Muitos eruditos chegaram à conclusão que tanto João Batista quanto os Apóstolos e demais administradores do batismo, praticaram a infusão e não a imersão no século I.

Por quê? Porque o batismo não foi inventado por João, sendo ele herdeiro de uma prática milenar: os batismos judaicos (lavagens de purificação).

  • “Consistindo somente em prescições carnais, que versam sobre comidas e bebidas, e sobre batismos de todo gênero, impostas até ao tempo da correção” (Hebreus 9,10).

Este texto é importante para se saber sobre os batismos judaicos. A tradução [espanhola] da Reina Valera como outras versões [como a Almeida brasileira] traduzem [aqui o termo grego “batismo”] por “lavagens”, “purificações” ou “abluções”, e é correto traduzir assim porque o texto se refere às lavagens rituais do Antigo Pacto. Porém o que queremos apontar aqui é que o texto grego diz: “batismos”!

Vejamos a “Reina-Valera Interlinear grego-espanhol”:

  • “µονον→somente επι→sobre βρωµασιν→comidas και→e ποµασιν→bebidas και→e διαφοροις→diferentes βαπτισµοις→imersões και→y δικαιωµασιν→justos/retos decretos σαρκος→de carne µεχρι→até καιρου→tempo assinalado διορθωσεως→de retificação completa επικειµενα→jazendo sobre” (Hebreus 9,10).

Como vemos, o grego diz “βαπτισµοις”, “baptismois”; em seguida, vem a tradução literal: “imersões”. Porém, já na sua tradução normal, a Reina-Valera [assim como a Almeida] emprega “abluções” ou “lavagens”:

  • – “Consistindo apenas em comestíveis e em bebidas, e em diversas lavagens, e ordenanças sobre a carne, impostas até o tempo da correção” (Reina Valera, ano 1909).
  • – “Já que consiste apenas de comidas e bebidas, de diversas abluções, e ordenanças sobre a carne, impostas até o tempo de reformar as coisas” (Reina Valera, ano 1960).
  • [- “Consistindo somente em comidas, e bebidas, e várias abluções e justificações da carne, impostas até ao tempo da correção”.]

Porque a Reina-Valera e outras versões não traduzem Hebreus 9,10 como “imersões”? A resposta é porque esses “batismos” a que se refere o texto não são por imersão na água, sangue ou azeite, mas por infusão e também por aspersão. É por isso que traduzem como “lavagens”, “purificações” ou “abluções”.

Há alguns (normalmente as seitas) que insistem que somente se deve ter em conta o sentido literal da palavra “baptizo”; mas isso é um grande erro, porque se se traduzisse Hebreus 9,10 como “imersões” teríamos um grande problema. É por isso que traduzem como “abluções” ou “lavagens”. O que significa isto? Que a palavra grega “baptizo” possui um sentido mais amplo do que apenas “mergulhar”.

Vejamos, pois, os diversos batismos (lavagens de purificação) a que se refere a Carta aos Hebreus 9,10:

  • “E Moisés tomou a metade do sangue, e a pôs em bacias; e a outra metade do sangue derramou sobre o altar. E tomou o Livro da Aliança e o leu aos ouvidos do povo, e eles disseram: ‘Tudo o que o Senhor tem falado faremos, e obedeceremos’. Então tomou Moisés aquele sangue, e aspergiu-o sobre o povo, e disse: ‘Este é o sangue da aliança que o Senhor tem feito convosco sobre todas estas palavras'” (Êxodo 24,6-8).

Vemos aqui que Moisés derramou sangue no altar e também asperge o povo com esse sangue, em sinal da Aliança que Deus fez com eles. Mas como sabemos que isto é um batismo? Porque Hebreus 9,10 nos afirma que isto é um batismo (lavagem de purificação)!

  • “Toma os levitas do meio dos filhos de Israel e purifica-os; E assim lhes farás, para os purificar: asperge sobre eles a água da expiação; e sobre toda a sua carne farão passar a navalha, e lavarão as suas vestes, e se purificarão” (Números 8,6-7).

Vemos aqui que uma das formas de purificar os levitas era aspergindo água[2] sobre o povo. Mas como sabemos que isto é um batismo? Porque Hebreus 9,10 nos afirma que isto é um batismo (lavagem de purificação)!

