Muitos espíritas têm e leêm a Bíblia. Eles gostam de certos Salmos, citam algumas bem-aventuranças do Sermão da Montanha, rezam o Pai-Nosso e se utilizam de alguns versículos para justificarem suas doutrinas e práticas [por ex.: querem provar que João Batista foi a reencarnação do profeta Elias].

Entre muitos outros, Allan Kardec (pseudônimo de Léon Hippolyte Denizart Rivail, principal codificador do Espiritismo), comentou diversas passagens bíblicas em suas obras, querendo com isso provar que as Sagradas Escrituras atestam e aprovam os ensinamentos espíritas[1]. Entretanto, poderia a Bíblia aprovar e condenar ao mesmo tempo as práticas e doutrinas espíritas? Certamente que não! Prova disso é que os próprios espíritas não aceitam integralmente a Bíblia como Palavra de Deus[2], mas somente pinçam alguns textos para que possam – como dissemos – apoiar suas doutrinas ou, no mínimo, para aproximar-se com mais eficência dos incautos.

Neste artigo, analisaremos – cuidadadosamente – apenas as passagens bíblicas citadas pelos espíritas para “provar” a existência da reencarnação e da “legitimidade” da evocação de espíritos. Entretanto, nós, cristãos, nunca devemos esquecer que o “Evangelho segundo o Espiritismo”[3] não é a mesma coisa que o “Evangelho de Cristo”, uma vez que seus princípios fundamentais são inversamente proporcionais…

I – João Batista era o Profeta Elias reencarnado?

 

  • “Todos os profetas e a Lei profetizaram até João. E se quiserdes aceitá-lo, ele é o Elias que há de vir. Quem tem ouvidos, ouça” (Mt 11,13-15).

 

Kardec achava que esta passagem era prova inequívoca da reencarnação, com toda a autoridade de Jesus. Era o próprio Messias que afirmava: João era o Elias reencarnado! A verdade, porém, é bem outra, pois Elias jamais desencarnou, conforme o testemunho da mesma Bíblia:

 

  • “Ora, enquanto [Elias e Eliseu] seguiam pela estrada conversando, de repente apareceu um carro de fogo com cavalos também de fogo, separando-os um do outro; e Elias subiu para o céu no turbilhão” (2Rs 2,11).

 

Também o próprio João Batista negou que fosse o profeta Elias, como prova o texto a seguir:

 

  • “E este foi o testemunho de João quando os judeus lhe enviaram de Jerusalém sacerdotes e levitas para lhe perguntarem: ‘Quem és tu?’. Ele confessou e não negou, dizendo: ‘Eu não sou o Cristo!’. E lhe perguntaram: ‘Mas então quem és? És Elias?’ Ele respondeu: ‘Não sou!’ [Perguntaram:] ‘És o profeta?’ E ele respondeu: ‘Não!’ Disseram-lhe então: ‘Quem és, para que possamos dar a resposta a quem nos enviou? O que dizes de tu mesmo?’ Disse ele: ‘Eu sou a voz que clama no deserto: «Endireitai o caminho do Senhor», conforme disse o profeta Isaías!” (Jo 1,19-24).

 

Logo, a interpretação espírita de Mt 11,13-15, identificando João Batista com Elias reencarnado, é simplesmente arbitrária e digna de total descrédito, já que o mesmo João Batista afirmou categoricamente que não era Elias.

Na verdade, a vinda de Elias como precursor do Messias era crença da religiosidade popular judaica, uma vez que ele era considerado o grande defensor do Javismo e inimigo da idolatria. Tinha, portanto, uma grandeza moral inquestionável e gozava de alto prestígio na religiosidade judaica.

Assim, quando os evangelistas escreveram os Evangelhos, retomaram a tradição e crença populares sobre o Elias-precursor e aplicaram a João Batista, que era, de fato, o precursor de Elias (Mt 11,10; Mc 1,2; Lc 7,27), de maneira que quando Jesus afirma que João “é o Elias que há de vir” não está se referindo à improvável reencarnação de Elias mas observando que João reproduz o papel de Elias em virtude de seu temperamento forte e destemido.

