Wagner Herbert Alves Costa (+2006)

A Imaculada Conceição de Maria

a) No texto bíblico está escrito:

– “Quando se completaram os dias para a purificação deles” (Lucas 2,22).

Eu pergunto: essa purificação “deles” açambarca quais pessoas?

O artigo ‘Liturgia nas Grandes Religiões’ traz o seguinte comentário:

– “Do mesmo modo, virá depois a cerimônia de purificação no templo de Jerusalém tanto pela mãe como pelo menino, primogênito do sexo masculino oferecido a YHWH com a oferta de um casal de rolas. O próprio Jesus e seus pais observaram escrupulosamente a lei mosaica”[1].

Se for assim, então, não se precisaria mais de qualquer outra explicação para o fato da purificação de Nossa Senhora, que não foi de nenhum pecado; porquanto, se fosse, teríamos que considerar Jesus Cristo, também, como um pecador.

Todavia, ainda que se desprezasse essa explicação que acabei de dar, ou ela não estivesse escorreita, teríamos outras… [Para dizer a verdade, eu nem iria mencionar essa explicação do item “a”. Por isso, passe adiante e leia os próximos itens.]

b) O Papa João Paulo II, comentando a referida passagem da purificação, diz:

– “É preciso, porém, recordar que não se tratava de purificar a consciência de alguma mancha de pecado, mas somente de readquirir a pureza ritual, a qual, segundo as ideias do tempo, era atingida pelo simples fato do parto, sem que houvesse alguma forma de culpa”.

O judaísmo possuía, inclusive, rituais que “tiravam” a ‘impureza ritual’, conforme está escrito:

– “De fato, se o sangue de bode e de novilhos, e se a cinza da novilha, espalhada sobre os seres ritualmente impuros, os santifica purificando” (Hebreus 9,13).

Friso: ‘ritualmente impuros’ e não espiritualmente impuros. A purificação espiritual só o sangue do Divino Cordeiro tem eficácia. Sangue, aliás, derivado do de Maria.

O próprio Martinho Lutero chegou a dizer:

– “Era justo e conveniente fosse a pessoa de Maria preservada do Pecado Original, visto que o Filho de Deus vai tomar dela a carne que iria vencer todo o pecado”[3].

Deus busca, antes, os puros de coração, do que os que se firmam em pureza ritualística. Não, por menos, está escrito:

– “Bem-aventurados os puros de coração” (Mateus 5,8)!

c) Além do mais, a gravidez de Maria não tinha nada a ver com o pecado (e que, portanto, por natureza, está acima de qualquer prescrição legal. Aliás, era um milagre e um sinal profético) Que impureza pode ter uma mulher ‘cheia da graça’, grávida por obra do Espírito Santo, tendo dado à luz Àquele que é Senhor até do sábado, sem qualquer vínculo com a concupiscência e paixão carnais? Ou seja, em algo tão maravilhoso, onde só imperou o poder e o favor divino, não teve lugar algum para a menor mancha.

d) E, também, ao que tudo indica, o casal de Nazaré não foi a Jerusalém por causa de Maria, mas por causa de Cristo. É o que já havia notado Santo Agostinho:

– “O texto evangélico diz expressamente: ‘Quando os pais trouxeram o menino Jesus para cumprir as prescrições da Lei a Seu respeito’ (Lucas 2,27). Não é dito: ‘a respeito de sua mãe’ mas: ‘a Seu respeito’, isto é, do Menino Jesus (…) Ora, o Senhor também dignou-se ser batizado como os demais, com o batismo de João, o qual era batismo de penitência, para o perdão do pecados, sem que ele tivesse pecado algum”[4].

e) Teve um protestante que escreveu que Cristo “achou-se concebido” (sic) por obra do Espírito Santo – citando a sentença bíblica que diz que o que “nela foi gerado”. E que, por conseguinte, segundo o mesmo, não foi Maria quem o gerou (certamente tomando os vocábulos ‘gerar’ e ‘conceber’ como sinônimos, o que qualquer dicionário, de fato, confirmaria tal sinonímia).

