Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso
A IGREJA E AS OUTRAS RELIGIÕES: DIÁLOGO E MISSÃO

INTRODUÇÃO

1. O Concílio Vaticano II assinalou uma nova etapa nas relações da Igreja com os que seguem as outras religiões. Muitos documentos conciliares fazem-lhes referência expressa, e em particular um, a declaração Nostra aetate, é inteiramente dedicado à “relação da Igreja católica com as religiões não-cristãs”.

2. As rápidas transformações no mundo e o aprofundamento do mistério da Igreja “sacramento universal de salvação” (LG 48) favoreceu esta atitude para com as religiões não-cristãs. “Graças à abertura realizada pelo Concílio, a Igreja e todos os cristãos puderam alcançar uma consciência mais completa do mistério de Cristo” (RH 11).

3. Esta nova atitude recebeu o nome de diálogo. Este vocábulo, que é norma e ideal, foi valorizado na Igreja por Paulo VI com a Encíclica “Ecclesiam suam” (6 de agosto de 1964). Desde então tornou-se freqüente no Concílio e na linguagem eclesial. Indica não só o colóquio, mas também o conjunto das relações inter-religiosas, positivas e construtivas, com pessoas e comunidades de outras confissões religiosas, para um mútuo conhecimento e um recíproco enriquecimento.

4. Como sinal institucional desta vontade de colóquio e de encontro com os fiéis das outras tradições religiosas do mundo, o próprio Paulo VI instituiu, no clima do Concílio Vaticano II, no dia do Pentecostes de 1964, o Secretariatus pro non christianis (Secretariado para os Não-Cristãos), distinto da Sagrada Congregação para a Evangelização dos Povos. As suas atribuições vieram assim definidas na Constituição Regimini Ecclesiae: “Buscar o método e os caminhos para o estabelecimento de um diálogo adequado com os não-cristãos. Procura, portanto, que os não-cristãos sejam devidamente conhecidos e justamente estimados pelos cristãos, para que, por sua vez, os mesmos possam também conhecer e estimar a doutrina e a vida cristãs (AAS 59, 1967, p. 919-920).

5. Após 20 anos da publicação da Ecclesiam suam, e da sua fundação, o Secretariado, reunido em Assembléia Plenária, fez um balanço das experiências de diálogo verificadas por toda parte na Igreja, e refletiu sobre as atitudes eclesiais para com os outros crentes e em particular sobre a relação existente entre diálogo e missão.

6. A visão teológica deste documento inspira-se no Concílio Vaticano II e no magistério sucessivo. Permanece porém sempre desejável e necessário um ulterior aprofundamento por parte dos teólogos. Solicitada e enriquecida pela experiência, esta reflexão tem caráter prevalentemente pastoral; pretende favorecer um comportamento evangélico em relação aos outros crentes com os quais os cristãos convivem na cidade, no trabalho e na família.

7. Com este documento deseja-se ajudar a comunidade cristã, e em particular os seus responsáveis, a viver segundo as indicações do Concílio, oferecendo elementos de solução às dificuldades que possam surgir da presença simultânea, na missão, dos deveres de evangelização e de diálogo. Os membros das outras religiões poderão também compreender melhor como a Igreja os vê e como deseja comportar-se com eles.

8. Muitas Igrejas cristãs têm feito experiências semelhantes em relação aos outros crentes. O Conselho Ecumênico das Igrejas é dotado de um organismo para o “Diálogo com os povos de crenças vivas e ideologias”, no âmbito do departamento “Testemunho Fiel”. O Secretariado para os não-cristãos mantém relações estáveis e fraternas de consulta e de colaboração com esse organismo.

MISSÃO

9. Deus é amor (1 Jo 4,8.16). O seu amor salvífico foi revelado e comunicado aos homens em Cristo e está presente e ativo mediante o Espírito Santo. A Igreja deve ser o sinal vivo deste amor de modo a torná-lo norma de vida para todos. Querida por Cristo, a missão da Igreja é uma missão de amor, pois que é nele que encontra a origem, o fim e a modalidade de exercício (cf. AG 2-5, 12; EN 26). Cada aspecto e cada atividade da Igreja devem, portanto, estar impregnados de caridade, exatamente por fidelidade a Cristo, que ordenou a missão e que continua a animá-la e a torná-la possível na história.

