INTRODUÇÃO

Começa a Epístola aos Hebreus com esta frase lapidar:

“Havendo Deus outrora falado aos pais pelos profetas, muitas vezes e de muitos modos, ultimamente, nestes dias, falou-nos pelo Filho, que constituiu herdeiro de tudo, por quem igualmente criou o mundo”.

Assim São Paulo nos exprime, como pouco a pouco, por muitos séculos, pelos patriarcas e os profetas, a Luz da revelação foi dada ao mundo em raios sempre mais claros, até que finalmente no Verbo de Deus encarnado apareceu a própria plenitude de Luz.

No Antigo Testamento viveram na esperança da promessa e o Novo Testamento trouxe toda a realidade, a “Imagem visível do Deus invisível” (Colossenses 1,15), Cristo, o Filho de Deus feito homem. E Jesus mesmo afirma que “Ele revelou tudo o que ouviu de seu Pai” (João 15,15). Aos Apóstolos, o divino Mestre ainda promete o Espírito da Verdade, a fim de abrir-lhes o entendimento do que não puderam compreender e para completar a sua revelação, ensinando-lhes TODA a verdade. Jesus frisa, entretanto:

“Ele me glorificará porque receberá do que é meu e vo-lo comunicará. Tudo o que o Pai tem é meu. Por isso eu vos disse que Ele receberá do que é meu e vo-lo comunicará” (João 16,12-15; cf. 14,26). “Mas o Paráclito, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, Ele vos ensinará todas as coisas e vos recordará tudo o que vos tenho dito”.

Já que Jesus completa e consuma a revelação da Lei e dos profetas, que não foram senão pedagogos para Cristo (Gálatas 3,24), e o Espírito Santo só esclarece e ensina esta plenitude vinda no Filho de Deus, o Evangelho pôde proclamar:

“Unus est magister vester: Christus” (“Um só é vosso mestre: Cristo”) cf. Mateus 23,10.

É Ele, no dizer do Apocalipse (1,5), “a testemunha fiel” que diante de Pilatos, à face da morte, proclamava em alto e bom som:

“Eu para isto nasci e para isto vim ao mundo: para dar testemunho da verdade; todo o que for da verdade ouve a minha voz” (João 18,37).

Surge daí a pergunta gravíssima para todo cristão: onde e como posso ouvir a voz de Cristo? “Qual é a fonte, o foco de luz que nos transmite a plenitude da verdade de Cristo?” Todos os que crêem dentro e fora da Igreja concordam numa resposta: que na Bíblia do Antigo e do Novo Testamento possuímos Livros Sagrados que têm o próprio Deus como Autor, porque nos apresentam a Palavra inspirada por Ele.

Como, entretanto, podemos saber isso? Quem nos garante que este e aquele Livro é inspirado por Deus? É, enfim, a pergunta do nosso tema: é a Bíblia a única fonte de revelação?

Para respondermos a esta questão fundamental do Cristianismo, vejamos três coisas:

1) Qual é o meio que Cristo usou e instituiu para nos transmitir a plenitude de sua verdade.

2) Qual é o meio que os Apóstolos usaram a fim de transmitir a verdade de Cristo.

3) Qual é o meio que nos garante a inspiração divina da Bíblica, sobretudo no Novo Testamento.

1. O QUE CRISTO FEZ PARA NOS TRANSMITIR A SUA VERDADE

a) Cristo pregou a Palavra de Deus

Poderia parecer o meio mais fácil, certo e seguro para nos transmitir toda a Verdade se o próprio Verbo Encarnado com as suas mãos divinas tivesse escrito em um Livro Sagrado todos os seus ensinamento, diz endo aos seus seguidores: “Quem ler e crer nestas minhas palavras escritas, será salvo e quem não as ler e crer, será condenado”.

Mas a Sabedoria Divina, visivelmente aparecida em Cristo Nosso Senhor, de fato não procedeu assim. O Evangelho não nos relata senão sinais que escreveu na areia, com o seu dedo, a fim de confundir os seus inimigos, quando acusavam a mulher adúltera. Mas não há notícia alguma de que tenha deixado o menor documento escrito, algum livro ou carta.

