– “O Espírito Santo, dado a Igreja, despertou santos instintos, auxiliou o discernimento entre o puro e o espúrio, e assim foi possível chegar a uma gradual harmônica e por fim unânime conclusão. Havia na Igreja o que um teólogo designou com felicidade pela expressão ‘inspiração da seleção'” (História, Doutrina e Interpretação da Bíblia, São Paulo, 1951, pág. 29).

A formação do Cânon do Novo Testamento deu-se de forma gradual, de modo que depois do ano 400 d.C. não existiam mais dúvidas a este respeito, graças a intervenção da Igreja Católica que, como já citamos anteriormente, foi quem através do Espírito Santo e agindo de acordo com sua autoridade apostólica definiu quais eram os livros canônicos.

A princípio, os livros foram surgindo separadamente, em diferentes localidades e eram guardados cuidadosamente pelas diversas comunidades apostólicas (paróquias) e lidos nas reuniões cristãs. Depois, começaram a ser classificados em grupos: os Evangelhos, as Cartas de São Paulo (Epístolas Paulinas), os Atos dos Apóstolos e as Cartas Católicas (Epístolas Gerais); a estes grupos, foi acrescentado por fim o Apocalipse, de modo que por volta do final do século II d.C. estava praticamente completa a coleção. Mesmo assim, a autenticidade de alguns livros ficou ainda em aberto por certo tempo.

Existiam na Igreja Primitiva (vide notas nº 5 e nº 20), muitos escritos que diziam tratar da vida de Jesus. Segundo nos relata São Lucas (cf. Luc 1,1-2), muitos escritores buscavam reproduzir o primitivo Evangelho oral, visto que os primeiros Evangelhos só foram escritos de 20 a 30 anos após a morte e ressurreição de Jesus Cristo; estes se conservaram oralmente até serem redigidos por escrito graças a assistência do Espírito Santo atuando na Sagrada Tradição Apostólica da Igreja, que se desenvolvia cada vez mais, expandindo-se e convertendo os povos ao Cristianismo.

Não demorou para que os quatro Evangelhos, fossem constituídos pela Tradição Apostólica, sendo universalmente reconhecidos pela Igreja. Os Evangelhos de São Marcos e São Lucas foram escritos respectivamente sob a influência de São Pedro e São Paulo. Marcos e Lucas eram companheiros dos Apóstolos: Marcos, o convertido de Pedro (cf. 1Pedro 5,13), e Lucas o amigo íntimo de Paulo (cf. Atos 20,5-6, etc):

– “Papias (130), Justino (†164), Irineu (180) e Orígenes, todos falam do Evangelho de Marcos, como geralmente aceito, dizendo que tinha sido ditado e sancionado por Pedro. Irineu, Tertuliano e Orígenes discorrem sobre o Evangelho de Lucas como sendo universalmente recebidos e sancionados por Paulo” (História, Doutrina e Interpretação da Bíblia. São Paulo, 1951, pág. 72).

Os Pais Apostólicos da Igreja Católica (São Clemente de Roma, São Policarpo de Esmirna, Santo Inácio de Antioquia e Hermas) citam os Evangelhos de tal maneira que indicam ser a autoridade dos Evangelhos inteiramente reconhecida pela Igreja. Taciano (172), discípulo de Justino Mártir[1], fez a combinação dos Evangelhos numa Harmonia chamada de “Diatessaron”; uma outra Harmonia foi feita por Amônio de Alexandria, professor de Orígenes. Santo Irineu – que quando jovem conheceu São Policarpo, discípulo do apóstolo São João Evangelista – reconheceu a santa quaternidade dos Escritos, testificando a aceitação desses livros como inspirados por Deus. Tertuliano de Cartago, Santo Atanásio de Alexandria e São Cirilo de Jerusalém confirmam ser os quatro Evangelhos as verdadeiras narrativas evangélicas.

Aos Evangelhos foi acrescentado, por consenso geral, o Livro dos Atos dos Apóstolos, tido como o segundo livro escrito por São Lucas.

