D. Estêvão Tavares Bettencourt, osb (+2008)

A Igreja Católica alterou o Decálogo?

– “A Igreja Católica não terá alterado os mandamentos da Lei de Deus consignados em Êxodo 20,1-17? Parece ter omitido o segundo e dividido o décimo” (M.A.F. – Caxias-RJ).

Em vista de toda a clareza possível, coloquemo-nos ante os olhos o mencionado texto de Êxodo 20,1-17:

20,1 “Então falou Deus todas estas palavras, dizendo:
2 ‘Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão.
3 Não terás outros deuses diante de mim.
4 Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra.
5 Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a maldade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem.
6 E faço misericórdia em milhares, aos que me amam e guardam os meus mandamentos.
7 Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão, porque o Senhor não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão.
8 Lembra-te do dia do sábado, para o santificar.
9 Seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra.
10 Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus; não farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o estrangeiro que está dentro das tuas portas.
11 Porque em seis dias fez o Senhor os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há, e no sétimo dia descansou; portanto abençoou o Senhor o dia do sábado e o santificou.
12 Honra o teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá.
13 Não matarás.
14 Não adulterarás.
15 Não furtarás.
16 Não dirás falso testemunho do teu próximo.
17 Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás à mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo'”.

Que dez sejam os mandamentos acima enunciados, é um fato de que nem judeus nem cristãos jamais duvidaram, pois a Sagrada Escritura mesma ensina que dez foram os preceitos dados por Deus ao homem; cf. Êxodo 34,28; Deuteronômio 4,13; 10,4.

Todavia, como se depreende do texto, a Sagrada Escritura não numera os mandamentos ao enunciá-los. Por isto, desde os antigos tempos judeus e cristãos propuseram diversos modos de os distinguir e numerar.

1) A primeira tentativa escrita de distinguir os Dez Mandamentos deve-se a Filon (+~40 d.C.), judeu de Alexandria, e Flávio José, historiador judaico contemporâneo seu. Conforme estes autores, o primeiro mandamento inculca o culto de um só Deus, o monoteísmo, abrangendo os versos 20,2-3; o segundo preceito proíbe a idolatria (20,4-6); o terceiro manda honrar o nome do Senhor (20,7); o quarto preceitua a observância do dia do Senhor (20,8-11); os seis restantes têm por objeto as relações do homem com seu próximo, de tal modo que o nono proíbe a mentira (20,16) e o décimo, a cobiça da casa, da esposa, dos servos, animais e demais bens do próximo (20,17).

Esta divisão foi aceita por escritores cristãos antigos como Orígenes, Tertuliano, São Gregório Nazianzeno, Cassiano. Também os luteranos, calvinistas e anglicanos a adotaram.

2) Tal divisão, porém, não prevaleceu entre os judeus. Os escritos chamados “Targumim”, que referem a exegese dos rabinos, mais autoritativa que a de Filon e fruto de antiquíssimo ensinamento, propõem como primeiro preceito o texto de Êxodo 20,2: seria o mandamento de prestar culto ao verdadeiro Deus; o segundo preceito proibiria o culto de falsos deuses e de ídolos (20,3-6); o terceiro mandaria honrar o nome de Deus (20,7) e o décimo proibiria a cobiça de qualquer bem alheio (20,17). É esta a divisão geralmente aceita pelos judeus até hoje.

3) A terceira divisão deve-se a Santo Agostinho (+430), um dos maiores doutores do Cristianismo. Agostinho (Quaest. LXXI in Exod. ed. Migne 34,620s) julgava que os preceitos de prestar culto ao verdadeiro Deus e de não adorar deuses falsos e ídolos não são, em verdade, senão um só mandamento formulado positiva e negativamente; por isto estendia o primeiro mandamento do verso 2 ao verso 6 (de fato, prestar culto ao verdadeiro Deus exclui o culto de outros deuses). No verso 17, porém, Agostinho via dois preceitos distintos: o nono e o décimo. Já isto lhe parecia insinuado pela repetição da mesma fórmula no versículo 17: “Não cobiçarás…”. Ora a fórmula enunciada duas vezes coíbe duas paixões do homem: a paixão sexual, que cobiça a mulher do próximo, e a paixão de possuir, que cobiça os outros bens do próximo; por isso, Santo Agostinho via nessas duas fórmulas dois mandamentos distintos (o fato de estarem hoje estes dois mandamentos dentro de um só versículo nada significa, pois sabemos que a atual divisão da Bíblia em capítulos e versículos, longe de ser original, só foi introduzida no século XIII por Estêvão Langton, arcebispo da Cantuária). A divisão assim ensinada por Santo Agostinho já fôra proposta no séc. II por Teófilo de Antioquia e, provavelmente, Clemente de Alexandria. Tornou-se comum entre os escritores cristãos da Idade Média.

Ora, a Igreja adotou no seu Catecismo, editado no século XVI, a divisão sancionada pela autoridade de Santo Agostinho e dos grandes doutores medievais. Adotou-a, porque dentre as três divisões que, como vimos, os exegetas haviam proposto, nenhuma era de autoridade divina (ensinada pela própria Sagrada Escritura); todas as três se baseavam sobre razões suficientes; não, porém, decisivas; a divisão de S. Agostinho era a que se apresentava mais lógica, mais plausível. Fazendo isto, teria a Igreja alterado a Escritura Sagrada? Deveremos responder que a Igreja a “alterou” tanto quanto os protestantes a “alteram” quando inculcam a sua divisão. A divisão dos Protestantes não tem mais autoridade do que a de Santo Agostinho e do Catecismo Católico, pois também ela não é ensinada tal qual pela Sagrada Escritura, nem é a dos rabinos antigos nem a dos judeus atuais (doutro lado, quão grande autoridade Lutero e os antigos protestantes atribuíam a Santo Agostinho!).

Em conclusão: quer se distingam os preceitos como Filon de Alexandria, quer como os Rabinos, quer como Santo Agostinho, o que deve importar a todos, católicos e protestantes, é que se ponha em prática tudo que o texto sagrado de Êxodo 20,1-17 preceitua. Sabemos com certeza que Deus quer que o homem adore o seu Criador e somente a Este; não cobice nem a mulher do próximo nem os bens alheios. Que ele o faça porque tal é o mandamento primeiro, segundo, nono ou décimo, isto importa pouco aos olhos do Senhor; faça-o porque é mandamento divino; o Pai do céu já se contenta com isto. E principalmente que ninguém condene o próximo sem conhecimento de causa! É esta a lei da caridade, o primeiro e máximo preceito do Cristianismo.

 

  • Fonte: Revista Pergunte e Responderemos nº 4:1957 – ago/1957.

 


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