ihm entspricht»; francês: «égal vis-à-vis de lui»; italiano: «un aiuto che gli sia simile»; espanhol: «como él que le ayude»; inglês: «a helper fit for him»; polaco: «odopowicdnia alia niego pomoc». Como o termo «auxiliar» parece sugerir o conceito de «complementaridade» ou melhor de «correspondência exata», o termo «semelhante» relaciona-se sobretudo com o de «semelhança», mas em sentido diverso da semelhança do homem com Deus.
13. Gên. 2,23.

  • Fonte: Vaticano, audiência de 07.11.1979

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