– “Não [foi] injusta a campanha movida contra a chamada Legião da Boa Vontade?” (Moral Observador – Rio de Janeiro-RJ).

Independentemente de quanto se diga sobre a pessoa do Sr. Alziro Zarur, interessa-nos aqui analisar à luz do Cristianismo (ao qual o Sr. Zarur [quis] satisfazer) o significado do movimento que ele [chefiava].

Uma das teses mais apregoadas pela LBV é a prática da caridade. O convite, em si atraente, não podia deixar de provocar a adesão de muitas pessoas bem intencionadas.

Eis, porém, que, ao se praticar a caridade, cedo ou tarde se verifica ser impossível prescindir da questão religiosa. Caridade implica sacrifício e abnegação da parte de quem a exerce; implica o reconhecimento de um valor (natural ou sobrenatural) na pessoa do próximo; implica um juízo sobre os bens e a felicidade desta vida. Ora, estes são pontos que inevitavelmente se relacionam com a ideia de Deus, do sentido que tem a existência humana sobre a terra, ou seja, com a religião. Por seu lado, nem o Sr. Zarur [quis] abstrair da religião na sua campanha; muito ao contrário — e aí começa o mal da história — a fim de mais estimular os ouvintes a seguir as suas instruções, [apelou] para o sentimento religioso da nossa sociedade, e, sendo a grande maioria dos brasileiros cristã, é com o Evangelho nas mãos que ele os [quis] aliciar.

Nesta altura, porém, é preciso observar que, embora seja ótima obra divulgar o Evangelho, a ninguém é lícito fazê-lo a seu bel-prazer. Só há uma face do Cristo autêntica, como só há um rebanho e um aprisco do Cristo, e é somente em meio a este que Ele se encontra (como Ele mesmo o declarava, segundo João 10,16). A ninguém, portanto, será lícito dizer que está em contato com o Cristo pelo fato de abrir o Evangelho e de se unir em espírito, numa linha vertical, ao Cristo que está no céu. Cristo está muito mais próximo de nós: está na terra; foi-se ao Pai, mas voltou ao mundo e permanece conosco, como prometeu (cf. João 14,18-19); é preciso, por isto, procurá-Lo primeiramente em linha horizontal, ou seja, através das gerações que ininterruptamente retrocedem a partir dos nossos tempos até atingir o Cristo histórico no limiar da Era Cristã. É nessa linha horizontal (que se chama “a Tradição cristã”), e somente nela, que o Cristo se encontra vivo; foi nessa linha horizontal que os Evangelhos foram concebidos, escritos e transmitidos continuamente através de [vinte] séculos. Se alguém quer separar dessa linha ou dessa Tradição cristã o Evangelho, separa do Cristo o Evangelho, o que simplesmente quer dizer: já não prega o Cristo.

[Perguntar-se-ia], pois, ao Sr. Zarur: como [ele estaria] unido ao Cristo a fim de pregar autenticamente o Evangelho?

O Presidente da LBV repetir-nos-ia que do alto Jesus se lhe comunica diretamente. Isto, porém, já o afirmaram muitos, posteriormente comprovados como falsos arautos do Senhor. A via das revelações é muito suspeita, porque demais explorada; nem é o caminho usual pelo qual o Senhor se comunica aos homens. Jesus mandou que nos acautelássemos contra profetas e Messias (cf. Mateus 24,23-24).

Estaria então o Sr. Zarur unido ao Cristo na linha horizontal? Ou em linguagem mais simples: estaria unido à família sobrenatural do Cristo, à linha de [mais de] 55 gerações (aproximadamente) que medeiam entre Cristo e nós?

Não; precisamente não. A sua campanha dá a entender, em última análise, que não há uma família tradicional do Cristo a prolongá-Lo desde o século 1º da nossa Era, mas que, a família espiritual do Cristo, é o Sr. Zarur mesmo quem a faz, lendo e revelando, «redescobrindo» o Evangelho para o mundo. A fim de suprir o vazio e a incoerência de suas ideias, o [ex-Presidente] da LBV [serviu-se] muitas vezes de um tom de voz mística, que [impressionou] o público pouco dado ao raciocínio; assim ele [«mistificou»] realmente, inebriando a alma religiosa do povo brasileiro, que inconscientemente se [foi] afastando do Cristo, Filho de Deus feito homem, para seguir o Sr. Zarur, novo Messias, e um ideal de filantropia meramente humana. Tal ostentação, tal aparato, com que o [ex-Presidente] da LBV [tentou] angariar legionários, são de todo condenáveis, não somente aos olhos do Cristianismo, mas também aos da honestidade humana.

