Transcrevemos a seguir o relato do historiador pagão Tácito sobre a perseguição desencadeada contra os cristãos pelo imperador Nero, logo após o incêncio de Roma ocorrido no ano 64 dC. O trecho foi extraído de sua obra “Anais”, livro XV,44, escrita no início do séc. II (entre 115 e 120 dC).

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“Nenhum meio humano, nem os gestos de generosidade do imperador [Nero], nem os ritos destinados a aplacar [a ira] dos deuses, faziam cessar o boato infame de que o incêndio havia sido planejado nas altas esferas. Assim, para tentar abafar esse boato, Nero acusou, culpou e entregou às torturas mais deprimentes um grupo de pessoas que eram detestadas por seu comportamento e que o povo chamava “cristãos”.

Este nome lhes provém de Cristo, [um homem] que no tempo de Tibério havia sido entregue ao suplício pelo procurador Pôncio Pilatos. Reprimida no momento, essa execrável superstição surgiu novamente, não apenas na Judéia – seu lugar de origem – mas também em Roma, onde tudo aquilo que há de ruim e vergonhoso no mundo chega e se espalha.

Primeiramente começou-se a prender aqueles que se reconheciam como cristãos; depois, a partir da confissão destes, muitos outros foram considerados culpados, mais pelo ódio do gênero humano do que pelo próprio incêndio. À execução deles foi acrescentada a zombaria, cobrindo-os com peles de animais – a fim de que morressem mordidos por cães – ou pendurando-os em cruzes – a fim de que servissem como tochas vivas para iluminar a noite. Nero oferecera seus jardins para este espetáculo e organizava jogos no circo, misturando-se ele mesmo ao populacho com roupas de auriga, ou ficando de pé sobre um carro. Desta forma, ainda que estes homens fossem culpados e merecessem ser castigados com rigor, acabavam por despertar a compaixão, estimando-se que não eram sacrificados pelo interesse da nação, mas pela crueldade de um só homem.”

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