Ciência e Fé

A anomalia abraâmica

– Como os hebreus da Antiguidade sabiam com certeza o que a ciência e o resto da humanidade demoraram 40 séculos para conhecer?

Em uma série de artigos que inicio aqui, proponho que a estranha afinação do Universo é coerente com as idéias judaico-cristãs da Criação, definidas a partir de Santo Agostinho de Hipona, mas cujos princípios remontam uns 4.000 anos antes, desde o tempo do patriarca Abraão e até mesmo antes.

A idéia não é provar que Deus existe. Deus pode provar sua própria existência através de sua manifestação misteriosa a cada ser humano. A experiência de Deus é pessoal e aqueles que decidem não crer na existência de Deus adotam um dos caminhos possíveis, justamente porque são livres para fazê-lo.

A aparente ausência de Deus no Universo nos dá a opção de crer ou não crer n’Ele. Se Deus se manifestasse na existência comum da humanidade e não estivesse “prima facie” oculto aos nossos sentidos, sua própria presença nos intimidaria e não seria possível deixar de crer n’Ele, tal como agora não é possível deixar de crer nos benefícios da respiração. Alguém é livre para não respirar, mas é óbvio que essa liberdade apenas pode ser exercida por um tempo limitado. Com Deus, ao contrário, a experiência pode ser postergada, justamente porque Deus não torna manifesta sua presença nem exige que alguém creia n’Ele. Deus não nos intimida a crer e sua aparente ausência nos permite a agir com liberdade.

No entanto, na concepção judaico-cristã do mundo, Deus não está ausente mas se manifesta de uma maneira indireta ou misteriosa. Quero empregar essa palavra em seu sentido arcaico de “mistério”, como se emprega, por exemplo, em “mistérios eleusicos”.

Por que Deus se manifesta de maneira misteriosa na concepção judaico-cristã do mundo? Antes de responder a essa pergunta, devemos fazer uma breve análise histórica das peculiaridades da religião original abraâmica, da qual se originaram tanto o Judaísmo quanto o Cristianismo. Esta religião, que conhecemos apenas pelos registros contidos na Bíblia e um pouquíssimo mais, é radicalmente diferente das outras religiões que lhe são contemporâneas. Não é propósito deste artigo apreciar estas crenças detalhadamente pois isto exigiria vários volumes. Desejo apenas apontar certas diferenças.

Na contramão de todas as religiões de sua época, a religião de Abraão é, em primeiro lugar, monoteísta. Deus é Uno e existe por seus próprios meios. Em contraste, as religiões do Crescente Fértil são desenvolvimentos de um animismo mais primitivo, que possui miríades de deuses maiores e menores, cada um com suas necessidades e fraquezas. Os deuses do mundo da Idade do Ferro são simplesmente como os seres humanos, com apenas uma única diferença: são imortais. No mais, são quase iguais aos seres humanos: têm violentas emoções, casam-se, possuem filhos, triunfam e fracassam, são enganados etc.

Uma das coisas que diferenciam o Deus de Abraão do restante do panteão caldaico-sumério é a sua própria natureza: é eterno, não tem princípio nem fim; não se limita a ser meramente imortal. Outra nota distintiva do Deus abraâmico é a sua versão da história da Criação: enquanto os demais deuses – todos, de um extremo a outro do mundo – criam o mundo a partir de algo (uma árvore, o mar, uma mulher, um dragão etc.), o Deus de Abraão começa “ex nihilo”: a partir do nada mais absoluto. O início do relato abraâmico da Criação é simples e direto: “Beresith barah Elohim…”, ou seja, “No princípio Deus criou…”; não há materiais para com eles construir, nem dragões, nem nada. Quando a luz faz falta, Deus simplesmente diz: “Faça-se”; e eis aí a luz.

Consideremos por um instante isto que é realmente sem igual. Da palavra de Deus são criadas todas as coisas. Os seres humanos de todos os tempos estão acostumados a enxergar um símbolo como representação de algo (p.ex., a palavra “luz”). Isto não mudou desde os primórdios dos tempos. Mas é simplesmente revolucionária a idéia, em uma era tão remotamente distante no tempo, que uma palavra possa existir antes do objeto que representa e ser a causa de tal objeto.