As fontes dos primeiros séculos confirmam a autenticidade do Novo Testamento. Vejamos apenas uns poucos exemplos:

– Evangelho de São Mateus: No ano 130, o Bispo Papias de Hierápolis, na Frígia, região da Ásia Menor, que foi uma das primeiras a ser evangelizada pelos Apóstolos, fala do Evangelho de São Mateus dizendo: “Mateus, por sua parte, pôs em ordem os dizeres na língua hebraica, e cada um depois os traduziu como pode” (Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica 3,39,16). Quem escreveu essas palavras foi o bispo Eusébio de Cesareia, na Palestina, quando por volta do ano 300 escreveu a primeira História da Igreja. Ele dá o testemunho histórico de Papias. Note que Papias nasceu no século I, isto é, no tempo dos próprios Apóstolos, sendo São João ainda vivo. Portanto, este testemunho é inequívoco.

Outro testemunho importante sobre o Evangelho de Mateus é dado por Santo Irineu (†200), do século II. Ele foi discípulo do grande bispo São Policarpo de Esmirna, que foi por sua vez discípulo de São João Evangelista. Santo Irineu, na sua obra “Contra as Heresias Gnósticas”, fala do Evangelho de Mateus, dizendo: “Mateus compôs o Evangelho para os hebreus na sua língua, enquanto Pedro e Paulo em Roma pregavam o Evangelho e fundavam a Igreja” (Adv. Haer. 2,1,1).

– Evangelho de São Marcos: É também o Bispo de Hierápolis, Papias (†130) que dá o primeiro testemunho do Evangelho de São Marcos, conforme escreve Eusébio: “Marcos, intérprete de Pedro, escreveu com exatidão, mas sem ordem, tudo aquilo que recordava das palavras e das ações do Senhor; não tinha ouvido nem seguido o Senhor, mas, mais tarde (…), Pedro. Ora, como Pedro ensinava, adaptando-se às várias necessidades dos ouvintes, sem se preocupar em oferecer composição ordenada das sentenças do Senhor, Marcos não nos enganou escrevendo conforme recordava; tinha somente esta preocupação: nada negligenciar do que tinha ouvido e nada dizer de falso” (Eusébio de Cesareia, História Ecelsiástica, 3,39,15).

– Evangelho de São Lucas: O Prólogo do Evangelho de S. Lucas, usado comumente no século II, dava testemunho deste Evangelho, ao dizer: “Lucas foi sírio de Antioquia, de profissão médica, discípulo dos Apóstolos; mais tarde seguiu Paulo até a confissão (=martírio) deste, servindo irrepreensivelmente o Senhor. Nunca teve esposa nem filhos; com 84 anos morreu na Bitínia, cheio do Espírito Santo. Já tendo sido escritos os Evangelhos de Mateus, na Bitínia, e de Marcos, na Itália, impelido pelo Espírito Santo, redigiu este Evangelho nas regiões da Acáia, dando a saber logo no início que os outros Evangelhos já haviam sido escritos”.

– Evangelho de São João: é Santo Ireneu (†202) que nos dá o seu testemunho: “Enfim, João, o discípulo do Senhor, o mesmo que reclinou sobre o seu peito, publicou também o Evangelho, quando de sua estadia em Éfeso. Ora, todos esses homens legaram a seguinte doutrina: (…) Quem não lhes dá assentimento, despreza os que tiveram parte com o Senhor; despreza o próprio Senhor; despreza, enfim, o Pai; e, assim, se condena a si mesmo, pois resiste e se opõe à sua salvação – e é o que fazem todos os hereges” (Contra as Heresias Gnósticas; cf. Escola da Fé II – A Sagrada Escritura. Lorena, 2000, págs. 40-42).

