Contrariamente à alegação de alguns, os católicos realmente têm uma ampla liberdade para ler e interpretar a Bíblia (contanto, obviamente, que eles a leiam com a intenção de dar suporte às doutrinas da Igreja).

Estamos, também, livres para ler diferentes versões das Sagradas Escrituras, embora, normalmente, dê-se maior prioridade às versões católicas. A minha própria tradução favorita é a “Revised Standard Version” (RSV), que foi aprovada em uma edição católica com apenas alguns esclarecimentos.

O Venerável Papa Pio XII, na sua encíclica papal de 1943, “Divino Afflante Spiritu”, escreveu:

  • “Antes, o decreto Tridentino nem sequer proíbe que, para uso e proveito dos fiéis e para facilitar a inteligência da divina palavra, se façam traduções em línguas vulgares, e precisamente dos textos originais […]. Bem preparado com o conhecimento das línguas antigas e com os recursos da crítica, aplique-se o exegeta católico àquele que é o principal de todos os seus deveres: indagar e expor o sentido genuíno dos Livros Sagrados. Neste trabalho tenham os intérpretes bem presente que o seu maior cuidado deve ser distinguir claramente e precisar qual seja o sentido literal das palavras bíblicas.”. (final da parte 2 e início da 3).

A Constituição sobre a Revelação Divina do Segundo Concílio Vaticano (“Dei Verbum”) concordou:

  • “É preciso que os fiéis tenham acesso patente à Sagrada Escritura. […] visto que a palavra de Deus deve estar sempre acessível a todos, a Igreja procura com solicitude maternal que se façam traduções aptas e fiéis nas várias línguas, sobretudo a partir dos textos originais dos livros sagrados. Se porém […] essas traduções se fizerem em colaboração com os irmãos separados, poderão ser usadas por todos os cristãos.”. (capítulo 6, seção 22)

A “New American Bible” (a minha cópia tem o Novo Testamento revisado de 1986: Nelson, 1987) contém um artigo preliminar, “O propósito da Bíblia” (p. xii):

  • “Quando Pio XII emitiu a sua encíclica ‘Divino Afflante Spiritu’, em 1943, a porta foi aberta para novas traduções católicas que não dependiam da Vulgata Latina de São Jerônimo. Devido ao grande crescimento do conhecimento das línguas bíblicas antigas, traduções oficiais diretamente delas foram encorajadas […]. A ‘Revised Standard Version’ é a menos interpretativa de todas […]. A Bíblia de Jerusalém e a ‘New English Bible’ esforçam-se por uma linguagem ainda mais contemporânea […]. A ‘New American Bible’ […] é a primeira tradução católica americana que foi baseada nas línguas originais, ou na forma mais antiga do texto, em vez da Vulgata.”.

Os católicos não são obrigados a interpretar cada versículo da Bíblia de acordo com alguma proclamação dogmática da Igreja. Este é outro mito comum que muitas vezes escutamos de nossos estimados amigos protestantes (e muitos católicos, também, não conhecem nada diferente disso). De fato, o católico fiel ortodoxo deve interpretar o que ele depreende das Escrituras em concordância com a Igreja e com a Tradição. Esta, entretanto, é uma noção radical e controversa?

De fato, os protestantes crêem, em grande medida, no mesmo. Cada protestante age da mesma maneira no que diz respeito à sua própria tradição denominacional. Nenhum calvinista de cinco pontos pode afirmar — contra a sua própria tradição — que um versículo da Bíblia prova a apostasia ou a queda ou o desejo de Deus pela salvação universal em detrimento da expiação limitada (embora, na verdade, existam muitas dessas passagens). Ele não pode negar a depravação total por meio do uso de qualquer texto ou a graça irresistível. Isto não está permitido. A tradição calvinista (reformada/presbiteriana) dita que essas doutrinas, e apenas elas, podem ser encontradas nas Escrituras.

Desse modo, com efeito, exige-se uma certa interpretação dos versículos da Bíblia que tenha sido historicamente usada para apoiar os ensinamentos calvinistas. Ironicamente, este é um dos ataques que os protestantes freqüentemente usam para acusar os seus irmãos católicos: é-lhes dito pela Igreja “como pensar” sobre a interpretação bíblica.

Praticamente todos os cristãos têm restrições ortodoxas e dogmáticas a que obedecem. O exegeta católico é limitado em muito pouco e tem praticamente tanta liberdade de investigação quanto um protestante. O artigo da “Catholic Encyclopedia” de 1913 sobre a “Exegese Bíblia” afirma:

  • “O comentador católico está obrigado a aderir à interpretação dos textos que a Igreja definiu de forma expressa ou implicitamente. O número destes textos é pequeno, de forma que o comentador pode, facilmente, evitar qualquer transgressão desse princípio.”.

Aos católicos, é permitido traduzir do grego, de acordo com o conhecimento arqueológico e textual mais recente, fazer uso de diferentes traduções e até mesmo cooperar com projetos de tradução ecumênicos, como aquele do RSV ou da NEB. E você e eu estamos autorizados a interpretar livremente praticamente qualquer texto por conta própria, desde que não o façamos contra um dogma da Igreja (eu não poderia, por exemplo, alegar que João 1.1 não ensina a divindade de Jesus ou que Ele não seja o Filho de Deus).

Apenas poucos versículos bíblicos foram definidos de forma estrita pela Igreja e, mesmo assim, apenas em aplicações específicas (na maior parte, em um sentido negativo: i.e., a passagem não pode significar X no tocante à doutrina Y). Tais passagens incluem Mateus 18.18 (absolvição e perdão dos pecados pelos padres), Lucas 22.19 (Eucaristia), João 3.5 (Batismo), João 20.22-23 (absolvição e perdão dos pecados pelos padres), Romanos 5.12 (pecado original), 1 Coríntios 11.24 (Eucaristia), Tiago 6.14 (a instituição do Sacramento da Unção dos Enfermos).

Além disso, em várias casos, mas não em todos, a categoria de tais passagens diz respeito a Mateus 16.16 e a João 1.42, no tocante a São Pedro ser o líder da Igreja.

Infelizmente, muitas pessoas erroneamente afirmam que pelo fato de os católicos estarem obrigados a acreditar nos ensinamentos da sua Igreja eles “devem”, portanto, ser não racionais e como leitores “robóticos” que não podem, simplesmente, ler a Bíblia pelo que ela é e pensar por si mesmos (um estereótipo equivocado conhecido como “sola ecclesia”: “a Igreja somente”). Isto pode ser descartado como sendo um exemplo da falácia da falsa dicotomia.

Nenhum católico é obrigado a seguir “cegamente” a uma autoridade. A nós é permitido pensar e exercitar a razão como qualquer outro cristão e devemos ser resistentes e refutar essas caricaturas cartunistas da Igreja.

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