Acuse e Responderemos Apologética Ciência e Fé

A Cristologia de Dan Brown e outros Erros de “O Código da Vinci”

Written by Veritatis Splendor

Autor: Néstor Martínez

Toda a trama de “O Código da Vinci” se baseia num erro cristológico: crer que a fé na Divindade de Jesus Cristo se opõe ao reconhecimento da sua Humanidade. Segundo a novela de Brown, a Igreja decidiu ocultar o matrimônio de Jesus com Maria Madalena, porque esta marca demasiadamente “humana” do Salvador revelaria que, na verdade, Ele não era Deus, mas um “homem mortal”, cuja divindade teria sido inventada por motivos políticos de Constantino. O ponto crucial é que o ter gerado um filho (mais precisamente, uma filha) seria sinal claro do seu caráter mortal e, portanto, não-divino de Jesus Cristo (cf. pp.290, 291 e 315).

Segundo Brown, o argumento dos eclesiásticos seria este: “Quem gera filhos humanos, é mortal. Quem é mortal, não pode ser Deus. Mas Jesus é Deus. Logo, não gerou filhos humanos”.

Mas quanto a isto, é claro que Brown responde assim: “Quem gera filhos humanos, é mortal. Quem é mortal, não pode ser Deus. Mas Jesus gerou filhos humanos. Logo, não é Deus”.

Ou seja: ela compartilha das premissas do argumento a que atribui à Igreja. Na verdade, o argumento que Brown atribui à Igreja é uma projeção da sua própria teologia, a teologia de Brown.

No entanto, esta não é a teologia católica. Para a Igreja, o ser mortal não é incompatível com o ser Deus, pois a fé católica ensina que Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, como homem morreu na cruz e ressuscitou dentre os mortos.

Segundo a novela, este interesse por ocultar o fato de o Crucificado ser “um homem mortal” teria levado à eliminação dos Evangelhos primitivos, anteriores a Constantino – cerca de 80, segundo Brown (p.288), ou milhares, segundo outra passagem da novela (p.291) – e redigir em seu lugar, no século IV, os quatro Evangelhos canônicos, dos quais se teria eliminado toda referência à humanidade de Jesus Cristo.

“Constantino encarregou e financiou a redação de uma nova Bíblia que omitisse dos Evangelhos os traços “humanos” de Cristo e que exagerasse os que o aproximavam da Divindade. E os Evangelhos anteriores foram proibidos e queimados” (p.291).

Por sua vez, o segredo de Maria Madalena foi conservado desde os tempos de Jesus Cristo e foi transmitido na Idade Média à uma sociedade secreta chamada “Priorado de Sião”. Os membros do Priorado de Sião reconhecem a divindade de Maria Madalena e a adoram (p.319: “A divindade feminina perdida”).

Os descendentes de Maria Madalena chegaram até a dinastia merovíngia, da qual por sua vez descenderia Godofredo de Bulhões, o rei do “reino latino de Jerusalém” instalado após a 1ªCruzada. Godofredo teria fundado em Jerusalém o “Priorado de Sião”, o qual pouco depois teria criado os Templários, que seriam o seu “braço armado”. Entre os “grandes mestres” do Priorado figurariam Newton, Boyle, Leonardo da Vinci, Victor Hugo, Jean Cocteau e outros.

É óbvio que toda esta argumentação apresenta severas falhas.

Em primeiro lugar, os Evangelhos canônicos não ocultam nada da humanidade de Cristo, que nasce de mulher, tem fome e sede, fica cansado, é tentado, fica triste, se angustia, sofre na Cruz e morre efetivamente como qualquer “ser humano mortal”.

Em segundo lugar, se gerar filhos humanos é incompatível com a Divindade, não se vê que lugar resta para a divindade de Maria Madalena, presumida mãe da filha de Jesus, que no entanto é sustentada na novela por aqueles que “têm razão”: os do Priorado de Sião.

É óbvio, por outro lado, que os Evangelhos canônicos foram redigidos muito antes de Constantino. Seu texto pode ser reconstruído em boa medida apenas com as citações dos Padres da Igreja anteriores a Constantino.

Por outro lado, não é nada provável que os Evangelhos apócrifos, particularmente os de origem gnóstica, sejam especialmente fiéis à humanidade de Jesus Cristo. Pelo contrário! Os gnósticos, em geral, negavam a verdadeira humanidade de Jesus. Seu erro era o “docetismo”, de “dokeo”, “aparência”, porque com efeito diziam que o corpo de Jesus era um corpo meramente aparente.

