O Mundo Ocidental caminha para uma aproximação com a comunidade islâmica como nunca antes se viu. No auge da influência maometana na Europa, esta se concentrava em regiões arabizadas ou turcotomanizadas. Hoje a influência é muito mais difusa e interna, um movimento pulsante e cada vez mais forte. Ademais, como tudo que ocorre no Ocidente, especificamente na Europa, a causa foi aliciada pelo discurso humanista-esquerdista. Os muçulmanos e as lutas dos imigrantes em geral viraram bandeiras de movimentos marxistas e panfletários; do outro lado, o extremismo conservador adotou um discurso discriminatório, não tanto pela convivência cultural, porém mais pela transformação dessas causas em defesas políticas.

O foco deste artigo é mostrar como o fundamentalismo islâmico se originou. Num próximo texto irei abordar a relação da laicização e relativização do Islamismo no Ocidente e em países islâmicos ocidentalizados, com o endurecimento do discurso radical, consequência imediata do esvaecimento tradicional da religião.

O atual fundamentalismo islâmico se originou de uma reforma ocorrida no séc. XIX. Como qualquer movimento reformista anti-tradicional – e aqui, como tradicional, também se entende a evolução natural da religião, pautada no aprofundamento dos mistérios e dos conhecimentos doutrinários – tinha como pretensão resgatar a fé da dita decadência. Muhammad ibn Abd al Wahhab, o agente dessa radical transformação, plantou as sementes do fanatismo, reducionismo e alienação islâmica.

Uma breve explicação: no islã existem duas grandes vertentes, o Sunismo e o Xiismo. A primeira se divide em quatro escolas de jurisprudência (formas de interpretar a lei islâmica): Shafi, Hambali, Maliki e Hanafi, todas intimamente ligadas, não existindo divergências doutrinárias. O Xiismo tem sua própria jurisprudência e o Sufismo (na verdade se chama “Tasawwuf”; sufismo é um termo ocidental que tem ligação com esoterismo nova era) é sunita, é a “mística sunni”.

Antes do surgimento do Wahhabismo, a relação entre sunitas e xiitas era próxima, muita estreita. O sexto Imam do Xiismo, Jaafar As-Sadiq, foi o mestre de Malik e Hanafi, os fundadores das respectivas escolas sunitas. Foi entre os xiitas que surgiu a estruturação das universidades, gerando produção intelectual e aproximação cultural entre os muçulmanos.

Wahhaba era um típico muçulmano da península arábica. Nasceu na região de Nejd e tinha contato com islâmicos de diversas escolas, inclusive xiitas. Ele desenvolveu sua doutrina baseando-se no pressuposto de que o Islã se encontrava em franca decadência. Iniciou então um processo de “purificação. Nessa caminhada, toda e qualquer atitude que considerasse fora da ortodoxia muçulmana era violentamente limada. Interessante que para isso passou a lançar mão de uma interpretação corânica pessoal. Como movimento de reforma foi muito similar ao Protestantismo. Dessa mentalidade surgiu a aversão ao Ocidente, assim como a muçulmanos não-wahhabitas, cristãos e judeus, o conhecimento, a filosofia etc., e ademais, ódio à tradicional arte islâmica, repugnando túmulos e mesquitas adornadas, grandiosas e bem trabalhadas, assim como a utilização artística do nome de Maomé e a comemoração do seu nascimento. Tudo era idolatria, caindo no legalismo paranóico. Com o triunfo do wahhabismo, mesquitas na Arábia Saudita com uma estética simbólica significativa foram ao chão por serem taxadas de profanas e indignas. A mística, a filosofia, a teologia e a arte, comuns e caras ao Islã, foram execradas e banidas do mundo muçulmano wahhabita.

Uma retrospectiva histórica é muito pertinente. Os ingleses tinham a pretensão de entrar em três grandes regiões com uma extensa comunidade islâmica: a Índia, o Irã e a península arábica. O problema era que mesmo com a desunião interna os muçulmanos se uniam rapidamente quando havia o perigo da invasão dos kuffar (incrédulos). Os britânicos passaram então a minar os muçulmanos pela fé; para isso, incitaram e financiaram três grandes movimentos e reformas; a fé Bahai, os Ahmadiyya e o Wahabismo. Os dois primeiros pregavam um relativismo religioso mitigado e a possibilidade de relações pacíficas com a Inglaterra; não obtiveram muito sucesso para a Rainha porque não ganharam espaço na sociedade. Mirza Ghulam Ahmad e Mirza Husayn Ali foram ineficientes para os ingleses. A eficácia que não conquistaram, a doutrina de Muhammad ibn Abd al Wahhab conquistou. A Inglaterra passou então a endossar a divisão. O pensamento wahhabita, que quando surgiu foi imediatamente condenado e repudiado pelos muçulmanos, não tinha nenhum apoio das escolas sunitas. O próprio Muhammad foi taxado de herege pelos seus parentes, acusado de ser neo-kharijita (os primeiros cismáticos do islã). Na sua doutrina era lícito fazer takfir da fé alheia (julgar a credulidade), o que era bastante interessante para o Reino Unido, já que na mentalidade wahhabita os turcos, senhores do Oriente Médio, eram incrédulos.

Como de um louco repudiado pelos sheikhs, Wahhab se transformou no dono da península. Os ingleses deram todo o apoio logístico e ainda juntaram o wahhabismo com a família Saud, que na época não passava de uma salteadora de caravanas. Dessa união, com as bênçãos da Rainha, nasceu a Arábia Saudita e o fanatismo islâmico.

O wahhabismo sempre andou lado a lado com as potências ocidentais: num primeiro momento a Inglaterra, depois os Estados Unidos. A hipocrisia, na verdade, nunca foi um empecilho para os sheikhs wahhabitas: emitiam fatwas defendendo a Coca-Cola ao mesmo tempo em que a Arábia Saudita era um dos poucos países do mundo que aceitavam o governo do Talibã no Afeganistão, país este que recebia grandes donativos dos muçulmanos sauditas depois que ouviam nas mesquitas a importância de apoiar os irmãos deobandis.

Dentro do Sunismo diversos movimentos surgiram: além dos wahhabis, posso citar os deobandis e os berailvi (estes dois vindos diretamente da doutrina reformista de Wahhaba), e os jadids, que nasceram de um movimento islâmico no Império Russo, pregando um “novo método” e modernização do Islã; tinham um caráter essencialmente intelectual, focado no pensamento social (e essa mentalidade progressista incomodou os comunistas, que combateram o jadidismo).

O intelectual Stephen Schwartz, o ex-trotskista agora neoconservador, foi feliz na publicação do livro ““The Two Faces of Islam: The House of Sa’ud from Tradition to Terror””, onde comentou a respeito do wahhabismo e a sua ligação íntima com o fundamentalismo. Em um dos seus artigos, ele diz que “”os wahhabis têm duas fraquezas que são, em grande parte, desconhecidas do Ocidente, um calcanhar de Aquiles em cada pé, por assim dizer. A primeira é que a grande maioria dos muçulmanos no mundo são gente pacífica que preferiam a instalação da democracia ocidental nos seus países. Detestam o wahhabismo pela mesma razão que qualquer cultura patriarcal rejeita uma quebra violenta com a tradição. E esse é o ponto que deve ser compreendido: Bin Laden e outros wahhabis não defendem a tradição islâmica; eles representam uma ruptura ultra-radical na direção da utopia sectária. Assim, são melhor descritos como islâmico-fascistas, apesar do muito em comum que têm com os bolcheviques”.”

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