– Não basta dizer: “Está na Bíblia!” O Antigo Testamento era exclusivo para os judeus e o Novo Testamento para os cristãos.

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Compreender a diferença entre Antigo e Novo Testamento é vital para o estudo honesta da Bíblia. Muitas das diferenças doutrinárias entre cristãos católicos e evangélicos são automaticamente resolvidas quando este tema é bem compreendido.

Não basta dizer: “Está na Bíblia!”; o que realmente importa é: em que parte da Bíblia? No Antigo ou no Novo Testamento? Expliquemos:

Com a queda de Adão e Eva, o gênereo humano, mortalmente ferido pelo pecado, cai em tal grau de decadência, maldade e erro que Deus se vê obrigado a exterminar a humanidade pelos excessos a que chegaram:

  • “E viu o Senhor que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente. Então arrependeu-se o Senhor de haver feito o homem sobre a terra e pesou-lhe em seu coração. E disse o Senhor: ‘Destruirei o homem que criei de sobre a face da terra, desde o homem até ao animal, até ao réptil, e até à ave dos céus; porque me arrependo de os haver feito'” (Gênesis 6,5-7).

A fim de brindar a humanidade com um novo e melhor começo, Deus eleva o homem de seu estado de total miséria, sem leis escritas, onde a idolatria (adoração de falsos deuses), a degeneração sexual, os assassinatos e um sem fim de depravações eram o pão cotidiano, sem a lei do mundo pagão, antes e depois do dilúvio universal.

O ANTIGO TESTAMENTO REPRESENTA A ETAPA INFANTIL DA HUMANIDADE

  • “E o Senhor sentiu o suave cheiro, e o Senhor disse em seu coração: ‘Não tornarei mais a amaldiçoar a terra por causa do homem; porque a imaginação do coração do homem é má desde a sua meninice, nem tornarei mais a ferir todo o vivente, como fiz'” (Gênesis 8,21).

Deus forma um povo, o povo de Israel, uma nação entre todas as nações, com quem faz uma “aliança”; a ela dará seus Mandamentos em forma escrita através de Moisés. Mas não devemos nos confundir: esta Lei ou Aliança era única e exclusiva do povo de Israel; todos os demais povos e nações ficavam de fora desta Aliança, que hoje conhecemos como “Antigo Testamento” ou “Lei de Moisés”.

  • “Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos, porque toda a terra é minha. E vós me sereis um reino sacerdotal e o povo santo. Estas são as palavras que falarás aos filhos de Israel” (Êxodo 19,5-6).
  • “Mostra a sua palavra a Jacó, os seus estatutos e os seus juízos a Israel. Não fez assim a nenhuma outra nação; e quanto aos seus juízos, não os conhecem” (Salmo 147,19-20).
  • “Portanto, lembrai-vos de que vós noutro tempo éreis gentios na carne, e chamados ‘incircuncisão’ pelos que na carne se chamam ‘circuncisão’ feita pela mão dos homens; que naquele tempo estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo” (Efésios 2,11-12).

CONTUDO, DEUS QUER QUE TODOS OS HOMENS SE SALVEM

  • “Porque isto é bom e agradável diante de Deus nosso Salvador, que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade” (1Timóteo 2,3-4).

Como Deus quer a salvação de todos os homens, a Antiga Aliança ou Testamento representa uma superação do homem pagão, sem lei, a uma etapa de lei escrita que busca a elevação da humanidade para chegar em Deus. Porém, o homem é ainda criança e precisa amadurecer, chegar à plenitude dos tempos e comportar-se com adulto:

  • “Assim também nós, quando éramos meninos, estávamos reduzidos à servidão debaixo dos primeiros rudimentos do mundo. Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos” (Gálatas 4,3-5).

O ANTIGO TESTAMENTO ERA UM TREINAMENTO PARA O NOVO TESTAMENTO

O Antigo Testamento apresenta figuras; o Novo Testamento, a realidade:

  • “Porque até à lei estava o pecado no mundo, mas o pecado não é imputado, não havendo lei. No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir” (Romanos 5,13-14).
  • “E estas coisas [do Antigo Testamento] foram-nos feitas em figura, para que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram” (1Coríntios 10,6).
  • “Os quais servem de exemplo e sombra das coisas celestiais, como Moisés divinamente foi avisado, estando já para acabar o tabernáculo; porque foi dito: ‘Olha, faze tudo conforme o modelo que no monte se te mostrou'” (Hebreus 8,5).
  • “Que é uma figura para o tempo presente, em que se oferecem dons e sacrifícios que, quanto à consciência, não podem aperfeiçoar aquele que faz o serviço” (Hebreus 9,9).
  • “Portanto, ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados, que são sombras das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo” (Colossenses 2,16-17).