10. A Igreja, como sublinhou o Concílio, é povo messiânico, assembléia visível e comunidade espiritual, povo peregrinante, a caminho, com toda a humanidade, com a qual compartilha a experiência. Deve ser fermento e alma da sociedade para renová-la em Cristo e torná-la família de Deus (cf. LG 9; GS 9, 40). “Este povo messiânico tem por lei o novo mandamento, o de amar assim como o próprio Cristo nos amou, e tem por fim o Reino de Deus, começado na terra pelo próprio Deus” (LG 9). “A Igreja peregrina é, pois, por sua natureza, missionária” (AG 2, cf. 6, 35, 36). A dimensão missionária é, para cada cristão, uma expressão normal da sua fé vivida.

11. “A missão da Igreja realiza-se, pois, mediante a atividade pela qual, obedecendo ao mandamento de Cristo e movida pela graça e pela caridade do Espírito Santo, ela se torna atual e plenamente presente a todos os homens e povos…” (AG 5).

Esta tarefa é única, mas realiza-se de diversos modos, de acordo com os condicionamentos em que se exerce a missão. “Esses condicionamentos tanto podem depender da Igreja como dos povos, dos agrupamentos ou até dos indivíduos a quem a missão se dirige… A cada condicionamento e a cada situação devem corresponder ações apropriadas ou meios aptos… O fim próprio desta atividade missionária é a evangelização e a implantação da Igreja nos povos ou grupos em que ainda não está radicada” (AG 6). Outras passagens do mesmo Concílio sublinham que a missão da Igreja é também trabalhar para a extensão do Reino e dos seus valores entre todos os homens (cf. LG 5, 9; 35; GS 39, 40-45, 91, 92; UR e; DH 14; AA 5).

12. Os diversos modos e aspectos da missão foram globalmente delineados pelo Concílio Vaticano II. Ata e documentos do magistério eclesiástico sucessivo, como o Sínodo dos Bispos sobre a justiça social (1971), o Sínodo dedicado à evangelização (1974) e à catequese (1977), numerosas intervenções de Paulo VI e de João Paulo II e das Conferências Episcopais da Ásia, da África e da América Latina, desenvolveram outros aspectos do ensinamento conciliar, apontando, por exemplo, “como elemento essencial da missão da Igreja, indissoluvelmente unido a ela” (RH 15) o compromisso em favor do homem, da justiça social, da liberdade e dos direitos humanos e a reforma das estruturas sociais injustas.

13. A missão apresenta-se, na consciência da Igreja, como uma realidade unitária, mas complexa e articulada. Podem ser indicados os seus elementos principais. A missão é constituída já pela simples presença e pelo testemunho vivo da vida cristã (cf. EN 21), mesmo se se deve reconhecer que “levamos este tesouro em vasos de argila” (2Cor 4,7), e por isso a diferença entre o modo como o cristão aparece, existencialmente, e aquilo que afirma ser, nunca desaparece. Há, depois, o empenho concreto ao serviço dos homens e toda a atividade de promoção social e de luta contra a pobreza e as estruturas que a provocam.

Há a vida litúrgica, a oração e a contemplação, testemunhas eloqüentes de uma relação viva e libertadora com o Deus vivo e verdadeiro que nos chama ao seu Reino e à sua glória (cf. At 2,42).

Há o diálogo, no qual os cristãos encontram os que seguem outras tradições religiosas para caminhar em conjunto em direção à verdade e colaborar em ações de interesse comum. Há o anúncio e a catequese, quando se proclama a boa notícia do Evangelho e se aprofundam as suas conseqüências para a vida e para a cultura. Tudo isto faz parte do conceito amplo de missão.

14. Cada Igreja particular é responsável por toda a missão. Também cada cristão, em virtude da fé e do batismo, é chamado a exercê-la, toda, em alguma medida. As exigências das situações, a posição concreta no Povo de Deus e o carisma pessoal habilitam o cristão a exercer prevalentemente um ou outro aspecto da missão.

