A Igreja Católica sempre ensinou que a Fé é a luz que ilumina a Razão humana, dando-lhe direção, orientando a inteligência para o Sumo Bem que é o próprio Deus. A relação entre a Fé e a Razão é também a submissão desta em relação aquela. Isso pode parecer estranho num primeiro momento, especialmente para a mente do homem contemporâneo que considera que a razão deve estar orientada para o que lhe parece certo e evidente (cientificismo).

Porém esta mentalidade cientificista ou racionalista do homem e do mundo é um erro que a própria experiência o prova. O processo natural do ser humano é adquirir conhecimento e desenvolver-se pelo ato de fé. Não se trata aqui de fé religiosa, pois o simples ato de aceitar ou receber algum ensinamento como verdadeiro, por causa da autoridade de quem o ensina ou transmite, sem ter em conta a veracidade do que foi transmitido, isso é um ato de fé. Assim o faz a criança quando aprende a falar com seus pais, quando aprende os números com sua professora primária, ou a geografia no ensino fundamental. Fazemos o mesmo quando acatamos que um produto é de boa qualidade porque vimos um selo emitido pela autoridade certificadora (no caso o INMETRO), ou quando obedecemos às regras do trânsito (que não foram estabelecidas por nós, mas pelo DENATRAN).

Em todos esses casos, somos beneficiados pela nossa fé nas legítimas autoridades. Nem todos compreendem bem as condições e variáveis que são consideradas para se estipular a velocidade máxima de uma via. Poucas pessoas tiveram acesso ou compreenderam tal formulação. Porém o trânsito funciona porque todos tiveram fé. De outra forma, nem todas as pessoas compreendem porque determinados produtos precisam ser confeccionados por determinado conjunto de matéria-prima, ou deva suportar determinadas condições adversas para serem considerados de boa qualidade. É bem provável que um número reduzido de pessoas tenha tal ciência. Entretanto, por causa da fé todos são beneficiados.

Agora imagine essas relações sob uma ótima cientificista ou racionalista. Imagine se as pessoas só obedecessem às regras de trânsito se estivessem convencidas de que os pressupostos, métodos e a conclusão que deram origem a elas, foram adequados. Que uma criança só aceitasse que dois vem depois do um após argumento convincente da professora, ou ainda que o aluno só aceitasse que o ensino do professor de Geografia de que a capital do Amazonas é Manaus, após prova bem documentada? O mundo seria um verdadeiro caos.

É óbvio que algumas questões de nossa vida exigem a investigação, a reflexão e o argumento convincente quando, por exemplo, devemos nos certificar que estamos fazendo um bom negócio, que tal pessoa é adequada para ocupar determinada função e etc. Porém, a Autoridade que existe para o bem comum, não pode ser um bem sem a fé dos súditos. Assim como os Pais não são capazes de formarem bem seus filhos, sem que estes lhe sejam obedientes. É imprescindível que fique claro que estamos tratando aqui das legítimas autoridades, e não de qualquer tipo de submissão a grupo ou pessoa.

A ordem na qual Deus estabeleceu e criou o mundo é segundo da ordem que existe no céu. Logo, se existe no mundo criado legítimas autoridades que através de seu ensino (magistério), regras (jurisdição) e ordens (governo) promovem o bem na sociedade dos homens em diversas matérias como o trânsito, comércio, educação, saúde, urbanização, convivência social etc., qual é a instituição que irá promover o bem comum em relação às coisas eternas?

Ora, se o Divino Criador facilitou a conquista dos bens temporais estabelecendo autoridades em assuntos terrenos (pois toda autoridade vem de Deus ), não poderia deixar de nos assistir nas conquistas dos bens espirituais ou eternos. Por isso mesmo nos deu a Igreja para que dela recebêssemos a doutrina, a graça e a disciplina. Todos estes três bens nos orientam ao Sumo Bem que é o próprio Deus.

Como dissemos no início deste artigo, a Fé ilumina a Razão humana orientado-a ao Sumo Bem. Obviamente a Razão humana é limitada, porém muitas vezes ela pode dilatar-se sob a orientação da Fé. O estudo das obras e da vida dos grandes santos e doutores católicos nos mostram que em sua maioria, não eram capazes de compreender certos ensinamentos da Igreja num primeiro momento. Contudo, sua obediência ou assentimento a esses ensinamentos não estavam condicionados à clara compreensão dos mesmos. Do contrário não estariam obedecendo à Igreja, mas à suas próprias cabeças.

Os erros do cientificismo e do racionalismo têm em um de seus afluentes a confiança demasiada do homem em si mesmo, nos seus próprios recursos e esforços. E esta demasiada confiança acaba tornando-se o precipício da alma de muitas pessoas estudiosas e inteligentes, como foi para Tertuliano, Ário, Nestório e tantos outros heresiarcas.

Ora os heresiarcas estavam convencidos de que seus erros eram a Verdade, porém, afastaram-se da Verdade por confiarem demais em si mesmos. O mesmo ocorreu com John Huss, Lutero, Calvino, Tazzel Russel, Ellen White, John Smith e outros pais do Protestantismo.

Um caso recente e digno de nota é do ex-diácono Francisco. Ficou muito conhecimento no meio católico e também protestante por sua rejeição da fé protestante e adesão ao catolicismo, motivado por um milagre de Nossa Senhora (história que ele negou depois ser verdadeira).

Escreveu muitos livros em defesa do catolicismo e combate do protestantismo. Chegou a apresentar um programa na TV Século XXI. Mais tarde motivado pelos estudos acerca do Concílio Vaticano II e seus desdobramentos dentro da Igreja Católica decidiu retornar ao Protestantismo  tendo já gravado diversos vídeos combatendo a fé católica. Em um deles, ele afirma que Lutero e Calvino não entenderam bem a Ceia do Senhor e por isso formularam doutrinas equivocadas sobre o assunto, como a doutrina da Consubstanciação. Ora, a confiança do Sr. Francisco em si mesmo foi tão grande que julgou-se mais capaz de entender o Evangelho que os Pais da Reforma Protestante. Fica aqui a pergunta: porque o Sr. Francisco é mais inteligente ou foi mais iluminado que Lutero ou Calvino? No início deste mês de março recebemos a notícia (1) de que faleceu em comunhão com a Igreja Católica, o que se presume pelo fato de que antes de morreu recebeu todos os sacramentos da Igreja.

E quantos de nós não são tentados a incorrer no mesmo erro? Quantos de nós são infalíveis? É por estas e outras que eu prefiro continuar nas promessas de Cristo, que além de nos dar a Igreja para nos orientar nas coisas eternas, garantiu que as portas do inferno JAMAIS prevalecerão contra ela (cf. Mt 16,18-19).

Notas

(1) Diácono Francisco de Almeira Araújo Morre aos 72 anos. Disponível em http://www.diocesedeanapolis.org.br/2012/home-pagina-inicial/3-gerais/2717-diacono-francisco-de-almeida-araujo-morre-aos-72-anos.html.

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