Se, não obstante as suas falhas radicais, a LBV encontrou adeptos e ainda conta com defensores, duas parecem-nos ser as causas do fenômeno:

1) O sentimentalismo pouco esclarecido da nossa boa gente. Basta falar em miséria para que muitas pessoas se emocionem e façam alarde (o que não quer dizer que respondam como deveriam responder). Um dos casos mais típicos de exploração do sentimentalismo, exploração superficial que não leva em conta o raciocínio, é o amor a Satanás, «meu irmão», [que foi] apregoado pelo Sr. Zarur…

Com efeito. Reflitamos um pouco sobre o que isto significa.

Satanás é um anjo que Deus criou dotado de inteligência penetrante, mas que abusou da liberdade de arbítrio para se tornar avesso ao Criador; optou conscientemente pela autossatisfação em vez de seguir o plano de Deus; e a sua opção é irrevogável, dada a perfeição da natureza angélica (no homem, enquanto consta de alma unida ao corpo, ou seja, durante esta vida, as opções são revogáveis, porque o corpo obscurece a perspicácia da inteligência, a qual consequentemente pode reconsiderar os seus atos e reformá-los). Satanás, portanto, não quer em absoluto amar nem a Deus nem aos homens (o seu tormento é justamente viver odiando); e ele tudo faz para atrair ao seu ódio e à sua desgraça outros parceiros, ou seja, os homens. Sendo assim, que posição pode o cristão tomar diante de Satanás?

Enquanto Satanás é um ser, uma criatura inteligente, ele é um bem, que do seu modo (por sua existência mesma) glorifica a Deus. Mas Satanás não é um mero ser… Em última análise, é um ser livre, sujeito à ordem moral; enquanto tal, ele é o contrário do bem, é um mal, e um mal irreformável. Ora, o mal como tal nunca pode ser objeto de amor; é a Psicologia, não somente a Religião, que o ensina (conceber Satanás de outro modo para poder amá-lo seria conceber um Satanás que não existe).

De onde se vê que não tem cabimento, à luz da inteligência, falar de «amor a Satanás»; é contradição apta para embriagar os simplórios. O fato, porém, é que quem apregoa esse absurdo passa talvez por mais caridoso do que os caridosos, mais santo do que os santos; parece mais próximo de Jesus do que qualquer dos anteriores arautos do Evangelho.

2) Tocamos aqui o segundo fator que, a nosso ver, dá voga à LBV; muitos talvez lhe prestem adesão por motivo de orgulho (consciente ou, em não poucos casos, inconsciente). Ocasiões para praticar a caridade não faltam em instituições já vigentes, principalmente na Igreja Católica; mas na LBV a pessoa socorre os indigentes sem professar a Dogmática do Cristianismo e sem se obrigar a observar as leis da religião e do culto de Cristo; na LBV crê-se na existência de um «Deus» e de um «Jesus»; mas não se abraça oficialmente nenhum credo religioso; é cada um quem faz a sua religião (caso a queira), escolhendo os seus dogmas e obedecendo às normas que agradem ao seu bom senso subjetivo. Ora, a não poucos atrai (talvez sem que o saibam) a perspectiva de não estar sujeito a alguma obrigação religiosa, sem, porém, passar por ateu ou ímpio aos olhos da sociedade! Quantos não gostam de pôr Deus no bolso e tirá-Lo, ostentá-lo, quando isto lhes convém!

O que acaba de ser dito, visa apenas incitar a uma reflexão e abrir caminho à verdade. Em vista disto, foi preciso falar contra o procedimento do Sr. Zarur; mas note-se bem: contra o procedimento. Quanto à sua pessoa, ela é muito cara a todo cristão: o discípulo de Cristo, enquanto repudia o erro, quer bem ao homem que erra, pois sabe que por ele Jesus derramou a última gota de Seu sangue. (…)

  • Fonte: Revista Pergunte e Responderemos nº 3 – mar/1958
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