Pesquisando sobre adoração eucarística encontramos um documento relativo à celebração do Ano da Eucaristia, celebrado por nós católicos, em 2004, e nele são propostos onze comportamentos “eucarísticos” para bem viver este Sacramento.

Esse documento foi elaborado pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos em resposta a uma solicitação do Santo Padre João Paulo II, onde este desejava oferecer “sugestões e propostas” que pudessem ser úteis aos Pastores e agentes pastorais dos diversos níveis, chamados a dar sua contribuição. 

O que apresentamos aqui é um extrato do documento, focado nos comportamentos que todo cristão deverá apresentar para uma verdadeira interiorização do mistério e vivência da fé, e foram propostos como um estímulo de catequese e formação.  Este extrato nos remete a reflexão de como nós nos portamos perante o Santíssimo e se o recebemos como verdadeiros ostensórios que somos do Espírito Santo. 

Boa leitura!


"[…] Um discurso de espiritualidade eucarística exigiria muito mais do que se propõe oferecer nestas páginas. Por isso, limitar-nos-emos a algumas indicações, na esperança que sejam as Igrejas particulares a retomar o discurso, dando estímulos e maior conteúdo às iniciativas específicas de catequese e formação.  

É importante, de fato, que a Eucaristia seja tomada, não apenas nos seus aspectos celebrativos, mas também como projeto de vida, e que esteja na base de uma autêntica “espiritualidade eucarística”. O Ano da Eucaristia é um tempo propício para ir além dos aspectos tipicamente celebrativos. Precisamente por ser o coração da vida cristã, a Eucaristia não se fecha dentro das paredes da igreja, mas exige ser transfundida na vida dos que nela participam. O sacramento do Corpo de Cristo é oferecido em vista da edificação do Corpo de Cristo, que é a Igreja.  

Os comportamentos eucarísticos, a que a celebração nos educa, devem ser cultivados na vida espiritual, de acordo com a vocação e o estado de vida de cada um. A Eucaristia, na verdade, é um alimento essencial para todos os que crêem em Cristo, sem distinção de idade ou condição".

Comportamentos Eucarísticos

1º. Comportamento: Escuta da Palavra

Verbum Domini 

"Na conclusão das leituras da sagrada Escritura, a expressão Verbum Domini – Palavra do Senhor – mostra-nos a importância do que sai da boca de Deus, e faz-nos o sentir não como um texto “distante”, embora inspirado, mas como palavra viva, com que Deus nos interpela: encontramo-nos num contexto de verdadeiro “diálogo de Deus com o seu povo, diálogo em que são proclamadas as maravilhas da salvação e constantemente repropostas as exigências da Aliança” (Dies Domini, 41). 

A Liturgia da Palavra é parte constitutiva da Eucaristia (cf. SC, 56; Dies Domini, 39-41). Reunimo-nos em assembléia litúrgica para escutar o que o Senhor tem para nos dizer: a todos e a cada um. Ele fala agora e aqui, a nós que O escutamos com fé, acreditando que só Ele tem palavras de vida eterna, que a sua palavra é lâmpada para os nossos passos. Participar na Eucaristia significa escutar o Senhor para pôr em prática o que Ele nos manifesta, nos pede e deseja da nossa vida. O fruto da escuta de Deus que nos fala, quando na Igreja se lêem as sagradas Escrituras (cf. SC, 7), amadurece no dia a dia da vida (cf. Mane nobiscum Domine, 13). 

A atitude de escuta está no começo da vida espiritual. Crer em Cristo é escutar a sua palavra e pô-la em prática. É docilidade à voz do Espírito, o Mestre interior que nos guia à verdade plena, não só à verdade que se deve conhecer, mas também à que se deve praticar. Para escutar realmente o Senhor na Liturgia da Palavra, precisa ter o ouvido do coração afinado.

