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A crise atual e o liberalismo

A crise já chegou no nosso dia-a-dia. Toda hora ouvimos alguma notícia sobre o colapso do sistema financeiro, a falência de empresas e a intervenção do Estado, dando o dinheiro dos contribuintes, para salvar as companhias destinadas ao fracasso por conta da má gerência e incompetência. Entretanto, outro fato surge junto com a crise; existe um sentimento muito claro de que todos os problemas do mundo se originaram do pensamento liberal, na defesa do Livre-Mercado e na restrição do poder estatal. Pois bem, esse novo paradigma, que já se firmou nas mentes dos indivíduos – agora se junta a tantos outros, como o que diz que o aquecimento global é causado pelo CO2 e que a direita é sinônimo de retrocesso – parte de diversos preconceitos. Na verdade é uma grande ironia, afinal, se os socializantes fazem questão de se distanciar de estereótipos que tentam homogeneizar os movimentos de esquerda, os mesmos lançam mão de uma análise extremamente simplória e distante da realidade sobre o que consideram a “direita” – essa definição é tão vazia. Isso é mais claramente perceptível quando entendemos os meandros e as divisões nos projetos socialistas, principalmente as diferentes maneiras de se entender a práxis revolucionária, entretanto, os membros da esquerda não levam em conta que os mesmos contrastes possam existir dentro da ótica liberal, indo além, enxergam como um bloco sólido e muito bem definido. O princípio polilógico marxista, que tenta reduzir o comportamento dos indivíduos a um condicionamento mental induzido pela classe a qual pertence, cria, dentro do imaginário esquerdista, a idéia de que todo o liberal, enquanto teórico do Livre-Mercado, é um opressor, defensor da exploração dos trabalhadores, da fome do terceiro mundo, da alienação trabalhista e do retrocesso das causas sociais, ou seja, tudo o que pensa e produz teoricamente é para gerar a concentração de capital e o controle dos meios de produção, mesmo que não saiba.

Desse modo, por conta dessa ótica obtusa, liberais e liberais são colocados lado a lado, desde monetaristas, novo clássicos, até austríacos defensores da praxeologia. Ora, a esquerda e os estatólatras sempre se enxergam como os perseguidos e execrados das grandes discussões, mesmo quando estão no controle dos governos, dos centros de pesquisa e das universidades. Além disso, reduzem o que chamam de mainstream ao que consideram, erroneamente, liberalismo, mesmo quando dentro do pensamento liberal pululam correntes que, de maneira heterodoxa, criticam ferozmente os métodos de análise adotados pelos grandes liberais que gerenciam, ou gerenciavam, a economia mundial.

O consenso geral é de que os liberais foram culpados pela crise atual, mesmo quando dentro do considerado cl㠑liberal’ existiam muitos economistas que faziam ardorosa oposição a política econômica americana e, quase como um dom profético, afirmavam a iminente explosão da bolha e a instauração de uma verdadeira crise. Desse modo, torna-se uma enorme injustiça colocar Ron Pauls e Lew Rockwells da vida no mesmo saco dos irresponsáveis monetaristas-governistas. Um problema originado, naturalmente, dessa falta de conhecimento é justamente uma prejulgamento empobrecedor e a criação de um estereótipo de liberais como se, dentro dessa corrente, não existissem diferenças tão radicais que tornam impossíveis as tentativas de homogenização.

A crise se iniciou por conta de uma política intervencionista, com o simples propósito de criar crédito para um mercado estagnado. O FED, através do controle financeiro, promoveu a redução das taxas de juros com a intenção de criar oferta de dinheiro, estimulando a economia, dando vida ao imobiliary market. A indústria do subprime, com americanos tendo acesso irrestrito a empréstimos e hipotecas, aqueceu o mercado imobiliário, leia-se Freddie¹ e Fannie.² É importante frisar que taxas de juros baixas estimulam o consumo em oposição a poupança, que é uma das mais importantes “forças motoras do capitalismo.” A alta demanda impulsionada por juros baratos, o perigo do aumento da inflação, a crescente inadimplência, entre outros fatores, obrigaram o FED a elevar a taxa de juros. Maiores taxas geraram maiores parcelas que geraram dívidas. Os títulos podres foram repassados ao Governo que logo tratou de cobrir o rombo. Na verdade essas instituições financeiras nunca tomaram cautela porque sabiam que as transações que envolviam a Freddie e a Fannie (Empresas que aumentaram o crédito na época de Bill Clinton a mando do próprio Presidente), apadrinhadas pelo governo, eram “seguras” como, de fato, se mostrou quando o Estado americano saiu em socorro das suas filhas pródigas.

