O momento que estamos vivendo é muito importante. A retirada da excomunhão aos Bispos da FSSPX é um passo essencial para o triunfo da correta hermenêutica conciliar. Afinal, o que seria a aceitação da Fraternidade ao Vaticano II senão uma vitória da Igreja de Cristo? Ademais, com o crescente ressoar desse evento, outro ponto passou a se destacar com bastante relevância: o Concílio Vaticano II.

Muitos enxergaram na retirada da excomunhão aos Bispos uma carta de permissão, de Sua Santidade, a toda e qualquer crítica ao Concílio. Até colocaram o Instituto Bom Pastor como exemplo desse aval “crítico”, mas esqueceram que o IBP não só aceita o Vaticano II como se encontra em total sintonia com o Magistério da Igreja – “Graças ao instrumento hermenêutico, que ofereceu o Papa Bento XVI, os ensinos do Vaticano II se colocam na continuidade dos ensinos de todos os Concílios. Os debates futuros entre os responsáveis da Fraternidade São Pio X e as autoridades romanas não podem não ter êxito”, disse o IBP no comunicado feito depois da retirada da excomunhão.

Primeiramente, é sempre pertinente frisar, a “desexcomunhão” não quer dizer que há uma união estabelecida; ao contrário, é o início de um frutuoso diálogo. Os mesmos que enxergam na atitude do Santo Padre a permissão da crítica são os mesmos que já lançam rojões antes mesmo de se iniciar o fraterno colóquio entre a Fraternidade e o Sumo Pontífice. Não sejamos precipitados nem levianos…

A crítica ao Vaticano II não foi “liberada”, até porque a defesa do Concílio é parte integral do pontificado de S. Santidade. Bento XVI afirma que “através do Concílio” “a Igreja e a humanidade” receberam um “dom extraordinário”, indo além ao falar que “cresce também assim a nossa profunda gratidão pela obra realizada pelo Concílio.”, indicando-o “como farol“, falando que “nas formulações e na linguagem os ensinamentos do Concílio Vaticano II” estão “em plena continuidade com a doutrina da Tradição católica.”. Poderia me referir a diversos pronunciamentos onde o Papa não só cita o Vaticano II, o que constata que faz parte sim de toda a estrutura magisterial atual, mas como o defende até com uma sadia radicalidade. Indico o artigo do nosso irmão Marcos Grillo; AFINAL, BENTO XVI É FAVORÁVEL OU CONTRÁRIO AO CONCÍLIO VATICANO II?

Mesmo assim, com tantos discursos e referências ao Concílio, uma trupe continua defendendo o indefensável: Bento XVI vai soterrar o Vaticano II e suas heresias. Eu não sei como eles mantêm esse raciocínio, afinal, S. Santidade jamais criticou o CVII em si. É fato que Bento XVI ataca ferozmente o que ele chamou de “hermenêutica da ruptura”, uma interpretação dos documentos que rompe com a Igreja pré-conciliar ao mesmo tem em que usa o modernismo e a “evolução” doutrinária como régua! Opor-se a essa postura, como o Santo Padre, não é se opor ao Concílio; ao contrário, é defender o verdadeiro Concílio. Daí seu engajamento diário em resgatar tradições e Tradições perdidas, não para mostrar seu simples apreço às coisas antigas, mas para ensinar que há sim um fluir natural entre a Igreja pré e pós-Concílio! S.S quer o triunfo da “hermenêutica da continuidade”, a única e viável forma de enxergar o Vaticano II, levando em conta 2000 anos de Igreja.

O Santo Padre falou sobre a FSSPX na última Audiência Geral. Disse ele:

Fiz esse gesto de paterna misericórdia, porque repetidamente esses prelados me manifestaram o seu grande sofrimento pela situação em que se encontravam. Faço votos de que a esse meu gesto, siga o solícito compromisso por parte deles de dar os ulteriores passos necessários para realizar a plena comunhão com a Igreja, testemunhando assim a verdadeira fidelidade e verdadeiro reconhecimento do magistério e da autoridade do papa e do Concílio Vaticano II. 

Ora, como fica claro, S. Santidade não deixou de lado a questão conciliar ao retirar as excomunhões. O tal papo de “tá tudo liberado, vamos criticar” não tem qualquer fundamento, como sempre. Espero que ninguém apareça e diga que “não foi exatamente isso que o Papa quis dizer”, ou que “o Papa disse isso, mas, na realidade, ele planeja outra coisa”. Seria o Papa hipócrita?

Mas o “melhor” é quando se afirma que “tá claríssimo que o Papa, por meio das suas atitudes, quer destruir o Concílio e resgatar a Igreja dos males do Vaticano II.” O mais engraçado desse posicionamento é que não há a mínima concordância entre esses atos de S. Santidade e seus pronunciamentos: seriam dois Papas então? O que resgata o rito antigo e usa paramentos romanos é o anti-Vaticano II, o que senta na cátedra de São Pedro e defende o Concílio, literalmente, é o modernista pró-Vaticano II? Ora, só não compreende quem não quer, e quem é obtuso: o Santo Padre, ao defender a “hermenêutica da continuidade”, a ortodoxa compreensão dos documentos, enxerga como natural o resgate dessas tradições que foram perdidas, de certo modo, pelo triunfo da “hermenêutica da ruptura”, afinal, essa ótica indecorosa e destrutiva criou um novo “ethos” na catolicidade; um espírito de constante mudança, um relativismo doentio que de tão radical não consegue nem mesmo se manter por um raciocínio lógico.

Voltando ao pronunciamento Papal! Fica mais do que óbvio que o Santo Padre procura, por meio dessa aproximação com a FSSPX, levar aos Bispos a compreensão da piedosa interpretação conciliar, como fez com outros grupos que saíram da própria Fraternidade. Vejam, D. Fellay disse em entrevista que “Nós concebemos ecumenismo como um retorno à unidade da Verdade.” Ora, onde a Igreja se distancia disso? Em qualquer pronunciamento papal, quando não é interpretado com artimanha, é de fácil percepção o fundamento ortodoxo dos diálogos ecumênicos, sem qualquer faceta irenista. O próprio Card. Kasper, aquele mesmo, disse, na Conferência pelo 40° aniversário da Unitatis Redintegratio , que “Os princípios católicos do ecumenismo, enunciados pelo Concílio Vaticano II e mais tarde pelo Papa João Paulo II, são clara e inequivocadamente opostos a um irenismo e a um relativismo que tendem a banalizar tudo (…) A Igreja Católica reivindica para si mesma, tanto no presente como no passado, o direito de ser a verdadeira Igreja de Jesus Cristo, em que se encontra toda a plenitude dos instrumentos de salvação”

O Santo Padre, com toda a sua sabedoria, retirou as excomunhões para que, a partir daí, houvesse um saudável e fraterno diálogo com os Bispos, desarmados e obedientes, sem nenhum triunfalismo de “nós somos a Tradição”. S. Santidade, vigoroso defensor do Concílio, não deixará que um ponto tão relevante do Magistério atual seja deixado de lado, como um mero complemento doutrinal. O Papa procurará, por meio do doce pastoreio, levar toda a Fraternidade a união total e completa, onde há reconhecimento, não só formal, da autoridade Papal e respeito e obediência aos ensinamentos do Vaticano II.

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