Fui protestante (holandês reformado) pelos primeiros 21 anos de minha vida. Tornar-me católico foi uma das duas melhores coisas eu jamais fiz – isto, e casar com a melhor mulher do mundo. Porém, nunca perdi meu respeito e afeto pela fé de meus amigos protestantes. Esta parte do livro é projetada para ajudar católicos a entender as sérias objeções protestantes ao catolicismo e ajudar às responder.

Tal tarefa é necessária, não opcional. Estamos em uma nova época de ecumenismo. As linhas de batalha estão sendo radicalmente esclarecidas e redefinidas. Está se tornando cada vez mais claro (quase em toda parte, exceto na Irlanda do norte, parece-me) a ambos os “lados” que não estamos reconhecemos nossos inimigos reais. Um católico ortodoxo e um protestante ortodoxo possuem muito mais em comum que qualquer um destes com um modernista da sua própria igreja. As perguntas que dividem protestantes e católicos, como se os papas são infalíveis, são obviamente menos importantes que as perguntas que dividem ortodoxos de modernistas, como se Cristo realmente ressuscitou dos mortos. Se os papas não são infalíveis, então nossa certeza sobre o dogma pode estar com problemas, mas “se Cristo não ressuscitou dos mortos, a nossa fé é vã”.

Muito mais mal-entendidos e hostilidades ocorreram nos últimos trinta anos que nos prévios trezentos, em grande parte por causa do Vaticano II e dos últimos quatro papas, pois todos colocaram o diálogo com os protestantes em suas agendas. Aliás, João Paulo II anunciou que  um dos três itens prioritários para seu pontificado era a união, primeiro com os ortodoxos orientais. (Os outros dois eram a reforma na igreja na América e a prevenção da guerra nuclear)

Curar o cisma de 1054 com os ortodoxos orientais envolve sobrepujar de longe menos obstáculos que curar a divisão da revolta protestante, naturalmente. Nós ainda não podemos abandonar esta esperança, pois é nosso Senhor quem claramente diz que seremos “um só rebanho, com um só pastor”. Nossas divisões não são necessárias, não na natureza das coisas. Todas elas começaram na história, e eles podem acabar na história.

Uma coisa que nós podemos fazer para ajudar é entender nossos “irmãos separados” protestantes. Esta tarefa envolve o entendimento de como eles nos entendem, ou nos entendem mal. Este é nosso tema aqui.

O principal assunto que nos separa, sob o qual outros permanecem e se sustentam, é a natureza e autoridade da Igreja, pois todas as coisas que os católicos acreditam e que os protestantes não (ex. os sete sacramentos, transubstanciação, orar a santos, concepção imaculada de Maria e sua assunção, infalibilidade papal), os católicos acreditam por causa do que é ensinando pela autoridade da Igreja.

O que é a Igreja? Como o papa João XXIII propõe, ela é nossa mater et magistra (mãe e mestra), mas é mãe antes de ser mestra. Nascemos numa família espiritual, não por nascimento físico mas pela fé e pelo batismo. Esta família espiritual tem vários nomes. Os três mais importantes são (1) a Igreja, ek klesia, literalmente “chamar para fora”, esses que são chamados por Deus para fora do mundo para fazer parte do novo  mundo, o Seu Reino; (2) o corpo místico de Cristo, os pés e mãos do próprio Cristo; (3) povo de Deus, a família de Deus.

Como os protestantes entendem a Igreja? Pelo fato de que tudo que acabo de dizer sobre a Igreja ser claramente ensinado nas Escrituras e porque os protestantes ortodoxos crêem em toda a Escritura, eles deveriam crer em todas estas coisas. Então, onde está a discórdia?

Primeiro, há uma diferença na ênfase. Os protestantes são mais individualistas que os católicos. Tendem a pensar que os indivíduos são salvos primeiramente e só então unem-se em um tipo de sociedade dos salvos. Os católicos pensam, pelo contrário, que ser salvo é estar na Igreja, como Noé e seus filhos foram salvos por estarem dentro da Arca (A propósito, os Pais da Igreja freqüentemente usaram a Arca de Noé como um símbolo para a Igreja. Quando você compara a variedade de criaturas em ambos compartimentos, a comparação parece adequada).

Mas os protestantes também têm que admitir que a Igreja é não só um clube social humano, mas de origem divina porque a Escritura claramente ensina isto. Onde, então, diferem conosco? Sua crítica é normalmente que os católicos ignoram a necessidade do indivíduo fazer uma decisão pessoal por Cristo, ou escolher acreditar; que os católicos pensam que, por nascer na fé, herdarão a salvação de seus pais.

Mas isto não é uma discórdia doutrinal! É um interesse pastoral prático. A maioria dos protestantes está disposta a admitir que o individualismo é um erro, e a maioria dos católicos está disposta a admitir que o fato de que basta nascer na fé é um equívoco. Então, onde está a discordância doutrinal, dogmática sobre a Igreja?

