Por Alessandro Lima

Um irmão pastor protestante me perguntou (em azul) por que a Igreja Católica havia adulterado o Decálogo. A tal afirmativa tão infundada, respondi (em preto):

* * *

Visitei seu site. Sou evangélico, não concordo com as afirmativas com respeito a opinião dos reformadores da Igreja. Pricipalmente porque todos eles na verdade eram sacerdotes católicos e a ênfase de seus ensinos eram outros (por ex.: Salvação pela graça mediante a fé e não por meio das obras…).

Poderia contestar muitos pontos mas deixo um somente para que você responda: Por que o catecismo católico adulterou os 10 mandamentos???

Está na própria Bíblia de edições católicas: “Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma que há em cima nos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não as adorarás, nem lhes darás culto…” (Exodo 20.4 e 5a).

Responda a você mesmo. Sinto que o Espirito Santo irá guiar-lhe em toda a verdade. (pr. Eduardo)

Creio que o seu sentimento seu tornou realidade…

Gostaria, contudo, de pedir desculpas por eu não conseguir identificar a que “afirmações” o senhor não concorda… Creio, a julgar pela referência aos “reformadores”, que sejam aquelas em que católicos, ortodoxos, reformados, luteranos, anglicanos e metodistas têm se entendido, muitas vezes graças ao movimento ecumênico (como o reconhecimento da comunhão dos santos, da virgindade perpétua de Maria, o uso das imagens sagradas etc.). Mas neste caso, ficaria uma questão – que gostaria que o senhor também me respondesse, quando possível: deixariam estas quatro últimas denominações protestantes de ser consideradas evangélicas? É que, geralmente, são computadas nas estatísticas como evangélicos, principalmente quando se quer demonstrar o chamado “aumento do rebanho evangélico”, tão propagado pelos pastores protestantes.

Com relação à sua questão quanto a “eventual” adulteração do Decálogo pela Igreja Católica, farei um artigo bem detalhado a esse respeito para ser publicado na área de Apologética. Contudo, posso adiantar-lhe alguma coisa:

Não é de se estranhar que a Bíblia católica tenha exatamente o mesmo conteúdo da Bíblia protestante quanto a Ex 20,4-5a, já que a fonte é exatamente a mesma: o AT. Aliás, esta é a maior prova de que a Igreja Católica não adulterou a Palavra de Deus, mas muito pelo contrário – como pode ser facilmente provado pela História e pela Arqueologia – a Igreja Católica foi a grande responsável pela guarda das Santas Escrituras, uma vez que a mais antiga versão judaica da Bíblia (chamada de texto Massorético) é pelo menos 1000 anos mais recente que a versão grega da Septuaginta, que foi a versão usada pelos apóstolos e pela Igreja Católica. Seja como for, tanto a versão palestina quanto a versão grega são concordes quanto aos termos usados nos Dez Mandamentos.

Nem judeus, nem cristãos (sejam estes católicos, ortodoxos ou protestantes) jamais duvidaram que Dez são o número de Mandamentos. Porém, é bom observar que a Bíblia não os enumera. É bom lembrar também que nenhum dos autores sagrados utilizou capítulos e versículos: a divisão em capítulos foi feita em 1226 e a divisão dos capítulos em versículos, muito tempo depois. A forma definitiva, contudo, só chegou no séc. XVI. Por esse motivo, existem, pelo menos, 3 formas de se dividir o Decálogo:

a) Filon de Alexandria e Flávio Josefo, judeus helenistas, dividiram assim:

  • 1. culto a um só Deus (Ex 20,2-3).
  • 2. proibição da idolatria (20,4-6).
  • 3. honra ao nome de Deus (20,7).
  • 4. observância do sábado (20,8-11).
  • 5 a 10. relações do homem com seu próximo (20,12-17), sendo o 10º a proibição de cobiçar qualquer coisa alheia, inclusive a mulher, que era vista como coisa (=objeto de propriedade).

Esta é a divisão aceita pelos protestantes, graças aos reformadores do séc. XVI, que adotaram o mesmo ponto de vista dos judeus helenistas.

b) Os rabinos, no targumin, assim dividiram:

  • 1. culto ao verdadeiro Deus (Ex 20,2).
  • 2. proibição ao culto de falsos deuses (20,3-6).
  • 3. honra ao nome de Deus (20,7).
  • 4 a 10. demais mandamentos (20,8-17), sendo o 10º a proibição de cobiçar qualquer coisa alheia, inclusive a mulher, pelo mesmo motivo.