15. A vida de Jesus contém todos os elementos da missão. Segundo os Evangelhos, ele manifesta-se com o silêncio, com a ação, com a oração, com o diálogo e com o anúncio. A sua mensagem é inseparável da ação; anuncia Deus e o seu Reino, não só com as palavras, mas também com os fatos, e com as ações que realiza. Aceita a contradição, o insucesso e a morte; a sua vitória passa pelo dom da vida. Tudo nele é meio e caminho de revelação e de salvação (cf. EN 6-12); tudo é expressão do seu amor (cf. Jo 3,16; 13,1; 1Jo 4,7-19). Assim devem fazer também os cristãos: “Por isto reconhecerão todos que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (Jo 13,35).

16. Também o Novo Testamento dá uma imagem complexa e diferenciada da missão. Há uma pluralidade de serviços e de funções, originada por uma variedade de carismas (cf. l Cor 12,28-30; Ef 4,11-12; Rm 12,6-8). O próprio São Paulo nota a particularidade da sua vocação missionária quando declara “não ter sido enviado por Cristo a batizar, mas a anunciar o Evangelho” (1Cor 1,17). Por esta razão, ao lado dos “apóstolos”, dos “profetas”, dos “evangelistas”, encontramos os que são chamados para as ações comunitárias e para a ajuda aos que sofrem; há as tarefas das famílias, dos maridos, das mulheres e dos filhos; há os deveres dos patrões e dos empregados. Cada um tem uma tarefa de testemunho particular na sociedade. A primeira Carta de Pedro dá aos cristãos que vivem em situação de diáspora indicações que não deixam de surpreender pela sua atualidade. João Paulo II indicava uma passagem dessa Carta como “a regra de ouro” nas relações dos cristãos com os seus concidadãos de fé diversa: “Venerai Cristo Senhor em vossos corações, prontos sempre a responder a quem quer que seja sobre a razão da esperança que há em vós. Mas que seja com brandura e respeito, conservando uma boa consciência” (1Pd 3,15-16) (Ankara, 29-11-1979).

17. Entre os múltiplos exemplos, na história da missão cristã, são significativas as normas dadas por São Francisco, na Regra não submetida à aprovação (1221), aos irmãos que, “por divina inspiração quiserem ir para o meio dos sarracenos…: Podem organizar as relações espirituais, no meio deles, de dois modos. Um modo é que não façam litígios ou disputas, mas sejam sujeitos a cada criatura humana por amor de Deus e confessem ser cristãos. O outro modo é que, quando virem que agrada ao Senhor, anunciem a palavra de Deus”.

O nosso século viu surgir e afirmar-se, sobretudo no mundo islâmico, a experiência de Carlos de Foucauld, que exerceu a missão numa atitude humilde e silenciosa de união com Deus, de comunhão com os pobres e de fraternidade universal.

18. A missão dirige-se sempre ao homem no respeito pleno da sua liberdade. Por isso o Concílio Vaticano II, afirmando a necessidade e a urgência de anunciar Cristo, “a luz da vida, com desassombro e fortaleza apostólica, até à efusão de sangue” se necessário (DH 14), confirmou a exigência de promover e respeitar em cada interlocutor uma verdadeira liberdade, isenta de coação de qualquer espécie, sobretudo no âmbito religioso. “De fato, a verdade deve ser buscada pelo modo que convém à dignidade da pessoa humana e da sua natureza social, isto é, por meio de uma busca livre, com a ajuda do magistério ou ensino, da comunicação e do diálogo, com os quais os homens dão a conhecer uns aos outros a verdade que encontraram ou julgam ter encontrado, a fim de se ajudarem mutuamente na inquirição da verdade; uma vez conhecida esta, deve-se aderir a ela com um firme assentimento pessoal” (DH 3). Por conseqüência, “na difusão da fé religiosa e na introdução de novas práticas, deve sempre evitar-se todo o modo de agir que tenha aspectos de coação, persuasão desonesta ou simplesmente menos leal, sobretudo quando se trata de gente rude ou sem recursos. Tal modo de agir deve ser considerado como um abuso do próprio direito e lesão do direito alheio” (DH 4).

