Estava conversando com uma irmã de caridade sobre o purgatório e ela me disse que a Igreja já está mudando o conceito de purgatório, dizendo que o nosso purgatório é aqui na Terra e não depois que morremos. Isto é verdade? Então para que rezarmos pelos mortos? Eu rezo o terço todos os dias e sempre ponho como intenção as almas do purgatório. Gostaria de um esclarecimento. Obrigada. (Anônima)

Caríssima leitora,

Que a graça e a Paz de Nosso Senhor estejam conosco!

Obrigado por seu contato, em seus Terços diários, reze por nosso apostolado também.

Quanto a sua dúvida suscitada por sua irmã de caridade, podemos afirmar que a Igreja não está mudando e nem mudou o “conceito” de purgatório. As vicissitudes humanas sofridas neste mundo, nada tem a ver com o purgatório. É um absurdo, um católico afirmar que a doutrina da Igreja é mutável, sobretudo uma religiosa, que deveria conhecer com maior profundidade a sã doutrina, ensinando-a aos demais. É Lamentável!

“A Igreja do Senhor, nestes dois mil anos, nunca revogou um dos dogmas. O Credo que rezamos hoje em todas as missas dominicais, é o mesmo que foi composto pelos Apóstolos, e que por isso se chama Símbolo dos Apóstolos. Tem dois mil anos! O Espírito Santo não se contradiz; Ele não pode ensinar à Igreja uma verdade de fé no século I e ensinar algo diferente no século XVI. É por isso que a Igreja Católica tem um credo permanente, expressão da verdade.” (AQUINO, Felipe. Por que sou Católico.3ª Ed. Lorena: Cléofas, 2003, p.62). [destaque nosso]

Vejamos segundo o Sagrado Magistério da Igreja o que é o Purgatório:

“Os que morrem na graça e na amizade de Deus, mas não estão completamente purificados, embora tenham garantida sua salvação eterna, passam, após sua morte, por uma purificação, a fim de obter a santidade necessária para entrar na alegria do Céu. A Igreja denomina Purgatório esta purificação final dos eleitos, que é completamente distinta do castigo dos condenados. A Igreja formulou a doutrina da fé relativa ao Purgatório sobretudo no Concílio de Florença e de Trento. Fazendo referência a certos textos da Escritura, a tradição da Igreja fala de um fogo purificador:

No que concerne a certas faltas leves, deve-se crer que existe antes do juízo um fogo purificador, segundo o que afirma aquele que é a Verdade, dizendo, que, se alguém tiver pronunciado uma blasfêmia contra o Espírito Santo, não lhe será perdoada nem presente século nem no século futuro (Mt 12,32). Desta afirmação podemos deduzir que certas faltas podem ser perdoadas no século presente, ao passo que outras, no século futuro(1)” (CIC § 1030-31) [destaque nosso]

Diante do exposto, fica claríssimo que o purgatório é purificação post mortem dos justos, que morreram “na graça e na amizade de Deus, mas não estão completamente purificados, embora tenham garantida sua salvação eterna”.

O sofrimento humano na Terra é conseqüência do pecado original, e só findará com a manifestação final do Cristo, quando toda lágrima será enxugada. (AP 21,1-4)

“Sob suas múltiplas formas – extrema privação material, opressão injusta, enfermidades físicas e psíquicas e, por fim, a morte -, a miséria humana é o sinal manifesto da condição natural da fraqueza em que o homem se encontra após o primeiro pecado e da necessidade de uma salvação. É por isso que ela atrai a compaixão de Cristo Salvador, que quis assumi-la sobre si, identificando-se com os ‘mais pequeninos entre seus irmãos’. É também por isso que todos aqueles que ela atinge são objeto de um amor preferencial por parte da Igreja, que, desde as suas origens, apesar das falhas de muitos de seus membros, não deixou nunca de trabalhar por aliviá-los, defendê-los e libertá-los. Ela o faz por meio de inúmeras obras de beneficência, que continuam a ser, sempre e por toda parte, indispensáveis.” (CIC § 2448)

“A Igreja… só terá sua consumação na glória celeste quando do retomo glorioso de Cristo. Até aquele dia, “a Igreja avança em sua peregrinação por meio das perseguições do mundo e das consolações de Deus”. Aqui na terra, sabe que está em exílio, longe do Senhor e aspira ao advento pleno do Reino, “a hora em que ela será, ‘na glória, reunida a seu Rei”. A consumação da Igreja e, por meio dela, a do mundo, na glória, não acontecerá sem grandes provações. Só então “todos os justos, desde Adão, em seguida Abel, o justo, até o último eleito, serão congregados junto do Pai na Igreja universal” (CIC 769) Espero ter sanado a sua dúvida, e para aprofundamento recomendo a leitura dos seguintes artigos [no site do Veritatis Splendor]:-

– RIBEIRO, Rondinelly. Apostolado Veritatis Splendor: RESPONDENDO ARGUMENTOS CONTRA A DOUTRINA DO PURGATÓRIO. Disponível em https://www.veritatis.com.br/article/2860. Desde 28/06/2004.

– BUSTAMANTE, Luis Fernando Pérez. Apostolado Veritatis Splendor: DEBATE SOBRE A DOUTRINA DO PURGATÓRIO. Disponível em https://www.veritatis.com.br/article/848 . Desde 03/03/2003.

– MOURA, Jaime Francisco de. Apostolado Veritatis Splendor: O PURGATÓRIO E A ORAÇÃO PELOS MORTOS. Disponível em https://www.veritatis.com.br/article/3157 . Desde 29/11/2004.

– JOSÉ MIGUEL ARRÁIZ. Apostolado Veritatis Splendor: O PURGATÓRIO, A IGREJA PRIMITIVA E OS PADRES DA IGREJA. Disponível em https://www.veritatis.com.br/article/5730 . Desde 22/06/2009.

In caritate Christi,
Leandro.

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NOTA:

(1) S. Gregório Magno, Dial. 41,3: SC 265,148 (4,39:PL 77,396)

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