O NOVO TESTAMENTO É MELHOR E SUPERA O ANTIGO TESTAMENTO

  • “De sorte que, se a perfeição fosse pelo sacerdócio levítico (porque sob ele o povo recebeu a lei), que necessidade havia logo de que outro sacerdote se levantasse, segundo a ordem de Melquisedeque, e não fosse chamado segundo a ordem de Arão? Porque, mudando-se o sacerdócio, necessariamente se faz também mudança da lei. (…) Porque o precedente mandamento é abrogado por causa da sua fraqueza e inutilidade (pois a lei nenhuma coisa aperfeiçoou) e desta sorte é introduzida uma melhor esperança, pela qual chegamos a Deus” (Hebreus 7,11-19).
  • “Porque tendo a lei a sombra dos bens futuros, e não a imagem exata das coisas, nunca, pelos mesmos sacrifícios que continuamente se oferecem cada ano, pode aperfeiçoar os que a eles se chegam” (Hebreus 10,1).
  • “Provendo Deus alguma coisa melhor a nosso respeito, para que eles sem nós não fossem aperfeiçoados” (Hebreus 11,40).

O ANTIGO TESTAMENTO TERMINOU POR OCASIÃO DA MORTE DE CRISTO E ENTÃO INICIA O NOVO TESTAMENTO

  • “A lei e os profetas duraram até João; desde então é anunciado o reino de Deus, e todo o homem emprega força para entrar nele” (Lucas 16,16).
  • “Na sua carne desfez a inimizade, isto é, a lei dos mandamentos, que consistia em ordenanças, para criar em si mesmo dos dois um novo homem, fazendo a paz” (Efésios 2,15).
  • “Assim, meus irmãos, também vós estais mortos para a lei pelo corpo de Cristo, para que sejais de outro, daquele que ressuscitou dentre os mortos, a fim de que demos fruto para Deus” (Romanos 7,4).
  • “Porque o fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê” (Romanos 10,4).

Apesar de tudo o que vimos até aqui, as seitas afirmam que Jesus Cristo não anulou a lei do Antigo Testamento e tomam por referência o seguinte texto:

  • “Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim abrogar, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til jamais passará da lei, sem que tudo seja cumprido. Qualquer, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no reino dos céus” (Mateus 5,17-19).

A LEI RITUAL E A LEI NATURAL OU MORAL

É importante saber que entre as leis que Deus entregou a Moisés existem dois tipos de leis: a lei cerimonial ou ritual; e a lei natural ou moral.

A lei cerimonial refere-se às leis que podem ser alteradas (como, p.ex., o sacrifício de animais) e rituais (como a proibição de se fazer imagens ou o dia de sábado), que não são necessárias para a salvação. Por isso podem ser alteradas.

A lei natural é a que sempre existiu, mesmo antes de Moisés, ainda que não tenha sido escrita (como [a proibição do] assassinato, adultério, incesto etc.). Sempre, em todo tempo e lugar, constitui um pecado; ou seja: a lei natural ou moral refere-se à conduta humana, indispensável para a salvação e, por isso, não altera nunca.

Jesus fala de não alterar a Lei e os Profetas, mas imediatamente começa a alterar os Mandamentos da Lei de Moisés:

  • “Ouvistes que foi dito aos antigos: ‘Não matarás’; mas qualquer que matar será réu de juízo. Eu, porém, vos digo que qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra seu irmão, será réu de juízo; e qualquer que disser a seu irmão: ‘Raca’, será réu do sinédrio; e qualquer que lhe disser: ‘Louco’, será réu do fogo do inferno” (Mateus 5,21-22).

E assim continua até o final do capítulo 5 de Mateus, alterando a Lei de Moisés.

Jesus se contradisse? Claro que não! O que ocorre é que no Antigo Testamento a lei moral ainda é deficiente e deve ser aperfeiçoada, a fim de atualizá-la para o novo ambiente cultural cristão. Tanto é verdade, que o versículo 20 diz:

  • “Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus” (Mateus 5,20).