 À isso nos prepara a leitura pessoal das sagradas Escrituras, em tempos e ocasiões programadas, e não nos eventuais tempos que sobram. E para que quanto se ouviu, na celebração eucarística não desapareça da mente e do coração ao deixar a igreja, há que encontrar maneiras de prolongar a escuta de Deus, que nos faz ouvir a sua voz de muitas maneiras, através das circunstâncias da vida quotidiana.  

 

2º. Comportamento: Conversão

Agnoscamus peccata nostra ut apti simus ad sacra mysteria celebranda 

Kyrie eleison, Christe eleison

Domine Deus, Agnus Dei, Filius Patris, qui tollis peccata mundi, miserere nobis

Agnus Dei qui tollis peccata mundi: miserere nobis

Domine non sum dignus ut intres…  

Como se depreende dos textos citados, a dimensão penitencial é muito presente na celebração eucarística. Aparece não só no início, no ato penitencial com as suas diversas formas de invocação da misericórdia, mas também na súplica que se faz a Cristo no canto do Glória, no canto do Agnus Dei durante a fração do pão, e na oração que dirigimos ao Senhor antes de participar no banquete eucarístico.  

A Eucaristia estimula à conversão e purifica o coração penitente, consciente das próprias misérias e desejoso do perdão de Deus, mesmo que não substitua a confissão sacramental, único meio ordinário, para os pecados graves, de receber a reconciliação com Deus e com a Igreja. Esta atitude de espírito deve prolongar-se durante o dia, alimentada pelo exame de consciência, ou seja, pelo confronto dos pensamentos, das palavras, obras e omissões com o Evangelho de Jesus. 

Ver com transparência as nossas misérias liberta-nos da autocomplacência, mantém-nos na verdade perante Deus, leva-nos a proclamar a misericórdia do Pai que está nos céus, mostra-nos o caminho que devemos seguir e conduz-nos ao sacramento da Penitência. Abre-nos também ao louvor e à ação de graças. Ajuda-nos, enfim, a ser benévolos com o próximo, a ter compaixão das suas fragilidades e a perdoá-lo.  

A advertência de Jesus de nos reconciliarmos com o irmão, antes de levar a oferta ao altar (cf. Mt 5, 23-24), e o apelo de Paulo a verificar a nossa consciência antes de participar na Eucaristia (“examine cada qual a si mesmo, e depois coma do pão e beba do cálice”: 1 Cor 11, 28), sejam levadas a sério. Sem o cultivo dessas atitudes, a Eucaristia é despojada de uma sua dimensão profunda.   

 

3º. Comportamento: Memória

Memores igitur, Domine, eiusdem Filii tui salutiferae passionis necnon mirabilis resurrectionis et ascensionis in caelum (Oração Eucarística III) 

Se os cristãos celebram a Eucaristia desde as origens e numa forma que, substancialmente, não mudou através da grande diversidade dos tempos e das liturgias, é para que nos sintamos vinculados ao mandamento que o Senhor deu na véspera da sua Paixão: “Fazei isto em memória de Mim”(1 Cor 11, 24-25) (CIC, 1356). 

A Eucaristia é, em sentido específico, um “memorial” da morte e ressurreição do Senhor. Celebrando a Eucaristia, a Igreja celebra a memória de Cristo, do que Ele fez e disse, da sua encarnação, morte, ressurreição e ascensão ao céu. N’Ele, a Igreja faz memória de toda a história da salvação, prefigurada na antiga aliança. A Igreja faz memória do que Deus – Pai, Filho e Espírito Santo – fez e faz, pela humanidade inteira, desde a criação à “recriação” em Cristo, enquanto aguarda o seu regresso no fim dos tempos para recapitular em Si todas as coisas. 

O “memorial” eucarístico passando da celebração às nossas atitudes vitais, leva-nos a fazer agradecida memória de todos os dons recebidos de Deus em Cristo. Daí brota uma vida marcada pela “gratidão”, pelo sentido da “gratuidade” e, ao mesmo tempo, pelo sentido da “responsabilidade”. Com efeito, recordar o que Deus fez e faz por nós nutre o caminho espiritual. A oração do Pai Nosso lembra-nos que somos filhos do Pai que está nos céus, irmãos de Jesus, marcados pelo Espírito Santo que foi derramado nos nossos corações. Recordar os dons da natureza (a vida, a saúde, a família, etc.) mantém vivo o agradecimento e o empenho a valorizá-los. 

