Da Vida de São Francisco de Sales. – Bispo da Igreja de Cristo

“Trabalhai por adquirir a Suavidade de Coração para com o Próximo”.

1. A flor da Caridade.

1. Na sua “Introdução à Vida Devota” trata São Francisco de Sales “da doçura para com o próximo”, que ele denomina “a flor da caridade”. Com efeito, “aquele que é afável e brando, escreve ele em uma de suas cartas, não ofende a ninguém, suporta e atura de boa vontade os que o maltratam, enfim sofre pacientemente as pancadas e não retribui o mal com o mal. O manso nunca se aItera, mas embebe todas as suas palavras na humildade, vencendo o mal com o bem”. Não nos cansemos de contemplar e escutar aquele que, de todos os santos, se aplicou melhor a reproduzir a mansidão e a benignidade de Cristo. Seu exemplo, como os seus ensinamentos, serão para nós uma luz benfazeja. Testemunhas da acolhida de São Francisco de Sales em seu bispado ou folheando a sua correspondência, admirar-lhe-emos a doçura amável e paciente, sempre igual, para com todos. Adquirida a poder de um longo esforço e cuidadosamente cultivada como uma virtude de eleição, alimenta-se ela na caridade do bispo de coração largo e magnânimo. Delicada e bem-humorada, indulgente e compassiva, ela nunca abdica da sua firmeza. Se nos entregarmos ao seu fascínio, ela nos conduzirá, pela renúncia oculta sob o véu do sorriso, bem longe, no caminho da santidade.

2. No bispado de Annecy.

Abeiremo-nos do Bispo de Genebra. A porta está sempre aberta, e para todos os que aí vêm bater. Os criados receberam ordem “de não mandar embora ninguém que lhe quisesse falar; e se, à conta de alguma imperiosa necessidade, fosse preciso despedi-los, exigia que fosse com tanta afabilidade que os visitantes não perdessem a confiança de voltar. Veja essas pessoas de qualidade, com que distinção as recebe. “Como não há ninguém que se preocupe menos das honras do que eu, dizia ele, não há ninguém disposto a dar mais honra aos outros do que eu”. Sucedeu-lhe até, certa vez, tratar muito obsequiosamente o criado de um gentil homem; e como lhe chamassem a atenção: “Não sei distinguir muito as pessoas, explicou; só considero uma coisa: que todos trazem o caráter de cristão”. De fato, não eram só as pessoas de qualidade que ele acolhia assim, mas todos os que dele se aproximavam; e eram numerosos, às voltas com alguma tribulação, os que acorriam a ele, porque se sabia que todo aquele que se dirigia a ele voltava consolado.

Os de casa o punham de sobreaviso contra as rusticidades e sensaborias desses humildes visitantes. “E nós, que somos?” respondia ele. Mas, diziam-lhe, fazeis mal de sofrer essas incomodidades. E ele: “Que quereis que eu faça? É preciso dar consolação aos que a vêm procurar”. Pedia desculpas a uma nobre dama de a ter feito esperar ouvindo ‘todo o tempo que ela quis’, uma pobre mulher que acabava de perder os seus filhos e que desafogava com ele a sua amargura. “Gosto muito dessas pobres aldeãs, confessava ele, são almas tão boas, tão simples, tão cheias do temor de Deus!”. Com que doçura abria os braços aos pecadores, aos maiores pecadores! Seus amigos se escandalizavam. “Com toda a certeza, disse-lhe um dia um deles, Francisco de Sales irá para o paraíso; mas quanto ao Bispo de Genebra, não sei; receio muito que sua mansidão lhe pregue alguma peça”. – “Ah! respondeu ele, mais vale ter que dar contas de uma doçura demasiada que de uma severidade excessiva. Deus não é todo amor? Deus Pai é o Pai das misericórdias, Deus Filho se denomina um cordeiro, Deus Espírito Santo se mostra sob a forma de uma pomba, que é a mesma doçura. Se melhor coisa houvesse que a benignidade, Jesus no-lo teria dito, e no entanto Ele só nos dá duas lições que aprendemos dele: a mansitude e a humildade de coração. Quereis, então, impedir-me de aprender a lição que Deus me deu, e sois acaso mais sábio que Deus?”.Mas, objetavam-lhe, são apóstatas, homens perdidos, indignos de vossas carícias”. – “Que pena! respondia ele, então só existimos Deus e eu para amarmos esses pobres pecadores! Querem que eu me esqueça de que são minhas ovelhas, que eu recuse minhas lágrimas àqueles aos quais Jesus Cristo deu todo o Seu sangue; e a quem farei misericórdia, senão aos pecadores? .. Que aquele que gosta do rigor se afaste de mim, porque disso não quero eu ter”.