II – Nascer de novo = Reencarnação?

 

  • “Em resposta [a Nicodemos] Jesus disse: ‘Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer do alto, não poderá ver o Reino de Deus” (Jo 3,3).

 

Para os espíritas, esta passagem é a prova de que Jesus acreditava na reencarnação. Allan Kardec interpretava assim: “Ninguém pode ver o Reino de Deus se não nascer de novo. […] Se a crença na reencarnação fosse errada, Jesus não teria deixado de combatê-la, como combateu tantas outras; longe disso, ele a sancionou com toda a sua autoridade e a afirmou como condição necessária…” (O Evangelho segundo o Espiritismo).

Aqui, como em outras passagens, Kardec se equivoca tanto na tradução quanto na interpretação:

Primeiro, porque o texto bíblico original não diz “nascer de novo” mas sim “nascer do alto”; o termo grego empregado é “anothen”, um advérbio que significa “do céu, de cima, do alto” em oposição ao significado de “terreno”. Logo, “nascer do alto” significa “nascer do Espírito” através da água como vemos mais adiante, no versículo 5; jamais terá o significado de “reencarnar-se”.

Segundo, porque o próprio Nicodemos dá a entender que Jesus não está de modo algum falando de reencarnação. De fato, no versículo 4, Nicodemos pergunta a Jesus: “Como o homem pode voltar a nascer se já é velho? Acaso poderá entrar novamente no seio de sua mãe para renascer?”, ao que Jesus responde falando do novo nascimento pela água e pelo Espírito no versículo 5.

Portanto, querer interpretar Jo 3,3 como prova da reencarnação é, no mínimo, querer forçar e adulterar a intenção original de Jesus, do autor sagrado, da gramática grega e também da exegese bíblica. Tal proposta, porém, nunca poderá ser acolhida com seriedade…

III – Reencarnação: purificação dos pecados em vidas passadas?

 

  • “Caminhando, viu Jesus um homem cego de nascença. Os discípulos perguntaram-lhe, dizendo: ‘Rabi, quem foi que pecou para ele nascer cego? Ele ou os pais?’ Respondeu Jesus: ‘Ninguém pecou, nem ele nem seus pais. Mas foi para que nele se manifestassem as obras de Deus'” (Jo 9,1-3).

 

A pergunta feita pelos apóstolos passa a falsa impressão de que eles acreditavam na doutrina espírita que afirma que os males e as doenças sofridas pelas pessoas neste mundo são conseqüências dos pecados cometidos em vidas anteriores.

Citando este texto, Kardec quer mostrar que os judeus da época de Jesus também acreditavam na reencarnação, o que, entretanto, não é verdade: os judeus daquele tempo achava que uma pessoa pagava por um mal cometido por ela própria (naquela mesma vida) ou então por algum antepassado. Tal idéia, contudo, já havia sido combatida pelos profetas Jeremias e Ezequiel, no Antigo Testamento e Jesus, por seu turno, também desmente categoricamente essa crença popular judaica (cf. vers. 3).

IV – Ressurreição ou Reencarnação? – I

 

  • “Teus mortos reviverão e os cadáveres ressurgirão. Despertai e alegrai, vós que habitais no pó, pois o Teu orvalho é um orvalho de luz e a terra das sombras dará à luz” (Is 26,19).

 

Allan Kardec afirmava que a expressão “teus mortos reviverão” era outra prova bíblica da reencarnação. Entretanto, a exegese mostra que se refere à ressurreição nacional: o profeta quer dizer que os inimigos do povo de Deus serão vencidos e aniquilados um dia enquanto que o povo de Deus crescerá.

O texto nada tem a ver com reencarnação… A propósito, ver nosso artigo “Qual a diferença entre reencarnação e ressurreição?”.

