Continuam a circular relatos de como a Igreja Católica se opôs à tradução da Bíblia para a língua vernácula. Contudo, a Igreja jamais o desaprovou!

Quem quer que esteja familiarizado com a História da Igreja Católica constata que durante 2000 anos ela foi a preservadora e protetora da Palavra de Deus; logo, é ridículo apontar o contrário.

Foi apenas pela autoridade da Igreja Católica que os diversos livros que compõem a Escritura foram recolhidos no século IV e é por isso que temos uma Bíblia cristã. E é apenas por causa da Igreja que a Bíblia sobreviveu e foi ensinada por muitos séculos antes da imprensa. Com efeito, todos os cristãos do mundo inteiro têm uma grande dívida para com a Igreja Católica.

Mais: a Vulgata foi originalmente traduzida por São Jerônimo para que a Bíblia estivesse disponível na língua vernácula de então, o latim, que continuou sendo a língua franca do povo alfabetizado da Europa até o final do século XVII e um pouco mais.

Também não foram os reformadores protestantes os primeiros a traduzí-la para as línguas europeias mais modernas. A Igreja Católica aprovou a Bíblia de Gutenberg em alemão em 1455. A primeira edição flamenga surgiu em 1478. Duas versões italianas foram impressas em 1471 e uma catalã foi publicada em 1478. Uma Bíblia polonesa foi traduzida em 1516 e a primeira versão inglesa é de 1525. Muitas destas edições eram da Bíblia completa. Séculos antes tinham surgido [traduções de] livros individuais em língua vernácula; p.ex.: o Evangelho de São João em inglês foi pela primeira vez traduzido para o anglo-saxão no ano 735, por Beda o Venerável.

Então, qual foi o real motivo para a condenação de William Tyndale? Em 1408, o Sínodo de Oxford aprovou uma lei que impedia qualquer tradução não-autorizada da Bíblia para o inglês e proibiu ainda a leitura destas traduções não-autorizadas. Mas considerava legal qualquer tradução autorizada no futuro; e, com certeza, a leitura destas traduções [autorizadas] não só era legal, como recomendada. O que esta lei fez foi evitar que qualquer pessoa em particular publicasse sua própria tradução das Escrituras sem a aprovação da Igreja.

E foi justamente isso o que William Tyndale infringiu. Tyndale era um sacerdote inglês, de pouca fama, que queria desesperadamente fazer a sua própria tradução da Bíblia para o inglês. A Igreja não o autorizou por diversas razões:

  • Em primeiro lugar, não via como real necessidade uma nova tradução da Escritura para o inglês nesse momento. Na verdade, os livreiros estavam tendo dificuldades para vender as edições impressas da Bíblia. Uma lei chegou a ser promulgada obrigando as pessoas a comprá-las.
  • Em segundo lugar, devemos recordar que esta foi uma época de grande contenda e confusão para a Igreja na Europa. A Reforma havia convertido o continente num lugar instável. Até então, a Inglaterra tinha conseguido se manter relativamente incólume – e a Igreja queria que assim continuasse. Imaginava-se que a chegada de uma nova tradução para o inglês apenas acrescentaria confusão e distração onde era exigido atenção.
  • Por fim, se a Igreja decidisse oferecer uma nova tradução da Escritura para o inglês, certamente Tyndale não seria o homem escolhido para fazê-lo: ele era conhecido como um estudioso mediano e tinha ganho reputação de ser um sacerdote de opiniões pouco ortodoxas e de temperamento violento. Era famoso por insultar o clero (do Papa até os freis e monges) e demonstrava verdadeiro desprezo pela autoridade da Igreja. De fato, foi julgado pela primeira vez em 1522 por heresia, isto é, três anos antes da sua tradução do Novo Testamento ter sido impressa. Com efeito, seu próprio Bispo, em Londres, não o apoiava nesta causa.

Ao não encontrar apoio em seu Bispo para a sua tradução, abandonou a Inglaterra e foi para Worms, onde caiu sob a influência de Martinho Lutero. Ali, em 1525, foi produzida uma tradução do Novo Testamento, a qual era uma sementeira de corrupção textual. Ele, propositalmente, traduziu mal passagens inteiras da Sagrada Escritura, com o objetivo de condenar a doutrina católica ortodoxa e apoiar as novas ideias luteranas.

É fato geralmente ignorado pelos historiadores protestantes que existiam muitas versões das Escrituras em inglês antes de Wycliff e Tyndale, todas elas autorizadas e perfeitamente legais (ver o livro “De Onde Obtivemos a Bíblia? Nossa Dívida para com a Igreja Católica”, de Henry Graham, capítulo 11, “Escrituras vernáculas anteriores a Wycliff”): monges católicos tinham traduzido a Bíblia para o inglês séculos antes e seu trabalho foi bem recebido pela Igreja. Beda o Venerável (672-735 d.C.) tinha traduzido o Evangelho para o inglês; e antes dele Caedmon (~670 d.C.) e Aldhelm (+709) tinham trabalhado na tradução do Antigo Testamento para o inglês. O “Lindisfarne Gospel”, em que os quatro Evangelhos tinham sido traduzidos para o inglês, por volta do ano 950 d.C., por um sacerdote católico chamado Aldred, encontra-se hoje no Museu Britânico.

A Bíblia de Tyndale era inaceitável para a Igreja Católica não porque fosse uma tradução para o inglês [vernáculo]. A Igreja não objetou a tradução da Bíblia para o inglês feita por William Tyndale; pelo contrário: objetou as anotações e preconceitos protestantes que a acompanhavam. A tradução de Tyndale era complementada por um Prólogo e notas de rodapé que condenavam a doutrina e os ensinamentos da Igreja. Inclusive, Henrique VIII, rei da Inglaterra, a reprovou em 1531, por ser uma corrupção da Escritura. Nas palavras dos conselheiros do rei:

  • “A corrupta tradução da Escritura feita por William Tyndale deve ser totalmente descartada, rejeitada e deixada longe do alcance do povo”.