Dessa admirável mansidão São Francisco de Sales nunca se apartava, mesmo quando se lhe apresentavam pessoas arrebatadas pela cólera. Como aquele homem que, considerando-se lesado pelo Bispo, levou cães uivantes é “fez soar a trompa de caça por desprezo e derisão” no pátio do Bispo, depois, subindo até a residência do Monsenhor, injuriou-o e chegou a levar a mão à guarda da espada. Ou ainda esse comendador de Malta que, vexado com o fracasso de um candidato que patrocinava, entrou em casa do Bispo de chapéu na cabeça, lançou-lhe em rosto as mais grosseiras injúrias, depois saiu precipitadamente. Às testemunhas indignadas da cena, o santo se contentou com dizer: “Devo ser-lhe grato por me ter dispensado do trabalho de opor minhas razões aos seus arrebatamentos”.

Se analisarmos a mansidão de São Francisco de Sales, distinguiremos nela um maravilhoso conjunto dessas pequenas virtudes, modestas e escondidas, que crescem ao pé da cruz, como ele próprio dizia, e que ele estimava tanto: a humildade, a paciência, a cortesia respeitosa e a sincera estima dos outros, todas ligadas entre si pelo sobrenatural amor das almas que o mantinha constantemente, numa perfeita abnegação, ao serviço dos outros. Ao serviço dos seus próprios criados … “Meu amigo, quando entrei, escrevíeis, disse ele certo dia a um dos seus empregados que, surpreendido com a che¬gada do seu amo, empurrara para longe de si a caneta, o tinteiro e o papel. Que escrevíeis, pois? Não serei bastante de vossos amigos para que me façais essa confiança? O pobre rapaz, todo confuso, apresentou o papel ao bispo, que leu e concluiu: “Não entendeis nada disso”. Em seguida, sentou-se e escreveu. “Aqui está, disse ele, copiai isso. Ponde-lhe o vosso nome e enviai-o e vereis que tudo irá bem”. Alguns dias mais tarde uma jovem viúva, lisonjeada com a delicadeza com que o empregado lhe pedia a mão, vinha consultar o Bispo que a encorajou ao casamento”.

E há coisa ainda melhor. Tinha Monsenhor um criado de quarto que não gostava de se deitar tarde. Mas não gostava tampouco de se deitar cedo, se o seu patrão, para dar conta da sua tarefa, fosse obrigado a prolongar a vigília. Francisco de Sales instava com ele para que fosse descansar, para não se aborrecer com a espera. “Tomais-me, então, por um dormido ou preguiçoso?” resmungava, mal-humorado, o criado. E o Bispo apressava então o seu trabalho, para poupar o seu empregado. Ao levantar, mesma perplexidade. Se o chamava, tinha o aspecto de se queixar de não haver dormido bastante. Se não chamava… “Quem vos vestiu?” pergunta o empregado, que irrompe subitamente no escritório do Bispo, absorvido no seu trabalho, com a impetuosidade de um homem que dormiu até mais não poder, e cujos olhos, empapuçados de sono, suportam mal a viva claridade do dia. – “Fui eu mesmo, responde o Bispo; acaso não sou bastante grande e forte para isso?” – “Será que vos custava tanto me chamar?” ralha o criado. – “Asseguro-vos que vos chamei diversas vezes; cheguei a ir ao vosso leito, e vos encontrei dormindo tão profundamente e com tanta vontade que não vos quis acordar”. – “É isso, caçoai de mim!” – “Oh! meu amigo, não o disse por zombaria, mas por pura recreação. Ficai tranqüilo de futuro; prometo-vos que de outra vez, já que o quereis, não me vestirei mais sem vós. Despertar-vos-ei e vos farei levantar”.