Talvez isto seja de interesse da autoridade da Igreja. Vamos supor que tanto protestantes como católicos entendem a verdadeira natureza da autoridade: que ela significa direito, não poder, de fato, “direito autoral”, e que em Cristo é construída por amor e serviço, não por imposição sobre os outros. Uma vez que os protestantes entendam esta definição e entendam que os católicos entendem-na também desta forma, o temor a respeito da autoridade da Igreja em grande parte é dissipado.

Os protestantes, aceitando a Escritura, e porque a Escritura ensina claramente a autoridade da Igreja (“Os que os ouvem, a mim ouvem”, disse Cristo a seus apóstolos), admitem que a Igreja possui autoridade. Mas alguns deles restringem esta autoridade somente à primeira geração de apóstolos, esquecendo que estes apóstolos ordenaram sucessores autorizados, os bispos. Se acreditares na autoridade de Cristo e da Escritura, você deve acreditar na autoridade dos apóstolos porque, de acordo com a Bíblia, Cristo os autorizou; e se acreditas na autoridade dos apóstolos, deves acreditar na autoridade de seus sucessores porque os apóstolos os autorizaram.

Alguns protestantes aceitarão esta sucessão em princípio, mas dizem que a Igreja Católica traiu sua autoridade por abusar dela (este argumento confunde a pessoa com o cargo) ou que a Igreja reivindica autoridade demais (mas como mensuram o que é demais?) ou que a Igreja Católica não é a única Igreja com autoridade divinamente comissionada. Este última idéia é bem antibíblica pois Cristo nunca falou de “igrejas” (no plural), só de “Igreja” , “minha Igreja”. Ele não é um polígamo.

Os protestantes respondem que estas referências à Igreja se aplicam somente à “Igreja invisível”, não a uma  “Igreja visível”. Mas embora a Igreja seja invisível (mística), é também visível, e visivelmente uma só, pela Escritura. São Paulo se escandalizou com o início dos denominacionalismos em Corinto.

Alguns protestantes acreditam que os católicos acham que a Igreja Católica é divinamente inspirada, assim como a Bíblia, e tem a autoridade de “inventar” novos dogmas. Isto é um equívoco por demais gigantesco. A Igreja não reivindica inspiração divina para adicionar revelação alguma, mas apenas confere à verdade proteção providencial, salvaguardá-la de toda e qualquer subtração. Mesmo os dogmas que não são explicitamente encontrados na Bíblia, como a infalibilidade papal e a assunção de Maria, não são novidades, mas antigos ensinamentos. A Igreja apenas definiu as doutrinas que têm sido cridas e vividas desde o início do cristianismo.

A infalibilidade papal certamente parece ser um dogma especificamente católico que os protestantes não podem aceitar. Mas eles freqüentemente o entendem mal. Primeiro, eles freqüentemente vêem o papa mais como um autocrata que como a cabeça de um corpo (a cabeça é parte de um corpo, não flutua acima dele no ar…). Segundo, eles freqüentemente pensam sobre a Igreja em linhas políticas e querem que seja uma democracia. Mas a Escritura pensa na Igreja em linhas orgânicas, e nenhum corpo orgânico é uma democracia. Terceiro, eles freqüentemente entendem mal a infalibilidade como conectada ao Papa pessoalmente. Na verdade, está unida ao ofício, ao cargo, não à pessoa que o exerce, e somente ao definir uma doutrina sobre fé ou moral cristã.

Talvez em minha pressa eu esqueci de algo. Mas parece que todas as diferenças entre protestantes e católicos neste fundamental assunto, divisor de águas, a natureza e autoridade da Igreja, resumem-se em (1) diferenças na ênfase, (2) críticas pastorais práticas, (3) argumentos escriturísticos refutáveis, ou (4) equívocos. Se então é assim, então não há nenhum obstáculo em princípio à reunião sem compromisso de dogma.

Esta manhã, quando recebi a Eucaristia, um pensamento golpeou-me: “Como somos diferentes dos protestantes: eles não têm nenhuma Presença Real Eucarística!”. Mas então uma certeza veio: “Como parecidos com eles nós somos até quando recebemos a Eucaristia, pois toda a questão da Eucaristia é o mesmo Cristo que eles também amam como seu princípio e fim”.  Nossos sinais são mais ricos, mas o significado é o mesmo. Ele vem a nós por estradas diferentes (ex., a Missa), mas o que vem buscar e consolar suas ovelhas é um só. E quer trazer todos para uma única casa.

Fonte: Fundamentals of the Faith. Ignatius, pp. 267-271. Tradução do Veritatis Splendor por Rondinelly Ribeiro.

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