Na verdade, nisso a teologia de Brown concorda com a teologia gnóstica, porque sustenta a impossibilidade de um verdadeiro contato entre o divino e o humano. Por sua vez, se a Igreja lutou contra o Gnosticismo, não foi tanto porque esta negava a Divindade de Jesus, mas porque negava a sua Humanidade.

Assim, na hipótese de Brown se torna inexplicável o ardor com que a Igreja combateu as heresias que afirmavam plenamente a Divindade de Jesus, mas negavam a sua Humanidade, como o Docetismo, o Monofisismo etc. E observe-se que o que houve de mais árduo nesta luta ocorreu depois de Constantino: o Concílio de Calcedônia condenou definitivamente o Monofisismo e a defesa enérgica da verdadeira natureza humana de Jesus Cristo se deu no ano 451.

Porém, aqui há outra contradição de Brown, porque segundo a “verdadeira” doutrina do Paganismo e do Priorado, algo tão carnal quanto a união sexual é um meio possível para a união imediata com Deus, sem necessidade da mediação da Igreja (p.384). Mas então, que dificuldade haveria para um ser humano mortal que gerou filhos fosse Deus?

Obviamente, não estamos dizendo que Jesus teve filhos, mas que a mesma premissa que Brown compartilha com a imaginária teologia católica que apresenta em sua novela é contraditada por ele mesmo, por Brown.

A mesma mentalidade de oposição entre o divino e o humano aparece quando se afirma na novela que a Bíblia é produto do homem, não de Deus (p.288). Para a doutrina católica, a Bíblia é uma obra de Deus que se vale de autores humanos. Isto é, cremos que não foi diretamente escrita por Deus, nem “caiu do céu” – coisa que acertadamente Brown rejeita – mas que foi escrita por autores humanos inspirados por Deus.

Deve-se recordar ademais que o Gnosticismo teve seu auge nos séculos II e III d.C., de modo que os evangelhos gnósticos são posteriores e não anteriores aos quatro Evangelhos canônicos. De fato, a datação do Evangelho mais tardio, o de João, se coloca em torno do ano 100 d.C.

É historicamente falso, ademais, afirmar que o Concílio de Niceia, reunido sob Constantino no ano 325, definiu que Jesus é o Filho de Deus (p.290). Não foi a filiação divina, mas a consubstancialidade entre o Filho e o Pai o que foi definido em Niceia. A filiação divina de Jesus Cristo era praticamente afirmada por todos no Cristianismo antigo, por ortodoxos e hereges.

E muito antes, obviamente, de Constantino! Basta para isso ler as obras dos Padres da Igreja dos séculos II e III, se é que não se queira buscar o testemunho muito mais imediato dos próprios Evangelhos, como o de Marcos, que começa assim: “Início do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus”, e que os críticos menos ortodoxos datam dos anos 70 d.C., sempre e quando não resultar verdadeira a descoberta do Pe. O’Callaghan, que o situaria na década de 50 d.C.

Brown afirma também que a identificação de Maria Madalena com uma prostituta foi feita pela Igreja primitiva para afastar a ideia de seu matrimônio com Jesus, a fim de “proteger” a divindade de Jesus Cristo, como já foi dito (p.303).

Porém, resta que tal tendência se deu na Igreja Latina, não na Oriental, cuja tradição exegética distingue melhor a Maria Madalena, a pecadora que lava os pés de Jesus, a Maria de Betânia e a adúltera que aparece no Evangelho de João. E note-se que era no Oriente, justamente, em que a influência imperial era mais forte, porque Constantino mudou a sede do Império de Roma para Constantinopla.

Diz a novela que estabelecer a divindade de Cristo era fundamental para a posterior unificação do Império e o estabelecimento da nova base de poder no Vaticano (p.290).

Isso nos leva, por sua vez, a perguntar: em primeiro lugar, porque então Constantino mudou a capital do Império de Roma (do “Vaticano”) para Constantinopla? E, em segundo lugar: por que não mudou também a Sede Pontifícia para Constantinopla? Se se tratava – segundo Brown – de fortalecer o poder imperial através da religião católica, apostólica e romana, o que poderia haver de melhor do que o Papa residir em Constantinopla, de preferência nas próprias dependências do palácio imperial ou, pelo menos, na mesma cidade que o imperador? Só uma razão o impedia, de fato: Roma era a Sé Suprema da Igreja, não porque era a capital do Império, mas porque era a Sé de Pedro.