Ora, quer tenha São Francisco de Sales que se haver com os seus criados, quer receba vísitantes descorteses, quer acolha pobres pecadores, quer console os atribulados, quer converse com pessoas de qualidade ou humildes aldeãs, notou o leitor o tom, a doçura de sua voz? Admirava-se alguém da moderação com que repreendera a um jovem pelo seu mau procedimento. “Eu temia derramar em um quarto de hora, confessou ele, esse pouco de licor de mansuetude que procuro recolher há vinte e dois anos, como um orvalho, no vaso de meu coração”. Deliciosa imagem, admirável, ao mesmo tempo, de delicadeza e verdade! Pessoas há que só sabem pronunciar palavras ásperas; é que têm no coração um licor amargo e corrosivo, que envenena todo o seu falar. Nos lábios do Bispo de Genebra, tudo é doçura e suavidade, porque, antes de sair de sua boca, as suas palavras passaram por essa toalha de mansuetude, com a qual se esforçou por encher, como com um orvalho refrigerante, o vaso de seu coração. E nós, a quem acontece acolhermos de maus modos, sermos duros para com os que nos vêm procurar, termos réplicas secas, reflexões descorteses, peçamos a São Francisco de Sales que nos ensine a mansidão .

3 – A doçura de Coração para com qualquer pessoa em particular.

“Não percais nenhuma ocasião, por pequena que seja, diz-nos ele, de exercitar a doçura de coração para com qualquer um”. Retenhamos o conselho. E para procurarmos segui-lo com mais fidelidade, tratemos de descobrir porque faltamos à brandura e delicadeza em nosso trato com os outros. Por quê? É que estamos descontentes, – descontentes de nós mesmos e descontentes dos outros, que nos são antipáticos ou importunos. Descontentes conosco mesmos! Bem sabe ele que, com efeito, temos motivo de estar, não raro, descontentes conosco e que isso nos dispõe desfavoravelmente em relação ao próximo. Recomenda-nos, por conseguinte, que nos encha-mos de amor de Deus e, que sejam quais forem as nossas trapalhadas, fiquemos sempre sossegados e tratemos os outros com doçura. “Que vos posso dizer, minha querida filha, senão o que tão amiúde vos tenho dito, que vades sempre seguindo o vosso curso ordinário, o mais que puderdes, por amor de Deus, fazendo mais atos interiores desse amor e ainda exteriores, e sobretudo submetendo quanto puderdes o vosso coração à santa mansidão e tranquilidade convosco mesma, ainda que tentada ou aflita, ainda que miserável”. Essa tranquilidade para conosco mesmos nos ajudará a suportar sossegadamente o próximo.

Porque o próximo nos é por vezes antipático. Com muita frequência, aliás, não saberíamos dizer porque. Sua fisionomia, sua atitude, o tom de sua voz não nos agradam. Outras vezes, temos bastante razão para achá-lo desagradável: suas manias nos enervam, e nos sentimos ofendidos com as suas esquisitices de caráter, seus desmandos de linguagem, seus modos de agir. São Francisco de Sales apela para o nosso espírito de fé. “Força nos é considerarmos o próximo em Deus; … após ter pedido o amor de Deus, é sempre necessário pedir o dos próximos, e particularmente daqueles para os quais a nossa vontade não tem nenhuma inclinação”.