Esta é a divisão aceita pelos judeus contemporâneos.

c) Santo Agostinho, uma das maiores autoridades da Igreja, dividiu assim:

  • 1. culto e adoração a um só Deus (Ex 20,2-6).
  • 2. honra ao nome de Deus (20,7).
  • 3. observância do dia do Senhor (20,8-11).
  • 4 a 10. relações do homem com seu próximo, sendo o 9º a proibição de cobiçar a mulher do próximo e o 10º, a de cobiçar coisas alheias (casa, boi, etc.).

Esta é a divisão adotada pela Igreja cristã, seguida até hoje pela Igreja Católica.

Mas como Santo Agostinho chegou a essa conclusão?

Se Deus é único, então adorar o verdadeiro Deus e não prestar culto a outros deuses é um único e mesmo mandamento formulado de maneira positiva e negativamente. Ora, quem adora e ama o Verdadeiro e Único Deus não tem como adorar e amar falsos deuses (=ídolos), uma vez que estes não existem. É algo totalmente inconcebível à razão prestar culto a um Deus único e, ao mesmo tempo, cultuar outros deuses. São coisas completamente excludentes e antagônicas. Algo completamente irracional!

O versículo 17 possui dois preceitos distintos, insinuados pela repetição da expressão “Não cobiçarás…”: a fórmula parece refrear duas paixões que são latentes no homem:

a) A paixão de possuir, que cobiça os bens do próximo.
b) A paixão sexual, que cobiça a esposa do próximo.

Saliente-se, ainda, que essa mesma divisão observada por Santo Agostinho já tinha sido proposta no séc. II por Teófilo de Antioquia e Clemente de Alexandria, como comprovam os escritos patrísticos.

A Igreja cristã também adotou esse meio de divisão porque, entre as três divisões existentes, é a que se apresenta mais lógica, racional e plausível. Recorde-se, mais uma vez, que nenhuma das três divisões é de revelação ou autoridade divina, bastando-se por razões suficientes mas não decisivas.

A esse propósito, dom Estevão Bettencourt (osb), justamente reconhecido como um dos maiores teólogos vivos, observa: “Fazendo isto,” – ou seja, adotando a divisão de Santo Agostinho – “teria a Igreja alterado a Escritura Sagrada? Deveremos responder que a Igreja ‘alterou’ tanto quanto os protestantes a ‘alteram’ quando inculcam a sua divisão. De modo especial note-se: a divisão de Lutero e Calvino não é ensinada tal qual pela S. Escritura nem é a dos rabinos antigos nem a dos judeus atuais (doutro lado, tenha-se em vista a grande autoridade que Lutero e os reformadores atribuíam a S. Agostinho)” [Diálogo Ecumênico, ed. Lumen Christi, p.243-244].

O mesmo autor ainda observa, sabiamente: “Ademais é de frisar que a divisão dos mandamentos do Decálogo não tem que ver com a confecção das imagens, pois os cristãos orientais, desde os primeiros séculos, adotaram a primeira divisão (aquela que Lutero e Calvino também adotaram) e, não obstante, dedicam profunda veneração aos Santos representados por suas imagens (ou ícones). Donde se vê que os cristãos orientais entenderam bem” – eu pessoalmente diria: compreenderam muito bem – “que a proibição de confeccionar imagens no Antigo Testamento tinha caráter provisório, visando apenas a evitar que o povo de Israel, cercado de nações idólatras, adotasse os cultos pagãos dos seus vizinhos” [idem, p.244]. Além disso, com relação às imagens, é bom que se relembre que o próprio povo eleito de Deus (os hebreus) fizeram muitas e – sem qualquer sombra de dúvidas – com a aprovação do próprio Deus, como podemos deduzir por diversas passagens bíblicas, tais como: Ex 25,17-22 (os 2 querubins da Arca da Aliança; note-se que esta passagem já está além dos 10 Mandamentos, uma vez que se encontra no cap. 25!!!), 1Rs 6,29-30, Nm 21,4-9, 1Rs 7,28-29

Seja como for, o mais importante de tudo é observar os Seus Mandamentos. É lógico, contudo, se você se converter ao Budismo, ao Hinduísmo, etc. estará infringindo o 1º mandamento (no seu caso, o 2º mandamento), porque irá adorar um ídolo e não o verdadeiro Deus revelado pela Bíblia!

Despeço-me, pedindo ao Verdadeiro Deus que o ilumine nessas questões e agradecendo-O e adorando-O por ter me dado a mesma luz, através do Seu Espírito Santo! Que a paz do Senhor esteja contigo!