V – Ressurreição ou Reencarnação? – II

 

  • “Mas morre o homem e jaz inerte. Expira o mortal e o que é dele?” (Jó 14,10).

 

 

  • “Acaso poderá reviver o homem que morre? Eu suportaria todos os dias da minha vida até chegar a libertação” (Jó 14,14)

 

Para basear sua doutrina reencarnacionista nestas passagens bíblicas, Kardec fez uso de uma tradução livre feita pela Igreja grega, que diz:

 

  • “Quando o homem está morto, ele vive sempre. Terminado os dias da minha existência terrestre, esperarei porque à vida voltarei novamente”.

 

Não é necessário fazer muito esforço para perceber como esta tradução se distancia enormemente do texto original… Kardec precisou usar essa tradução imprecisa para concluir: “‘esperarei’ parece antes se aplicar à nova existência”. Repare, contudo, que o versículo 14, segundo o texto original, diz justamente o contrário: “Acaso poderá reviver o homem que morre?”. Assim, o texto aqui citado constitui um dos primeiros sinais de esperança do homem numa futura ressurreição. A interpretação espírita simplesmente extrapola o texto e a intenção do seu autor, que é uma visão de esperança e fé, otimista e responsável.

VI – Evocação de espíritos: certo ou errado?

 

  • “Ora, Samuel tinha morrido e todo Israel tinha pranteado. Enterraram-no em sua cidade natal, Ramá. Saul tinha eliminado do país os necromantes e adivinhos. Então os filisteus se reuniram e avançaram, acampando em Sunam. Em vista disso, Saul mobilizou todo Israel e pôs acampamento no Gelboé. Mas quando Saul avistou o acampamento dos filisteus, foi tomado de medo e seu coração tremeu fortemente. Saul consultou ao Senhor, mas Ele não lhe deu resposta nem por sonhos, nem pela sorte e tampouco através dos profetas. Então Saul ordenou a seus servos: ‘Procurai uma mulher que evoque os mortos pois quero consultá-la’. Seus homens lhe responderam: ‘Há uma mulher dessas em Endor’. Saul se disfarçou, vestindo outras roupas e se pôs a caminho com outros dois homens. Chegaram à casa da mulher de noite. Então ele disse: ‘Peço-te que me adivinhes pela necromancia e me faças subir aquele que eu te disser’. Mas a mulher lhe disse: ‘Certamente bem sabes o que fez Saul: como exterminou da terra os necromantes e adivinhos. Por que me armas uma armadilha para que eu seja morta?’ Então Saul jurou em nome do Deus eterno: ‘Pelo Eterno, o Deus Vivo, prometo-te que não serás castigada por isso’. Então a mulher perguntou: ‘A quem devo fazer subir?’ Respondeu ele: ‘Chama-me Samuel’. Quando a mulher viu Samuel, deu um grito e disse a Saul: ‘Por que me enganaste? Tu és Saul’. Respondeu o rei: ‘Não temas. O que vês?’ Disse ela: ‘Vejo um espírito subindo da terra’. Perguntou Saul: ‘Qual a sua aparência?’ Respondeu ela: ‘É um velho envolto num manto’. Então Saul percebeu que era Samuel; ajoelhou-se e encostou o rosto na terra em sinal de respeito. Então Samuel disse a Saul: ‘Por que me incomodas? Por que me fizeste voltar?’ Saul respondeu: ‘Passo por grande dificuldade: os filisteus guerreiam contra mim e Deus me abandonou. Ele não me responde nem pelos profetas, nem por sonhos. Por isso te chamei para que me digas o que devo fazer’. Disse Samuel: ‘Por que me chamaste se o Deus Eterno o abandonou e tornou-se teu inimigo? O Eterno fez contigo aquilo que havia prometido fazer, por meio de mim: tirou o teu reino e o entregou a outro, a Davi. Desobedeceste a ordem do Deus eterno pois não destruíste completamente os amalequitas e tudo o que tinham; por isso, o Eterno agora age assim. Ele te entregará, junto com todo o povo de Israel, aos filisteus. Amanhã tu e teus filhos estarão comigo [na região dos mortos]. E o Eterno também entregará o exército de Israel aos filisteus’. No mesmo instante, Saul caiu estendido por terra, aterrorizado com as palavras de Samuel” (1Sam 28,3-20a)

