UM POUCO DE ÁGUA É SINAL DE LIMPEZA TOTAL

Voltando ao tema da “muita água” ou “pouca água”, podemos ver que nas lavagens de purificação que os judeus empregavam se davam com “pouca água”; apesar disso, simbolizava a limpeza total, não havendo necessidade de se mergulhar ou se molhar totalmente. Encontramos um exemplo disso no Evangelho de São João. Vejamos:

  • “Disse-lhe Pedro: ‘Nunca me lavarás os pés’. Respondeu-lhe Jesus: ‘Se eu te não lavar, não tens parte comigo’. Disse-lhe Simão Pedro: ‘Senhor, não só os meus pés, mas também as mãos e a cabeça’. Disse-lhe Jesus: Aquele que está lavado não necessita de lavar senão os pés, pois no mais todo está limpo. Ora vós estais limpos, mas não todos'” (João 13,8-10).

Esta passagem aponta para o batismo cristão pela mensagem teológica que contém, pois Jesus diz: “Se eu te não lavar, não tens parte comigo”. Como vimos anteriormente, Cristo nos “lava” por seu Sangue derramado na Cruz e se não nos batizamos, não temos parte com Ele, pois não estamos tornando efetivo esse derramamento de Sangue.

São Pedro, no entanto, lhe diz: “Lava-me todo!”, mas Jesus lhe ensina que com um pouco de água ele já estará totalmente limpo, ou seja: pouca água é sinal de limpeza total!

Isto nos faz lembrar um belo texto que traz as palavras do rei Davi no Salmo 51,7, o grande Salmo Penitencial: “Purificai-me com hissopo e serei limpo”. Ora, com algumas gotas do hissopo obtem-se total purificação!

Este gesto de lavar possui um significado particular no rito do lava-pés na Quinta-Feira Santa: é o gesto que Jesus fez em sua Ceia de despedida, dando assim aos seus discípulos uma belíssima lição de serviço; Ele havia dito que tinha vindo não para ser servido, mas para servir e dar a Sua vida pelos demais. Antes de ir para a Cruz, onde Se daria totalmente a Si mesmo, quis fazer este gesto simbólico de sua Paixão e Morte.

O lava-pés foi celebrado durante alguns séculos, em algumas regiões da Igreja como em Milão, como sinal da purificação batismal. Contudo, mais geral e duradouro até os nossos dias tem sido a interpretação e, precisamente, na Quinta-Feira Santa, a lição de qualidade por parte de quem é o pastor e animador da comunidade.

Igualmente, a aspersão que se faz com água benta no encerramento da Santa Missa é sinal de purificação batismal e nos recorda que pelo nosso batismo temos um compromisso com Cristo e a sua Igreja.

Um tanto curioso é que o Apóstolo São Paulo nos mostra que os cristãos-judeus praticavam algumas lavagens de purificação (batismos), eis que na Carta aos Hebreus diz:

  • “Por isso, deixando os rudimentos da doutrina de Cristo, prossigamos até à perfeição, não lançando de novo o fundamento do arrependimento de obras mortas e de fé em Deus; e da doutrina dos batismos, e da imposição das mãos, e da ressurreição dos mortos, e do juízo eterno” (Hebreus 6,1-2).

Esta passagem da Epístola aos Hebrreu tem sido comentada de maneiras diferentes pelos teólogos; a que mais se sobressai é aquela que diz que os cristãos da época de São Paulo eram instruídos sobre diferentes lavagens e abluções que então existiam, particularmente entre os judeus (e de fato, a epístola é dirigida aos cristãos-hebreus), e que ainda nos séculos seguintes continuava sendo praticadas (como o lava-pés na Quinta-Feira Santa).

Bom: depois de termos refutados as objeções, veremos alguns escritos dos Padres Apostólicos[5].

—–
NOTA:
[5] Chamam-se “Padres Apostólicos” os autores do Cristianismo primitivo que tiveram contato direto com um ou mais dos Doze Apóstolos de Jesus ou foram discípulos de alguns deles. Trata-se de autores do século I ou do início do século II, cujos escritos possuem uma imensa importância para se conhecer o que criam os primeiros cristãos. Caracterizam-se como textos descritivos ou normativos, que tentam explicar a natureza da então nova “doutrina cristã”.

Facebook Comments

Livros recomendados

A Minha IgrejaSabedoria e Inocência – Vida de G. K. ChestertonA Educação Superior e o Resgate Intelectual – O Relatório de Yale de 1828