Recordar os dons da graça (o Batismo e demais sacramentos, as virtudes cristãs, etc.) mantém vivo, juntamente com o agradecimento, o empenho de não tornar vãos esses “talentos”, mas, antes, fazê-los frutificar.

4º. Comportamento: Sacrifício

Hoc est Corpus meum. Hic est calix Sanguinis mei novi et aeterni testamenti. Te igitur, clementissime Pater, per Iesum Christum, Filium tuum, Dominum nostrum, supplices rogamus ac petimus, uti accepta habeas et benedicas haec dona, haec munera, haec sancta sacrificia illibata 

Memento, Domine… omnium circustantium, quorum tibi fides cognita est et nota devotio, pro quibus tibi offerimus: vel qui tibi offerunt hoc sacrificium laudis. Hanc igitur oblationem servitutis nostrae, sed et cunctae familiae tuae. (Oração eucarística I) 

Offerimus tibi, gratias referentes, hoc sacrificium vivum et sanctum. (Oração Eucarística III) 

A Eucaristia é sacramento do sacrifício pascal de Cristo. Desde a encarnação no seio da Virgem até ao último respiro na cruz, a vida de Cristo é um holocausto incessante, um perseverante entregar-se aos desígnios do Pai. O ápice é o sacrifício de Cristo no Calvário: “todas as vezes que o sacrifício da cruz, ‘com que Cristo, nosso cordeiro pascal, foi imolado’ (1 Cor 5, 7), é celebrado sobre o altar, realiza-se a obra da nossa redenção” (Lumen Gentium, 3; CIC, 1364). 

Este único e eterno sacrifício torna-se realmente presente no sacramento do altar. Na verdade, “o sacrifício de Cristo e o sacrifício da Eucaristia são um único sacrifício” (CIC, 1367). A Igreja associa o seu sacrifício ao da Eucaristia, para se tornar um só corpo e um só espírito em Cristo, de que é sinal a Comunhão sacramental (cf. Ecclesia de Eucharistia, 11-16). Participar na Eucaristia, obedecer ao Evangelho que escutamos, comer o Corpo e beber o sangue do Senhor, significa fazer da nossa vida um sacrifício agradável a Deus: por Cristo, com Cristo e em Cristo. 

"Como a ação ritual da Eucaristia é fundada no sacrifício que Cristo ofereceu uma vez por todas nos dias da sua existência terrena (cf. Heb 5, 7-9) e o representa de forma sacramental, assim a nossa participação na celebração deve trazer consigo a oferta da nossa existência. Na Eucaristia, a Igreja oferece o sacrifício de Cristo, oferecendo-se com ele”. (cf. SC, 48; IGMR, 79f; Ecclesia de Eucharistia, 13).  

A dimensão sacrificial da Eucaristia empenha, portanto, a vida. Daí a espiritualidade do sacrifício, do dom de si, da gratuidade, da oblatividade que o viver cristão exige.  No pão e no vinho que levamos ao altar está representada a nossa existência: o sofrimento e o empenho de viver como Cristo, e segundo o mandamento dado aos seus discípulos. Na comunhão do Corpo e do Sangue de Cristo está representado o nosso “eis-me” para deixar que Ele pense, fale e atue em nós. 

A espiritualidade eucarística deveria impregnar os nossos dias: o trabalho, as relações, as mil coisas que fazemos; o empenho de viver a vocação de esposos, de pais, de filhos; a dedicação ao ministério para quem é bispo, presbítero, diácono; o testemunho das pessoas consagradas, o sentido “cristão” da dor física e do sofrimento moral; a responsabilidade de edificar a cidade terrena, nas várias dimensões que a mesma comporta, à luz dos valores evangélicos.