19. O respeito a cada pessoa deve caracterizar a atividade missionária no mundo atual (cf. ES 77; AAS 1964, p. 642-643; EN 79-80; RH 12). “O homem é o primeiro caminho que a Igreja deve percorrer no cumprimento da sua missão” (RH 14).

Estes valores que a Igreja continua a aprender de Cristo, seu mestre, devem levar o cristão a amar e respeitar tudo o que há de bom na cultura e no compromisso religioso do outro. “Trata-se de respeito por tudo o que realizou, em cada homem, o Espírito que sopra onde quer” (RH 12; cf. EN 79). A missão cristã não pode dissociar-se nunca do amor e do respeito pelos outros, e isto põe em evidência para nós, cristãos, o lugar do diálogo na missão.

O DIÁLOGO

Princípios fundamentais

20. O diálogo não brota de oportunismos táticos do momento, mas sim de razões que a experiência, a reflexão, bem como as próprias dificuldades, foram aprofundando.

21. A Igreja abre-se ao diálogo por fidelidade ao homem. Em cada homem e em cada grupo humano há a aspiração e a exigência de ser considerado e de poder agir como sujeito responsável, quer quando se adverte a necessidade de receber, quer, sobretudo, quando se é consciente de possuir qualquer coisa para comunicar.

Como sublinham as ciências humanas, no diálogo interpessoal o homem experimenta os próprios limites, mas também a possibilidade de superá-los; descobre que não possui a verdade de modo perfeito e total, mas que pode caminhar com confiança ao seu encontro, juntamente com os outros. O acerto mútuo, a correção recíproca, a permuta fraterna dos respectivos dons favorecem uma maturidade cada vez maior, que gera a comunhão interpessoal. As próprias experiências e divisões religiosas podem ser purificadas e enriquecidas neste processo de confronto.

Esta dinâmica de relações humanas impele-nos a nós, cristãos, a escutar e compreender o que os outros crentes possam transmitir-nos, para tirar proveito dos dons que Deus concede.

As transformações sócio-culturais, com as tensões e dificuldades inerentes, a maior interdependência em todos os setores da convivência e da promoção humana, e em particular as exigências em favor da paz, tornam hoje mais urgente um estilo dialogal das relações.

22. A Igreja, todavia, sente-se empenhada no diálogo sobretudo por causa da sua fé: A revelação faz-nos entrever no mistério trinitário uma vida de comunhão e de intercâmbio.

Em Deus Pai nós contemplamos um amor preveniente, sem limites de espaço nem de tempo. O universo e a história estão repletos dos seus dons. Todas as realidades e todos os acontecimentos estão envolvidos pelo seu amor. Apesar da manifestação, por vezes violenta, do mal, nas vicissitudes de cada homem e de cada povo está presente a força da graça que eleva e redime.

A Igreja tem o dever de descobrir, trazer à luz, fazer amadurecer a riqueza que o Pai escondeu na criação e na história, não só para celebrar a glória de Deus na sua liturgia, mas também para promover a circulação, entre todos os homens, dos dons do Pai.

23. Em Deus Filho é-nos dada a Palavra e a Sabedoria, onde tudo preexiste e subsiste desde todo o sempre. Cristo é o Verbo que ilumina todo homem, porque nele se manifesta ao mesmo tempo o mistério de Deus e o mistério do homem (cf. RH 8, 10, 11, 13).

Ele é o Redentor presente com a graça em cada encontro humano, para libertar-nos do nosso egoísmo e fazer-nos amar uns aos outros como ele nos amou.

“Cada homem, sem exceção alguma — escreve João Paulo II — foi redimido por Cristo, e com o homem, com todo e qualquer homem, sem nenhuma exceção, Cristo está de algum modo unido, mesmo quando esse homem não é disso consciente. Cristo, morto e ressuscitado por todos, dá sempre ao homem — a cada homem e a todos os homens — luz e força para responder à sua suprema vocação” (RH 14).