“Quando será que seremos inteiramente embebidos em doçura e suavidade para com o próximo? Quando veremos as almas de nossos próximos no peito sagrado do Salvador? Ai de nós! Quem olha o próximo fora disso, expõe-se ao risco de não o amar, nem puramente, nem constantemente, nem igualmente; mas lá, nesse lugar, quem o não amaria? Quem o não suportaria? Quem não lhe sofreria as imperfeições? Quem o acharia antipático? Quem o consideraria enfadonho?” “Sobretudo, insiste ele, é indispensável que tenhamos um coração bom, brando e afetuoso para com o próximo, e particularmente quando ele nos molesta e entedia; porque então não temos nada nele para o amar, exceto o respeito do Salvador, o que torna o amor, sem dúvida, mais excelente e digno, na proporção em que é mais puro e isento das condições caducas”.

Essas vistas sobrenaturais São Francisco de Sales as relembra sempre que nos exorta à mansidão e tolerância fraternas.”Trabalhai por adquirir a suavidade de coração para com o próximo, considerando-o como obra de Deus, e que enfim gozará, se assim aprouver à bondade celeste, do paraíso que nos está preparado. E os que Nosso Senhor suporta, nós devemos suportar com ternura, com grande compaixão pelas suas enfermidades espirituais”. Impelidos por esses motivos de fé, combateremos fielmente as nossas impaciências, reprimiremos nossos assomos de cólera, triunfaremos das aversões e repugnâncias pelo exercício da mansidão. “Combatei fielmente vossas impaciências não somente a todo propósito mas ainda fora de propósito, a santa bonhomia e mansidão em relação àqueles que vos são mais enfadonhos, e Deus abençoará o vosso desígnio”. “Tratai com extrema doçura e caridade com o próximo e as Irmãs, sobretudo com aquelas que, devido à imperfeição de seu espírito, falta de graças naturais ou maus ofícios, vos ocasionarem alguma aversão e aborrecimento”.

“Sede boa para com o próximo, e não obstante as revoltas e assomos da cólera, pronunciai em freqüentes ocasiões estas divinas palavras do Salvador: “Eu os amo, Senhor, Pai eterno, a esses próximos, porque vós os amais e mos destes por irmãos e irmãs, e quereis que, como vós os amais, eu os ame também! Amai, sobretudo, essas caras irmãs com as quais a própria mão da Providência divina vos associou e ligou com um vínculo celeste; suportai-as, acariciai-as e ponde-as dentro de vosso próprio coração”. “Não duvido que se declarem aversões e repugnâncias em vosso espírito; mas, minha muito querida filha, são ou¬tras tantas ocasiões de exercitar a verdadeira virtude da mansidão; porque é mister fazer bem e santamente, e afetuosamente o que a cada um devemos, embora com repugnância e sem prazer”.

Nunca aceitaremos em nosso coração sentimentos de ódio, e seremos bastante senhores de nós mesmos para refrearmos a nossa língua e nos proibirmos queixas e lamúrias sem fim por conta dos que nos teriam censurado. “É preciso, sobretudo, combater o ódio e os descontentamentos para com o próximo, e abster-se de uma imperfeição insensível, mas grandemente nociva, da qual poucos se abstêm; que é que, se nos acontece censurarmos o próximo ou nos queixarmos dele (o que raramente devia acontecer), não acabamos mais, mas recomeçamos sempre e repetimos nossas queixas e lamúrias sem fim: o que é sinal de um coração picado e que ainda não tem saúde verdadeira.

Não se lamentam os corações fortes e enérgicos a não ser por grandes razões, e ainda assim, quanto a essas grandes razões, não conservam eles muito ressentimento, ao menos com perturbação e ansiedade”. Esse conselho de São Francisco de Sales, empenhar-nos-emos nós em segui-lo, ainda que a nossa caridade não seja retribuída, porque é no Coração de Cristo que se aviva nos nossos a chama do puro e desinteressado amor ao próximo. “O grande bem, a nossa felicidade na perfeição, seria não termos nenhum desejo de sermos amados pelas criaturas. Que vos há de importar que vos amem ou não? E se encontrais ocasiões que vos fazem parecer que não gostam de vós, é necessário que prossigais em vosso caminho, sem vos entreterdes a considerá-las.