Inclusive a novela diz que a Igreja proibiu “o nome” de Maria Madalena (p.316). É verdade que não fica claro se ele está se referindo a não poder mencionar o nome dela ou não poder batizar ninguém com esse nome… O fato é que não deve ser nenhuma das duas coisas, pela simples razão de que para a Igreja Maria Madalena é Santa, cuja festa é celebrada em 22 de julho. E é claro que desde o início a Igreja incentivou a praxe de se dar nomes de santos às crianças que eram batizadas. A prova disso é a grande quantidade de Madalenas que existiram ao longo da História.

Por outro lado, a novela estabelece um vínculo duvidoso entre “Paganismo” e “Feminismo”, e um vínculo impossível entre “Paganismo” e “Judaísmo”. Não é tão claro que o Paganismo seja totalmente ou em grande medida ou essência, matriarcal. E é evidentemente claro que o Judaísmo não tem nada a ver com o Paganismo; e menos ainda com o matriarcado e o feminismo!

No entanto, Maria Madalena, judia, seria a cabeça de uma dinastia dedicada ao culto pagão da “deusa-mãe”, que por outro lado o autor quer encontrar já no próprio Templo de Jerusalém, onde ocorreria prostituição sagrada e se veneraria dois deuses: um masculino, Jeová, ou melhor, Jah; e outro feminino, a Shekiná (p.384)! Mas a Shekiná não era outro deus, mas a glória de Deus, do único Deus. Até o monoteísmo judaico vem a baixo na “reconstrução” histórica de Brown.

Para Brown, a “manobra constantiniana” teria tipo por efeito nada menos que impossibilitar a existência de rabinas judias e de clérigas islâmicas (p.159)! Alcance impossível não apenas para a influência imperial, como inclusive para a cristã!

Aí mesmo se afirma que inclusive a vergonha ou pudor associados ao ato sexual teria uma origem relativamente moderna e seria, em todo caso, posterior à “caça às bruxas” na Europa até finais da Idade Média. Veja do que temos que nos inteirar!

Na p.158 ficamos sabendo de mais coisas. Segundo se diz aí, durante 3 séculos, a Igreja dirigiu uma campanha para reeducar os pagãos e praticantes do culto feminino. Nessa campanha, a Inquisição publicou o “Malleus Maleficarum”. Refere-se, portanto, ao livro publicado em 1487, ou seja, no século XV. Colocando-nos na hipótese mais favorável a Brown, este era o último dos 3 séculos, ou seja, a campanha de “reeducação” dos pagãos praticantes do culto feminino teria começado no século XIII, cerca de 9 séculos depois de Constantino. Não é um tempo um tanto excessivo?

A novela informa aí também que durante esses 300 anos, a Igreja queimou na fogueira 5.000.000 de mulheres. Uma multiplicação simples e mais uma divisão nos apresenta um saldo de 45 fogueiras por dia durante 300 anos! Um pouco demais, não?

Na verdade, os números fornecidos por outras fontes são bem diferentes:

“Calcula-se que houve cerca de 100.000 causas de bruxaria na Europa, das quais a metade, ou seja, cerca de 50.000 pessoas terminaram na fogueira. Porém, como podemos ver, a intensidade das perseguições variou muito de país para país.

A densidade de perseguição de bruxas na Europa (Behringer 1998:65f)2

País / Execuções / % para cada 1000 habitantes / Habitantes por volta de 1600

Portugal / 7 / 0,0007 / 1.000.000
Espanha / 300 / 0,037 / 8.100.000
Itália / 1000? / 0,076 / 13.100.000
Países Baixos / 200 / 0,133 / 1.500.000
França / 4000? / 0,200 / 20.000.000
Inglaterra+Escócia / 1500 / 0,231 / 6.500.000
Finlândia / 115 / 0,238 / 350.000
Hungria / 800 / 0,267 / 3.000.000
Bélgica+Luxemburgo / 500 / 0,384 / 1.300.000
Suécia / 350 / 0,437 / 800.000
Islândia / 22 / 0,440 / 50.000
Tchecoslováquia / 1000? / 0,500 / 2.000.000
Áustria / 1000? / 0,500 / 2.000.000
Dinamarca+Noruega / 1350 / 1,391 / 970.000
Alemanha / 25000 / 1,563 / 16.000.000
Polônia+Lituânia / 10000? / 2,941 / 3.400.000
Suiça / 4000 / 4,000 / 1.000.000
Liechtenstein / 300 / 10,0 / 3.000