24. Em Deus Espírito Santo, a fé faz-nos entrever aquela força de vida, de movimento e de regeneração perene (cf. LG 4) que age na profundidade da consciência, e acompanha o caminho secreto dos corações em direção à Verdade (cf. GS 22). Espírito que atua mesmo “para além dos confins visíveis do Corpo Místico…” RH 6; cf. LG 16; GS 22; AG 15); Espírito que antecipa e acompanha o caminho da Igreja, a qual, em conseqüência, se sente comprometida em discernir os sinais da sua presença, a segui-lo aonde quer que ele a conduza, e a servi-lo como colaboradora humilde e discreta.

25. O Reino de Deus é a meta final de todos os homens. A Igreja, que é dele “o germe e o início” (LG 5, 9), é solicitada a empreender, em primeiro lugar, este caminho para o Reino, e a fazer avançar todo o resto da humanidade em direção a ele.

Este compromisso inclui a luta e a vitória sobre o mal e sobre o pecado, começando sempre por si mesma e abraçando o mistério da cruz. A Igreja prepara assim o Reino até à consecução da comunhão perfeita de todos os irmãos em Deus.

Cristo constitui para a Igreja e para o mundo a garantia de que os últimos tempos já começaram, de que a época final da história está já fixada (cf. LG 48) e que por isso a Igreja está habilitada e comprometida a atuar para que se concretize o progressivo cumprimento de todas as coisas em Cristo.

26. Esta perspectiva levou os Padres do Concílio Vaticano II a afirmar que nas tradições religiosas não-cristãs existem “coisas boas e verdadeiras” (OT 16), “preciosos elementos religiosos e humanos” (GS 92), “germes de contemplação” (AG 18), “elementos de verdade e de graça” (AG 9), “sementes do Verbo” (AG 11, 15), “raios da verdade que ilumina a todos os homens” (NA 2). Segundo explícitas indicações conciliares, estes valores encontram-se condensados nas grandes tradições religiosas da humanidade. Elas merecem, portanto, a atenção e a estima dos cristãos, e o seu patrimônio espiritual é um eficaz convite ao diálogo (cf. NA 2.3; AG 11), não só sobre os elementos convergentes, mas também sobre os divergentes.

27. O Vaticano II pôde, assim, deduzir conseqüências do empenho concreto, exprimindo-se nos seguintes termos:

“Para poderem dar frutuosamente o testemunho de Cristo (os cristãos) relacionem-se com os homens do seu tempo com estima e caridade, considerem-se a si mesmos como membros dos agrupamentos humanos em que vivem, e participem na vida cultural e social através dos vários intercâmbios e problemas da vida humana; familiarizem-se com as suas tradições nacionais e religiosas; façam assomar à luz, com alegria e respeito, as sementes do Verbo neles adormecidas… Como o próprio Cristo… assim os seus discípulos… tomem conhecimento dos homens no meio dos quais vivem e conversem com eles, para que, através de um diálogo sincero e paciente, eles aprendam as riquezas que Deus liberalmente outorgou aos povos; mas esforcem-se também por iluminar estas riquezas com a luz evangélica, por libertá-las e restituí-las ao domínio de Deus Salvador” (AG 11; cf. 41; AA 14, 29 etc.).

FORMAS DE DIÁLOGO

28. A experiência destes anos pôs em evidência a multiplicidade dos modos em que se exerce o diálogo. As principais formas típicas aqui elencadas são vividas, ou de modo separado, ou então conjuntamente, umas com as outras.

29. O diálogo é, acima de tudo, um estilo de ação, uma atitude e um espírito que guia o comportamento. Implica atenção, respeito e acolhimento para com outro, a quem se reconhece espaço para a sua identidade pessoal, para as suas expressões, os seus valores. Tal diálogo é a norma e o estilo necessários de toda a missão cristã e de cada uma das suas partes, quer se trate das simples presença e testemunho, ou do serviço, ou do próprio anúncio direto (CJC 787, parágrafo 1). Uma missão que não fosse permeada pelo espírito dialogal estaria contra as exigências da verdadeira humanidade e contra as indicações do Evangelho.