Entretanto, Ele andou incansavelmente pela terra de Israel, pregando a Boa Nova do Reino de Deus. De mãos largas, semeou a Palavra de Deus sobre qualquer terra: sobre a beira da estrada, no pedregulho, por entre espinhos, mas também sobre terra boa, para que desse fruto cem por um (Mateus 13,3-23). De preferência, pregava ao povo humilde, pobre e aflito, aos pequenos sitiantes da Galiléia, tão oprimidos pelos grandes senhores, aos simples pescadores do lago de Genesaré, aos pastores da Judéia, a esta plebe desprezada pelos fariseus ricos e orgulhosos.

Para este povo pisado e acabrunhado, Jesus proclamou as bem-aventuranças. Era esta a terra boa para a semente da Palavra de Deus. Nada, porém, teria adiantado para essa classe ínfima, amldiçoada pelos doutores – porque “ignorante da Lei” (João 7,50) – se o Filho de Deus tivesse consignado a sua Sabedoria Divina em algum Livro.

b) Cristo preparou pregadores da Palavra de Deus

Objetará alguém: Não se deveria então perder a Palavra de Deus falada aos quatro ventos?

Jesus ainda fez uma dupla escolha: entre a massa do povo selecionou uns discípulos que sempre o seguiam e que pela repetição poderiam gravar na memória as suas doutrinas; e entre o grande número de discípulos escolheu doze Apóstolos. Diz São Marcos:

“E fez com que os Doze estivessem com Ele, para os enviar também a pregar” (Marcos 3,13-14)

Jesus os instruiu e educou de modo especial, explicando-lhes as parábolas que aos outros não era dado conhecer, dando-lhes instruções sobre o Reino de Deus. E até fez com que praticassem um tanto a vida apostólica, dando-lhes poder sobre os demônios e para “curar toda a doença e toda enfermidade” (Marcos 10,1), e mandando-os “dois a dois adiante de si, por todas as cidades e lugares para onde ele tinha de ir” (Lucas 10,1).

E foi para este mesmo povo humilde e pobre que Jesus os mandava. Quando uma vez os discípulos voltaram alegres de uma excursão missionária, relatando: “Senhor, até os demônios se nos submetem em teu nome”, Jesus exultou em espírito, prorrompendo nas palavras memoráveis:

“Graças te dou, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado. Todas as coisas me foram entregues por meu Pai e ninguém sabe quem é o Filho senão o Pai; nem quem é o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Lucas 10,21-22; Mateus 11,25-27).

Assim, percebemos que os discípulos e especialmente os Doze Apóstolos passaram por uma verdadeira escola – digamos teórica e prática – para a formação dos pregadores.

c) Cristo deu aos Apóstolos a missão de pregar

Depois da sua ressurreição, terminada a sua obra de Redenção aqui na terra, Jesus transmitiu a sua missão que recebera do Pai aos seus Apóstolos. São João nos conservou aquelas palavras:

“Assim como o Pai me enviou, Eu vos envio” (João 20,21).

Esta missão abrangia o tríplice múnus do sacerdote, pastor e mestre. Aqui nos interessa especialmente a missão do magistério. Em São Lucas já encontramos aquele texto semelhante, em que Jesus transfere aos Apóstolos a sua autoridade de Mestre:

“Quem vos ouvir, ouve a Mim; e quem vos desprezar, despreza a Mim. Quem, porém, me desprezar, despreza Aquele que me enviou” [Lucas 10,16].

