O que é autofagia? Todo mundo sabe. Algo como “quem come a se mesmo”. Mas tomemos o termo por “quem degenera a si mesmo”. É isso que a doutrina protestante faz: degenera a si mesma.

Antes do século XVI não existia protestantismo. John Wyclief e John Huss lançaram idéias que nortearam a doutrina protestante que viria adiante.

O monge agostiniano Martinho Lutero, após estudar as cartas de São Paulo, principalmente Romanos e Gálatas, chegou à resposta de seus massacrantes conflitos espirituais: somos salvos somente pela fé em Cristo, independente do nosso pecado. Além desta, outra atividade proporcionou a aparição de Lutero: a venda de indulgências. Lutero formulou 95 teses onde protesta contra o que acreditava ser a doutrina das indulgências. Se fixou-as na porta da Igreja de Wittenberg não é certeza, mas a partir desse momento histórico deu-se o que foi chamado erroneamente de “reforma protestante”.

O termo é impróprio porque se vamos reformar algum lugar, nossa casa por exemplo, não a reformaremos mudando para outra casa, mas a reformaremos mantendo-nos como moradores que esperam a casa ficar “reformada” para podermos nela voltar a morar bem, agora do jeito que se quer. Não foi isso que Lutero fez. Nem Lutero, nem Calvino, nem John Smith, nem nenhum outro fundador das diversas igrejas protestantes.

O melhor termo seria “revolução protestante” porque realmente assim foi caracterizada. Francisco de Assis, muito antes da reforma e Inácio de Loyola, entre vários outros, conseguiram reformar a Igreja sem “mudar de casa”.

Reformaram a que viviam. A Companhia de Jesus de Inácio de Loyola foi um dos pilares da reforma católica.

Lutero lançou doutrinas que foram aceitas por muitas pessoas, muitas mesmo, como a “verdadeira forma de vida cristã”. Entre eles citam-se a doutrina da Sola Fide e Sola Scriptura, onde, a partir daí, o protestantismo começou a degenerar. A doutrina anabatista, ainda vista por Lutero, seguia à risca o que entendia por Sola Scriptura. Tanto à risca que as doutrinas eram diferentes das que Lutero pregava. A revolta dos camponeses serviu para mostrar o perigo que a interpretação pessoal da bíblia representa para o cristianismo. Nunca se viu tal coisa no catolicismo.

Pelas cisões constantes no corpo das igrejas protestantes o Evangelho também foi dividido. As doutrinas “verdadeiras” para uma igreja não necessariamente a são para a igreja mais próxima. Mas ambas ainda defendem que as denominações do protestantismo formam uma igreja “invisível” onde existem diferenças mas a crença em Jesus Cristo como Senhor e Salvador as une. Ora, alguma coisa está errada. Uma igreja crê que é bíblico batizar crianças e outra igreja diz que não é bíblico. Não ser bíblico é dizer que é contra a Palavra de Deus. Ser contra a Palavra de Deus é o mesmo que ser contra Deus. Logo uma das igrejas, nesse ponto, é contrário ao que Deus coloca em Sua Palavra, portanto há uma falha nessa “unidade invisível” proposta pelo protestantismo que nem eles mesmos sabem explicar. Mas para ambas, as duas são parte da mesma igreja de Jesus. Não há algo errado?

Pedro em uma de suas cartas diz que nenhuma profecia da escritura é de interpretação pessoal. Apesar das negações das igrejas protestantes, muitas de suas doutrinas são fruto de uma pura interpretação pessoal de seu fundador, ou imitação da interpretação pessoal da que fundou uma outra igreja. No fundo, no fundo, as doutrinas protestantes contrárias à católica são todas fruto de interpretações pessoais de pessoas que não possuem a autoridade para tal. E a doutrina católica? Foi fruto de uma interpretação pessoal de alguém: algum papa ou teólogo, dos padres da Igreja, alguém pegou sua bíblia e fixou no quê os católicos iriam crer. Isso não é interpretação pessoal??. Não. A Igreja é a possuidora da verdade, e como tal ela deve extrair das Escrituras o que é a verdade. Pedro recebeu uma ordem de Jesus, muito clara por sinal: “Pedro, confirma teus irmãos”. Ora, Pedro era pescador. E, a não ser que os pescadores judeus eram peritos em exegese, Jesus deveria dar algum apoio para que Pedro, aliado aos demais apóstolos, entendessem bem as escrituras ao ponto de, do que eles entendessem, confirmassem os demais. Isto Jesus disse como faria: “O Espírito Santo mostrará toda a verdade”. Ora. O depósito da fé é passado pelos apóstolos aos bispos, que são seus sucessores, pelo sacramento da ordem. É por causa disto que os bispos e os padres da Igreja Católica tiveram autoridade para formular as doutrinas da Igreja que conhecemos hoje. Os fundadores das igrejas protestantes não possuem nada parecido.