O forte controle da economia americana – não digo propriamente regulação – era mantido por diversos órgãos governamentais:

Federal Reserve – O Banco Central, tem a incumbência de regular a taxa de juros, a oferta monetária, supervisionar e fiscalizar os Federal Reserve Banks (Bancos de Reserva Nacional), manter a estabilidade do mercado financeiro, responder a necessidade de liquidez etc.

United States Department of the Treasury (Treasurer of the United States, United States Mint, Bureau of Engraving and Printing, Under Secretary for Domestic Finance, Assistant Secretary for Financial Institutions, Assistant Secretary for Financial Markets, Assistant Secretary for of Fiscal Service, Financial Management Service, Bureau of Public Debt, Under Secretary for International Affairs, Assistant Secretary for International Affairs, Under Secretary for Terrorism and Financial Intelligence, Assistant Secretary for Terrorist Financing, Assistant Secretary for Intelligence and Analysis, Financial Crimes Enforcement Network, Assistant Secretary for Economic Policy, Assistant Secretary for Legislative Affairs, Assistant Secretary for Management/Chief Financial Officer, Assistant Secretary for Public Affairs/Director of Policy Planning, Assistant Secretary for Tax Policy, Internal Revenue Service, Alcohol and Tobacco Tax and Trade Bureau, Inspector General for Tax Administration, General Counsel, Office of Thrift Supervision) – É o responsável por implementar a política econômica, fiscal e monetária, regular as exportações e importações, vigiar todas as instituções financeiras dos Estados Unidos.

Office of the Comptroller of the Currency – Assegura o sistema bancário nacional regulando todos os bancos dos EUA.

Securities and Exchange Commission – Regula todas as matérias referentes ao mercado de valores mobiliários.

Federal Deposit Insurance Corporation – É quem garante o seguro do depósito, assegura os depósitos feitos em bancos comerciais.

Federal Home Loan Bank Board – Agência que acompanha todos os empréstimos hipotecários dos EUA.

Esse discurso socializante, ou seja, que parte de uma concepção idílica e caricata do liberalismo, lança mão de uma simplória estereotipização para que assim, através vez desse reducionismo, o complexo pensamento liberal seja visto como um apanhado de desejos egoísticos. Essa tentativa de uniformizar a diversidade libertária não leva em conta que dentro do Free-Market existem diversidades e oposições bem determinadas. Por exemplo, não há como conciliar as teorias austríacas e neoclássicas; um autor do porte de Von Mises, mestre de diversos economistas, gastou anos de sua vida escrevendo contra o equilíbrio walrasiano, ou seja, inexiste essa aliança tão firme como pinta a esquerda. Na verdade o liberalismo maistream é alvo de críticas e ataques por parte da periferia intelectual da mesma corrente. De certo modo, o pensamento econômico se torna refém de uma triste redução, como se existissem três grandes grupos, fechados em si mesmos; marxistas, keynesianos e neoclássicos, quase sempre entendidos de maneira obtusa e, por falta de conhecimento, vistos de maneira absoluta. No caso dos neoclássicos ainda há o agravante que normalmente são entendidos como sinônimos de liberais e como se o liberalismo fosse necessariamente as teorias neoclássicas. Isso é tão absurdo que a Escola Austríaca, por exemplo, se assemelha ao marxismo quando percebe que qualquer mudança social radical necessita, obrigatoriamente, de condições objetivas e subjetivas. Inclusive ambas as concepções acreditam que as contradições do sistema atual – o estatismo e o capitalismo, respectivamente – conduzirão ao verdadeiro colapso.

