RESPONDENDO A TRÊS OBJEÇÕES

Objeção 1: Quando perguntamos aos nossos amigos imersionistas onde Jesus manda batizar por imersão, eles citam Mateus 28,19. Mas Jesus mandou fazê-lo apenas por essa forma?

Declaração “geral” da Grande Comissão: se “baptizo” é uma palavra que denota uma forma determinada, então somente essa forma determinada, por si só, pode satisfazer o mandamento “Ide portanto e fazei discípulos em todas as nações, batizando-os…”. Por outro lado, se este é um termo que possui sentido mais geral do que determinado, então a questão da forma não afeta a substância do mandamento de maneira nenhuma; deixa-se, portanto, às pessoas afetadas a escolha de qual forma é correta, tendo como base outras considerações das Escrituras.

A Grande Comissão é a única passagem onde Jesus manda administrar o batismo. Nela se encontram 4 verbos, um dos quais é “batizando”. Pois bem: se esta é uma palavra específica, mais do que uma palavra de sentido geral, então o significado exato é fácil de se compreender; contudo, ao lermos o texto e o contexto, percerbemos que o sentido desta [palavra] é geral e não particular.

Com efeito, realmente a palavra “batizando” expressa a ideia geral, digamos, de limpeza interior e de união com Deus, como é significada pelo uso ritual da água; a forma só tem importância geral. Isto permaneceria sendo certo se não houvesse outras instruções relativas a uma forma específica. O ponto é, simplesmente, de que se a ideia geral encontra-se fielmente representada pela imersão, infusão ou asperesão, dever-se-á decidir sobre outras bases diferentes das do significado literal da palavra “baptizo”. E já que a História da Igreja primitiva apresenta as três formas acima, resta sugerido que o significado essencial não é exclusivo de nenhum sistema em particular.

Fazendo um exame, verificamos que os quatro verbos empregados na Grande Comissão são gerais e não particulares:

  • “Ide”: não mostra como alguém deve ir (pode ser caminhando, navegando, cavalgando etc.).
  • “Fazei discípulos”: não especifica como (pode ser pela pregação, por instrução pública ou particular, ou o que seja).
  • “Ensinando”: não diz se deve ser por palavra oral ou escrita.

E agora, o verbo que mais nos interessa:

  • “Batizando”: é igualmente genérico, pois não indica se deve ser por imersão, infusão ou aspersão. Então, chegamos à única conclusão, por esta também única instrução de Nosso Senhor, que o seu mandamento não se refere a uma forma em especial.

Objeção 2: Romanos 6,2-4 não fala sobre a forma de batismo?

Não, irmãos. Como dissemos no início e como já vimos, a Bíblia não dá uma ordem de que forma devemos batizar, e a Carta aos Romanos de nenhuma maneira específica traz a forma que devemos fazê-lo. O que São Paulo diz aqui é de como, pelo batismo, participamos da morte e ressurreição de Cristo; de como morremos para o pecado e nascemos em Cristo. Disso trata todo o capítulo e a palavra “água” nem sequer é mencionada neste capítulo.

Vejamos:

  • “Nós, que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele? Ou não sabeis que todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte? De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida. (…) Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos; (…) Pois, quanto a ter morrido, de uma vez morreu para o pecado; mas, quanto a viver, vive para Deus. Assim também vós considerai-vos certamente mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus nosso Senhor” (Romanos 6,2-4.8.10-11).

Como podemos ver, São Paulo explica mediante uma fina análise do significado místico do batismo. São versículos de uma riqueza teológica extraordinária, que nos levam até a própria raiz da nossa vida sobrenatural através de nossa inserção em Cristo. Ao falar do batismo em Cristo Jesus, São Paulo está apontando para o Sacramento, aquele que Jesus Cristo instituiu como porta de ingresso na Igreja e, assim, para uma nova vida (cf. Mateus 28,19; João 3,5).

A ideia fundamental que São Paulo desenvolve aqui é a de que o homem, uma vez obtida a justificação, rompeu totalmente com o pecado.

O capítulo 6 começa com uma pergunta e segue respondende a essa pergunta em específico. Não se deve enfatizar muito a pergunta, que nada tem a ver com o batismo! A pergunta se refere ao âmago da santificação: perseveraremos no pecado para que a graça cresça?

Em resposta, Paulo diz que o fiel está em união com o Cristo vivo, totalmente identificado com Ele em sua morte e ressurreição. Visto que o todo inclui todas as suas partes, tão completa identificação com Cristo necessariamente inclui a identificação com a sua morte para o pecado e sua ressurreição vitoriosa para a vida. Estas são duas partes essenciais da total identificação. Logicamente então um fiel que está totalmente identificado com Cristo não deve permanecer no pecado, violando esta união e podendo perder essa identificação.