PS – Com relação às imagens, é bom acrescentar que, graças aos diálogos ecumênicos, alguns protestantes já não as enxergam como idolatria (que alguns outros protestantes – principalmente pentecostais e fundamentalistas, querem porque querem – sem razão fundamentada – fazer crer que existe). A esse respeito, sugiro a leitura do livro “História da Igreja”, vol. 3, de Martin N. Dreher, ed. Sinodal, em especial as págs. 53 a 57, já que se trata de uma editora protestante e um autor protestante que defendem o uso de imagens nas igrejas de Deus.

Alguns dias depois, recebi a seguinte réplica (em azul), à qual trepliquei do seguinte modo (em preto):

Não querendo exceder no comentário, a questão não é se há ou não há diferença na doutrina católica quanto ao texto de Exodo 20, mas que, o “Catecismo”, não reproduz fielmente o texto bíblico, mesmo as editadas por sociedades bíblicas católicas. Essa é a questão. Com qual interesse o fizeram?

Não irei citar as Escrituras, em outros textos, que refutam a confecção de imagens, penso que as conhece todas. O problema não é o que está na Bíblia, mas no que o dogma católico (tradição) , faz numa ruptura clara com os fundamentos da fé cristã.

Perdoe-me, nada pessoal, mas que o Espírito da Verdade o revele.

É com grata satisfação que volto a conversar com o senhor. Louvado seja eternamente Deus por isso!

Fico muito contente em perceber que graças ao e-mail anterior ficou comprovado que a Igreja Católica não pode – jamais – ser acusada de ter “adulterado” a Palavra de Deus, em especial quanto aos Dez Mandamentos. Tanto é verdade que, agora, o senhor me retorna citando, única e exclusivamente, o Catecismo católico, afirmando “que o dogma católico (tradição), faz numa ruptura clara com os fundamentos da fé cristã”.

Sinceramente, gostaria de saber o que significa “ruptura clara”; muito pelo contrário, a história, principalmente a literatura patrística (escritos dos primeiros cristãos, considerados do séc. I ao séc VII) demonstram que a fé católica não tem se desviado um milímetro sequer; prova disso são os cristãos ortodoxos e coptas do Egito que, apesar de não reconhecerem a primazia do bispo de Roma – por motivos políticos, como também prova a História – possuem exatamente as mesmas crenças, baseadas nos mesmos preceitos bíblicos e da Sagrada Tradição.

Porém, creio que a sua afirmação se firme no fato de como a Igreja católica tradicionalmente formulou os Dez Mandamentos com o intuito de facilitar a transmissão oral já que, ao contrário dos dias de hoje quando podemos comprar livros por um preço irrisório – uma vez que o papel deixou de ser caro – a aquisição de livros na Idade Antiga e Média era muito rara, em virtude de seu preço excessivamente alto. Assim, os Dez Mandamentos ficaram:

  • Amar a Deus sobre todas as coisas.
  • Não tomar seu santo Nome em vão.
  • Guardar domingos e festas de guarda.
  • Honrar pai e mãe.
  • Não matar.
  • Não pecar contra a castidade.
  • Não furtar.
  • Não levantar falso testemunho.
  • Não desejar a mulher do próximo.
  • Não cobiçar as coisas alheias.

Tal fórmula, em ponto algum contradiz o que está escrito em Ex 20,2-17 e Dt 5,6-21, mas, muito pelo contrário, preserva, de forma popular, o Decálogo bíblico: quem ama a Deus sobre todas as coisas não possui, nem adora outros deuses; quem não comete adultério, não peca contra a castidade. E, a menos que você seja Adventista do 7º Dia, a única “alteração” que poderia ser teologicamente discutida seria a mudança do dia de guarda do sábado para o domingo; mesmo assim, seria absurdo cair em tal discussão já que a própria Bíblia, no Novo Testamento, responde com suficiente autoridade sobre tal assunto.

Além do mais, condenar a Igreja por fazer um catecismo popular, que indubitavelmente favoreceu os analfabetos e pobres, seria o mesmo que condenar o próprio Jesus, que estabeleceu a Igreja e que também fez um catecismo bem popular ao afirmar: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o primeiro e grande mandamento. O segundo, semelhante a este, é: amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos depende toda a lei e os profetas” (Mt 22,37-40). Poderíamos condenar Jesus por ter resumido os 10 Mandamentos em apenas 2?

Ora, como podemos notar, os 3 primeiros mandamentos (no seu caso, os 4 primeiros) realmente dizem respeito a Deus e os 7 últimos (no seu caso, os 6 últimos) realmente se referem ao relacionamento com o próximo. Jesus estava corretíssimo e não foi condenado pelos fariseus, em especial por aquele que lhe dirigiu a pergunta, que segundo o v.35, era “doutor da lei”, como expressa a Bíblia na “Linguagem de Hoje”, da Sociedade Bíblica do Brasil, editora protestante.