É uma autoridade inaudita que se atribui a estes rudes pescadores. Eles terão a mesma missão que Ele recebeu do Pai. Mas como poderão garantir estes homens ignorantes a plenitude da Verdade de Cristo, sem falsificação ou mistura de erro? Como já vimos, pela jubilosa exclamação de Jesus por ocasião da volta dos discípulos, Ele não se baseia na sabedoria humana, mas na Luz divina dada aos pequeninos. São João nos relata que o divino Mestre, nos sermões de despedida antes da Paixão e Morte, expressamente prometeu aos Apóstolos o Espírito Santo, para o exercício de seu magistério:

“Quando vier o Paráclito que eu vos enviarei do Pai, o Espírito da Verdade, o qual procede do Pai, ele dará testemunho de Mim. Também vós dareis testemunho porque estais comigo desde o princípio” (João 15,26-27).

E este Espírito da verdade ficará com o Colégio Apostólico “para sempre” como advogado e assistente “para ensinar tudo e sugerir tudo o que ouviram de Jesus” (João 14,16.18-26).

São Lucas nos registrou, no começo dos Atos dos Apóstolos, uma missão dada aos Doze antes da Ascenção, precisamente nesta terminologia de São João:

“Recebereis a força do Espírito Santo, que descerá sobre vós e sereis minhas testemunhas em Jerusalém e em toda a Judéia e Samaria, até aos confins da terra” [Atos 1,8].

Esta frase é como o esquema de todo o seu livro em que ele mostra como os Apóstolos cumpriram esta missão. Jesus viera a este mundo para dar testemunho à verdade, como “testemunha fiel” (Apocalipse 1,5), e agora lhes transmite esta sua missão, prometendo-lhes o Espírito da Verdade a fim de garantir a fidelidade do testemunho.

São Marcos, no fim do seu Evangelho, também nos conservou a última ordem de Cristo, antes da Ascensão, diversa nos termos, porém idêntica no sentido:

“Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer, será condenado” [Marcos 16,15-16].

Segundo estas palavras, doravante será a pregação dos Apóstolos a lei obrigatória de que dependerá a salvação ou condenação de toda criatura, isto é, de todos os homens. Segue daí que estes homens simples ficarão munidos de uma autoridade divina para ensinar, autoridade essa que deve ser a do próprio Cristo, como diziam os Evangelhos de São João e de São Lucas.

Mais explícito ainda é o grandioso final do Evangelho de São Mateus, de que dizia Harnack:

“Coisa maior e mais não se pode dizer em quarenta palavras: ‘Foi-me dado todo o poder no céu e na terra. Ide, pois, e ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo; instruindo-as a observar tudo o que vos tenho mandado. E eis que estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos”.

Como o Mestre andara pela terra de Israel fazendo discípulos, agora os seus enviados – os Apóstolos – deverão andar pelo mundo inteiro “fazendo discípulos a todos os povos”. É esta a expressão que Jesus emprega no texto grego.

Para esta missão, que humanamente ultrapassava as forças destes homens mesquinhos e rudes, o Homem-Deus lhes entrega a plenitude do seu poder e ainda lhes promete estar com eles até o fim do mundo. Assim, Ele perpetua o seu magistério divino por intermédio dos seus enviados. Eis o veículo da sua Verdade revelada, instituído por Nosso Senhor no Evangelho. É importante notarmos que não há nenhuma ordem de escrever; só de pregar. Ele não diz: “Sentai-vos e escrevei a todos os povos”, mas “ide e pregai”. A Palavra de Deus é espírito e vida que não podia prender-se à letra morta. É a palavra viva e quente de convicção e amor que vai de alma para alma, de coração para coração. Sobretudo, a ordem de evangelizar a todos os povos demonstra a Escritura como meio completamente insuficiente para a catequese apostólica. Quantos seriam os letrados que poderiam ler entre todos os povos da terra? E não era aos sábios e entendidos, mas aos pequeninos, que se destinava o Evangelho de Cristo. Também São Paulo diz aos coríntios:

“Vede, pois, irmãos, a vossa vocação, que nela não há muitos sábios segundo a carne, não há muitos poderosos, não há muitos nobres. Mas o que é insensato segundo o mundo, Deus o escolheu para confundir os fortes e o que é vil e desprezível ao mundo, Deus o escolheu, e aquelas coisas que não são, para destruir as que são, para que ninguém se glorie na sua presença” (1Coríntios 1,26-28).

d) Conclusão

É, portanto, mais claro do que a luz do sol:

O meio que Cristo usou para transmitir a sua Verdade é a pregação oral e o meio que instituiu para transmiti-la a todos os povos é, outra vez, a pregação oral dos seus enviados, munidos com seus poderes e a assistência segura e infalível do Espírito da Verdade.

