O Concílio Vaticano II é alvo de severas críticas, se por um lado é interpretado por uns como o desligamento da Igreja com seu passado, outros grupos se dedicam a afirmar que ele traiu a Esposa de Cristo, lançando ao vento sua Tradição e heranças deixadas por Nosso Senhor. Algumas dessas opiniões estão corretas? Não.

A interpretação que cria uma dicotomia entre o mundo pré e pós-conciliar é chamada pelo Santo Padre Bento XVI de “hermenêutica da descontinuidade e da ruptura”. Essa mentalidade, propositalmente, defende que o Vaticano II criou uma nova compreensão de Igreja, lançando as bases de uma fundação moderna da fé. Ao mesmo tempo, essa ótica deturpada forneceu o sustentáculo para que católicos ressentidos afirmassem que o Concílio realmente traiu a Tradição. Desde já concluímos que existe uma íntima relação entre os modernistas, adeptos da hermenêutica relativista, e os falsos tradicionalistas. Os primeiros criam o cenário que os segundos utilizam para afirmar que o Vaticano II rompeu com o passado da Esposa de Cristo.

No início do séc. XX, a Igreja se deparou com uma explosão teológica, ao mesmo tempo em que bons homens, pautados na Tradição e na Sagrada Escritura, desenvolviam e aprofundavam o conhecimento teológico, bíblico e histórico, grupos inteiros de religiosos e leigos engajados arquitetavam nas Universidades um pensamento herético, de grande extensão, que rebaixava a instituição divina da Igreja, transformando-a num organismo propenso às mudanças do mundo. O modernismo, condenado por São Pio X como “síntese de todas as heresias”, abriu as portas para que padres, bispos, freis, monges, contrariassem a doutrina e o Magistério da Igreja, reflexo da sua origem na filosofia moderna, que colocava em xeque a possibilidade da percepção da Verdade, enaltecendo as idéias, o pensamento do homem.

Em meio ao surgimento do modernismo, o mundo contemporâneo era surpreendido com o fortalecimento de pensamentos venenosos, como o laicismo, ateísmo, relativismo moral, dialética marxista, enrijecimento do liberalismo materialista. Sabiamente, a Igreja, zelando pela salvação das almas, ensinou, através da condenação do erro, o caminho ortodoxo que os fiéis deveriam seguir.

O Concílio Vaticano II foi pautado na vontade de modificar o método até então utilizado. Claro que isso não poderia ser interpretado como uma aversão às condenações passadas. Afinal, a Igreja, enquanto Esposa de Cristo, tem o múnus de guiar, e pensar na possibilidade de que os ensinamentos provenientes dela são propensos ao erro e modificações, é crer que a sua infalibilidade, a regência pelo Espírito Santo, e a presença na terra do Vigário de Cristo, não existem. Quando o Santo Padre condena o marxismo, por exemplo, tem na base de suas afirmações o conteúdo apostólico, patrístico, a Sagrada Escritura, a herança de Nosso Senhor, portanto, há em sua sustentação todo um aparato originado do depósito da fé. O Concílio se distinguiu pelo fato de não anatemizar, preferiu ensinar dizendo o que é correto, e não recondenando o erro, método completamente sadio e ortodoxo.

As grandes confusões originadas da interpretação do Concílio se devem ao fato que muitos religiosos, já infectados pelo gérmen do modernismo, aproveitaram essa ótica do Vaticano II para impor no pós-concílio suas visões heréticas. Claro que qualquer católico, sensato e sincero, nunca enxergaria no Concílio uma ruptura com a Tradição, levaria em questão todo o legado da Igreja. Ademais, o cenário formado não foi positivo, muitos Bispos, Padres, passaram a levantar a bandeira do relativismo religioso, do marxismo, ecumenismo irenista, e muitos outros erros e heterodoxias já condenadas pelo Magistério. Quando confrontados com os ensinamentos da Esposa de Cristo, se defendiam dizendo que estavam “na esteira do Concílio”. Ora, tamanha profanação só seria cabida para aqueles que interpretavam o Vaticano II como uma refundação, como se tudo aquilo que veio antes de 1965 não tivesse mais valor. É necessário frisar que em nenhum momento os documentos conciliares defenderam os erros condenados, apenas optaram por não trazer à tona anátemas, mas sim o diálogo com o mundo, mostrando as coisas boas presentes na sociedade, mas tendo a consciência clara a respeito das sombras estabelecidas entre os homens. E como parte da Igreja Católica, como vigésimo primeiro Concílio, não poderia renegar nada do que já havia sido ensinado, muito menos rechaçar a Tradição. Concluímos, então, que aqueles que se pautavam no Vaticano II para ratificar suas heresias, erravam absurdamente, pois enxergavam no Concílio a origem de uma nova Igreja, repudiando seu passado, e de forma ignorante compreendiam as não-condenações nos textos conciliares como a liberação do erro outrora anatemizado.