A metade das queimas de bruxas se produziram, como vemos, nos estados alemães, onde foram executadas 25.000 pessoas. Mas considerando o número de execuções em relação ao número de habitantes, vemos que Liechtenstein foi o lugar onde a perseguição foi mais dura: 300 queimas em relação a 3.000 habitantes corresponde a 10% da população. No extremo oposto da tabela, com a intensidade de uma fração de 1/1000, encontramos Portugal, Espanha e Itália, os únicos países que conservaram a Inquisição, adaptando-a à sua nova base nacional.

A documentação correspondente à primeira parte da Idade Moderna, que é a época que nos interessa, é tão abundante que nos permite afirmar, com grande segurança, quantas bruxas foram queimadas devido à Inquisição.

Os números, por inesperados, causam assombro: 1 para Portugal; 27 para a Espanha; e 8 para a Itália. Os números restantes, cerca de 1.300 execuções, repartidas entre esses 3 países, se deveram aos tribunais civis e episcopais dos mesmos.

Em estudos já bem ultrapassados encontramos muitas vezes a suposição de que na Espanha, Portugal e Itália o Santo Ofício tinha tanto o que fazer, perseguindo judeus, maometanos e protestantes, que não lhe sobrava tempo para perseguir também as bruxas. A revisão sistemática dos arquivos inquisitoriais nos mostra algo bem diferente: calcula-se que a Inquisição nos países católicos do Mediterrâneo levou a cabo entre 10.000 e 12.000 processos de bruxaria, os quais foram sentenciados com penas menores ou absolvição” (Fonte: http://www.mercaba.org/DOSSIERES/brujas.htm).

Esta informação é confirmada em uma outra página da Internet, que não é católica e, provavelmente, nem cristã: http://www.religioustolerance.org/wic_burn.htm

E, no entanto, devemos dizer que Brown foi superado em seu próprio terreno. Uma página da Internet, das “Católicas pelo Direito de Decidir” (isto é, pseudo-católicas pelo direito de matar mediante o aborto), diz que foram 8.000.000 de mulheres durante 400 anos! A citação textual é de Francesca Gargallo, “Breve História da Mulher”, 2ª Parte, in: FEM, Publicação Feminista Mensal, México, set/1990, p.7.

Vamos novamente recorrer à calculadora: obtemos uma média de 73 fogueiras por dia durante 4 séculos! Um possível problema de poluição ambiental?

Por outro lado, será que no “Malleus Maleficarum” aparece a expressão “mulheres livre-pensadoras” citada entre aspas na novela (p.158)? Não seria isso uma antecipação do vocabulário iluminista? Pelo menos em uma busca que fizemos da referida expressão na versão espanhola da obra, baixada da Internet, não encontramos nenhuma ocorrência da mesma.

A conhecida associação entre o “esquerdo” e o negativo, expresso por exemplo no uso que fazemos da palavra “esquerda”, seria devido à sua relação com o feminino, já carregado de negatividade por tudo o que foi anteriormente dito, com o esquerdo. Não fica claro na obra o porquê desta última associação. É maior entre os surdos a porcentagem de mulheres do que de homens? A “maldade” do “lado esquerdo” não vem do fato óbvio de que a imensa maioria da humanidade é hábil da mão “direita” e não da “esquerda”?

Mas a revelação definitiva vem ao final desta seção: a origem das guerras encontra-se na testosterona! A agressividade é algo exclusivamente masculino, como sabe todo aquele que jamais teve relação com mulheres em sua vida.

Nem é tão fácil, tampouco, sustentar que o Catolicismo é o símbolo sem igual do machismo! Mas se vamos ao caso, percebemos que o culto à Virgem Maria se configura menos com o machismo do que as crenças de outras religiões…

O feminismo do Priorado, ademais, resta bem decepcionante, pois ficamos sabendo, no fim da novela, que apenas 4 “grandes mestres” foram mulheres (p.544). Em 900 anos! Isto se parece mais com as cotas mínimas exigidas aos partidos políticos! Ó deusa: perdoa os teus seguidores!