Recordemos que os primeiro oito capítulos de Romanos são um discurso teológico e não diz absolutamente nada sobre assuntos práticos, como a administração da Igreja, os Sacramentos e sua administração ou outras formas particulares de culto. Romanos se limita às realidades espirituais, das quais os Sacramentos não são senão sinais e selos visíveis. O batismo espiritual encontra-se primordialmente à vista no capítulo 6, não o batismo com água.

O mesmo se dá na Carta aos Colossenses: tampouco se refere à forma de como devemos batizar; aqui fala de como somos ressuscitados pela fé na ação de Deus pelo batismo. Porém, igualmente, não menciona a palavra “água”, assim como também não fala da forma do batismo na água, mas do nosso nascimento em Cristo:

  • “No qual também estais circuncidados com a circuncisão não feita por mão no despojo do corpo dos pecados da carne, pela circuncisão de Cristo; sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos” (Colossenses 2,11-12).

Tanto Romanos 6,2-4 quanto Colossenses 2,11-12 falam do simbolismo da palavra “batismo”, de morrer em Cristo e nascer em Cristo, participando da sua morte e ressurreição.

Provavelmente o batismo por imersão seja bastante rico pelo simbolismo que carrega, mas igualmente o batismo por infusão, pois como vimos anteriormente, Cristo sofreu “derramando” o seu sangue em sacrifício por nós e Ele mesmo diz que isso é um batismo (cf. Marcos 10,38; v.tb. Lucas 12,50).

Sobre o simbolismo da palavra “batismo”, o Catecismo da Igreja Católica explica:

  • “1214. Ele é denominado Batismo com base no rito central pelo qual é realizado: batizar (“baptizem”, em grego) significa ‘mergulhar’, ‘imergir’; o ‘mergulho’ na água simboliza o sepultamento do catecúmeno na morte de Cristo, da qual com Ele ressuscita (cf. Romanos 6,3-4; Colossenses 2,12) como ‘nova criatura’ (cf. 2Coríntios 5,17; Gálatas 6,15)”.
  • “1220. Se a água de fonte simboliza a vida, a água do mar é um símbolo da morte, razão pela qual o mar podia prefigurar o mistério da cruz. Por este simbolismo, o Batismo significa a comunhão com a morte de Cristo”.

Desse modo, por esse simbolismo o batismo significa a comunhão com a morte de Cristo e a água é somente um símbolo, pois o que realmente nos limpa é o Espírito Santo.

Passemos para a próxima objeção…

Objeção 3: Muita água?

Os amigos imersionistas usam o texto de João 3,23 para afirmar que a forma de batismo tem que sera apenas por imersão, porque o texto fala de “muitas águas”:

  • “Ora, João batizava também em Enom, junto a Salim, porque havia ali muitas águas; e vinham ali, e eram batizados” (João 3,23).

A palavra Enom procede, provavelmente, do aramaico, significando “mananciais” ou “fontes”. [Algumas versões traduzem a expressão] “muitas águas” como “muita água”, mas está literalmente no plural [e deve assim ser] interpretada. De fato, esta é a tradução que se dá para a mesma expressão em Apocalipse 1,15 e 19,6. Não há [grande] volume de água em Enom e nunca houve, mas, tal como implica o nome, havia e há [vários] mananciais próximos de Salim, a poucos quilometros ao sudoeste de Betânia.

Pois bem: nossos amigos imersionistas interpretam que, como havia “muita água” ali, [os batismos se davam] por imersão. Devemos então imaginar que se houvesse “pouca água”, se dariam por infusão [ou aspersão]?

Na verdade, nossos amigos imersionistas se esquecem que João também batizava em lugares onde havia “pouca água”:

  • “Apareceu João batizando no deserto e pregando o batismo de arrependimento, para remissão dos pecados” (Marcos 1,4).

No deserto! Onde a água é bem escassa! Deste modo, poderíamos dizer que aí o batismo somente poderia ser administrado por infusão ou aspersão, já que não havia água suficiente para fazê-lo por imersão (ademais, como vimos anteriormente, João era judeu, filho do sacerdote Zacarias, e possuía essa herança milenar de lavar por aspersão).

Vemos a mesma coisa no caso em que Felipe batizou o eunuco, pois o fez num lugar onde havia pouca água, no caminho que desce de Jerusalém a Gaza, que é um deserto:

  • “E o anjo do Senhor falou a Filipe, dizendo: ‘Levanta-te, e vai para o lado do sul, ao caminho que desce de Jerusalém para Gaza, que é deserto'” (Atos 8,26).

Mas resta curioso que a passagem (Atos 8,36-39) de Felipe e o eunuco seja empregada pelos nossos amigos imersionistas para demonstrar o batismo por imersão…

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