Em 1968 explode a revolução estudantil em Paris. Foi o pontapé para a ascensão do marxismo cultural na sociedade ocidental, estando intimamente ligada ao movimento hippie, que clamava por uma “nova” moral e ética, repudiando a origem cristã dos valores comuns, chamados por eles de “valores burgueses”. Ademais, defendiam o “amor-livre” e o pacifismo doentio. Ambos os acontecimentos tem ligação estreita com a Escola de Frankfurt, em especial com Marcuse, que taxava o fundamento cristão da sociedade de instrumento de repressão, e via no princípio do prazer um meio de libertação. As sábias palavras do Vigário de Cristo, Bento XVI, aos Sacerdotes das dioceses de Teviso e Belluno-Feltre, nos Alpes, descrevem com perfeição esse crítico cenário: “E no concreto do pós-Concílio devemos constatar que existem duas grandes suspensões históricas; a de 1968, o início – ou a explosão ousaria, dizer – da grande crise cultural do Ocidente (…) Mas tendo terminado essa geração viram-se também todas as falências, as lacunas dessa reconstrução, a grade miséria do mundo, e começou assim – explodiu – a crise da cultura ocidental que pretende mudar radicalmente. Não criamos, em dois mil anos de cristianismo, o mundo melhor. Devemos recomeçar do zero, de modo absolutamente novo; o marxismo parece a receita cientifica para criar finalmente um mundo novo, E neste (…) grave confronto entre a nova e sadia modernidade querida pelo Concílio e a crise da modernidade, tudo se torna difícil, como depois do primeiro Concílio de Nicéia. Uma parte tinha a opinião de que essa revolução identificava a nova revolução marxista com a vontade do Concílio; dizia: esse é o Concílio. No papel os textos ainda são um pouco antiquados, mas por detrás das palavras escritas está esse espírito. Essa é a vontade do Concílio, assim devemos fazer. E por outro lado, naturalmente, a reação; destruir assim a Igreja; A reação, digamos, absoluta contra o Concílio, o anti-Concílio, e a tímida, humilde busca de realizar o verdadeiro espírito do Concílio (…) Portanto, durante os grandes ruídos do progressismo errado, do anti-Concílio cresceu muito silenciosamente, com tantos sofrimentos e também com tantas perdas na construção de uma nova época cultural, o caminho da Igreja.”

Os Padres conciliares realmente não sabiam dos acontecimentos vindouros, portanto não podem carregar o fardo da crise da sociedade ocidental. Ademais, juntando o que foi exposto sobre a interpretação obtusa do Vaticano II, a errada visão a respeito de seu método, somado com a ascensão de pensamentos e ideais completamente invertidos entre os homens, resultou na criação do cenário perfeito para a difusão do erro e perdição. No pós-concílio se implantou então a dúvida, muitos religiosos sustentados na hermenêutica da ruptura enxergavam no Vaticano II a ascensão de uma fé moderna, e no seu método a borracha que apagou todas as condenações de outrora, cenário este que alimentado pela crise social, realmente levou a crer que tamanhas conclusões heterodoxas se sustentavam na vontade da Igreja.

A revolução cultural gerou o alvorecer de um Novo Mundo, e essa mentalidade convertida na fé originou o ideal de refundação da Igreja, pautada no relativismo e na adaptação às novidades da humanidade. Os religiosos heréticos aproveitaram a confusão pós-conciliar para ratificar suas heterodoxias, difundindo a hermenêutica da ruptura, bradando que os erros do passado foram revogados pelo Vaticano II e, que a Igreja, estava se curvando ao mundo. Se São Basílio fosse um Padre do Concílio, sem dúvida renovaria suas impressões passadas, que relatou a respeito de Nicéia; : “O grito rouco daqueles que, pela discórdia, se levantam uns contra os outros, os palavreados incompreensíveis e o ruído confuso dos clamores ininterruptos já encheram quase toda a Igreja falsificando, por excesso ou por defeito, a reta doutrina da fé…” (De Spiritu Sancto, XXX, 77; PG 32, 213 A; Sch 17 bis, pág. 524).

Esse cenário propiciou que Bispos e Padres abrissem as cancelas do erro e, em seus países de origem, desvirtuassem não só o Vaticano II, com a má interpretação do seu método, mas como a deformação de toda a Tradição da Igreja, atestando o alto grau de descomprometimento com as bases da fé católica. Nesse meio, os fiéis viraram alvos fáceis de hierarcas heterodoxos e, desse modo, se disseminou não só o enfraquecimento da piedade e da vivência religiosa, mas juntamente o relativismo religioso. A transformação foi violenta, e esse espírito de metamorfose talvez tenha sido mais agressivo do que a própria mentalidade prostituída dos hereges. Os leigos, as senhoras beatas, as crianças em formação, os lares católicos, os homens e mulheres sem grandes conhecimentos, mas cheios da pura fé, viram tudo aquilo que sustentava o dia-a-dia da religião desabar. As devoções e novenas diminuindo, a oração coletiva do rosário se extinguindo, a mística da liturgia sendo trocada por um mero banquete, o Padre, figura fraterna, amiga e próxima das famílias, embebido em piedade, ortodoxia e fé, transformado em psicólogo, sociólogo, jurista, e mais distante do seu papel nas comunidades. Foram essas transformações, mais do que os planos diabólico-maquiavélicos dos heterodoxos, que instituiu entre os homens o ideal de uma Igreja “nova” e “moderna”.