A obra acusa o Papa Clemente V de ter sido o principal instigador da extinção dos Templários e de ter recrutado o rei francês Felipe IV para a mesma (p.202).

A verdade histórica é, obviamente, o contrário. A iniciativa foi do rei, que cobiçava os bens dos Templários. Clemente V, o primeiro Papa que viveu em Avignon, durante o período que conhecemos como “Cativeiro do Papado na França”, também era francês e de caráter frágil. Citamos o historiador católico Ludwig Hertling, em seu livro “História da Igreja”, ed. Herder, Barcelona, 1979:

“De repente, Felipe o Belo teve notícia de algumas monstruosidades inauditas que os templários praticavam secretamente: idolatria, licenciosidade desenfreada e um sem fim de outros crimes. No ano 1307 mandou prender todos os templários franceses, cerca de 2.000. As acusações descuidadas, cortadas sobre o mesmo padrão das monstruosas calúnias lançadas pelo próprio rei contra Bonifácio, não mereciam o mínimo crédito. Que alguns templários tivessem faltado com seus deveres, era perfeitamente possível, mas o mesmo poderia se dizer dos membros de qualquer outra ordem religiosa; mas nem então, nem depois, pôde alguém apresentar uma prova digna de fé sobre os crimes que lhes eram imputados. A parte negativa era que a ordem possuía muitas riquezas e como o rei as ambicionava para si, tinha que provar a culpabilidade deles a qualquer preço. As posses dos templários tinham o caráter de fundações eclesiásticas de beneficência e para que o rei pudesse confiscá-las precisava que o Papa dissolvesse as fundações. Para intimidar o Papa, apresentou as confissões dos réus, arrancadas sob tortura. O frágil Clemente V se acovardou, temeroso também de que, se irritasse Felipe, este o forçaria a iniciar o processo contra Bonifácio. No fim, decidiu convocar um Concílio Ecumênico para Vienne (1311), retirando tal responsabilidade de cima de si. No entanto, os padres não se declararam convencidos das provas e documentos apresentados e resistiram a sentenciar a culpabilidade dos templários. Muitos deles, neste meio termo, já tinham sido justiçados. O Papa, incessantemente apertado pelo rei, que assistia também o Concílio, encontrou finalmente um jeito de dissolver a ordem mediante um simples ato de provisão apostólico, sem a necessidade de pronunciar uma sentença formal, coisa para a qual o Papa sempre está facultado a fazer com relação a qualquer ordem religiosa. Quanto aos bens, para não defraudar a finalidade das fundações, foram atribuídos aos Cavaleiros de Rodes e às outras ordens militares, ainda que pouco foi o que realmente chegou às suas mãos. As execuções prosseguiram, mas estas dificilmente podem ser consideradas como atos de provisão administrativa. Finalmente, em 1314, o grão-mestre Tiago de Molay, que até o fim defendeu a inocência dos seus companheiros, morreu na fogueira. A extinção dos Templários é um dos maiores escândalos de toda a História Eclesiástica e macula a memória de Clemente V, que aqui desempenhou o papel de Pilatos” (pp.256–257).

Pelo visto, o ser católico e jesuíta não impediu Hertling a denunciar a fraqueza de Clemente V, como lhe corresponde, nem se pode imaginar que o seu testemunho seja parcial, favorável ao Papa. No entanto, não afirma o que diz a novela, isto é, que a iniciativa partiu do Papa, mas deixa claro o que qualquer historiador sério precisa reconhecer: que a iniciativa foi do ambicioso rei francês e que a culpa do Papa foi a de não ser opor com a firmeza e energia necessárias para a injustiça a que o rei queria obrigá-lo.

A exposição de Hertling coincide substancialmente com a da “Wikipedia”, na Internet, que tampouco se caracteriza por ser favorável ao Cristianismo, mas que neste tema parece ser bem objetiva: http://es.wikipedia.org/wiki/Orden_del_Temple#Los_nueve_fundadores (em espanhol)

O que ocorre é que Brown precisa que o principal impulsionador da destruição dos templários seja o Papa, porque somente assim poderá explicar a dissolução da Ordem como consequência da busca do segredo do Graal por parte da Igreja, busca esta que não tem outra finalidade – segundo Brown – senão fazer desaparecer esta informação.