Quarenta séculos depois, descobrimos que uma palavra no código do DNA pode representar a diferença entre dois tipos de seres vivos. Imaginamo-nos em profundíssimas teorias ao limite da Matemática e da Física, que alguns diminutos detalhes denominados “strings” podem cumprir uma função comparável à do DNA na formação dos elementos básicos do Universo; uma ligeira diferença na vibração e, ao invés de chumbo, temos urânio. A relação palavra-realidade aparece na cíência de nossos dias como um eco distante da história da Criação relatada pelo Deus de Abraão.

Em pleno século XXI, poucos recordam o que a ciência afirmava há cerca de 100 anos atrás. Mas se pesquisarmos um pouco os livros de História observaremos que o mundo inteiro, Babilônia, Grécia, Roma e aqueles que os sucederam, todos acreditavam que o Universo simplesmente sempre tinha estado ali e que tudo estava ligado a ciclos sucessivos – a “anakuklosis”[1] -, os inevitáveis ciclos ou eras que dominavam a vida da humanidade. O povo de Abraão experimentou muitas transformações nos séculos que seguiram, no entanto nunca perdeu a crença na Criação a partir do nada, apesar do mundo inteiro pensar de outra maneira. Até o início do século XX, a crença em um Universo estável e permanente era aceita como algo evidente. Einsten, com toda a sua maravilhosa intuição, começou a sua vida crendo no Universo estável, mas já pelo tempo de sua morte as coisas começavam a mudar e o Deus de Abraão ia ser apontado, depois de ter sido ignorado por 40 séculos, neste assunto que aborda o princípio do Universo.

Em 1889, nascia Edwin Hubble, em Marshfiel, Webster County, Missouri (Estados Unidos). Em 1919, Hubble, que então fazia parte da equipe de astrônomos do Observatório de Monte Palomar, confirmou o que já se vinha suspeitando há alguns anos: que a Via Láctea não era o Universo inteiro e que o “gás interestelar” que se observava nos telescópios da época não era gás, mas conjuntos inteiros de galáxias. O Universo concedia à humanidade e à ciência outra lição de humildade. A Terra não era o centro do Universo; tampouco o Sol, a estrela mais próxima da Terra; tampouco a nossa galáxia era o Universo inteiro… era apenas uma galáxia no meio de incontáveis outras galáxias espalhadas na imensidão até onde os telescópios podiam enxergar.

Fazendo uso das descobertas de Christian Doppler, Hubble e seus colaboradores se dispuseram – sem saber – a nos dar outra colherada de humildade. Estabeleceram a correlação entre o espectro lumínico e a velocidade de afastamento de uma galáxia, o que, no seu tempo, mostrou-se consistente com as equações da Relatividade Geral definidas por Einsten, demonstrando que o nosso Universo se expandia à velocidade da luz em todas as direções, embora Einsten resistisse à idéia de que o Universo não era estável e tivesse acrescentado aos seus cálculos um “tensor”, uma variável que permitia o ajuste de certas anomalias que logo foram identificadas como resultantes da expansão isotrópica do Universo. Corria então o ano de 1929.

Esta confirmação de Hubble dava razão aos cálculos puramente matemáticos do Padre Georges Henri Joseph Édouard Lemaître, um sacerdote católico belga, descendente espiritual de Abraão e integrante da teimosa descendência do hebreu que acreditava na criação “ex nihilo”. Esse bom religioso católico também é considerado o “pai do Big Bang”, a teoria da Grande Explosão. Em 1927, publicava nos Anais da Sociedade Científica de Bruxelas o artigo “Un Univers homogène de masse constante et de rayon croissant rendant compte de la vitesse radiale des nébuleuses extragalactiques”[2]. Nesse relatório, o Padre Lemaître apresentava a idéia do Universo em expansão. Com o passar do tempo, completou a derivação matemática das primeiras observações de Hubble e sua equipe. Como a Bélgica é um país bem pequenino, pouquíssima gente ficou sabendo desta conclusão revolucionária do bom Padre Georges. Einsten, descendente genético de Abraão, que havia perdido a crença de seus ancestrais de quarenta séculos, resistia a acreditar em um Universo em expansão. Para entender o Universo, Einsten precisava ficar quieto e não agir até que ele acabasse de demonstrar como funcionava. Em bom francês, disse ao Padre Lemaître: “Vos calculs sont corrects, mais votre physique est abominable”[3]. Infelizmente para Einsten, o Padre estava certo. Enquanto eles conversavam amigavelmente sobre Física, um grupo de físicos e matemáticos, composto principalmente por franceses e alemães, começava a alargar as fronteiras da Relatividade Geral e ingressava no território selvagem e inexplorado da Física Quântica.