Primeiramente, tenhamos ciência de que ao se falar que um filho foi gerado numa mãe, não há oposição em se declarar igualmente que esta mãe é quem o concebeu (ou gerou). Eu, por exemplo, fui gerado no ventre da minha mãe (ou gerado nela), e licitamente também digo que minha mãe me gerou ou concebeu… Assim, é perfeitamente admissível proclamar que Cristo foi gerado – de modo excepcional, é verdade – em “Maria, sua mãe” (Mateus 1,18); mas, da mesma forma, é legítimo dizer que Nossa Senhora o concebeu. Aliás, é o que diz a Bíblia:

– “Eis que a Virgem conceberá e dará a luz” (Mateus 1,23).

No evangelho de Lucas também vemos essa afirmativa:

– “Eis que conceberás e darás à luz um filho” (Lucas 1,31).

A grande diferença (além de Cristo ser divino), é que, minha mãe me concebeu de meu pai; já, o Senhor (como homem), a Virgem Santíssima o “concebeu do Espírito Santo”[5].

Maria não foi um ventre de aluguel programado somente para ‘dar à luz’ um fruto de uma “árvore” alheia; mas, sim, para gerar (ou conceber) e parir (dar à luz) um fruto de suas entranhas, ou conforme está escrito na Bíblia: “o fruto de teu ventre” (Lucas 1,42)… Afinal, o Jesus que bendizemos é fruto do ventre de quem? Insofismavelmente, é o fruto do ventre DELA; aquela, a qual Santa Isabel, repleta do Espírito Santo, também bendisse.

Santo Efrém (306-373 d.C.) dizia que: “a Virgem gerou a Luz… como a sarça que ardia ao fogo, sem se consumir”[6]. Maria gerou na temporalidade Aquele que já existia na eternidade.

Santo Agostinho escreveu: “Deve ficar junto Daquele a quem carregou em seu útero, a quem gerou, aqueceu e nutriu – Maria, Mãe de Deus”[7].

Zwinglio, um dos mais famosos reformadores do protestantismo, diz: “Creio firmemente que segundo o Evangelho Maria como virgem pura, gerou o Filho de Deus”[8]; e ainda que ela “permaneceu virgem, pura e integra. Também acredito firmemente que ela foi exaltada acima de todas as criaturas bem-aventuradas (homens e anjos na eterna bem-aventurança”[9].

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NOTAS

[1] Cf. http://cf.uol.com.br/jubilaeum/rito_principal.cfm?chave=I_grandi. Tal artigo também pode ser visualizado em: http://cf.uol.com.br/jubilaeum/rito_principal.cfm?chave=I_grandi.
[2] Cf. L’Osservatore Romano, Ed. Port., nº 50, 14/12/1996, pág. 12(580); PAPA JOÃO PAULO II, “A Virgem Maria: 58 Catequeses do Papa sobre Nossa Senhora”, Lorena: Cléofas, 2000, p. 100.
[3] Cf. Lut. in postil. Maj.: https://www.veritatis.com.br/artigo.asp?pubid=16.
[4] Cf. “Quaestones in Heptateuchum” 3,40; AGOSTINHO, Santo. “A Virgem Maria: cem textos marianos com comentários”. São Paulo: Paulus, 2ª ed., 1996, pp. 137-138.
[5] CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, Rio de Janeiro/São Paulo: Vozes/Paulinas/Loyola/Ave-Maria, 5ª ed., 1993, p.123, §495.
[6] AQUINO, Felipe Rinaldo Queiroz de. “Escola da Fé I: Sagrada Tradição”. Lorena: Cléofas, 2000, p. 107.
[7] Cf. https://www.veritatis.com.br/artigo.asp?pubid=3153.
[8] Cf. https://www.veritatis.com.br/artigo.asp?pubid=54.
[9] Cf. Zwinglio Opera 1,424: https://www.veritatis.com.br/artigo.asp?pubid=54.

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BIBLIOGRAFIA

– AGOSTINHO, Santo. “A Virgem Maria: cem textos marianos com comentários”. São Paulo: Paulus, 2ª ed., 1996.
– AQUINO, Felipe Rinaldo Queiroz de. “Escola da Fé I: Sagrada Tradição”. Lorena: Cléofas, 2000.
– BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 1996.
– CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, Rio de Janeiro/São Paulo: Vozes/Paulinas/Loyola/Ave-Maria, 5ª ed., 1993.
– http://cf.uol.com.br/jubilaeum/
– https://www.veritatis.com.br
– PAPA JOÃO PAULO II, “A Virgem Maria: 58 Catequeses do Papa sobre Nossa Senhora”, Lorena: Cléofas, 2000.


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