2. O QUE FIZERAM OS APÓSTOLOS PARA TRANSMITIR A VERDADE DE CRISTO

a) Os Apóstolos cumprem a missão de Cristo

Qual o meio que os Apóstolos usaram a fim de transmitir a Verdade de Cristo?

Os Apóstolos cumprem a missão recebida. O Espírito Santo desceu sobre eles como um vento impetuoso e em línguas de fogo; e eis que “começaram a falar em várias línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem” (Atos 2,1-4).

Dos primeiros anos da Igreja primitiva não existe nenhum escrito apostólico. De 13 Apóstolos, 7 não escreveram palavra alguma, mas todos foram peregrinando pelo mundo até os confins da terra, a fim de dar testemunho de Cristo e de seu Reino. São Paulo leva o facho luminoso da fé pelas cidades conhecidas do Império Romano. E só no ano 51 escreve aos Tessalonicenses as suas duas primeiras breves epístolas de conforto e animação para a fé que plantara por pregação oral.

b) Os Apóstolos consideram a tradição oral fonte primária da revelação

Na segunda epístola, o Apóstolo dá como regra:

“Assim, pois, irmãos, estai firmes e conservai as TRADIÇÕES que aprendestes, seja por PALAVRA, seja por carta nossa” (2Tessalonicenses 2,15).

E na sua última epístola, que escreveu a Timóteo 1 ano antes de seu martírio, recomenda a seu discípulo predileto conservar com fidelidade e exatidão, como verdade revelada, mais que tudo seu testemunho oral:

“Guarda a forma das sãs palavras que de mim OUVISTE na fé e no amor em Jesus Cristo. Guarda o bom depósito pelo Espírito Santo, que habita em nós”[2Timóteo 1,13].

Manda o Apóstolo, além disso, que essa tradição oral seja transmitida avante por homens que mereçam confiança:

“O que OUVISTE de mim por muitas testemunhas, confia-o a homens fiéis, que sejam também capazes de instruir a outros” (2Timóteo 2,2).

Na Epístola aos Romanos, pergunta:

“Como crerão naquele de quem não OUVIRAM? E como OUVIRÃO sem se PREGAR? E como PREGARÃO se não forem enviados” [Romanos 10,14].

E mais abaixo responde:

“A fé vem da AUDIÇÃO e a audição da Palavra de Cristo. Mas pergunto: acaso eles não OUVIRAM? Por certo que sim. Por toda a terra correu a sua voz e até os confins do mundo as suas palavras” [Romanos 10,17].

É a voz e a palavra de Cristo que, por intermédio dos Apóstolos, correm por toda a terra. Quem ouve e crê é salvo; e quem não ouve e não crê, é condenado. É o MESMO meio estabelecido por Cristo Nosso Senhor no Evangelho.

Na Epístola aos Gálatas, declara o caráter definitivo desta sua pregação que, portanto, deve ser fonte de fé. Ele excomunga pelo anátema todo aquele que venha pregar outro Evangelho (Gálatas 1,6-10). Logo depois, faz explicitamente a apologia do seu apostolado (1,11-24), pelo qual transmitira oralmente a Tradição Apostólica. Com o apostolado e com a identidade do Evangelho pregado pelos outros Apóstolos (2,1-21), comprova a autoridade de sua pregação. É o mesmo processo seguido nas duas Epístolas aos Coríntios. Ele se baseia na Autoridade Apostólica e divina com que transmitiu a doutrina pela tradição oral, sem aludir a escritos e documentos. Se estes fossem a única fonte de fé, ele deveria estribar-se exclusivamente neles. Nota-se, pelo contrário, que ele só resume a doutrina que já lhes tinha ensinado oralmente, assim quanto à Eucaristia (1Coríntios 11,17-34) e à ressurreição:

“Eu vos lembro, irmãos, o Evangelho que vos preguei, o qual também recebestes e no qual estais firmes, e pelo qual sois salvos, se todavia o conservais como vo-lo PREGUEI, salvo se crestes em vão. Porque eu vos entreguei primeiramente o que havia recebido…” (1Coríntios 15,1-3).