O Padre Lemaître faleceu em 1966, pouco após Penzias e Wilson descobrirem a tela de radiação de microondas que confirmava a explosão inicial do Big Bang, possibilitando calcular a idade do Universo em 15,5 bilhões de anos.

Com o passar do tempo, outros homens de ciência propuseram que toda a matéria do Universo tinha estado concentrada em um ponto milhões de vezes menor que o ponto final desta frase.

Esse ponto – dizem os astrofísicos de hoje – começou a se expandir de uma forma precisa e deliberada que permitiu o desenvolvimento de 17 constantes universais sem as quais o nosso Universo jamais poderia ter existido. Se apenas uma destas constantes fosse modificada em grau de 0,140, o Universo não poderia se sustentar. Para que isto resultasse assim, precisou ocorrer uma série de fatos particulares, que os cientistas denominam “singularidades”. Estas singularidades sugerem uma Vontade externa e anterior ao “continuum” do tempo-espaço (se é que podemos chamar “externo e anterior” a algo que “estava-está-estará” ali quando não existiam nem o tempo e nem o espaço propriamente ditos).

Roger Penrose e seu colega Stephen Hawking, ambos astrofísicos renomados, concluem que todas as singularidades indicam que existe “uma força que é prévia e independente ao Universo”. Acrescentam que “não se pode rejeitar a existência desta singularidade. A teoria é tão sólida que muitos astrofísicos já aceitam a conclusão metafísica: a necessidade de uma Criador, fora do espaço e do tempo”.

De toda esta série de singularidades, torno a me concentrar na única que foi revelada ao pastor “Avram”, a quem logo Deus lhe daria um novo nome: Abraão. Este personagem obscuro, filho do chefe de um clã de pastores-guerreiros que habitaram o Crescente Fértil próximo de Ur há quarenta séculos, já sabia que o Universo tinha começado do nada, que tudo tinha tido um princípio embora intuitivamente parecesse que nada mudava e tudo girava em ciclos que o homem podia observar. Este mesmo homem, um homem de ação na pré-história, sabia que Deus, o Criador de tudo – Ele que não tem princípio nem fim – de alguma maneira era externo e anterior à sua Criação.

Esse mesmo Deus prometeu a Abraão: “Farei tua descendência tão numerosa quanto as estrelas do céu”, promessa esta que ao pobre Abraão, de 90 anos, sem filhos e casado com uma senhora de 80 anos, podia parecer uma brincadeira de mau gosto. Mas acreditou e confiou em Deus. Acreditando ou não, mais da metade da população do mundo de hoje afirma crer no Deus de Abraão, a quem Deus chamou “Pai das Nações” há quarenta séculos. E o resto do mundo finalmente concorda com Abraão no sentido de que certamente houve um princípio e algumas das cabeças mais brilhantes deste planeta, estudando cuidadosamente o assunto, começam a vislumbrar a obra dessa Singularidade Absoluta que falou com Abraão há quarenta séculos em uma colina da Caldéia.

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NOTAS:

[1] Herman, Arthur. “La idea de decadencia en la historia occidental” (=A idéia de decadência na História Ocidental). Santiago do Chile: Ed. Andrés Bello, p.25 da edição castelhana. Do original “Original The Idea of Decline in Western History”, Simon & Schuster Inc., 1997.
[2] Um Universo homogêneo de massa constante e raio crescente resultante da velocidade radial das nebulosas extragaláticas.
[3] “Vossos cálculos são corretos, mas a vossa física é abominável”.


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