5º. Comportamento: Ação de graças

Vere dignum et iustum est, aequum et salutare,

nos semper et ubique gratias agere  

Na véspera da sua paixão, na noite em que instituiu o sacramento do seu sacrifício pascal, Jesus tomou o pão, deu graças, partiu-o e deu-o aos seus discípulos… A ação de graças de Jesus revive em todas as nossas celebrações eucarísticas. O termo “eucaristia”, que vem do grego, significa, de fato, ação de graças (cf. CIC, 1328).

É uma dimensão que aparece, em letras claras, no diálogo que introduz a Oração Eucarística: ao convite do sacerdote “Demos graças ao Senhor, nosso Deus”, os fiéis respondem: “É nosso dever, é nossa salvação”.  O início da Oração eucarística é sempre marcado por uma fórmula que dá o sentido da reunião de oração: “Senhor, Pai santo, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda parte…”. 

Estas fórmulas codificadas, ao referirem o que se realiza na celebração, exprimem uma atitude que não deveria faltar no espírito dos regenerados em Cristo: agradecer é próprio de quem se sente gratuitamente amado, renovado, perdoado. É justo e necessário agradecer a Deus sempre (tempo) e em toda a parte (espaço). É daqui que irradia a espiritualidade de ação de graças pelos dons recebidos de Deus (a vida, a saúde, a família, a vocação, o Batismo, etc.). 

Agradecer a Deus, não só nas grandes ocasiões, mas “sempre”: os Santos agradeciam o Senhor nas provas, na hora do martírio (São Cipriano dá ordem aos seus de dar 25 moedas de ouro ao seu carrasco: Atos do martírio, 3-6, Ofício de Leitura do dia 16 de Setembro), pela graça da cruz… Para quem vive o espírito eucarístico, “cada circunstância da vida é ocasião apropriada para agradecer a Deus” (cf. Mane nobiscum Domine, 26). Agradecer sempre e “em toda a parte”: nos âmbitos da vida quotidiana, a casa, os locais de trabalho, os hospitais, as escolas… 

A Eucaristia educa-nos também a unirmo-nos à ação de graças que sobe dos fiéis em Cristo espalhados por toda a terra, unindo a nossa ação de graças à do próprio Cristo.

6º. Comportamento: Presença de Cristo

Dominus vobiscum 

Gloria tibi, Domine

Laus, tibi Christe 

Mortem tuam annuntiamus, Domine, et tuam resurrectionem confitemur, donec venias 

Ecce Agnus Dei… Domine, non sum dignus… 

Na celebração da Missa, os modos principais da presença de Cristo na Igreja manifestam-se gradualmente: primeiro, enquanto está presente na própria comunidade dos fiéis reunidos em seu nome; depois, na sua palavra, quando na Igreja se lê e se explica a Escritura; igualmente na pessoa do ministro; e por fim e de modo eminente, debaixo das espécies eucarísticas.  

Com efeito, no sacramento da Eucaristia está presente, de maneira absolutamente singular, Cristo todo inteiro, Deus e homem, substancialmente e sem interrupção. Esta presença de Cristo debaixo das espécies chama-se “real por excelência, não por exclusão, como se as outras não fossem também reais” (Mysterium fidei, 39) (De sacra Communione, 6). É necessário, em especial, cultivar, tanto na celebração da Missa como no culto eucarístico fora da Missa, uma viva consciência da presença real de Cristo, procurando testemunhá-la com o tom de voz, com os gestos, com os movimentos, com todo o conjunto do comportamento” (Mane nobiscum Domine, 18)". 

Sinal visível de realidade invisível, o sacramento contém o que significa. A Eucaristia é, antes de mais, Opus Dei: o Senhor fala e atua, agora e aqui, por nós, em virtude do poder do Espírito (cf. CIC, 1373). Exprimimos a fé na sua presença real, por exemplo: nos diálogos diretos que dirigimos ao Senhor depois de ter escutado a Palavra: “Glória a vós, Senhor”, e antes de receber o seu Corpo e Sangue: “Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma palavra e serei salvo”. 