Na 2ª Epístola aos Tessalonicenses, repetidas vezes alude à doutrina que transmitiu oralmente. Admira-se de que tenha sido esquecida a ponto de não tirarem dela as conseqüências que as condições exigem:

“Não vos lembrais de que vos DIZIA estas coisas quando estava ainda convosco?” (2Tessalonicenses 2,5).

O resumo ligeiro de doutrina feito nestas epístolas é uma repetição sumária da Tradição oral que de forma alguma pode ser substituída como fonte de fé verdadeira e divina.

Também São João, nas suas Epístolas, alude à pregação oral feita às igrejas por ele fundadas, dizendo que lhes escreve para completar sua alegria (1João 1,1-4) e, depois, gravemente adverte:

“O que OUVISTES desde o princípio permaneça em vós. Se permanecer em vós o que OUVISTES desde o princípio, permanecereis também vós no Filho e no Pai” (1João 2,24; cfr. 2João 1,6).

Na 2ª e na 3ª Epístolas, que são muito curtinhas, São João diz expressamente que prefere “falar face a face” a escrever em papel “com tinta e pena” (2João 1,12 e 3João 1,13).

Em todas essas passagens transparece claramente a importância relevante que davam à transmissão oral da revelação, à Tradição Apostólica. Mal aludem a escritos do Novo Testamento. São Lucas, nos Atos dos Apóstolos, do começo até o fim nos mostra que as igrejas são fundadas pela transmissão oral das verdades reveladas. E em parte alguma vemos os Apóstolos entregarem documentos escritos às igrejas a fim de testemunhar a fé. O que fazem é pregar, nomear testemunhas idôneas a quem transmitem pela imposição das mãos os poderes transmissíveis do apostolado doutrinal na medida que julgam conveniente, impondo a estas testemunhas o dever de passar adiante, pura e límpida, a Tradição Apostólica.

c) Os Evangelhos não pretendem ser completos

Nem os próprios Evangelhos, que se apresentam como escritos mais independentes de alguma ocasião especial, revelam nenhuma pretensão de expor a doutrina completa da revelação de Cristo. Pelo simples fato de sua multiplicidade e pelas numerosas doutrinas que a eles acrescem depois nas Epístolas Paulinas e Católicas, evidenciam-se como incompletos.

São João afirma explicitamente, no final do seu Evangelho, tratar-se apenas de uma resumida resenha das palavras e feitos de Nosso Senhor, muito distante de ser completo:

– “Em verdade, ainda outros muitos sinais fez Jesus, na presença de seus discípulos, que não estão escritos neste livro” (João 20,30).

– “Há, porém, muitas outras coisas que Jesus fez. Se elas fossem escritas uma por uma, cuido que nem o próprio mundo poderia conter os livros que deveriam ser escritos” (João 21,25).

d) Os três “Sinóticos” são resumos da catequese oral para determinado fim

Os Evangelhos de São Mateus, São Marcos e São Lucas, segundo o testemunho de Santo Ireneu, oferecem uma recordação da catequese apostólica, mas todos escolhem o assunto com uma finalidade particular:

– São Mateus escreve a primeira apologia cristã, provando aos judeus que Jesus é o verdadeiro Messias e que, por causa da incredulidade do povo eleito, o Reino de Deus passa aos gentios.

– São Marcos fez uma recordação da catequese de São Pedro com o fito especial de provar aos pagãos a divindade de Cristo.

– São Lucas, companheiro de São Paulo, e que não conheceu a Jesus, baseia-se nos testemunhos orais e escritos que lhe foram acessíveis.