O bispo protestante Tunstall, de Londres, declarou que na Bíblia de Tyndale havia mais de 2.000 erros (e isto só no Novo Testamento)! Tyndale traduzia o termo “batismo” como “limpeza”; “escritura” como “escrito”; “Espírito Santo” como “Sopro Sagrado”; “bispo” como “supervisor”; “sacerdote” como “ancião”; “diácono” como “ministro”; “heresia” como “opção”; “martírio” como “testemunho” etc. Em suas notas de rodapé, Tyndale se referia ao ocupante da Sé de São Pedro como “esse grande ídolo, a prostituta da Babilônia, o anticristo de Roma”.

A reação católica não foi “queimar a Bíblia”, mas queimar a bíblia de Tyndale. Esta era uma época, ao que parece, em que produzir sua própria versão da Bíblia causava furor. Os reformadores suprimiram os livros deuterocanônicos; Lutero queria se desfazer ainda das epístolas de João, bem como de Hebreus, Judas e Apocalipse, porque estas não estavam em conformidade com a sua doutrina da justificação. Brigavam entre si para saber quem possuía a melhor versão da Bíblia. Da versão alemã da Bíblia, feita por Lutero, Zwínglio afirmava:

  • “Ó Lutero! Tu corrompeste a Palavra de Deus. És visto como um manifesto corruptor da Sagrada Escritura. Como nos envergonhamos de ti!”

Ao que Lutero respondia educadamente:

  • “Os seguidores de Zwínglio são tolos, burros e impostores”.

Ao mesmo tempo, o francês Louis du Moulin, teólogo reformador, queixava-se de Calvino:

  • “[Ele] violenta a letra do Evangelho, além disso, faz acréscimos ao Texto”.

A Igreja Católica condena esta versão da Bíblia? Obviamente que sim!

Os reformadores protestantes podem ter sido revolucionários, mas sua revolução foi extremista, quase semelhante à dos talibãs. Isto resta demonstrado em sua paixão por destruir: os católicos queimaram algumas Bíblias [corrompidas], mas os protestantes queimavam livros em tamanha escala que transformava o fogo católico numa pequena chama de vela:

  • Na Inglaterra, na maioria das vezes, ao serem suprimidos os monastérios, suas bibliotecas também o foram, de modo que vastas bibliotecas monásticas, integradas por textos religiosos que compreendiam Bíblias católicas antigas, raras e manuscritas, foram entregues às chamas.
  • Em 1544, em regiões da Irlanda controlada pelo Anglicanismo, ao saquearem mosteiros e bibliotecas, os reformadores lançavam ao fogo um imenso número de livros antigos, inclusive as Vulgatas [de São Jerônimo].
  • Num esforço para reduzir os católicos irlandeses à ignorância, o rei Henrique VIII decretou que a posse, na Irlanda, de manuscritos de qualquer teor (inclusive das Sagradas Escrituras) poderia ocasionar pena de morte.
  • Recorde-se ainda que Henrique VIII mandou queimar as Bíblias protestantes de Tyndade, Coverdale e Matthew, juntamente com a Vulgata latina que auxiliava na alimentação das chamas.

(…)

Os anglicanos estão, hoje, entre os muitos que louvam Tyndale como “o pai da Bíblia em inglês”, mas foi o seu próprio fundador, o rei Henrique VIII, que em 1531 declarou:

  • “A corrupta tradução da Escritura feita por William Tyndale deve ser totalmente descartada, rejeitada e deixada longe do alcance do povo”.

Mais problemático ainda: após sua ruptura com Roma, em 1543, Henrique VIII decretou novamente:

  • “Toda espécie de livros do Antigo e do Novo Testamento em inglês, sendo da tradução astuta, corrompida e falsificada de Tyndale (…) será clara e totalmente abolida, extinta e proibida de ser mantida ou empregada neste Reino”.

Em última instância, foram as autoridades seculares que puseram um ponto final em Tyndale: ele foi preso, julgado e condenado à morte na corte do imperador do Sacro Império em 1536. Sua tradução era herética porque possuía ideias heréticas, não porque o ato de tradução fosse herético em si mesmo.

De fato, a Igreja Católica produziria a seguir uma tradução da Bíblia em inglês: em 1582, surgiu o Novo Testamento católico em Reims (…). Esta versão, com suas notas de esclarecimento, despertou na Inglaterra protestantes a mais violenta oposição: a rainha Isabel ordenou a busca, apreensão e destruição de todas as cópias; e se um sacerdote fosse encontrado na posse de uma cópia, era preso.

Porém, a queima de Bíblias não se limitou à Inglaterra. Em 1522, Calvino queimou todas as cópias que encontrou da Bíblia de Miguel Servet; posteriormente, o próprio Servet foi queimado na fogueira [por ordem de Calvino], por ser unitarista.

Quando tratamos da história das traduções bíblicas, é comum que pessoas [fundamentalistas] reconheçam nomes como Tyndale e Wycliff; porém, a História rarissimamente os reconhecem. Atualmente, uma certa edição sexista da Bíblia traz consigo uma maravilhosa oportunidade para os fundamentalistas refletirem e perceberem que a razão de não aprovarem essa “nova tradução” é exatamente a mesma razão pela qual a Igreja Católica não aprovava as traduções de Tyndale e Wycliff: são traduções corrompidas, feitas “segundo a ordem do dia”, não são representações exatas da Sagrada Escritura.

Pelo menos nisto os fundamentalistas e os católicos concordam: não se metam com a Palavra de Deus!

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