O Santo Padre Bento XVI no seu discurso à Cúria Romana na apresentação dos votos de Natal do ano 2005, ainda lembra que essa interpretação da descontinuidade “não raro (…) pôde valer-se da simpatia dos mass media e também de uma parte da teologia moderna.”, afirmação de quem tem uma sensível percepção a respeito dos acontecimentos pós-conciliares. A hermenêutica da ruptura realmente goza de grande espaço nos meios de comunicação, é a forma que encontraram para atacar a Igreja, endossando e difundindo um plano destrutivo e herético. Não obstante, a mídia rapidamente se contaminou, no mínimo se deixou levar, pelas mudanças da sociedade ocidental, aderindo à revolução cultural, transformando-se num verdadeiro meio de difusão de idéias e “novos” valores. Ademais, a eficiência, rapidez, dos jornais, rádios e televisões, antecipou e levou ao grande público informações a respeito do Concílio antes mesmo que a Igreja e o Papa dessem o parecer do Magistério. Hoje, a abertura que a mídia fornece aos religiosos “tendenciosos”, e a forma desleixada e desrespeitosa com que tratam nomes de grande piedade e ortodoxia, apenas confirmam quão frutífera e necessária, do ponto de vista do erro, é essa interpretação conciliar obtusa, que gera no seio da sociedade uma mentalidade libertária, “moderna” e sem “grilhões” a fé e normas.

O diálogo a respeito do Vaticano II muitas vezes toma uma feição dicotômica, de um lado os modernistas, que analisam sem respaldo na Tradição, o Concílio, e enxergam nos seus textos o rompimento da Igreja com o seu passado, por outro lado os “tradicionalistas”, que pautados justamente nessa visão progressista, afirmam que o Vaticano II traiu a Esposa de Cristo, e rompeu com a Tradição. Realmente, se o Concílio tivesse defendido todas as heresias e esquizofrenias que os modernistas encontram na interpretação dos textos e documentos, hermenêutica essa quase autista por sinal, os “rad-trads” teriam razão de existir, daí a necessidade de que haja progressismo para haver tradicionalismo. A real compreensão do Vaticano II se encontra no entendimento de seu momento histórico, assim como o método e linguagem por ele utilizado, sem contar é claro a sustentação à luz da Tradição e Sagrada Escritura, que por sua vez são enlaçados pelo Magistério na regência do Pontífice Romano. No caso dos modernistas, além de caírem na interpretação pessoal, guiada pelas vontades e intentos próprios, heréticos para ser mais claro, o que já gera erros e absurdos nunca dantes vistos na análise do Concílio, o distanciamento do pastoreio do Papa cria diversas outras anomalias, como o surgimento de pensamentos eclesiológicos de caráter radicalmente cismático, e heterodoxias pautadas no mais genuíno relativismo. O tradicionalismo por sua vez, tem um comportamento mais presunçoso, diferente do progressismo, que é rebelde. Os rad-trads já erguem a bandeira de que todas as afirmações feitas pelos modernistas são verdadeiras e genuínas, que realmente o Concílio traiu a Igreja e jogou ao vento a sua herança apostólica, e de maneira desrespeitosa e pouco caridosa, crêem que as atitudes dos Papas em defesa do Vaticano II são inúteis. Os tradicionalistas acreditam que estão ao lado da Igreja quando se opõem ao Sumo Pontífice, caindo, dessa forma, no mesmo erro dos progressistas. Tanto os primeiros quanto os segundos criam uma visão particular do Concílio, e ambos rejeitam os ensinamentos papais.

Interpretar, viver e conhecer o verdadeiro Vaticano II é interpretar, viver e conhecer a Igreja e seus fundamentos. Desvencilhar o Concílio da Tradição, da Sagrada Escritura, dos vintes anteriores Concílios, é querer arrancar a Igreja da sua pedra de sustentação. Como o maior ódio não consegue balançar a Esposa de Cristo, regida pelo Espírito Santo e construída na base da promessa de Nosso Senhor ao Príncipe dos Apóstolos, é uma questão de tempo para que o Papa, agraciado com a luz de Deus, consiga limar a heresia do seio do clero e do laicato, e converta os heterodoxos a mais pura fé católica. O Sucessor de São Pedro disse que “Quem aceita o Vaticano II, como ele claramente se expressou e se entendeu a si mesmo, ao mesmo tempo aceita a inteira tradição da Igreja Católica, particularmente, os dois concílios anteriores.” E é embebido nesse pastoreio e confiança no Angélico Pastor que os católicos devem se sustentar, e nas palavras do Santo Padre; “assim devemos, parece-me, redescobrir a grande herança do Concílio que não é um espírito reconstruído por detrás dos textos, mas são precisamente os grandes textos relidos agora com as experiências que fizemos e que deram fruto em tantos movimentos, tantas novas comunidades.”

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