A celebração da Eucaristia deveria levar-nos a exclamar, como os Apóstolos depois de terem encontrado o Ressuscitado: “Vimos o Senhor!” (Jo 20, 25). A comunhão com o Corpo e o Sangue de Cristo é comunhão com o Ressuscitado, remédio de imortalidade, penhor da glória futura. A presença, o calor e a luz do Deus conosco, devem permanecer em nós e transparecer em toda a nossa vida. Entrar em comunhão com Cristo ajuda-nos a “ver” os sinais da divina presença no mundo e a “manifestá-los” a quantos viermos a encontrar.  

 

7º. Comportamento: Comunhão e caridade

Una voce dicentes

Concede, ut, qui Corpore et Sanguine Filii tui reficimur, Spiritu eius Sancto repleti, unum corpus et unus spiritus inveniamur in Christo (Oração Eucarística III) 

Populo congregato”: com estas palavras inicia o Ordo Missae. O sinal da cruz no início da Missa manifesta que a Igreja é o povo de Deus reunido no nome da Trindade. O congregarem-se todos no mesmo lugar para celebrar os santos mistérios, é uma resposta ao Pai celeste que chama os seus filhos, para estreitá-los a Si, por Cristo, no amor do Espírito Santo. A Eucaristia não é ação privada, mas ação de Cristo que associa sempre a Si a Igreja com um vínculo esponsal indissolúvel (cf. Mane nobiscum Domine, cap. III). 

Na Liturgia da Palavra, escutamos a própria Palavra divina, fonte da comunhão entre todos os que a põem em prática. Na liturgia eucarística, apresentamos, no pão e no vinho, a oferta da nossa vida: é a “comum” oferta da Igreja que, nos santos mistérios, se dispõe a entrar em comunhão com Cristo. Em virtude da ação do Espírito Santo, na oferta da Igreja, torna-se presente o sacrifício de Cristo (“Olhai benignamente para a oblação da vossa Igreja: vede nela a vítima que nos reconciliou convosco”): uma só oferta espiritual agradável ao Pai, por Cristo, com Cristo e em Cristo.  

O fruto desta união ao “sacrifício vivo e santo” é representado pela Comunhão sacramental: “e fazei que, alimentando-nos do Corpo e Sangue do vosso Filho, cheios do seu Espírito Santo, sejamos em Cristo um só corpo e um só espírito” (Oração Eucarística III)".  Eis a fonte incessante da comunhão eclesial, ilustrada por São João, com a comparação da videira e dos ramos, e por São Paulo com a do corpo. A Eucaristia faz a Igreja, enchendo-a da caridade de Deus e estimulando-a à caridade.

O ato de apresentar, junto com o pão e o vinho, também ofertas em dinheiro ou outros dons para os pobres recorda que a Eucaristia é empenho à solidariedade e à partilha.  A tal propósito, o Santo Padre fez um comovente apelo: “Porque não fazer deste Ano da Eucaristia um período em que as comunidades diocesanas e paroquiais se empenhem de modo especial a ir ao encontro, com fraterna solicitude, de uma das tantas situações de pobreza no mundo?” (Mane nobiscum Domine, 28). 

A oração litúrgica, embora envolvendo cada um dos participantes, é sempre formulada com o “nós”: é a voz da Esposa que louva e suplica, una voce dicentes. Os próprios comportamentos assumidos pelos participantes manifestam a comunhão entre os membros do mesmo organismo. “A atitude comum, a observar por todos os que tomam parte na celebração, é sinal de comunidade e unidade da assembléia: exprime e favorece os sentimentos e o ânimo dos fiéis”(IGMR, 42). 