Os escribas e fariseus eram escrupulosos cumpridores da Lei de Moisés quanto ao cerimonial, mas não da lei natural ou moral. O próprio Jesus lançará na cara deles seu escrupuloso apego à lei ritual e seu total descumprimento da lei moral:

  • “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que dizimais a hortelã, o endro e o cominho, e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas” (Mateus 23,23).

Outra passagem da Escritura que põe de manifesto a deficiência da Lei de Moisés no campo moral é esta:

  • “Então chegaram ao pé dele os fariseus, tentando-o, e dizendo-lhe: ‘É lícito ao homem repudiar sua mulher por qualquer motivo?’ Ele, porém, respondendo, disse-lhes: ‘Não tendes lido que aquele que os fez no princípio macho e fêmea os fez?’ E disse: ‘Portanto, deixará o homem pai e mãe, e se unirá a sua mulher, e serão dois numa só carne?’ Assim não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem’. Disseram-lhe eles: ‘Então, por que mandou Moisés dar-lhe carta de divórcio, e repudiá-la?’ Disse-lhes ele: ‘Moisés, por causa da dureza dos vossos corações, vos permitiu repudiar vossas mulheres; mas ao princípio não foi assim'” (Mateus 19,3-8).

Como vemos, a lei natural ou moral é a mesma desde a criação do mundo. Cristo diz: “ao princípio não foi assim” – não pode alterar; mas a Lei de Moisés era imperfeita, como vimos ao longo deste artigo.

Se os protestantes insistem que a Lei de Moisés não foi cancelada por Jesus, por que eles não a cumprem? A Lei de Moisés estipula numerosos sacrifícios de animais e prescrições que não são em nada compatíveis com a lei do amor e da misericórdia do Novo Testamento; p.ex., a Lei de Moisés manda:

  • Apedrejar os idólatras, sectários e hereges: Deuteronômio 13,11; 17,5.
  • Apedrejar os filhos rebeldes: Deuteronômio 21,21.
  • Apedrejar os adúlteros: Deuteronômio 22,21.
  • Queimar os fornicadores: Gênesis 38,24; Levítico 21,9.

A lista seria interminável. Ademais, quem cumpre qualquer uma das leis de Moisés está obrigado a cumprí-la inteira, pois quem falha em um dos mandamentos da Lei peca contra toda a Lei:

  • “Todos aqueles, pois, que são das obras da lei estão debaixo da maldição; porque está escrito: ‘Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las'” (Gálatas 3,10).
  • “Porque qualquer que guardar toda a lei, e tropeçar em um só ponto, tornou-se culpado de todos. Porque aquele que disse: ‘Não cometerás adultério’, também disse: ‘Não matarás’. Se tu pois não cometeres adultério, mas matares, estás feito transgressor da lei” (Tiago 2,10-11).

Se os protestantes desejam cumprir a Lei do Antigo Testamento de qualquer jeito, devem cumprí-la por inteiro; mas qualquer pessoa pode ver que eles o dizem, mas não a cumprem. A contradição é a nota distintiva dos cristãos evangélicos e das demais seitas. Isto nos faz lembrar uma frase do Apóstolo São Paulo:

  • “Querendo ser mestres da lei, e não entendendo nem o que dizem nem o que afirmam” (1Timóteo 1,7).

Tudo isso significa que os católicos desprezam o Antigo Testamento? Absolutamente não! Ainda que as suas leis rituais já não estejam em vigor, é Palavra de Deus revelada ao homem e sem o Antigo Testamento não poderíamos compreender o Novo, como já dizia o grande Santo Agostinho:

  • “O Novo Testamento está oculto no Antigo e o Antigo nos é aberto no Novo”.

Sem o Antigo Testamento a Bíblia não estaria completa. Cristo cumpriu a Antiga Aliança ou Testamento e, ao cumprí-lo, começou uma Nova Aliança, já não apenas com os judeus, mas com toda a humanidade.

Os cristãos católicos não são judeus. São cristãos e não estão sob a Lei de Moisés.

Logo, não basta dizer: “Está na Bíblia”; deve-se ver em qual parte da Bíblia.

Antigo ou Novo Testamento? Novo Testamento!

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