Autor: Alessandro Lima*.

Algumas pessoas vêm conversar comigo a respeito dos artigos apologéticos que escrevemos e normalmente me dizem: “Olha, eu entendi seus argumentos,  mas eu não gosto da Igreja Católica e portanto vou continuar sendo protestante.”

Assim como digo a essas pessoas com as quais converso, eu gostaria de escrever para os leitores protestantes que visitam nosso site: qualquer espécie de resistência à Igreja Católica, não vai mudar a verdade histórica e teológica que sempre existiu no cristianismo e muito menos nos autoriza a aceitar um fundamento diferente daquele que foi estabelecido pelos Santos Apóstolos: a Igreja Apostólica é a Palavra Viva de Deus, palavra esta que é transimitida através da Sagrada Tradição (o ensino oral dos Apóstolos), a Sagrada Escritura, e o Sagrado Magistério (que é o ensino Oficial da Igreja que se sustenta tanto na Sagrada Tradição quanto na Sagrada Escritura).

 

O que eu quero dizer com isso? O que quero dizer é que gostando da Igreja Católica ou não, todo cristão sincero deve seguir a fé que foi transmitida pelos Santos Apóstolos, e isto concerne ao governo da Igreja, à sua hierarquia, ao seu Ministério, ao que é Palavra de Deus, etc. Por exemplo, isso significa que mesmo que não gostemos da Igreja Católica, isso não nos autoriza a seguir a Sola Scriptura, pois esta doutrina continuará sendo uma grande mentira, porque pura e simplesmente não foi ensinada pelos Apóstolos, os cristãos primitivos a desconhecem, ela é intrusa no  cristianismo e nem se encontra na Bíblia!

A atitude atual daqueles que continuam protestantes porque simplesmente não gostam da Igreja Católica, é como não seguir as leis de trânsito porque não se gosta do Detran ou ainda é como desobedecer as normas e os padrões de qualidade porque não se gosta do InMetro. Ora, tanto as regras de trânsito quanto as normas e os padrões de qualidade são especificações legitimamente instituídas e transmitidas através de entidades também legítimas. Gostar ou não destas entidades não nos autoriza a criar nossas próprias normas ou seguir normas alheias a estas.

É irresponsável aquele que assim procede, e se tratando da fé, é algo gravíssimo! Este problema tem sua causa principal na inversão da importância (natural e real) que os juízos de valor possuem sobre os juízos de fato para algumas pessoas.

O juízo de fato é aquele que diz o que as coisas são, como são e por que são, são juízos auxiliados pela inteligência.

Um exemplo de juízo de fato é: “Está chovendo”. Quando digo “está chovendo” estou proferindo um juízo baseando-me na percepção da minha inteligência que ao ver a chuva cair, constata logicamente: “está chovendo”.

O Juízo de valor é aquele juízo proferido sobre algo em relação ao que sentimos sobre ele. Um exemplo de juízo de valor é: “A chuva é boa.”. Quando digo “a chuva é boa” estou proferindo um juízo baseando-me no meu sentimento em relação à chuva que está caindo.

O que se constata é que o juízo de valor é muito mais importante para o protestante do que o juízo de fato. Esta percepção e concepção distorcidas da realidade têm raízes na concepção do que é Religião para o Protestantismo: um sentimento.

O Protestantismo, na sua concepção de religião, toma empréstimo de Schleiermacher e W. Hermann. Schleiermacher define a religião não como doutrina, mas um sentimento de coexistência do finito no Infinito (Discursos sobre a Religião – Ueber an die Religion; Reden au dei Gebildeten unter ihren Verächtern, Berlim 1799). Ainda segundo Schleiermacher, a experiência religiosa é o conteúdo da fé. Para W. Hermann a função da religião é elaborar juízos de valor (que não nos dizem o que são as coisas em si), pois o importante é a ação que em nós exercem ou o que despertam em nossa alma. Assim é mais importante se sentir bem acreditando em Deus do que saber se Ele existe.

Não é sem motivo que Lutero na sua concepção da justificação, substitui a crença na justificação, pela confiança nela. Um ato de inteligência pela emoção de um sentimento.

E com isso o Protestantismo desterrou de todo da vida religiosa a função primordial da inteligência para deixá-la afundar-se sobre a areia movediça do sentimentalismo. Trancafiaram a vivência da fé nos domínios do coração negando-a os domínios da inteligência. Como se pudesse ter um valor real e profundo de vida o que pela inteligência se declara uma grande mentira.

Que o leitor não me entenda mal, não estou negando que na experiência religiosa não deva haver sentimentos. É claro que deve haver, pois a vivência da fé consiste na vivência de nossa relação com Deus, uma relação de Amor, e amar envolve sentimento. No entanto, a fé que abraçamos para viver nossa experiência com Deus, deve ter sido conduzida pela nossa inteligência, caso contrário, é bem possível que estejamos vivendo uma falsa relação com Deus, ainda que nos sintamos muito bem com ela.

A Fé verdadeira consiste na adesão da inteligência à Verdade Revelada. Sócrates abandonou o culto aos deuses pagãos, depois de perceber a ordem, harmonia e sabedoria que existem no universo. Sua inteligência levou-o a constatar a existência de Deus, que o levou à fé, e a fé o levou ao amor a Deus. E seu amor a Deus foi tanto que morreu por Ele.

Fiquemos com uma lição do Apóstolo Paulo sobre o perigo do juízo de valor sobre o juízo de fato. Os Cristãos de Corinto, já se antecipando aos erros de hoje, davam mais importância às emoções experimentadas pelo coração do que à inteligência. São Paulo escreve sua primeira carta à esta comunidade exortando-os a regressar à fé apostólica. Depois dá um belo recado àqueles que se julgavam estar vivendo uma real experiência com Deus: “Se alguém se julga profeta ou agraciado com dons espirituais, reconheça que as coisas que vos escrevo são um mandamento do Senhor. Mas se alguém quiser ignorá-lo, que o ignore!” (1Cor 14,37-38).

Fica claro que os coríntios estavam delegando ao coração a função que somente pertence à inteligência: ser o guia seguro do discernimento. Temos o direito de crer ou não crer no que quisermos, mas temos o dever de possuir uma fé responsável, isto é, a fé embasada no correto discernimento das coisas, a fé embasada em juízos de fato.

 

* O autor é arquiteto de software, professor, escritor, articulista e fundador do Apostolado Veritatis Splendor.

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