A Graça

Na teologia a graça tem seu próprio significado bem definido como dom sobrenatural e interior de Deus concedido a nós pelos méritos de Jesus Cristo para a nossa própria salvação. Como é de ordem sobrenatural, a graça vai além da nossa razão, somente conhecida pela prática da fé, não baseando em sentimentos ou em obras para dizer que já estamos salvos e justificados.

Na área do conceito sobre a graça muitos fiéis e “movimentos” equivocam no entendimento e rompem com a Doutrina Católica revelando a raiz chave de seu inteiro sistema de erros. Como já foi observado, alguns defendem a necessidade de um fenômeno sensível que acompanhe e dê significado à recepção da graça ou pelo menos que a “libere” na alma. Para eles, o cristão tem que “sentir” Deus como atuante na alma senão não há propósito de salvação. Isso é claramente falso! Buscam uma “paz interior” estando susceptíveis aos balançares de uma fé eivada de subjetivismo sentimentalóide.


A graça Santificante, aquela que “santifica a alma”, iniciando com a participação na vida divina pelo batismo, sendo íntimo da Trindade, faz o homem justo entrar em relacionamento de amizade com Deus, torna-o um Templo do Espírito Santo, um Filho de Deus o que dá-lhe, conseqüentemente, a herança dos Céus, é inteiramente insensível à alma. Naturalmente que isso não descarta a possibilidade de que Deus dê uma divina revelação a um indivíduo sobre seu estado de graça, mas tal revelação certamente cairia no campo do incomum e não como norma geral, ao contrário do que afirmam os tais “movimentos” que afirmam serem “porta-vozes de uma nova maneira de sentir a fé”.


Como declara o Concílio de Trento:

“Cada homem ao levar em consideração a si próprio e a sua própria fraqueza e
indisposição, pode experimentar medo e apreensão sobre sua própria graça,
uma vez que ninguém pode saber com certeza de fé, a qual não está sujeita a
erro, que ele obteve de fato uma graça de Deus”.
(Denziger 802).


Naturalmente que Deus pode conceder graças verdadeiramente sensíveis ( embora nem todas as graças sejam necessariamente sensíveis) a quem quer que seja, mas, mesmo entre as graças verdadeiras, sensibilidade não é uma condição sine qua non. Uma vez que muitas graças verdadeiras são sensíveis e os “movimentos de renovação” insistem tanto sobre o caráter sensível da graça, o resultado prático é que eles acabam confundindo graça santificante com graça verdadeira e no final acabam negando a primeira.


Ao se negar a graça santificante, nega-se a Doutrina Católica acerca da justificação infalivelmente decretado nos Canons do Concílio de Trento e, consequentemente, a Doutrina Católica concernente às operações externas da S.S. Trindade, as quais serão discutidas mais a seguir. A seriedade dessa matéria não deveria ser menosprezada por ninguém. Sempre foi dito que semelhantes erros no princípio acabam levando a erros maiores ? as vezes, mostruosos – na conclusão.
Portanto, a insistência de tais “movimentos” e grupos organizados sobre o caráter sensível das graças é a raiz chave de seu inteiro sistema de erros.


Os Carismas


É inegável que às vezes Deus concede graças verdadeiramente sensíveis, até mesmo fenômenos extraordinários a certas pessoas. Os verdadeiros carismas presentes na Igreja Primitiva são um claro exemplo desses fenômenos extraordinários. Uma das maiores gafes dos tais grupos e “movimentos” certamente é querer transformar algo extraordinário em ordinário e até necessário para todos.


As graças as quais Deus concede ao homem se dividem em várias categorias. Uma dessas categorias é a chamada gratia gratis data ( graça concedida livremente) e a outra é a gratia gratum faciens ( graça concedida para agradar). A primeira, frequentemente chamada “graça gratuita”, é usada para significar aquelas graças que são conferidas a algumas pessoas em particular para a salvação de outras. A essa classe pertencem aqueles extraordinários dons de graça, como os verdadeiros Carismas ( Profecia, Milagres, Línguas… etc conforme I Cor. 12.8), o poder sacerdotal de Consagração e o poder hierárquico de jurisdição. A possessão desses Dons é algo independente da constituição moral do seu possuidor.