30. Cada discípulo de Cristo, por força da sua vocação humana e cristã, é chamado a viver o diálogo na sua vida cotidiana, quer se encontre em situação de maioria, quer em situação de minoria. Deve infundir o sabor evangélico em cada ambiente em que vive e atua: o ambiente familiar, social, educativo, artístico, econômico, político etc. O diálogo insere-se, assim, no grande dinamismo da missão eclesial.

31. Um nível ulterior é o diálogo das ações e da colaboração com objetivos de caráter humanitário, social, econômico e político que se orientem para a libertação e a promoção do homem. O que acontece freqüentemente nas organizações locais, nacionais e internacionais, onde cristãos e crentes de outras religiões enfrentam em conjunto os problemas do mundo.

32. Pode ser vastíssimo o campo da colaboração. Referindo-se em particular aos muçulmanos, o Concílio Vaticano II exorta a “esquecer o passado” e a “defender e promover em conjunto a justiça social, os bens morais, a paz e a liberdade para todos os homens” (NA 3; cf. AG 11, 15, 21…). No mesmo sentido se pronunciaram Paulo VI, especialmente na Ecclesiam suam (AAS 56, 1964, p. 655), e João Paulo II nos numerosos encontros com chefes e representantes das diversas religiões. Os grandes problemas que atormentam a humanidade chamam os cristãos a colaborar com os outros crentes, exatamente em razão da fé de cada um.

33. De particular interesse é o diálogo a nível de especialistas, seja para confrontar, aprofundar e enriquecer os respectivos patrimônios religiosos, seja para aplicar os recursos, aí contidos, aos problemas que se põem à humanidade no decurso da sua história.

Esse diálogo acontece normalmente nos casos em que o interlocutor possui já uma sua visão do mundo e adere a uma religião que o inspira para a ação. Realiza-se mais facilmente nas sociedades pluralistas, onde coexistem e por vezes se defrontam diversas tradições e ideologias diferentes.

34. Neste confronto, os interlocutores conhecem e apreciam reciprocamente os valores espirituais e as categorias culturais, promovendo a comunhão e a fraternidade entre os homens (cf. NA 1). O cristão colabora, assim, na transformação evangélica da cultura (cf. EN 18-20, 63).

35. A nível mais profundo, homens radicados nas próprias tradições religiosas podem compartilhar as suas experiências de oração, de contemplação, de fé e de compromisso, expressões e caminhos da busca do Absoluto. Este tipo de diálogo torna-se enriquecimento recíproco e cooperação fecunda, na promoção e preservação dos valores e dos ideais espirituais mais altos do homem. Isso leva naturalmente à comunicação recíproca das razões da própria fé e não se detém diante das diferenças, às vezes profundas, mas confia-se, com humildade e confiança, a Deus, “que é maior do que o nosso coração” (1Jo 3,20). O cristão tem, assim, a ocasião de oferecer ao outro a possibilidade de experimentar, de maneira existencial, os valores do Evangelho.

DIÁLOGO E MISSÃO

36. São múltiplas as relações entre diálogo e missão. Detenhamo-nos em alguns aspectos que no momento atual têm maior relevância, pelos desafios e pelos problemas postos ou pelas atitudes requeridas.

MISSÃO E CONVERSÃO

37. Para o Concílio Vaticano II, o anúncio missionário tem por fim a conversão: “Só assim os não-cristãos, a quem o Espírito Santo abrirá o coração, acreditarão, converter-se-ão livremente ao Senhor e aderirão sinceramente a ele…” (AG 13; CJC 787, parágrafo 2). No contexto do diálogo entre crentes de fé diversa, não se pode evitar uma reflexão sobre o caminho espiritual da conversão.

Na linguagem bíblica e cristã, a conversão é o retorno do coração contrito e arrependido a Deus, com o desejo de submeter-lhe mais generosamente a própria vida (cf. AG 13). Todos são chamados permanentemente a esta conversão. Neste processo, pode nascer a decisão de deixar uma situação espiritual ou religiosa anterior para dirigir-se a uma outra. Assim, por exemplo, de um amor particular, o coração pode abrir-se a uma caridade universal.