Da mesma forma, não se pode condenar a versão popular da Igreja porque, em essência, isto é, doutrinariamente, não comporta qualquer alteração com relação à Bíblia.

Outra coisa: não é verdade que o “Catecismo da Igreja Católica” não reproduz fielmente o texto bíblico! Se o senhor comprar o referido livro em qualquer livraria católica poderá comprovar que, nas págs. 470 e 471, os três textos são alinhados sinoticamente. E mais: da pág. 472 até a pág. 569 cada um dos Dez Mandamentos é exaustivamente explicado, com todas as variações que o texto teologicamente comporta, inclusive apresentando, no início de cada capítulo, novamente o texto bíblico. Sugiro, assim, que o senhor compre o referido livro para comprovar, com os próprios olhos que, mais do que qualquer outra igreja, a Igreja Católica é a que melhor cumpre a Palavra de Deus (favor não confundir a Igreja Católica com a atitude de alguns “católicos” que acham que a única coisa que devem fazer para serem católicos é ir em missa de Natal e Páscoa. O verdadeiro católico não é aquele que se auto-titula católico, mas aquele que segue fielmente a Palavra de Deus).

É por isso que os verdadeiros católicos não abandonam a sua Igreja; já fui protestante e ainda tenho vários parentes protestantes: eles mesmo reconhecem que a “debandada” de “católicos” para as igrejas evangélicas tem mais prejudicado essas igrejas – onde já está se tornando fato comum o uso de cigarros e bebidas, sexo antes do casamento, aborto, homossexualismo, desrespeito disciplinar, etc. – do que melhorado [espiritualmente]; em outras palavras, estão ficando mais frios ao contrário do fervor inicial.

Se o senhor acessar sites americanos poderá comprovar que a Igreja Católica, ao contrário do que acontece no Brasil, tem crescido muito naquele país, registrando importantes conversões, como por exemplo, o caso de James Akin que acabou se transformando em um dos maiores apologistas católicos da atualidade. Isto é bom: a Igreja Católica tem crescido na qualidade e não tanto na quantidade; são pessoas que buscaram conhecer os dois lados de uma moeda e se converteram conscientemente… “Pedi e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei e abrir-se-vos-á” (Lc 11,9). “Conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará” (Jo 8,32).

Ainda recentemente (julho/98) a Igreja Católica e a Igreja Luterana reconheceram conjuntamente que não existem diferenças em suas doutrinas quanto à justificação pela fé: a declaração conjunta foi assinada por 92% das Igreja Luteranas mundiais, o que bem indica que um dos maiores cavalos de batalha da Reforma Protestante do séc. XVI nada mais foi do que um grande mal-entendido! Que Deus seja louvado por mais esta reaproximação entre irmãos (obs.: a Igreja Católica não precisou alterar nada em sua doutrina para que essa declaração conjunta fosse assinada; tudo isso é fruto do diálogo ecumênico, onde os irmãos se reaproximam e discutem suas diferenças fraternalmente. Deus seja glorificado!).

Com relação às imagens, realmente conheço todas as passagens que condenam sua fabricação, bem como aquelas que as aprovam; a conclusão que a Bíblia nos permite tirar não é condenar a imagem em si mas a adoração destas como objetos de respeito que são. A Igreja Católica jamais em sua História ensinou que se deve adorar imagens (os luteranos já sabem disso e os ortodoxos e coptas mais ainda!), mas tributa-lhes reverência respeitosa (veneração) pelo significado que encerram! Prova bíblica incontestável disso está no momento em que o próprio Deus ordena que se fabrique uma serpente de bronze para curar todos aqueles que para ela olhassem e tivessem sido picados pelas serpentes no deserto. Foi uma ordem divina! E quando é que a mesma foi destruída? Quando o seu símbolismo foi desvirtuado, passando de objeto de respeito (veneração) para objeto de adoração (idolatria).

Isto está lá… na Bíblia, inclusive nas publicadas pelas editoras protestantes: compare Nm 21,8-9 (que justifica sua fabricação como ordem divina) com 2Rs 18,4 (que explica o motivo pelo qual foi destruída: ela havia virado um ídolo, substituindo o verdadeiro Deus; à ela prestavam culto de adoração – com queima de incenso – e já tinham lhe dado até um nome!).

Desta forma, ao mesmo tempo que invoco a bênção de Deus para o senhor, para a sua família e toda a comunidade, termino este e-mail com as mesmas palavras que o senhor usou para encerrar o seu: “Perdoe-me, nada pessoal, mas que o Espírito da Verdade o revele”. Um grande abraço.

Facebook Comments

Livros recomendados

A Hora das HidroviasAs crônicas de NárniaCanções e Elegias