A comparação destes três Evangelhos, chamados “sinóticos”, apresentam um problema todo peculiar. Na estrutura, no plano geral e nas diversas partes, mostram semelhanças inegáveis, de modo que fazem supor, à primeira vista, uma mútua dependência. De outro lado, porém, há diferenças tão consideráveis que excluem a hipótese de um ter copiado do outro.

A escola exegética denominada “Formgeschicte”, talvez a mais moderna, formada por racionalistas protestantes, procura compreender este fenômeno pelo estudo da forma literária que se teria originado precisamente por um determinado método de tradição oral em uso entre os rabinos judaicos daquele tempo. Eles não escreviam as suas doutrinas, mas procuravam gravá-las na memória dos alunos pela tradição oral, usando de certas técnicas de associação de palavras e idéias que serviam de lembretes. Nos Evangelhos, de fato, podemos observar processos semelhantes e estudos recentes confirmam sempre mais esta observação.

Os exegetas desta escola partem do fato de que entre a morte de Jesus e a redação do primeiro Evangelho escrito, no mínimo se entrepõe o espaço de 30 anos. Pretendem então estudar esta Tradição prévia evangélica por meio das formas literárias, considerando o próprio Evangelho como fruto da Tradição fixada pela comunidade. A fonte comum dos três sinóticos seria, portanto, a forma da Tradição oral que explicaria ao mesmo tempo a semelhança como a diferença nos diversos textos. Reconhecem abertamente que foi um erro da Reforma Protestante esquecer-se do fato de que a Tradição [oral] precedeu a Escritura.

É pena que caíram em novo erro, atribuindo à comunidade uma função criadora de doutrinas e lendas. Todo o Novo Testamento, no entanto, protesta contra semelhante imputação. Pois são os Apóstolos, enviados de Cristo, ou posteriormente os enviados pelos Apóstolos em nome de Cristo que, assistidos pelo Espírito Santo, foram as testemunhas responsáveis pela doutrina recebida do Divino Mestre. Ainda que a forma pudesse variar, não podiam tolerar a mínima falsificação do depósito de fé. Límpida e pura eles tinham que transmitir a doutrina de Cristo às almas vivas que compunham a Igreja Santa. Como, por exemplo, São João, o discípulo do amor, se torna duro como aço quando se trata de defender a pureza da doutrina:

“Todo o que se apartar e não permanecer na doutrina, não tem a Deus; o que permanecer na doutrina, este tem o Pai e o Filho. Se alguém vier a vós e não trouxer esta doutrina, não o recebais em vossa casa, nem o saudeis, porque quem o saúda toma parte em suas obras más” (João 2,9-11).

e) Conclusão

Este depósito da fé, transmitido pela pregação oral garantida pelo Espírito Santo, é a fonte primária da fé cristã instituída expressamente por Jesus Cristo, usada e defendida pelos Apóstolos. É o que chamamos TRADIÇÃO ORAL divino-apostólica. Esta fonte de revelação é ANTERIOR à Escritura do Novo Testamento. Nos primeiros decênios da Igreja primitiva, foi ela a ÚNICA existente e PLENAMENTE suficiente para nos transmitir a plenitude da Verdade de Cristo.

Com esta conclusão, respondemos à pergunta formulada no título do nosso tema: a Bíblia NÃO É a única fonte de revelação, NEM a fonte primária.

3. SÓ A TRADIÇÃO ORAL GARANTE A INSPIRAÇÃO DO NOVO TESTAMENTO

a) Diferença entre um escrito da Tradição Apostólica e um Livro Inspirado

A nossa resposta parece puramente negativa com respeito à Bíblia; contém, entretanto, uma importante asserção afirmativa que supusemos desde o começo: a Bíblia é VERDADEIRA fonte de inspiração. O que nós negamos é que somente ela seja a única ou a primária.

