Pouco tempo antes de assumir como Primeira-Ministra do gabinete britânico, Margaret Thatcher surpreendeu os seus compatriotas com palavras de conciliação e esperança. Chegou a citar São Francisco de Assis diante da porta da Rua Downing 10, expressando o desejo de seu futuro governo trazer verdade, fé, harmonia e esperança ao Reino Unido. Poucos imaginavam a distância que o Reino percorreria nos próximos onze anos em que Thatcher comandaria o destino da nação.

De certa forma, os britânicos experimentaram antes que o resto do mundo a “corrida para a esquerda” que caracterizou a política de todas as nações do Ocidente nos anos do pós-guerra. Para longe ficava a Inglaterra mercante e experiente, que dominava os mercados. Quando Thatcher dispôs-se a iniciar o seu governo, a velha Albion tinha se transformado em uma nação quase socialista, em que os principais meios de produção eram controlados pelo Estado ou por sindicatos que consumiam o rendimento que outrora pertencera à forte indústria nacional.

Creio que o ponto mais baixo do desastre impulsionado pelos trabalhistas e os tíbios conservadores foi no exato momento em que a União Soviética comunicou ao Ministro do Comércio inglês que não iria mais adquirir produtos britânicos, por considerá-los de péssima qualidade. Conhecendo a terrível falta de qualidade da produção industrial soviética, o desdém daquela comunicação deixava de sê-lo e se transformava numa insultante injúria. Os políticos e líderes ingleses em geral já tinham se resignado a viver em uma sociedade doentia e alienada. O ressentimento que precedeu a eleição de Thatcher acumulou rancor e descontentamento, alimentado pelas greves dos sindicatos sempre insatisfeitos, que tinham deixado a Inglaterra passar frio durante todo o inverno, enquanto que o lixo se acumulava nas ruas e até mesmo os mortos ficavam sem ser enterrados. O sonho pseudo-socialista se transformava não em um pesadelo, mas em uma enxaqueca persistente e impiedosa, que fazia a sociedade sofrer sem misericórdia.

Talvez a maior das virtudes de Thatcher foi compreender o Socialismo e vê-lo como realmente é: um sistema que funciona até o ponto que fica sem dinheiro para tirar “dos ricos”. [Thatcher] tratou a economia inglesa de maneira brutal e também efetiva. Primeiro, impôs um torniquete na hemorragia dos fundos públicos. A ideia era deter o aumento incessante dos impostos que financiavam toda espécie de programas ineficazes e parasitários. Sem descuidar dos trabalhadores, propôs a eles algumas saídas econômicas, todas caracterizadas por um princípio bastante simples: o dinheiro é conquistado, não é um presente do Estado, mas o resultado da individualidade produtiva.

Muitas indústrias foram novamente privatizadas. Os sindicatos se opuseram, mas a força esmagadora e a habilidade política de Thatcher derrubou os líderes frágeis que já não representavam os trabalhadores, mas os considerava apenas como um feudo, do qual extraíam a máximo possível de dinheiro. O tamanho do Estado foi reduzido, especialmente no que dizia respeito às entidades regulamentadoras que entorpeciam o desenvolvimento do comércio e da indústria mediante uma rede interminável de condições onerosas e impossíveis de serem plenamente satisfeitas. Contra tudo o que pregavam os economistas do seu tempo, alterou a política cambiária e estabeleceu uma disciplina monetária severa, liberando capitais para pudessem ingressar investidores e os capitais ingleses puderam também ser produtivos no exterior.

Mesmo depois de ter se afastado da luta política, seus opositores respeitaram a disciplina fiscal por ela imposta. Isto constitui um dos seus maiores êxitos: o senso comum retornara à admistração do Reino, algo que tinha estado ausente desde os dias de Churchill. Até Tony Blair, o trabalhista que a sucedeu na Rua Downing, admitiu efetivamente aos ingleses que era melhor para estes viver no Capitalismo. Ninguém queria voltar aos dias sem eletricidade e ao fedor do lixo não recolhido [nas ruas].