A partilha do gesto da paz antes da Comunhão – ou antes de apresentar os dons ao altar, como no rito ambrosiano – é expressão da “comunhão eclesial” necessária para entrar em comunhão com Cristo. O fruto da Comunhão é a edificação da Igreja, reflexo visível da comunhão trinitária". (cf., 34) "Daí a espiritualidade de comunhão (cf. Novo Millennio ineunte, 43-45), requerida pela Eucaristia e suscitada pela celebração eucarística (cf. Mane nobiscum Domine, 20-21). 

A comunhão entre os esposos é modelada, purificada e alimentada pela participação na Eucaristia.  

O ministério dos Pastores da Igreja e a docilidade dos fiéis ao seu magistério são tonificados pela Eucaristia. 

A comunhão com o sofrimento de Cristo é selada, para os fiéis que estão doentes, pela participação na Eucaristia. 

A reconciliação sacramental, após temo-nos “tresmalhado”, é coroada com a Comunhão eucarística. 

A comunhão entre os múltiplos carismas, funções, serviços, grupos e movimentos no seio da Igreja, é assegurada pelo santo mistério da Eucaristia. 

A comunhão entre as pessoas empenhadas nas diversas atividades, serviços e associações de uma paróquia, é manifestada pela participação à mesma Eucaristia. 

O estabelecimento de relações de paz, de entendimento e de concórdia na cidade terrena, é sustentado pelo sacramento de Deus conosco e para nós".  

 

8º. Comportamento: Silêncio

Quiesce in Domino et exspecta eum (Salmo 37, 7) 

"No ritmo celebrativo, o silêncio é necessário para o recolhimento, para a interiorização e a oração mental (cf. Mane nobiscum Domine, 18). Não é vazio, ausência, mas sim presença, receptividade, reação perante Deus que, aqui e agora, nos fala e que, aqui e agora, atua para nós. “Permanece em silêncio diante do Senhor”, recorda o Salmo 37 (36), 7.  Na verdade, a oração, com os seus diferentes matizes – louvor, súplica, clamor, grito, lamento, ação de graças – forma-se a partir do silêncio.  

Entre os demais momentos da celebração da Eucaristia, assume particular importância o silêncio depois da escuta da Palavra de Deus (cf. Ordo Lectionum Missae, 28; IGMR, 128, 130 e 136) e, sobretudo, depois da comunhão do Corpo e Sangue do Senhor (cf. IGMR, 164).  Tais momentos de silêncio são de certa maneira prolongados, fora da celebração, quando permanecemos recolhidos em adoração, oração e contemplação diante do Santíssimo Sacramento. 

O próprio silêncio da tradição monástica, o dos tempos de exercícios espirituais, de dias de retiro, não serão talvez um prolongamento dos momentos de silêncio característicos da celebração eucarística, para que a presença do Senhor se possa enraizar em nós e dar frutos? Há que passar da experiência litúrgica do silêncio (cf. Carta apostólica Spiritus et Sponsa, 13) à espiritualidade do silêncio, à dimensão contemplativa da vida.  Se não for ancorada no silêncio, a palavra pode deteriorar-se, transformar-se em barulho, ou mesmo em confusão.  

 

9º. Comportamento: Adoração

Procidebant ante sedentem in trono et adorabant viventem in saecula saeculorum (Ap 4,10) 

A posição em que nos colocamos diante da celebração da Eucaristia – de pé, sentados, de joelhos – leva-nos às disposições do coração. É toda uma série de vibrações que se dá na comunidade orante. Se, o estar em pé manifesta a liberdade filial dada pelo Cristo pascal, que nos libertou da escravidão do pecado, o estar sentado exprime a receptividade cordial de Maria que, sentada aos pés de Jesus, escutava a sua palavra; o estar de joelhos ou profundamente inclinado mostra que devemos tornar-nos pequenos diante do Altíssimo, diante do Senhor (cf. Fil 2, 10). 