O mero fato de que os escritos canônicos do Novo Testamento têm como autores ou a um Apóstolo ou algum discípulo e companheiro apostólico como São Marcos e São Lucas, daria a eles uma autoridade peculiar dentro da Tradição divino-apostólica. Pois os Apóstolos ou os seus discípulos seriam as testemunhas imediatas do depósito da fé transmitido pela sua pregação oral. E os seus escritos seriam monumentos deste testemunho. É neste sentido que poderíamos interpretar a exortação de São Paulo na 2ª Epístola aos Tessalonicenses:

“Assim, pois, irmãos, estai firmes e conservai as TRADIÇÕES que aprendestes, seja por palavra, seja por CARTA nossa” (2Tessalonicenses 2,15).

Mas, quando falamos da Sagrada Escritura do Antigo e do Novo Testamento, a fé cristã afirma muito mais. Estes Livros Sagrados não somente contêm a doutrina revelada, mas são positivamente inspirados por Deus.

O dogma da inspiração nos dá certeza sobre um influxo divino tal que torna os autores humanos instrumentos divinos e o próprio Deus verdadeiro autor principal, plenamente responsável por toda redação desses livros. A palavra bíblica, apesar de que tenha a forma humana, condicionada pelo individualismo do instrumento humano, uma forma humana, condicionada ainda pelo tempo e o meio social em que vivem os leitores a que se destina o respectivo escrito, esta palavra bíblica, porém, não é mera palavra humana, é palavra verdadeiramente divina. Podemos dizer que foi Deus quem escreveu esta palavra aos homens.

E agora focalizemos bem a diferença de um suposto monumento escrito da Tradição divino-apostólica. Se os Apóstolos, por sua autoridade recebida por Cristo, resolvessem fixar em um só escrito todo o depósito da fé, eles teriam certamente para isso a assistência do Espírito Santo que os preservava de todo erro, mas seriam eles os verdadeiros autores principais, responsáveis pelo que escreveriam. Não seria Deus quem escreveria todo aquele livro; seria o Apóstolo com uma assistência negativa que impediria a falsificação e deturpação da doutrina. Por esta comparação fica bem claro que a Escritura, apesar de não ser a única nem a primária fonte de revelação no Novo Testamento, ela possui uma autoridade superior à Tradição neste sentido, porque só ela contém a Palavra positivamente inspirada por Deus. Mas de onde nos provém a revelação, desse dogma da inspiração da Escritura? Pois é só Deus quem nos sabe dizer se Ele exerceu no escrito sacro aquele influxo positivo, assumindo toda a autoridade principal e plena responsabilidade pela redação do livro. Ninguém pode supor este fato sem revelação.

b) A Igreja Católica defende a Bíblia pela Tradição

Para os livros do Antigo Testamento não pode haver dúvida porque Cristo e os Apóstolos reconhecem para eles o dogma da inspiração divina, reconhecido entre todos os judeus. Mas os escritos do Novo Testamento também terão esta mesma autoria divina? E aqui devemos ressaltar que não há nenhum texto bíblico que nos revele a inspiração dos escritos do Novo Testamento. Há uma referência muito vaga da 2ª Epístola de São Pedro às cartas de São Paulo, comparando-as com “as demais Escrituras” (2Pedro 3,16), mas nada daí se pode provar. E como saberíamos qual é o cânon completo, isto é, a lista dos livros inspirados por Deus? É só a Tradição oral divino-apostólica que nos dá a certeza de fé sobre este dogma básico da Escritura do Novo Testamento. Foi esta primária fonte de revelação que depôs nas mãos da Igreja o tesouro da Palavra inspirada e foi com tamanha unanimidade e certeza, que a Reforma Protestante não duvidou em adotar este dogma como seu fundamento inconcusso.

Por uma triste ironia, porém, que só se explica por uma cega oposição à autoridade da Igreja de Cristo, o Protestantismo quis sentar-se num galho que ele mesmo acabava de cortar. O princípio protestante da “Sola Scriptura” está completamente no ar. Não admira, pois, que por uma conseqüência lógica, os pensadores mais coerentes fossem levados ao puro racionalismo, isto é, à negação total de toda a revelação de todo o sobrenatural, de toda a fé.