Todo autêntico apelo de Deus comporta sempre uma superação de si mesmo. Não há vida nova sem porte, como mostra a dinâmica do mistério pascal (cf. GS 22). E “qualquer conversão é obra da graça, na qual o homem se deve reencontrar plenamente a si mesmo” (RH 12).

38. Neste processo de conversão prevalece a lei suprema da consciência, porque “ninguém deve ser forçado a agir contra a sua consciência. E também ninguém deve ser impedido de atuar segundo ela, sobretudo em matéria religiosa” (DH 3).

39. Na perspectiva cristã, o agente principal da conversão não é o homem, mas o Espírito Santo. “É ele que impulsiona a anunciar o Evangelho, e que no íntimo da consciência faz acolher e compreender a palavra da salvação” (EN 75). É ele que guia o movimento dos corações e faz nascer o ato de fé em Jesus, o Senhor (cf. 1Cor 2,4). O cristão é um simples instrumento e colaborador de Deus (cf. 1 Cor 3,9).

40. Também no diálogo, o cristão alimenta normalmente no seu coração o desejo de partilhar a sua experiência de Cristo com o irmão de outra religião (cf. At 26,29; ES 46). É igualmente natural que o outro crente deseje algo semelhante.

O DIÁLOGO PARA A EDIFICAÇÃO DO REINO

41. Deus continua a reconciliar os homens consigo, mediante o Espírito. A Igreja confia na promessa que lhe foi feita por Cristo de que o Espírito a guiará, na história, para a plenitude da verdade (cf. Jo 16,13). Por isso, vai ao encontro dos homens, dos povos e das suas culturas, consciente de que toda comunidade humana tem gérmens de bem e de verdade, e que Deus tem um projeto de amor para todas as nações (cf. At 17,26-27). A Igreja quer, pois, colaborar com todos para a realização deste projeto, valorizando assim todas as riquezas da sabedoria infinita e multiforme de Deus, e contribuindo para a evangelização da cultura (cf. EN 18-20).

42. “Voltamos também o nosso pensamento para todos os que reconhecem Deus e guardam nas suas tradições preciosos elementos religiosos e humanos, desejando que um diálogo franco nos leve a todos a receber com fidelidade os impulsos do Espírito e a segui-lo com entusiasmo.

Por nossa parte, o desejo de tal diálogo, guiado apenas pelo amor à verdade e com a necessária prudência, não exclui ninguém; nem aqueles que cultivam os altos valores do espírito humano, sem ainda conhecerem o seu autor; nem aqueles que se opõem à Igreja, e de várias maneiras a perseguem.

Como Deus Pai é o princípio e o fim de todos eles, todos somos chamados a ser irmãos. Por isso, chamados a esta mesma vocação humana e divina, podemos e devemos cooperar pacificamente, sem violência nem engano, na edificação do mundo na verdadeira paz” (GS 92; cf. Mensagem para o Dia Mundial da Paz, Paulo VI e João Paulo II).

43. O diálogo torna-se, assim, fonte de esperança e fator de comunhão na transformação recíproca. É o Espírito Santo que guia a realização do plano de Deus na história dos indivíduos e de toda a humanidade, até todos os filhos de Deus, dispersos pelo pecado, estarem reunidos na unidade (cf. Jo 11,52).

44. Só Deus conhece os tempos, ele a quem nada é impossível, e cujo misterioso e silencioso Espírito abre, às pessoas e aos povos, os caminhos do diálogo para superar as diferenças raciais, sociais e religiosas, e enriquecer-se reciprocamente. Eis, pois, o tempo da paciência de Deus, no qual atua a Igreja e todas as comunidades cristãs, porque ninguém pode obrigar Deus a agir mais depressa do que ele decidiu fazer.

Mas, perante a nova humanidade do terceiro milênio, possa a Igreja irradiar um cristianismo aberto, para esperar, na paciência, que desponte a semente lançada com lágrimas e com confiança (cf. Tt 5,7-8; Mc 4,26-30).

Solenidade de Pentecostes, 10 de junho de 1984

FRANCIS ARINZE
Pró-Presidente do Secretariado para os Não-Cristãos

P. MARCELLO ZAGO, O.M.I.
Secretário

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