A genuflexão diante da Eucaristia, como fazem o sacerdote e os fiéis (cf. IGMR, 43), exprime a fé na presença real do Senhor Jesus no Sacramento do altar (cf. CIC, 1387). Refletindo aqui na Terra, nos santos sinais, a liturgia celebrada no santuário do céu, imitamos os anciãos que “se prostravam diante d’Aquele que vive pelos séculos dos séculos” (Ap 4,10). Se na celebração da Eucaristia adoramos o Deus que é conosco e para nós, uma tal experiência do espírito deve prolongar-se e refletir-se também em tudo o que fazemos, pensamos e operamos.

A tentação, sempre insidiosa, de preocupar-se com as coisas deste mundo pode levar-nos a dobrar os joelhos diante dos ídolos, não já diante de Deus apenas. As palavras com que Jesus, no deserto, rejeita as idólatras sugestões do demônio devem encontrar eco no nosso falar, pensar e agir quotidianos: “Adorarás o Senhor, teu Deus, e só a Ele servirás” (Mt 4, 10). Dobrar os joelhos diante da Eucaristia, adorando o Cordeiro que nos permite celebrar a Páscoa com Ele, educa-nos a não nos prostrar diante de ídolos construídos por mãos de homem; e estimula-nos a obedecer, com fidelidade, docilidade e veneração, a Quem reconhecemos como único Senhor da Igreja e do mundo.  

 

10º Comportamento: Alegria

Et ideo, choris angelicis sociati,

te laudamus in gaudio confitentes: Sanctus 

Propter quod caelestia tibi atque terrestria

canticum novum concinunt adorando… (prefácio II da Ssma. Eucaristia) 

Por essência, a alegria cristã é participação na alegria insondável e, ao mesmo tempo, divina e humana, que se encontra “no coração de Cristo glorificado” (Gaudete in Domino, II). Ora, esta participação à alegria do Senhor “não se pode desligar da celebração do mistério eucarístico” (idem, IV), de modo especial na Eucaristia celebrada no Dies Domini. O caráter festivo da Eucaristia dominical exprime a alegria que Cristo transmite à sua Igreja através do dom do Espírito. A alegria é precisamente um dos frutos do Espírito Santo” (cf. Rom 14, 17; Gal 5, 22; Dies Domini, 56). 

São diversos os elementos que na Missa realçam a alegria: nas palavras (é o caso do Glória, do Prefácio), nos gestos (a saudação da paz), no acolhimento inicial, nos arranjos florais e no uso adequado do acompanhamento musical, de acordo com o que é permitido nos tempos litúrgicos. Uma expressão da alegria do coração é o canto, que não é um adorno exterior da celebração eucarística (cf. IGMR, 39; Dies Domini, 50; Chirografo…). A assembléia celeste, com a qual a eucarística se une ao celebrar os santos mistérios, canta com alegria o louvor do Cordeiro imolado e vivo para sempre, porque com ele não haverá mais luto, nem lágrimas, nem lamentos.  

O “cantar a missa”, e não simplesmente durante a missa, permite experimentar que o Senhor Jesus vem fazer comunhão conosco “para que a sua alegria esteja em nós e a nossa alegria seja completa” (cf. Jo 15, 11; 16, 24; 17, 13). Encher-nos-ás de alegria, Senhor, com a tua presença!" "A alegria da celebração eucarística reflete-se no Domingo, ensinando-nos a alegrar-nos no Senhor, sempre. Leva-nos a saborear a alegria do encontro fraterno e da amizade, a compartilhar da alegria recebida como dom”. (cf. Dies Domini, 55-58). Seria um contra-testemunho para quem participa da Eucaristia deixar-se dominar da tristeza.