Devemos amar ao próximo e ter-lhe afeição, a cada um na sua categoria, conforme o desejo de Nosso Senhor, tudo fazendo que esteja ao nosso alcance para contentá-lo e ser-lhe proveitosos, porque esse é o desejo de Deus. E se aprouver a Deus que tenhamos amor de seus corações, é uma grande consolação e bênção de Deus: e se isso não aprouver à sua bondade, deve contentar-nos com o amor do Coração de Nosso Senhor, que é mais do que suficiente”.

Mesmo simpático, pode o próximo irritar-nos com as suas importunações, suas opiniões diferentes das nossas e, sobretudo se é de nossa família ou pessoa chegada a nós com as suas omissões e até com os seus testemunhos de afeição. Suas importunações. Não esconde o bispo que “as incursões que os amigos fazem em nossa liberdade, são mavilhosamente molestas; mas, afinal, escreve ele, cumpre suportá-las, depois carregá-las e finalmente amá-las como amadas. contradições”. Estamos mergulhados em um trabalho que nos absorve toda a atenção, e vêm distrair-nos com bagatelas; rebaixam a gravidade de nosso espírito a futilidades, retêm-nos sobre questões ociosas.”Amai a santa virtude de suportar os outros e a da santa flexibilidade”, escrevia São Francisco de Sales; e, com a costumada condescendência, ei-Io que se adapta a todos os estados de alma e se esforça por responder a todas as perguntas. Uma religiosa da abadia de Santa Catarina tem algum escrúpulo de recitar um Pai Nosso para dissipar dores de cabeça: “O Pai Nosso que dizeis para a dor de cabeça não é proibido; mas, meu Deus, minha filha, não, eu não teria coragem de pedir a Nosso Senhor, pela dor que sentiu na cabeça, não ter dores nenhuma na minha. Acaso Ele suportou para que nós não suportássemos?

Santa Catarina de Sena, vendo que seu Salvador lhe apresentava duas coroas, uma de ouro, outra de espinhos: “ó, eu quero a dor, diz ela, para este mundo: a outra será para o céu”. Quisera empregar a coroação de Nosso Senhor para obter uma coroa de paciência à volta de minha dor de cabeça. .. Vivei toda entre os espinhos da coroa do Salvador e, como um rouxinol, no seu arbusto, cantai, filha minha: ‘Viva Jesus’

Uma de suas filhas da Visitação se entristece e se inquieta por não conseguir chorar de devoção.”Não vos digo nada, minha boa filha, de vosso coração quanto a não terdes lágrimas. Não, minha filha, porque o pobre coração não é responsável disso, visto como isso não acontece por falta de resoluções e vivos afetos de amar a Deus, e sim por falta de paixão sensível, que não depende em nada de nosso coração, mas, de outra espécie de disposições que não podemos conseguir; porquanto da mesma forma, minha querida filha, que neste mundo não é possível que possamos fazer chover quando queremos, nem impedir que chova quando não queremos que chova, também não está em nosso poder chorar quando queremos, por devoção, nem deixar de chorar também, quando a veemência dos afetos nos empolga. Isso não vêm de nossa falta, o mais das vezes, mas da providência de Deus, que nos quer fazer seguir o nosso caminho por terra e pelo deserto, e não pelas águas, e quer que nos acostumemos ao trabalho e à dureza”.

Pode o próximo parecer-nos importuno quando não se compagina com as nossas idéias. Nesse caso, na discussão, os esquentamos e defendemos o nosso parecer com um vigor obstinado. São Francisco de Sales não se obstinava. Tinha por regra “nunca contradizer ninguém, a não ser que houvesse pecado ou dano notável em deixar de fazê-lo”. E dizia: “Quando é preciso contradizer alguém e opor a própria opinião à de outrem, é necessário usar de grande brandura e destreza, sem querer violentar o espírito de ninguém, porque não se ganha nada agindo com aspereza. .. O espírito humano pode ser persuadido, não constrangido. Constrangê-lo é revoltá-lo”.