Gratia gratum faciens é usada para descrever a graça de santificação pessoal para todos os homens. Ambas as graças; santificante e graça verdadeira, as quais preparam-nos para a justificação caem nessa categoria. Essas graças são necessárias para todos, o que já não ocorre com as graças gratuitas. São Tomás de Aquino fala muito bem desta distinção, descrevendo ambas as categorias de graça em sua Summa Teológica, em duas seções separadas do II Capítulo do “Tratado Sobre a Graça” e o “Tratado Sobre Atos Pertinentes Especialmente a Certos Homens”. Os carismas são discutidos mais no final.


É interessante notar que São Tomás de Aquino nunca se refere aos carismas como sendo um fenômeno contemporâneo. Ele fala sobre eles apenas com referência aos tempos Apostólicos. Para uma explicação mais profunda sobre esses fenômenos, ler o livro é fundamental.

Basicamente, os verdadeiros carismas foram dons que capacitaram a Igreja primitiva a se espalhar rapidamente até os confins do mundo até então conhecido e tornar-se bem estabelecida antes da morte dos Apóstolos.
Como já foi dito antes e como bem elucidou São Paulo na sua
II Epístola aos
Coríntios
, o propósito dos dons era a edificação da Igreja e não a santificação daqueles a quem eles eram conferidos.

O dom das línguas foi dado para permitir que o Evangelho fosse pregado a todos os ouvintes independente de seus idiomas. Profecia, curas, milagres.. etc. foram dados para provar a veracidade das pregações da Igreja e para promover conversões. Com a conquista de uma Universalidade Moral pela Igreja, a necessidade de tais fenômenos cessou por várias razões.
Primeiramente, por causa da presença de povos de tudo quanto é nacionalidade
dentro do Corpo da Igreja e em segundo lugar, por causa do comprovado estabelecimento da Igreja como Verdadeira Religião em um curto espaço de tempo.


O mesmo argumento pode ser feito hoje contra a presença contemporânea dos carismas. Uma vez que a Igreja é agora tanto moralmente quanto fisicamente Universal, abrigando pessoas – mesmo do Clero – de tudo quanto é nação e língua, que necessidade haveria da glossolalia para a evangelização? Uma vez que a Igreja já possui quase dois mil anos de existência comprovada como Verdadeira Religião, que necessidade ela teria dos carismas hodiernos para provar sua Doutrina? Como declara Santo Agostinho:

“Uma vez que mesmo agora quando o Espírito Santo é recebido, ninguém fala nas línguas de todas as nações, é porque a própria Igreja já fala na língua de
todas as nações: Já que quem quer que seja que não está dentro da Igreja,
não recebeu ainda o Espírito Santo” (Santo Agostinho, Tratado de XXXII sobre
João).


Por outro lado São Tomás de Aquino admite a possibilidade de grossa caricatura diabólica dos verdadeiros carismas em questões, sobre as quais o leitor é livre para examinar com atenção.


II-IIæ, Q.172,A.5: Se alguma profecia pode vir do demônio
(RESPOSTA: SIM)


II-IIæ,Q,172,A.6: Se as previsões dos profetas dos demônios
podem ser verdadeiras (RESPOSTA: SIM).


II-IIæ, Q.178,A.2: Se o Malígno pode operar milagres (RESPOSTA:
SIM).]

É bem sabido que o Diabo e seus demônios podem produzir prodígios que a princípio parecem milagres para os mais desavisados, como na história do Mago Simão e sua “milagrosa levitação” desbancada por São Paulo.
Portanto é extremamente perigoso ir aceitando de cara, qualquer fenômeno
extraordinário como sendo de origem divina. O grande místico e doutor da
Igreja, São João da Cruz, tão frequentemente citado e tão mal compreendido
pelos “gurus” espirituais modernos, tinha o seguinte a dizer, concernente à
supostas “revelações pessoais” vindas de Deus e que foram experimentadas por
alguns de seus contemporâneos:

“E eu temo muitíssimo pelo que está acontecendo nesses nossos tempos: se
qualquer alma, seja lá qual for, depois de um pouquinho de meditação, tiver
em suas recordações uma dessas locuções, e imediatamente “batizá-las” como
vindas de Deus e com tal suposição disser: “Deus me disse”, “Deus me
respondeu”. Ainda que não seja exatamente assim, mas, como já dissemos,
essas pessoas são frequentemente os autores de suas próprias locuções”.
( São
João da Cruz- A Subida do Monte Carmelo).