A alegria cristã não nega o sofrimento, a preocupação, a dor; seria uma triste ingenuidade. Nas lágrimas de quem semeia, a Eucaristia ensina a entrever a alegria da colheita. No sofrimento da Sexta-Feira Santa faz esperar a alegria da manhã de Páscoa. A Eucaristia ensina a alegrarmo-nos com os outros, sem guardar só para si a alegria recebida em dom. O Deus conosco e para nós põe o selo da sua presença nas nossas tristezas, nas nossas dores, em nós que sofremos. Chamando-nos à comunhão com Ele, consola-nos em todas as nossas tribulações, para que possamos também nós consolar quantos se encontram em qualquer espécie de aflição. (cf. 2 Cor 1, 4)  

 

11º. Comportamento: Missão

Oratio universalis  

Vere Sanctus es, Domine,

…quia per Filium tuum,…

Spiritus Sancti operante virtute,

…populum tibi congregare non desinis,

ut a solis ortu usque ad occasum

oblatio munda offeratur nomini tuo (Oração Eucarística IV).  

Benedicat vos omnipotens Deus… Ite, missa est”. 

Formada por fiéis de todas as línguas, povos e nações, a Igreja é fruto da missão que Jesus confiou aos Apóstolos, e é constantemente investida do mandato missionário (cf. Mt 28, 16-20).  É do perpetuar-se na Eucaristia o sacrifício da Cruz e a comunhão do Corpo e Sangue de Cristo que a Igreja recebe a força espiritual necessária para cumprir a sua missão. Assim, a Eucaristia coloca-se como fonte e também ápice de toda a evangelização, porque o seu fim é a comunhão dos homens com Cristo e, n’Ele, com o Pai e com o Espírito Santo (cf. Mt 28 , 22). 

Na oração universal, na oração eucarística, na oração das Missas para diversas necessidades, a intercessão da Igreja, que celebra os santos mistérios, abarca o horizonte do mundo, as alegrias e as tristezas da humanidade, os sofrimentos e o grito dos pobres, os anseios de justiça e de paz que invadem a Terra (cf. Mane nobiscum Domine, 27-28). 

A despedida, com que termina a celebração eucarística, não é simplesmente a comunicação do fim da ação litúrgica; a bênção, especialmente quando dada nas fórmulas solenes que precedem a despedida, diz-nos que saímos da igreja com o mandato de testemunhar ao mundo que somos “cristãos”.  Recorda-nos João Paulo II: “A despedida no fim da Missa constitui um mandato, que leva o cristão a empenhar-se na propagação do Evangelho e na animação cristã da sociedade” (Mane nobiscum Domine, 24).

O cap. IV da Carta Apostólica Mane nobiscum Domine trata exatamente da Eucaristia apresentada como princípio e projeto de missão. "O encontro com Cristo não é um talento para se enterrar, mas para fazer frutificar em obras e palavras. A evangelização e o testemunho missionário tornam-se então forças centrífugas do convite eucarístico” (cf. Dies Domini, 45).  

A missão é levar Cristo, de forma credível, aos ambientes da vida, do trabalho, do cansaço, do sofrimento, fazendo com que o espírito do Evangelho se torne fermento na história e “projeto” de relações humanas marcadas pela solidariedade e pela paz. Poderia a Igreja realizar a própria vocação sem cultivar uma constante relação com a Eucaristia, sem se nutrir desse alimento que santifica, sem se apoiar sobre essa base indispensável para a sua ação missionária? Para evangelizar o mundo, precisamos de apóstolos “especialistas” na celebração, adoração e contemplação da Eucaristia” (João Paulo II, Mensagem para o Dia Mundial das Missões de 2004, 3). 

Como anunciar Cristo sem voltar regularmente a reconhecê-Lo nos santos mistérios? Como testemunhá-Lo sem se alimentar na fonte da comunhão eucarística com Ele? Como participar na missão da Igreja, superando o risco do individualismo, sem cultivar o vínculo eucarístico que nos une a cada irmão na fé, ou melhor, a cada homem? A Eucaristia pode chamar-se também o Pão da Missão: uma bela “imagem” nesse sentido é o alimento que foi dado a Elias, para continuar a realizar a sua missão, sem ceder perante as dificuldades do caminho: “com o vigor daquela comida, andou quarenta dias e quarenta noites até ao Horeb, a montanha de Deus” (1 Reis 19, 8). 

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