O que mais salta à vista quando se lê narrativas escritas em outras épocas é a semelhança com a nossa. Estamos aqui, agarrados aos telefones celulares, atravessando o mundo de avião, bebendo água encanada e engarrafada, mas as questões e os desejos são os mesmos. A natureza humana descrita em Shakespeare ou em Homero é a mesma que temos; os dilemas são iguais, mudando-se apenas o entorno.

Há um pequeno componente social: o que seria honroso em uma sociedade é desonroso em outra. A questão de seguir a honra ou o coração, contudo, permeia toda sociedade humana. Uma criança nascida milênios atrás e transplantada para nossa sociedade cresceria exatamente igual às atuais, e vice-versa.

Toda sociedade suficientemente antiga acaba por descobrir o que é conveniente à natureza humana, ainda que de forma darwiniana; se ela não descobre, não perdura como sociedade. Também é uma constante histórica que as sociedades acabem por confundir o que é da natureza e o que é construção social, tentando, em um dado momento, mudar o natural como se se tratasse de um mero hábito aprendido. Paradoxalmente, a origem deste desejo – em última instância autodestrutivo – é a mesma natureza humana. O primeiro cavernícola a fazer uma tenda com folhas de bananeira estava indo contra os hábitos de sua tribo, mas dessas folhas surgiram as edificações que marcam a civilização.

Como os hábitos geram familiaridade, é compreensível que confundamos o hábito que reflete a natureza humana e o hábito socialmente construído, tomando as saias pelo feminino ou a polícia pela ordem.

O que faz uma sociedade perdurar, contudo, é justamente esta aceitação da natureza humana, esta concordância entre a lei humana e as necessidades e anseios de cada um. Quando isto é abalado, é o fim daquela sociedade. Não é o fim do mundo, apenas o fim de uma era, a demolição de um edifício social cuidadosamente construído. A humanidade já passou por muitas eras, muitas sociedades, muitas civilizações. Todas perduraram enquanto foram conformes à natureza humana, e encontraram o seu fim ao esquecer que, antes de sermos cidadãos, somos seres humanos, com os mesmos anseios, questões e perturbações.

A cada geração os jovens descobrem o amor, como se fossem o primeiro casal. A cada reviravolta, a sociedade redescobre a natureza humana, como se fosse a primeira sociedade. Estamos agora num momento de esquecimento; nossos netos e bisnetos estarão num momento de redescoberta do que é ser humano. Que Homero, Shakespeare e Camões os ajudem!

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