As Cartas de São Paulo gozam também da mesma autoridade apostólica dos Evangelhos; treze delas possuem o seu nome. Geralmente, eram escritas através de alguém que a copiava para o Apóstolo, sendo uma testemunha legítima dos seus escritos, como no caso de Tércio, que redigiu a carta aos Romanos (cf. Romanos 16,22); nestes casos ele acrescentava apenas a sua assinatura e saudação (cf. 1Coríntios 16,21; Colossenses 4,18). Suas cartas eram enviadas por mensageiros particulares (cf. Romanos 16,1; Efésios 6,21; Filipenses 2,25; Colossenses 4,7-8). Sabemos pelos escritos dos católicos Santos Inácio, São Policarpo e São Clemente de Roma que as cartas de São Paulo eram consideradas como Escrituras inspiradas e lidas ao lado da Lei, dos Profetas e dos Evangelhos. Uma prova mais remota aparece na 2ª Carta de São Pedro (cf. 2Pedro 3,15-16), onde se confere às cartas de São Paulo o título de “Escrituras”.

Uma carta de São Clemente de Roma, do século I, dirigida à comunidade de Corinto, identifica-se com o conteúdo da Carta aos Hebreus, que era admitida pelos antigos escritores da Escola Alexandrina entre os Escritos inspirados do Novo Testamento; porém, sobre o autor pairavam dúvidas: Eusébio de Cesareia acreditava que a mesma tinha sido concebida por São Paulo, mas redigida por outra pessoa, ou escrita por São Paulo em hebraico ou aramaico e traduzida por um especialista em grego. Orígenes concluiu que “os pensamentos são do Apóstolo [São Paulo], mas quem a redigiu só Deus sabe”.

Quanto aos livros restantes referentes ao Novo Testamento, foram chamados de “Antilegúmenos”, ou seja, não admitidos por todos, sendo classificados também como “Deuterocanônicos”, visto que a sua canonicidade só foi atestada numa época posterior aos dos outros livros do Novo Testamento acima citados. Estes livros foram sendo introduzidos no Cânon pouco a pouco, de modo que, no princípio do século IV, toda a Igreja Católica já os reconhecia como inspirados por Deus.

Houve dúvidas se os escritos de Tiago[2], Pedro[3]. João e Judas[4] teriam sido escritos por eles, visto que muitas composições falsas surgiam com os nomes dos Apóstolos, como pode ser observado pelo ensino apostólico (cf. 2Tessalonicenses 2,1-2; 1João 4,1):

– “Então, ao lado do grande Epistolário Paulino, outras sete epístolas escritas por Apóstolos (1 de Tiago, 2 de Pedro, 3 de João e 1 de Judas) passam a constituir grupo à parte no cânon do Novo testamento. Desde os primeiros séculos foram denominadas – tanto em grupo como individualmente – ‘católicas’, isto é, ‘universais’ (…) Entre os latinos, foram também chamadas ‘Epístolas Canônicas’, talvez como protesto da fé no seu caráter de livros sagrados, que a maior parte delas foi reconhecido em época muito tardia. De fato, somente a primeira de Pedro e a primeira de João foram, desde o princípio, consideradas sem contestações nas Igrejas, como inspiradas e, portanto, canônicas. Todas as outras, umas mais outras menos, encontraram oposição em diversos tempos e lugares (cf. EUSÉBIO. História Eclesiástica 3,25, -3). No Ocidente, o grupo encontra-se já constituído em sua integridade e autoridade canônica, no princípio do século IV (Concílio Plenário da África; Papa Inocêncio I, 405). Nas Igrejas orientais não antes dos séculos VI e VII” (Bíblia Sagrada. São Paulo, 1982, pág. 1318).

[Por fim, veio compor o cânon o livro do Apocalipse, escrito no final do século I pelo apóstolo São João, também este deuterocanônico].