“Através do desejo de aceitá-las, eles abrem as portas para o demônio. O
demônio pode então enganá-los usando outras comunicações espertamente
fingidas e disfarçadas como genuínas. Nas palavras do Apóstolo, ele pode
transformar-se em “anjo de luz”
(II Cor. 11:14)… Independentemente da causa
dessas apreensões, é sempre bom para um homem rejeitá-las de olhos fechados.
Se ele fracassa em assim fazer, ele acabará por dar espaço para aquelas que
tem origem diabólica e dará poder ao demônio para que se aposse de suas
próprias comunicações. E não é só isso, as representações diabólicas se
multiplicarão enquanto aquelas que vem de Deus gradualmente cessarão, de
forma que dali a pouco todas virão do demônio e nenhuma delas de Deus. Isso
tem ocorrido com muitos incautos e não-instruídos
“. ( S. João da Cruz)

De fato, Nosso Senhor Jesus Cristo adverte a Igreja dos perigos de aceitar de cara supostos milagres: Porque se levantarão falsos cristos e falsos profetas, que farão milagres e prodígios a ponto de seduzir se isto fosse possível até mesmo os escolhidos. (Mt 24,24)


Mais estarrecedor ainda é sua advertência: “Nem todo aquele que me diz Senhor, Senhor, entrará no Reino dos céus, mas sim aquele que faz a vontade do meu Pai que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não pregamos nós em vosso nome, e não foi em vosso nome que expulsamos os demônios e fizemos muitos milagres? E, no entanto, eu lhes direi: nunca vos conheci. Retirai-vos de mim, operários maus!” (Mt 7,21-23).


O Mérito

O Mérito provém da realização de boas obras destinando ao realizador receber uma recompensa. Só a alma em graça santificante pode adquirir méritos pelas sua ações. É esse estado que dá valor eterno a ação. Os “fiéis” vinculados a essa maneira estreita e perniciosa de interpretação de fé, se distanciando da graça santificante, perdem o direito de desfrutar dos méritos concedidos por Deus. Assim disturbam o recebimento dos méritos de Deus. Tudo é feito com intuito de operar milagres para si ou para outrem. Faltam-lhe senso crítico e a emoção prepondera sobre a razão.

As ações humanas precisam se tornar obras de Deus para ter seu valor divino. Ações egocêntricas não tem significação sobrenatural. E as nossas ações são em certo sentido obras de Deus quando Ele está presente numa alma pela graça santificante ? que é prodígio de Deus e não mérito nosso. Todos os méritos das boas obras a conquistar pertencem a Deus em primeiro lugar, não podendo merecer a graça primeira, quando da conversão, do perdão e da justificação. Atribuídos a Deus, nós podemos depois conquistar o merecimento para nós e para os outros com reta direção divina, a necessidade de crescimento da fé, santificação pessoal, aumento da caridade, ganhar a vida eterna, numa consciente vivência espiritual.

” A caridade de Cristo em nós constitui a fonte da todos os nossos méritos diante de Deus. A graça, unindo-nos a Cristo com um amor ativo, assegura a qualidade sobrenatural dos nossos atos e, por conseguinte, o seu mérito tanto diante de Deus como diante dos homens. Os santos sempre tiveram viva consciência de que seus méritos eram pura graça” ( CIC, 2011 )


A Santíssima Trindade


Naturalmente que uma exposição dogmática mais profunda está bem além do objetivo desse artigo, mas de modo a compreender a gravidade dos erros dos tais “movimentos” e grupos constituídos com essa fé deformada e deformante é essencial entender as assim chamadas “missões externas”.