A Igreja Católica, ao contrário, defende e sempre defenderá a autoridade divina da Palavra inspirada na Escritura, precisamente pela Tradição. Foi um grave equívoco pensar que a Igreja não apreciasse a Escritura. Como ela poderia não amar a Palavra do próprio Deus? Assim como o Verbo se fez carne em Cristo Jesus, tornando-se semelhante a nós em tudo – exceto no pecado – como diz a Epístola aos Hebreus (4,15s), assim na Escritura possuímos uma encarnação da Palavra divina, feita semelhante em tudo à palavra humana – exceto no erro.

A Escritura, entretanto, é letra morta sem a Palavra viva do Magistério apostólico instituído por Cristo, que deverá interpretá-la autenticamente e defendê-la de todo abuso. Em verdade, a Escritura não é senão um monumento divino do depósito da fé entregue à Igreja pela Tradição oral.

CONCLUSÃO FINAL: A IGREJA CATÓLICA PROMOVE A EXPLICAÇÃO E O CONHECIMENTO DA VERDADE DE CRISTO

Diz Nosso Senhor no Evangelho que o pai de família tira de seu tesouro coisas novas e velhas. Assim a Igreja descobre sempre novas riquezas, isto é, ela promove um novo conhecimento, levando a uma compreensão mais nítida de verdades velhas; mas nunca poderá propor à fé dos cristãos o que não esteja nessas duas fontes de revelação: a Escritura e a Tradição.

O desenvolvimento incessante na compreensão e explicação da verdade divina levada às suas últimas conseqüências teórica e práticas, debaixo da ação do Espírito Santo, na definição de novos dogmas de fé, que são verdades velhas mais bem compreendidas e explicadas, é a melhor prova de vigor e de vida. Nosso Senhor comparou o Reino de Deus com “um grão de mostarda, a menor das sementes, que um homem tomou e semeou no seu campo. Depois de crescido é a maior de todas as hortaliças e faz-se árvore, de sorte que as aves do céu vêm habitar nos seus ramos” (Mateus 13,31-32).

Eis um quadro magnífico da Igreja Católica, isto é, Universal, que cresceu desta sementinha semeada por Cristo e os Apóstolos e hoje estende os seus ramos poderosos entre todas as nações. Quem haveria de reconhecer esta árvore majestosa naquela semente apostólica? E, no entanto, é a mesma vida, a mesma verdade divina: no tempo de Cristo e dos Apóstolos, como na era das catacumbas, no século de Santo Agostinho como no tempo dos escolásticos, no Concílio de Trento como no Concílio do Vaticano. É só a verdade cada vez mais bem conhecida e explicada. E essa árvore da vida há de crescer e desenvolver-se sem cessar até o fim dos séculos. Poderão vir as chuvas e os vendavais. Ela criará com isso raízes mais fortes e firmes, e estenderá ainda mais os seus ramos. A vida divina da Igreja, assim como não admite a corrupção do erro, também não tolera a estagnação da morte.

No meio da confusão moderna, no meio das perseguições e heresias, o católico tem um sentimento de ABSOLUTA CONFIANÇA enquanto seguir a sua Igreja, por causa das promessas de Cristo:

– “Eu estarei convosco até a consumação dos séculos” (Mateus 28,20)

– “Eu rogarei ao Pai e Ele vos dará um outro Paráclito, para que fique eternamente convosco o Espírito da Verdade que o mundo não pode receber” (João 14,16-17)

E, enfim, por causa da promessa dada à Igreja de Pedro:

“As portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mateus 16,18)

Cristo ESTÁ conosco e os Espírito da Verdade para defender o depósito da fé que nos foi dado na Escritura e na Tradição. O “Fiel e Verdadeiro” montado no Cavalo Branco do Apocalipse luta contra o dragão infernal, a fera perseguidora do mundo e o falso profeta das heresias, e nos levará ao triunfo eterno da Jerusalém celeste!

Fonte: Estudos Bíblicos Adicionais, Ed. das Américas

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