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NOTAS

[1] Nasceu em Naplus, antiga Siquém, em Israel. Encontrou nos Evangelhos “a única filosofia proveitosa”. Era filósofo e fundou uma escola em Roma. Dedicou a sua “Apologia” ao imperador Romano Antonino Pio, em 150 d.C., defendendo os cristãos. Foi martirizado em Roma em 164 d.C. aproximadamente.
[2] Foi o primeiro Bispo de Jerusalém depois da dispersão dos Apóstolos. É o autor da Epístola Católica que leva o seu nome. Foi morto no Templo por instigação do Sumo Sacerdote Anás II, sendo lançado de uma galeria e espancado até a morte em 62 d.C.
[3] Sobre a 1Pedro: O autor da epístola é sem dúvida, São Pedro, o príncipes dos Apóstolos, que então se encontrava em Roma e daí (cf. 1Pedro 5,13) escreveu aos longínquos fiéis da Ásia, embora não tenham sido convertidos por ele (cf. 2Pedro 3,2), servindo-se de Silvano (cf. 1Pedro 5,12), como escrivão e talvez como redator da epístola, notável não só pela força do pensamento, como também porque exarada em excelente grego. Desde que se formou o cânon escriturístico do Novo Testamento, a presente epístola foi incluída nele. Sobre a 2Pedro: nos séculos II e III, a 2Pedro era pouco conhecida, ao menos fora do Egito, e a sua canonicidade ou caráter sagrado, era posto em dúvida, quando não negada. Mas no século IV passou a ser bem mais conhecida no Ocidente e, simultaneamente, foram-se desvanecendo as dúvidas a respeito do seu valor de Livro Sagrado. Entre o IV e V séculos ocupou um lugar definitivo no cânon das Igrejas da Europa e da África, enquanto que na Síria continuou a ser ignorada por mais alguns séculos. O mesmo não se deu com o reconhecimento da sua autenticidade (…) S. Pedro é verdadeiramente o seu autor. São Jerônimo não registrava senão os fatos quando afirmava, que no ano 392, Pedro “escreveu duas epístolas denominadas católicas, a segunda das quais muitos afirmam não ser de sua autoria, por que (foi) lavrada em estilo diferente da primeira” (De Vir. Ill. 3,1). Partilhando da opinião de que ambas eram genuínas, ele (São Jerônimo) explica as diversidades de linguagem e de estilo pelo fato de São Pedro ter ditado a dois tradutores ou redatores gregos distintos (cf. Carta 120, à Edíbia 9).
[4] Esta curta epístola já encontrava-se no século II – segundo o testemunho do cânon Muratoriano – incluída no cânon escriturístico da Igreja de Roma. Não faltou já então, e mais ainda depois, quem pusesse em dúvida ou negasse principalmente sua canonicidade como atesta São Jerônimo (De Vir. Ill. 4), por causa da citação que extrai do livro apócrifo de Henoque (cf. vv. 14-15). Prevaleceu, porém, o uso antigo e a autoridade da Igreja, segundo testemunho do mesmo São Jerônimo, e bem cedo as oposições cessaram no Ocidente e, mais tarde, também no Oriente.

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BIBLIOGRAFIA

– Parte integrante do opúsculo “A Formação da Bíblia ao longo dos Séculos e a importante participação da Igreja Católica neste processo”, de autoria de Leandro Martins de Jesus, 2005.
– ANGUS, Joseph; GREEN Samuel G. “História, Doutrina e Interpretação da Bíblia”. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1951.
– AQUINO, Felipe. “Escola da Fé I: A Sagrada Tradição”. Lorena: Cléofas, 2000.
– _________. “Escola da Fé II: A Sagrada Escritura”. Lorena: Cléofas, 2000.
– _________. “Escola da Fé III: O Sagrado Magistério”. Lorena: Cléofas, 2001.
– BATTISTINI, Francisco. “A Igreja do Deus Vivo: curso popular sobre a verdadeira Igreja”. Petrópolis: Vozes, 29ª ed., 1998.
– Bíblia Sagrada. São Paulo: Ave Maria, 47ª ed., 1985.
– Bíblia Sagrada. São Paulo: Paulinas, 38ª ed., 1982
– SARMENTO, Francisco de Jesus Maria. “Minidicionário Compacto Bíblico”. São Paulo: Rideel, 3ª ed., 2001.
– SILVA, Rogério Amaral. “A Fundação da Igreja Católica por Nosso Senhor Jesus Cristo”. ACI Digital – Disponível em: www.acidigital.com.br. Acesso em 16/06/2004.
– SILVA, Severino Celestino. “Pequena História das Traduções Bíblicas”. Nosso São Paulo – Disponível em: www.nossosaopaulo.com.br. Acesso em 01/07/2004.
– (Autor Desconhecido). “Como a Bíblia foi escrita”. ACI Digital – Disponível em: www.acidigital.com.br. Acesso em 16/06/2004.

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