Uma missão, ou envio, pressupõe que haja um remetente, um envio e um destino para o qual algo é enviado. Com relação ao remetente e ao envio, os teólogos falam de acordo com as “apropriações” de Deus-Pai como sendo Aquele que envia; Deus-Filho como Aquele que é enviado e ao mesmo tempo que envia, e o Espírito Santo como Aquele que é enviado, mas que não envia. A Doutrina Católica sobre a Trindade ensina que todas as operações externas são comuns às três Pessoas Divinas. Com referência ao destino para o qual uma das divinas Pessoas é enviada, é bom que se fique claro que, embora Deus esteja presente em todas as partes do Universo, Seu modo de presença em qualquer dado lugar muda quando uma das Divinas Pessoas é
enviada.

Existem dois tipos de missão externa da S.S. Trindade: a visível e a invisível. A missão invisível é adequadamente, insensível à pessoa para quem a divina Pessoa é enviada, ao passo que a missão visível é também sensível. A missão insensível segue-se à conferência da graça santificante e tem como seu objetivo fazer com que Deus habite na alma do justo. Essa habitação na alma geralmente é atribuída ao Espírito Santo, mas juntamente com o Espírito Santo, também o Pai e o Filho habitam na alma do justo.

A missão visível do Espírito Santo compreende fenômenos sensíveis como quando o Espírito Santo apareceu sob a forma de pomba no Batismo de Nosso Senhor, ou Sua descida em forma de línguas de fogo sobre os Apóstolos no Pentecostes, bem como os verdadeiros carismas ocorridos na Era Apostólica da Igreja. “Mas por sua verdadeira natureza, a missão visível é transitória”. (S. Tomás de Aquino- Summa Teológica) A missão invisível ocorre com a conferência da graça santificante, a qual acontece normalmente com a digna recepção dos sacramentos.


“Mas a obra principal do Espírito Santo é a santificação das almas através da graça… E mais especialmente através dos Sacramentos, e de forma ainda mais notável através do Sacramento da Confirmação que o Espírito Santo comunica Suas Graças e Seus Dons.” ( Abade A. Boulenger)


Portanto, toda essa insistência sobre a sensibilidade da graça, praticamente negando a graça santificante, faz com que se acabe por negar também a missão invisível do Espírito Santo e rebaixar os Sacramentos de seu alto posto, reduzindo-os apenas a canais ordinários por onde passa a graça e a meros ritos eclesiásticos cujo papel é “complementar” o sensível “batismo no Espírito” durante o processo de “Iniciação Cristã”.

 

                                          Conclusão

Chegamos a uma triste conclusão: os ditos fiéis vinculados a esse tipo de “hipersensibilidade espiritual”, aliada a uma fé irracional, tende a se “maravilhar” com pirotecnia psicológica ou subjetivismos que, como um sucedâneo da verdadeira fé (como um placebo que, antes de ser inerte, é venenoso) tem a aparência do que é vero na prática Católica; fica ele preso psiquicamente aos tais grupos e “movimentos” que geram uma dependência onde o “fiel” só se “sente” “pertencente a verdadeira Igreja” se inscrito nas tais denominações “renovadas”.

Não podemos deixar de falar também do mal que faz a Igreja quando um grupo se diz o possuidor da verdadeira “experiência cristã” ou se, por outro lado, num selvagem, voraz e sincrético “ecumenismo” e/ou “tolerância”, declarar que “toda a manifestação de fé é válida se inspirada pelo Espírito Santo”. Caímos, então, ou num perigoso exclusivismo fideísta, ou num nefasto “acolhimento suicida”.

Nesses tempos onde tudo é urgente, onde nos sentimos encurralados por uma realidade hostil, não podemos esquecer da Virtude da Prudência que nos previne dessa adesão irracional a práticas nada ortodoxas e em nada salutares para a alma do fiel. A Virtude da Prudência evoca e convoca a memória, a docilidade, a razão e a inteligência para, ,juntas, respeitando a dignidade da pessoa humana e sua constituição de “animal racional”, fazendo valer a outorga de filho de Deus, adentremos na verdadeira Doutrina, posto que é Sã e Santa para o maior bem daqueles que querem louvar a Deus “em espírito e verdade”.

Fora da Ortodoxia, nada há.

Da “ortodoxia renovada” somente pode advir confusão e ruína.

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