Como verão, caros leitores, com estes textos estamos confirmando que os batismos (lavagens de purificação) no Antigo Testamento se davam por infusão ou aspersão. Por isso a Reina-Valera [e a Almeida], em Hebreus 9,10, traduz a palavra grega “baptismos” por “abluções” e não por sua tradução literal “imersões”. Mas ainda há mais! Vejamos:

– “Então o sacerdote lavará as suas vestes, e banhará a sua carne na água, e depois entrará no arraial; e o sacerdote será impuro até à tarde. Também o que a queimou lavará as suas vestes com água, e em água banhará a sua carne, e impuro será até à tarde. E um homem puro ajuntará a cinza da novilha, e a porá fora do arraial, num lugar puro, e ficará ela guardada para a congregação dos filhos de Israel, pela água lustral; é expiação” (Números 19,7-9).

  • “E Moisés fez chegar a Arão e a seus filhos, e os lavou com água” (Levítico 8,6).
  • “Então farás chegar a Arão e a seus filhos à porta da tenda da congregação, e os banharás com água” (Êxodo 29,4).

Muito bem! Novamente não encontramos a imersão aqui, pois uma forma de “lavar”, “banhar” é pela infusão e também pela aspersão. Mais uma vez: como sabemos que isto é um batismo? Porque Hebreus 9,10 nos afirma que isto é um batismo (lavagem de purificação)!

  • “E falou o Senhor a Moisés, dizendo: ‘Farás também uma pia de cobre com a sua base de cobre, para lavar; e a porás entre a tenda da congregação e o altar; e nela deitarás água. E Arão e seus filhos nela lavarão as suas mãos e os seus pés'” (Êxodo 30,17-19; v.tb. Êxodo 40,12; Levítico 16.4.28).

Ora, é lógico que eles não iriam mergulhar [todo o corpo] na pia de bronze apenas para lavar as mãos e os pés; iriam pois fazê-lo pela infusão. E de novo: como sabemos que isto é um batismo? Porque Hebreus 9,10 nos afirma que isto é um batismo (lavagem de purificação)!

É por isso que em Hebreus 9,19-21, ainda que o texto grego diga “aspergiu”, para lançar algumas gotas, sabemos que isso é um batismo (lavagem), porque Hebreus 9,10 nos afirma que isto é um batismo:

  • “Porque, havendo Moisés anunciado a todo o povo todos os mandamentos segundo a lei, tomou o sangue dos bezerros e dos bodes, com água, lã purpúrea e hissopo, e aspergiu tanto o mesmo livro como todo o povo, dizendo: ‘Este é o sangue do testamento que Deus vos tem mandado’. E semelhantemente aspergiu com sangue o tabernáculo e todos os vasos do ministério” (Hebreus 9,19-21).

Pelo exposto, percebemos que as “lavagens” (batismos) de purificação do povo hebraico (cf. Hebreus 9,10), NÃO eram por imersão, e tanto João Batista quanto Jesus e os seus Apóstolos possuíam essa herança milenar de batizar assim.

Recordemos que João Batista era judeu e estava batizando judeus, uma nacionalidade que era bastante escrupulosa e zelosa quanto à letra da Lei. E isto particularmente na época dos fariseus. Suponhamos que João tivesse introduzido algo que não era comumente praticado, como a imersão. Não lhe teriam exigido que determinasse a sua autoridade para fazer tal mudança? Os próprios fariseus mencionavam Elias de modo especial (cf. João 1,25), mostrando que eles pensavam no batismo conforme praticado pelos profetas. E a posterior reação desfavorável dos fariseus, quando os discípulos de Jesus batizavam, indica quão escrupulosos eram em relação aos requisitos de quem batizava e de como era administrado o batismo.

Devemos lembrar também que João Batista foi criado no lar de um sacerdote (era filho de um sacerdote da linha de Abias, cujo nome era Zacarias. A mãe de João era descendente direta de Aarão, o primeiro sumo sacerdote, cf. Lucas 1,5), e com todos os antecedentes da aspersão e da unção com azeite (cf. Êxodo 29,7; Levítico 8,10–11,3; 1João 2,20.27), com sangue (cf. Êxodo 24,6-8; 29,21; Levítico 8,30; Hebreus 9,18-22) e com água (cf. Levítico 14,6-7.51; Números 19,2.9.18). Seria pois inacreditável supor que João, de repente, introduzisse a imersão sem dar qualquer explicação a respeito.

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NOTA
[2] Água lustral: para purificar (de “luere”: “desligar, expiar”). No Cristianismo é empregada quando se quer expressar a ablução batismal e, sobretudo, quando a ablução tem um tom de purificação cúltica.

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