Tanto católicos quanto protestantes concordam totalmente que a Bíblia é materialmente suficiente: isto quer dizer que tudo que precisamos para a Fé consta explícita ou implicitamente na Bíblia. Porém, nós católicos negamos que a Bíblia seja formalmente suficiente, ou seja, que a Bíblia exponha formal e claramente o ensinamento cristão de uma tal maneira que acaba por dispensar completamente o Magistério e a Tradição. Esta é a posição dos partidários da “Sola Scriptura”: eles ensinam que a Bíblia é material e formalmente suficiente, de modo que rejeitam o Magistério da Igreja Católica e sua explicação da Escritura.

Pois bem: um jeito de demonstrar que a Bíblia não é formalmente suficiente se dá com a seguinte estória fictícia, que possui um ensinamento real:

  • “Um ateu viaja em um navio e acaba por conhecer um missionário católico, o qual, com o seu testemunho, lhe demonstra o que significa ser cristão e, por fim, o presenteia com uma Bíblia. O ateu aceita a Bíblia por educação, mas não se interessa em lê-la. Contudo, passado alguns instantes, e tocado pelo testemunho e conversas que teve com o missionário, sobre o amor de Deus, o ateu resolve buscar esse Deus que outrora não lhe interessava. Porém, o navio vem a naufragar e só sobrevive o ateu, que consegue chegar a uma ilha na qual jamais tocou o Cristianismo. E o ateu, como uma forma de agradecimento a Deus – por tê-lo livrado da morte por afogamento -, se converte e decide pregar [ali, aos nativos pagãos,] sobre esse Deus que o salvou; no entanto, a única coisa que sabe sobre o Cristianismo é o pouco que o missionário lhe contou e a única coisa que possui como instrumento de ensino sobre Deus é a Bíblia, que ganhou de presente do missionário”.

Considerando esta estória e o fato de que essa pessoa não conhece sequer o básico sobre o Cristianismo, a Igreja e a História Cristã, podemos nos perguntar:

  • Tal pessoa, apenas com a Bíblia, poderia ensinar as verdades do Cristianismo ou ensinaria apenas aquilo que ela conseguisse entender do que leu?
  • Como essa pessoa faria para ensinar o que São Paulo ensinou em suas cartas, se São Pedro, referindo-se a elas, disse: “Há nelas algumas coisas difíceis de se entender, que os ignorantes e instáveis deturpam, como o fazem com as demais Escrituras, para a sua própria perdição” (2Pedro 3,16)?

Esse ex-ateu tem boa vontade, sabe que se encontram na Bíblia todas as verdades que precisa para pregar (do mesmo modo como nós católicos afirmamos), mas o problema é que sem um guia que o ensine (sem o Magistério) como entender corretamente a Escritura (cf. Atos 8,30-31), ele somente ensinará aquilo que conseguir entender e não realmente o que o Cristianismo ensina. Na verdade, é por essa razão que existem tantas seitas diferentes, cada uma delas surgida de uma má-compreensão das Escrituras.

É por isso, e com este exemplo, que concluímos que a Bíblia não é formalmente suficiente. E é [também] por isso que a “Sola Scriptura” é um princípio errôneo.

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