A tibieza dos conservadores que tropeçavam em seus princípios tinha minado os fundamentos do primeiro país capitalista da História, até transformá-lo em uma sociedade doentia e odiosa, em que tudo era negociado pelo consenso e onde as coisas pioravam ano após ano, enquanto que os políticos pouco mais faziam do que criar comissões, discursar, inventar desculpas para a sua incompetência, procurar culpados e aumentar os impostos, enquanto que a qualidade de vida desmoronava para níveis abaixo dos da Espanha e da Grécia.

Thatcher se negou a descer por esse tobogã e começou a rebocar a classe política inglesa, surpresa e desprezada, por um novo caminho que, no início, apenas ela acreditava ser possível: realinhar a economia do Reino conforme os princípios de Friedrich Hayek e os economistas da Escola de Viena. Seu total desprezo pelo modo de vida e falhas morais da ideologia comunista a levaram a estabelecer uma aliança com Ronald Reagan contra a União Soviética. Eles, juntamente com Miterrand e Khol, assentaram as bases para a queda do domínio soviético no pós-guerra, algo que ela chegou a ver com os seus próprios olhos.

Quando a ditadura dos generais quis distrair a atenção dos argentinos, estabelecendo a reconquista das Ilhas Malvinas – às quais Thatcher pretendia renunciar por considerá-las fonte de um gasto estúpido, eis que as via como um território inservível para a Coroa – Thatcher precisou escolher entre servir a sua política de senso comum econômico ou “salvar a pele” dessa Inglaterra humilhada por um ditador sulamericano tão caricaturesco quanto os ocupantes do Kremlin. Mais uma vez, contra o conselho de seus assessores militares – assim como anteriormente tinha ido contra o conselho de seus assessores econômicos – enviou uma força-tarefa às Ilhas e conseguiu recuperá-las, o que ampliou a sua vida política que então começava a fraquejar.

Um subproduto dessa atitude foi o fim dos golpes de Estado militares na Argentina, que se encontrava em um círculo vicioso de autoritarismo e governos civis de mãos atadas desde a década de 1930. A mãe da democracia argentina foi, ironicamente e de ricocheio, essa mulher que perfumava sua carteira com lavanda e que foi capaz de demonstrar a um general de faz-de-conta que as guerras são ganhas com audácia, com cérebro e não com meras palavras.

Até Gordon Brown decidir reinventar o pressuposto britânico e retornar aos anos de incompetência, foi Thatcher quem assentou as bases dos sucessos de John Major e Tony Blair. A mesma Inglaterra que se fundia em “quieto desespero” por volta de 1978, surgia pujante como líder europeia dos anos 1990 graças a Thatcher ter acreditado nos ingleses quando eles próprios tinham perdido a fé e a esperança.

Apesar de tudo, seu legado não careceu de erros. Muitas coisas ficaram sem fazer e seus sucessores não eram pessoas do calibre necessário para completar a obra que Thatcher deu início. Hoje, porém, apesar de alguns de seus detratores estarem felizes por vê-la morta, mesmo nestas praias distantes [da América do Sul] chega o exemplo da sua herança de coragem e determinação, algo digno de ser copiado por estes que, sendo seus inimigos de ontem, talvez possam de alguma forma reunir suficiente coragem e decência para imitar algo de todo bem que ela fez para esse país que amou e que salvou da ruína com uma determinação que somente uma mãe poderia impor. Esperemos que alguém, com um pouco de cérebro, adote a ideia.

Descanse em paz, Lady Thatcher.

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Margareth Hilda Roberts Thatcher

Nasceu aos 13 de outubro de 1925, em Grantham, Lincolnshire, falecendo aos 8 de abril de 2013, em Londres. Estudou Química no Sommervile College, Oxford, graduando-se com louvor em 1947. Foi eleita presidente da Associação Conservadora da Universidade Oxford, em 1946. Durante seus anos de estudo, formou-se nas ideias de Friedrich von Hayek, autor de “O Caminho para a Servidão” (“The Road to Serfdom”), livro em que Hayek condena a intervenção do Estado na economia como um vício capital que antecede ao autoritarismo e a ditadura.

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