O apologista britânico C. S. Lewis escreve em “The Screwtape Letters” (Cartas do Diabo ao seu Sobrinho) sobre a lógica da tentação a partir do ponto de vista de um demônio chamado Screwtape. O autor traduz em palavras o seguinte princípio infernal: Deus reclama para Si a soberania de todas as coisas apenas porque Ele as criou; no entanto, o demônio reclama que se aplique o princípio oposto: que as coisas pertençam não a quem as fez, mas a quem as conquista para si mediante qualquer meio. A resposta de Deus, nos lábios de Jesus, dá razão a ambos: “No mundo tereis tribulação, mas não vos preocupeis, pois Eu venci o mundo” (João 16,33). Deus propõe guerra e vence a tentativa de conquista do Inimigo. Agora, tendo Deus vencido, é por direito Soberano do mundo, por tê-lo criado e também por tê-lo conquistado. Mesmo sendo certo que conquista o mundo ao custo da Sua Alma, existe somente Um que dá a Sua Alma para conquistar o mundo e logra vencê-lo.

Esta parte da frase que diz “tereis tribulação” parece indicar que cabe a nós uma participação nessa guerra. O Pe. Pio de Pietrelcina teve um sonho recorrente durante muitos anos: sonhava que Jesus, no alto de uma montanha, lhe entregava uma espada e o pobre Pio devia descer a um vale onde o demônio, sob a forma de uma imensa fera, o esperava para lutar. Pio devia enfrentar a besta toda noite e sempre vencia quando atingia o amanhecer. Com o passar dos anos, o sonho se repetia com uma variação: a fera se tornava maior a cada noite e a espada se tornava cada vez menor. Da última vez que Pio teve este sonho, Cristo não lhe deu uma espada, mas pediu para que lutasse usando apenas as mãos. A fera, agora imensa, foi finalmente derrotada nessa noite e o sonho nunca mais se repetiu. Pio tinha acabado de conquistar a sua parte com a ajuda do Senhor.

Cabe a nós lutar de forma semelhante: primeiramente por nosso coração, que é o campo de batalha onde a luta se faz mais frequente. Na pregação do Evangelho, a luta não se limita ao coração dos homens, mas cabe a todos nós um pedacinho desse vasto campo de batalha que é o mundo inteiro e que contém todas as almas da humanidade. Neste momento, há uma série de frentes de batalha em que os princípios cristãos digladiam claramente contra o mundo que as forças do mal desejam nos impor. Uma hora era um imaginário “paraíso de trabalhadores”, agora é – mais realisticamente – uma espécie de sanguinária Sodoma global.

Somente o pensamento de conquistar o mundo é suficiente para vincular o coração dos mais prudentes. A guerra não é para covardes, mas é sempre ganha por aqueles que não têm a derrota como uma alternativa aceitável. O problema é: como faço para enfrentar, com as minhas pobres forças, a esse Leviatã que se ergue gigantesco sobre o horizonte do mundo? Como posso lutar pela felicidade do gênero humano?

Creio que a resposta encontra-se no sonho do Pe. Pio. Os reis de Canaã raciocinavam assim contra os israelitas: “Javé, o Deus deles, é um Deus de montanhas”; por isso tentaram trazer os israelitas para lutar na planície. Essa colina em que Cristo encontra o Pe. Pio é a pequenina montanha que bate no centro do nosso peito, o nosso coração. Se é garantida por Jesus, então a luta contra a fera, por maior que seja, será sempre ganha, mesmo que precisemos descer ao vale com poucas forças e menos armas. O direito de conquista se estabelece conquistando. Não há um “ganhador moral” que não seja também um “ganhador nos atos”.

No entanto, no meu caso (e suspeito que eu não sou o único), parto para a guerra sabendo que dentro do meu coração existem ainda muitas coisas para resolver. Reconheço minhas paixões, minhas covardias e fraquezas, que são os meus desejos de lutar. Conheci a derrota e sei muito bem que não sou invencível diante deste Inimigo muito mais velho, mais esperto e mais experiente do que eu. No entanto, sobre essa colina encontra-se parado Jesus. A Eucaristia – que é o Seu Coração – conquista pouco a pouco o terreno do meu coração, e Ele não se dará por vencido até que cada fibra do meu coração seja idêntica às fibras do Seu. É a Ele que devemos nos render, paradoxalmente, para obter a vitória contra o Inimigo de ambos.

Ao contrário de Pe. Pio, há muitos anos conversava com um amigo, convertido ao Catolicismo, que em seu país ia votar por um governo de linha progressista. Ele me afirmou que esse governo iria “dar” ao seu filho o dinheiro para obter a sua primeira casa (entre outras coisas). De pouco serviu recordar-lhe que os governos não “dão” nada que não tenham primeiro tirado de alguém. Meu amigo votou de acordo com o que o seu coração ansiava e, com o seu voto, acabou dando impulso a uma série de leis anti-vida que vieram juntas com “a casinha” que seria dada ao seu filho. A casinha não chegou, mas veio uma dívida nacional desastrosa que agora afoga o país, que se debate espremido pela banca internacional, de modo que o povo está, pela primeira vez na história, perdendo as suas casas e todas as suas posses. Não houve vantagem alguma em entregar o coração para o Inimigo; no fim, perdeu tudo. É quando me vem à mente uma outra máxima de Jesus: “Sem Mim nada podereis fazer”, e daí a contrapartida bastante verdadeira: Com Cristo tudo se pode conseguir.

Render o coração a Cristo é a primeira coisa a ser feita. Tendo Ele conquistado essa colina, o resto do mundo cairá em nossas mãos como uma fruta madura.

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