Espiritismo

A Igreja e a mediunidade

Com o título “A Igreja e a Mediunidade” , circulou pela Internet um texto em que o Vaticano, finalmente, aceitaria a prática mediúnica, conforme apresentada pelos espíritas. No caso, seria lícito ao católico evocar os mortos, a fim de se comunicar com os mesmos, e deles receber instruções.

Qualquer católico com um mínimo de formação perceberia o absurdo desta proposição. No entanto, considerando o ambiente de sincretismo religioso que marca o Brasil, e mesmo o descuido de alguns católicos no que diz respeito as verdades da fé cristã, necessário se faz uma advertência contra o referido texto.

Por sinal, eis como aquele se inicia:

“Infelizmente ainda não temos em mãos as publicações originais onde esta matéria foi publicada. Inicialmente publicada no “Osservatore Romano”, orgão oficial do Vaticano…”

Até hoje não se sabe qual seria esta edição do “L´Osservatore” que possuiria tão bombásticas afirmações da Igreja aceitando a mediunidade, prática tida na Bíblia por abominável. Sem este mínimo de referência, fica-se difícil comparar a “versão original” (se é que existe!) com o que foi divulgado pelos espíritas.

Além disso, vale lembra que o “L´Osservatore Romano” é apenas um jornal do Vaticano, que possui várias edições, de acordo com o dia, o idioma, o país de destino… e não o “órgão oficial” para tratar de assuntos ligados à fé. Para tanto, existe a Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, atualmente presidida pelo Cardeal Ratzinger que não emitiu nenhuma declaração a favor das práticas espíritas.

Outrossim, toda decisão doutrinária da Santa Sé é registrada na coleção “Acta Apostolicae Sedis” .

Interessante ainda notar que, segundo o texto espírita, a reportagem teria sido “divulgada em toda a Europa, que nos revela a Igreja em sua nova visão perante a comunicabilidade com os “mortos”.”

No entanto, mais uma vez, não se traz a referência de um jornal sequer (nome, data…) ! É mesmo de se duvidar da existência destes “originais” ou, no mínimo, acreditar na ignorância ou má fé de quem elaborou a “versão espírita” dos supostos originais.

Ainda que superados todos estes obstáculos, o dito texto cita apenas um teólogo (Padre Gino Concetti) que não pode se considerado a “voz oficial” da Igreja.

Em meio a tão vagas referências, pior ainda são as citações que dizem respeito ao Catecismo da Igreja Católica. Ora, esta profissão de fé não aceita a evocação dos mortos, como sugerido. No entanto, o autor se utiliza de passagens referentes a doutrina da Comunhão dos Santos para tentar justificar suas posições. Para desfazer tais “equívocos”, nada mais simples ao fiel católico que abrir o seu Catecismo (parágrafos 946 a 962).

Ou como dito na Revista “Pergunte & Responderemos” de julho de 1998:

“A Igreja aceita a invocação dos santos (orações humildes dirigidas aos justos do céu para que intercedam por nós), mas não aceita evoca-ção dos mortos (prática ritual que julga obter respostas e mensagens dos mortos).”

Cabe ainda lembrar que esta prática herege de tentar confundir os católicos não é de hoje. Pelo contrário, é até corriqueira.

Vejamos mais um exemplo, retirado do excelente livro “Espiritismo – Orientação para os católicos”, de autoria de Frei Boaventura Kloppenburg, O.F.M. (Ed. Loyola, 5ª. Ed., pp. 33-34):

“Sendo o Brasil um país tradicionalmente católico ou cristão, os espíritas, de acordo com o citado princípio de AK, se apresentam como “cristãos” e difundem principalmente O evangelho segundo o espiritismo. Começam por dizer que o espiritismo é apenas ciência e filosofia, não cogitando de questões dogmáticas; que eles não combatem crença alguma; que o católico, para ser espírita, não precisa deixar de ser católico; que todas as religiões são boas, contanto que se faça o bem e se pratique a caridade, etc. e por isso vão dando nomes de santos nossos aos centros espíritas. O Conselho Federativo resolveu prescrever a seguinte norma geral: “As sociedades adesas (à Federação Espírita Brasileira), mediante entendimento com a Federação, quando esta julgar oportuno e as convidar para isso, cuidarão de modificar suas denominações no sentido de suprimir delas o qualificativo de ‘santo’ e de substituir por outras, tiradas dos princípios e preceitos espíritas, dos lugares onde tenham sua sede, das datas de relevo nos anais do espiritismo e dos nomes dos seus grandes pioneiros.” Assim, por exemplo, começa algum centro espírita por chamar-se “Centro são Francisco de Assis”; depois, quando a Federação julgar oportuno, suprimirá o qualificativo “santo”; e afinal, quando seus adeptos já estiverem suficientemente distanciados da Igreja, será “Centro Allan Kardec”?”

Os destaques em negrito são nossos, e bem resumem tal prática que, afinal, nada mais constitui que a aplicação astuciosa do que foi ensinado pelo próprio Allan Kardec:

“Cumpre nos façamos compreensíveis. Se alguém tem uma convicção bem firmada sobre uma doutrina, ainda que falsa, necessário é que lhe tiremos essa convicção, mas pouco a pouco. Por isso é que muitas vezes nos servimos de seus termos e aparentamos abundar nas suas idéias: é para que não fique de súbito ofuscado e não deixe de se instruir conosco.” (O livro dos méiduns, 20ª. ed. da FEB, p. 336)

Mais um exemplo? A maçonaria tentou aproveitar as edições dos atuais CIC (Catecismo da Igreja Católica) e CDC ( Código de Direito Canônico) para induzir os católicos a aceitarem a maçonaria, como se a Igreja não mais a condenasse. A repercussão foi tremenda, a ponto da Sagrada Congregação da Doutrina para fé precisar emitir declarações reafirmando a condenação da maçonaria.

Ou nos dizeres de William Shakespeare: “Os demônios seriam capazes de citar as escrituras para justificar os seus desígnios”.

Melhor ainda o que diz Jesus Cristo em Mt 7,15:

“Cuidado com os falsos profetas! Eles vêm a vós disfarçados com peles de ovelhas, mas por dentro são lobos vorazes.”

Portanto, cabe ao católico tomar as devidas precauções com estes lobos vestidos em pele de ovelha e, antes de escutá-los, ouvir a própria Igreja.

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