 

A moderna (e séria) parapsicologia pode explicar o fato acima naturalmente. Na verdade, não houve aparição do espírito de Samuel. Vemos que Saul vivia um drama pessoal muito grande: estava desgastado psíquica e fisicamente; vivia atormentado, transtornado e neurótico; sentia-se isolado, solitário e desamparado; para piorar ainda mais, estava aterrorizado diante de seus inimigos e ninguém mais o escutava (nem Deus, nem os homens).

Completamente desesperado, resolveu apelar para o além, para tentar se libertar das suas angústias e sujeitou-se ao erro, apelando para algo que ele mesmo havia condenado.

Para obter a ajuda da médium de Andor, Saul precisou caminhar muito e estava exausto. Seu quadro psicológico negativo favoreceu a ação da médium. Após obter garantia de vida, a médium repetiu tudo aquilo que Saul já tinha conhecimento por intermédio do profeta Samuel, quando este ainda vivia (cf. 1Sam 15; 26; 28). Neste trecho, as palavras condenatórias de Samuel são tidas como se fossem de seu espírito evocado, porém, todos já sabiam que Saul estava com seus dias contados…

O episódio acima relatado tem como objetivo salientar duas coisas:

Mostrar que Saul fora rejeitado por Deus e pelo povo. Tal rejeição já lhe havia sido comunicada durante a vida de Samuel e continuou confirmada. O texto então apenas volta a afirmar que Samuel permanece condenando Saul, ainda que esteja morto.

Salientar a grande figura do novo rei, isto é, Davi, que chorou a morte de Saul, por ter sido rejeitado por Deus e por Samuel. Assim, o relato não visa tratar sobre a “evocação de mortos” mas versa sobre a rejeição do rei Saul usando um recurso literário cheio de simbolismo onde Samuel aparece novamente para confirmar a rejeição de Saul. Aliás, diga-se de passagem que a evocação do espírito de Samuel somente veio a acirrar a ira divina, como declara 1Cron 10,13-14:

 

  • “Saul morreu assim por causa do mal que tinha feito contra o Senhor, por não ter obedecido a Palavra do Senhor e, ainda por cima, por ter consultado o espírito de um morto a fim de obter revelação, ao invés de buscar a revelação por parte do Senhor. Por isso, o Senhor o fez morrer e transferiu a realeza para Davi, filho de Jessé”. A condenação das práticas espíritas é amplamente testemunhada na Bíblia, verdadeira Palavra de Deus: Lev 19,26; 19,31; 20,6; 20,27; Deut 18,10-12; 1Sam 28,3b; 1Sam 18,6-7.11.15a; 1Cron 10,13-14; 2Cron 33,6; Is 2,6; 8,19; At 16,16-18; 19,19; Gál 5,19-21; 1Tim 4,1-2.

 

Notas:

[1] Mais um motivo pelo qual mostramos que a doutrina da “Sola Scriptura”, defendida pelos protestantes, além de ser anti-bíblica, é também falsa, pois senão teríamos que aceitar como verdadeiras, embora comunicadas de maneira diversa, as errôneas proposições espíritas.

[2] Os espíritas assumidos, que realmente conhecem a doutrina do Espiritismo, afirmam que a Bíblia está cheia de erros e contradições, e que jamais foi inspirada por Deus. Não raro, também afirmam que os Apóstolos de Cristo (e seus sucessores, por conseqüência) não entenderam os ensinamentos de Jesus e que tudo o que transmitiram à Igreja está errado ou falsificado. Veja-se, no entanto, 1Tim 3,15.

[3] “Obra-prima” de Kardec.

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