Aponta na p.203: “O verdadeiro objetivo do Papa eram os poderosos documentos que tinham encontrado e que aparentemente eram sua fonte de poder; porém, nunca os encontrou”.

Esses documentos de que fala são, justamente, na novela, os que provam a relação de Maria Madalena com Jesus e a existência de uma descendência carnal de Jesus Cristo, que chega até o próprio Godofredo de Bulhões.

Finalmente, com relação ao famoso “Priorado de Sião”, digamos apenas que realmente existe ou existiu, mas só a partir de 1956, quando foi fundado na França por um tal Pierre Plantard (o sobrenome aparece na novela) e alguns amigos. Ao que parece, tratava-se de um grupo antissemita. Referido Plantard criou – segundo a polícia francesa – uma falsa genealogia que o fazia descender dos merovíngios. O resultado final é que ele tinha direito à coroa francesa. Em francês, um artigo bastante completo sobre o caso, você encontra neste link da Internet: http://www.portail-rennes-le-chateau.com/davincicode1.htm

E, em espanhol, novamente a “Wikipedia”: http://es.wikipedia.org/wiki/Priorato_de_Sion

A obra de Brown também revela uma ignorância bastante elementar das doutrinas, usos e costumes da Igreja Católica. Aparece aí um “monge da Opus Dei”, com hábito e tudo (pp.147 e 161). Porém, é sabido que não há monges na Opus Dei.

Ademais, parece que Brown entende o título “prelatura pessoal” no sentido de que é uma “prelatura pessoal do Papa”; assim o diz duas vezes (pp.46 e 59). Ou seja: o “pessoal” faria referência – segundo ele – à pessoa do Papa.

É sabido, pelo contrário, que faz referência às pessoas que integram a “Opus Dei”: trata-se de uma prelatura pessoal porque é dirigida por um prelado, isto é, um Bispo, que ao invés de ter jurisdição sobre um território, como ocorre com os Bispos diocesanos, tem jurisdição sobre um conjunto de pessoas que está espalhado por todo o planeta.

Pior ainda: no início da novela, um personagem que é membro da Opus Dei diz: “Somos uma igreja católica” (p.44). Ao que parece, Brown entende que as Ordens e Congregações Religiosas católicas, e também as Prelaturas Pessoais, são outras tantas “igrejas” dentro da Igreja, uma noção eclesiológica totalmente infantil e inaudita até o presente. Propomos a hipótese de que a etimologia “ekklesia” como “congregação” possa ter despistado Brown. Ou, talvez, o fato de que à frente das prelaturas pessoais exista um prelado, isto é, um Bispo. Porém, nada disso justifica chamá-las “igrejas”.

E afirma mais: fala de uma religiosa, que é uma “mulher do clero” (p.115). É sabido que, pelo contrário, na Igreja todos os membros do clero são do sexo masculino e que as religiosas não são membros do clero. É possível que isto tenha sido consequência inconsciente dos reflexos feministas de Brown…

E novamente seu monge da Opus Dei diz que “a oração é uma coisa solitária” (p.116), com o que tal monge demonstra não ter lido Santa Teresa d’Avila, nem São Escrivá de Balaguer, nem ter a menor ideia do que é a oração cristã ou a oração em geral.

Bom, também diz que os cristãos em geral ignoram toda a violência que se esconde atrás do crucifixo (p.183). Obviamente! A repetição anual da leitura da Paixão na Páscoa, a “Via Crucis” etc., apenas servem para nos convencer de que se trata de um confortável sofá ou divã.

Milagrosamente reconhece o interesse do Vaticano pela ciência (p.189), mas claro: o personagem que representa a Opus Dei a julga negativamente, opondo a objetividade da ciência à fé. Perguntamos então: por que a Opus Dei demonstra real interesse pela ciência?

Isto é mais que suficiente para demonstrar que quando Brown trata do Catolicismo, fala de ouvir falar. À vista destes resultados, parece que algumas de suas fontes foram outras novelas ou alguns filmes de Hollywood. Ou, simplesmente, sua imaginação.

Em suma: Viva o Senhor dos Anéis!!!

  • Fonte: Revista Fe y Razón nº 4 – Maio/2006
  • Tradução: Carlos Martins Nabeto
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