Com a crise econômica atual os socializantes e amantes do Estado – “O Estado é meu pastor e nada me faltarᔠrezam os estatólatras enquanto incensam e invocam a intercessão de São Keynes – fazem malabarismos teóricos para anatemizar todo o pensamento liberal. Na verdade é uma oportunidade única de “comprovar” a ineficiência do modelo de Livre-Mercado. O mais irônico é que, ao mesmo tempo em que uniformizam o liberalismo, colocando todas as suas escolas dentro do mesmo balaio, condenam como se todas fossem comparsas e defensoras de similares doutrinas. Não sei se é falta de conhecimento ou a velha desonestidade intelectual, mas o fato é que economistas austríacos – apenas me refiro a eles porque foi essa a Escola que com mais vigor combateu não só o marxismo mas a tentativa de objetivar a economia – não só criticavam a política econômica atual – sim, austríacos são liberais mas sempre se encontraram na periferia dos projetos de governo – como previam a quebra por meio da teoria dos ciclos econômicos de Mises.

Ron Paul, Congressista Republicano pelo Texas, assessorado por Lew Rockwell, presidente do Instituto Von Mises, disse, em 2002, num grande artigo por ele publicado que: “Quando a bolha está inflando, não há qualquer reclamação. Quando ela estoura, o jogo de culpas começa. Isso é especialmente válido nessa época de vitimização — em que ninguém quer assumir responsabilidades –, e tudo é feito em grande escala. Rapidamente, tudo se transforma em uma questão filosófica, partidária, social, geracional e, até mesmo, racial. Além de não se atacar a verdadeira causa, toda essa delação e “jogo de empurra” torna mais difícil a resolução da crise e enfraquece ainda mais os princípios sobre os quais se sustentam a liberdade e a prosperidade.

(…)

Bolhas especulativas e tudo o que temos visto são a conseqüência de enormes quantias de crédito fácil, que são criados do nada pelo Federal Reserve. Praticamente não criamos poupança, mecanismo este que é uma das mais significativas forças motoras do capitalismo. A ilusão criada pelas baixas taxas de juros perpetua a bolha e tudo de ruim que lhe é inerente. E isso não é culpa do capitalismo. O problema é que estamos lidando com um sistema de inflacionismo e intervencionismo que sempre produz uma bolha econômica que necessariamente sempre acaba mal.”

O site Vermelho.org colocou no ar um artigo do pesquisador Fábion Amico, publicado no semanário Nuestra Propuesta, do Partido Comunista da Argentina. Entre diversas “pérolas” uma se destaca; “O governo norte-americano estimulou empresas e consumidores a se endividar e a consumir para estimular, por sua vez, uma economia declinante. E o fez como se não houvesse risco algum.” O engraçado, para não dizer cômico, é que mesmo conseguindo entender as estruturas econômicas governamentais, com o estimulo ao Mercado através da promoção de crédito, o artigo concluiu que a crise americana era reflexo do neoliberalismo opressor. Ora, como pode haver verdadeiro liberalismo ao mesmo tempo em que são aplicadas políticas intervencionistas? Se trata de duas óticas econômicas excludentes.

Na verdade vivemos um período de sombras e desonestidade, não há mais fidelidade para com a verdade, tudo fica submetido ao sofisma e aos mais absurdos argumentos falaciosos. Aqui não só me refiro ao esquerdismo que, em peso, analisa de maneira simplória e simplista o pensamento liberal, mas também aos próprios libertários que, muitas vezes, tentam reduzir a diversidade de doutrinas socialistas a um padrão preestabelecido. Captar a essência da oposição, aquilo que os outros defendem, deve ser essencial não só para melhor combate-los, mas para se auto-conhecer. Como bom eram os tempos medievais quando triunfava o método escolástico-tomista, ao menos assim os estudantes entendiam e reconheciam os argumentos e contra-argumentos e, logicamente, não ficavam presos nas armadilhas dos sofismas que, atualmente, imperam.

¹: Federal National Mortgage Association, criada em 1938 por Roosevelt no ápice do New Deal. Se tornou corporação privada em 1968 (isso mesmo, passou 30 anos como monopolista do setor hipotecário) como forma de reduzir o agigantamento do Estado que precisava conter os déficits. Tinha como propósito fornecer liquidez ao mercado imobiliário.

²: Federal Home Loan Mortgage Company, criada em 1970 pelo escandaloso Nixon. Seu propósito era expandir o mercado de hipotecas e servir como mais uma instituição de fornecimento de empréstimos, assim como a Freddie.

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