Recentemente um pastor evangélico frisou que nenhuma profecia da Escritura é de interpretação pessoal. Entretanto Lutero adotou o princípio do livre exame para que qualquer pessoa possa desfrutar de sua própria interpretação bíblica, claro que cada interpretação é fortemente iluminada pelo Espírito Santo, até aquela interpretação santa de que Jesus não é Deus adotada por algumas seitas que têm a mesma bíblia como “única regra de fé e prática”.

Pois bem. Esse pastor é da Assembléia de Deus e, por exemplo, não crê na real presença de Jesus na eucaristia. Esta doutrina é “bíblica” (apesar de a bíblia mostrar que “este é o meu corpo”). Já algum protestante luterano que creia que Jesus está realmente presente na eucaristia também adota como bíblica essa doutrina. Imaginem o corpo de Cristo “invisível dessa maneira”. Para esconder as feridas destas divisões, só sendo invisível mesmo. Voltando. Os dois, de posse em seus “livres exames” crêem em coisas diferentes. Mas dizem que fazem parte da mesma igreja. Como pode? Se o que une a Igreja invisível dos protestantes é a crença em Jesus então qual é o Jesus? É o que está ou não está na eucaristia? Se é o que está, como fica o lado que crê o contrário e vice-versa?

Hoje no Brasil o protestantismo cresce em número em forma muita rápida, mas ainda possuem pequena parcela na população brasileira. A avidez proselitista do protestantismo faz com que muitas piorem a situação destas que se degeneram cada vez mais. Hoje as igrejas pentecostais falam o que o povo QUER ouvir, e não o que o povo DEVE ouvir. Claro que não é sempre assim. Mas quando o assunto é céu, inferno, e, principalmente, dinheiro, aí é uma festa. A teologia da prosperidade prospera nesse meio, que arruína não com os donos de igrejas, cada vez mais ricos, mas com a doutrina de Cristo que diz “buscai as coisas do alto”. O número de protestantes pouco importa aos católicos, se crescem ou deixam de crescer. As conversões na Igreja Católica ocorrem de forma diferente: conversões dentro dela mesma. São pessoas que antes eram nada em matéria religiosa, cumpridoras de tabela, ocupadoras de banco de igreja, e passaram a ser adoradores do Deus verdadeiro, Senhor e Salvador.

Hoje a Igreja Católica é atacada e ridicularizada por acusações das igrejas protestantes, que, aliás, as fazem em raros momentos de união de forças. Todas as igrejas protestantes contra a Igreja Católica. E Igrejas protestantes contra Igrejas Protestantes. É uma verdadeira autofagia protestante. Não vejo tal coisa na Igreja Católica, considerada por muitos como “sinagogas de satanás”.

Jesus quer que sejamos um. E o que se entende por “que sejam um”? devemos fosforilar muito? Claro que não. “Uma só fé, um só batismo, um só pastor”.

A “igreja invisível” dos protestantes não possuem uma só fé, nem um só batismo, nem um só pastor. As doutrinas protestantes são diversas. Convergem em alguns pontos mas divergem totalmente em outros. Não há uma só fé enquanto o livre exame assim permitir. “Mas cremos que Jesus é o salvador”. Isto pode ser prova de uma só fé? Pode, claro, mas só e somente só nisso crerem as igrejas protestantes. O batismo é necessário à salvação “Sim ou não”. Se o protestantismo estivesse sob uma única fé ouviríamos um sonoro “sim” ou “não”. Mas o que ouvimos? “sim” dizem umas, “não” dizem outras. Não há uma só fé. Nesse caso há duas… deve haver também um só batismo: o do Espírito Santo. No protestantismo, pelo que aparenta, o fiel deve se batizar de novo se de onde vem a igreja não possui relações muito amigáveis. Mas o batismo é feito em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e não em nome da Igreja Católica ou da igreja batista ou da IURD.

Longe também estão de ter um só pastor. Basta ver que as igrejas protestantes já não tem mas nem chefe, mas “presidente”. As “convenções” de igrejas evangélicas reúnem os líderes das igrejas para discutirem assuntos de interesse comum.

Opa! Líderes de igrejas? Nunca ouvi um Concílio Católico reunir líderes de igrejas católicas espalhadas pelo mundo. Reúnem os bispos, que são os chefes locais da Igreja Romana, que possui um só pastor: o Papa. Quem é o papa protestante? No passado Calvino era considerado tal. O rei da Inglaterra (no nosso tempo, a rainha) é o chefe da Igreja no País. Em nas demais localidades?

Pode uma pastor de uma igreja batista se meter a chefiar a igreja batista da próxima esquina? Não, não pode. Não há um só pastor.

Diante de tudo isto vemos que o culto evangélico cresce a cada dia no Brasil. Que o povo mais católico do mundo está cada ano menor. Mas, imaginando um país de maioria protestante, principalmente pentecostal fundamentalista, não consigo pensar noutra coisa a não ser numa enorme torre de Babel, onde dois não se sentam para conversar sobre doutrina, mas apenas sobre assuntos fraternais. Com certeza o mosaico protestante que está se tornando favorece cada vez mais cenas de autofagia. A autofagia protestante.

Aquele que quer vingar-se encontrará a vingança do Senhor, o qual tirará exata conta de seus pecados” (Sab 28,1)

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