Na discussão com os protestantes, logo apaixonada, preferia ele, por isso, a exposição simples da doutrina cristã. Verdade é que infundia nela uma flama tal, um tal acento de amor, que comovia os corações e desse modo inclinava os espíritos a aceitar a verdade. Escrevia a madame de Chantal: “Estando em Paris e pregando na capela da Rainha sobre o dia do juízo (não é um sermão de controvérsia), encontrava-se aí uma senhorita, chamada mademoiselle Perdreauville, que viera por curiosidade; ela ficou nas redes, e com esse sermão fez o propósito de se instruir, e três semanas depois trouxe toda a família para se confessar comigo e fui padrinho de todos eles na confirmação. Vede, no entanto, que esse sermão que não foi feito contra a heresia, respirava, ainda assim, contra a heresia, porque Deus me deu nessa ocasião esse espírito em favor daquelas almas. Desde então tenho dito sempre que quem prega com amor prega bastante contra os herejes, embora não diga uma só palavra de disputa contra eles”.

“Deveríeis todas as manhãs, antes de qualquer coisa, pedir a Deus que vos desse a verdadeira doçura de espírito que ele exige das almas que o servem, e tomar a resolução de vos exercitar bem nessa virtude, sobretudo para com as duas pessoas para com quem tendes o maior dever. Deveis fazer essa empresa de bem vos governardes nisso, e de vos lembrardes dela cem vezes ao dia, recomendando a Deus esse bom desígnio; porquanto não vejo que tenhais muito que fazer para bem sujeitar a vossa alma à vontade de Deus, a não ser abrandá-la dia a dia, pondo a vossa confiança em sua bondade.

Feliz sereis, filha mui querida, se assim fizerdes, porque Deus habitará no centro de vosso coração e aí reinará em plena tranqüilidade. Mas se por acaso cometerdes alguma falta, não percais a coragem; tornai a vós sem detença, exatamente como se não tivésseis caído. Curta é esta vida, e não nos é dada senão para ganharmos a outra; e bem a empregareis se fordes doce e tratável para com essas duas pessoas com as quais Deus vos colocou”. Essa “doçura incomparável com a qual, sem violência alguma, submetia tudo à sua vontade”, causava admiração ao seu amigo, o bispo de Belley. A respeito do bispo de Genebra dizia ele certa vez a um grande e santo prelado: “Ele faz o que quer, e de maneira tão suave e apesar disso tão forte, que nada lhe pode resistir. Caem mil à sua esquerda e dez mil à sua direita. Tudo cede às suas persuasões; atingindo o objetivo ao qual visa e fortemente, não diríeis que ele o atingisse e que está feito”. Responde-lhe outro: “É a mesma doçura que o torna tão poderoso”. Como efetivamente, resistir ao encanto sedutor de tão amável virtude?

São Francisco de Sales bem o sabia. Costumava dizer ”que se atraem mais moscas com um colherada de mel que com cem barris de vinagre”, e que se “O espírito humano se engrila contra o rigor, pela suavidade torna-se submisso a tudo”. Assim resumia sua experiências: ”Bem-aventurados os que são doces: possuirão a terra, ou seja, serão os donos dos corações e todas as vontades estarão nas suas mãos, sobretudo a vontade de Deus”.

São Francisco de Sales: rogai por nós!

Adaptação do livro: As fontes da Alegria – SALES, São Francisco. – A Mansidão para com o Próximo – Tradução: Cônego F. Vidal. Edições Loyola –São Paulo -1978. pgs.155 -191

Facebook Comments

Livros recomendados

José, o silenciosoOs anjos na vida dos santosTibieza e os dons do Espírito Santo