Patrística e Patrologia Patrologia Pe. Juan Carlos Sack

A Presença Real de Cristo na Eucaristia, segundo a Patrística

Os “primeiros cristãos”, os “reformadores protestantes” e os “modernos evangélicos” diante das palavras de Jesus sobre a Eucaristia…

INTRODUÇÃO[0]

O presente trabalho tem por finalidade aproximar o leitor de fala portuguesa dos textos patrísticos mais importantes, bem como dos textos de outros escritores eclesiásticos antigos, sobre o modo da presença de Jesus Cristo na Eucaristia (real, simbólico, virtual, dinâmico etc.). Foram acrescentados também os textos de alguns “reformadores” do século XVI.

Os textos de alguns “modernos evangélicos” são aqui expostos para compará-los com o pensamento da Igreja do primeiro milênio e com o pensamento dos “reformadores” protestantes.

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– “O Corpo e o Sangue do Senhor deveriam experimentar um contínuo aumento de massa à medida que, por tantos séculos, todos os dias, se tem ‘transubstanciado’ pão e vinho” (Jetônio, evangélico).
– “Quanto ao fato de [o Corpo de Cristo] estar em um lugar [ou vários ao mesmo tempo, nas hóstias consagradas], já vos disse antes e vos intimo: não quero nada de matemáticas!” (Martinho Lutero).
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Neste artigo não tratamos diretamente dos textos bíblicos sobre a Eucaristia. Para estes, remetemos aos artigos publicados em outros pontos deste Site. (…)

O que motivou este trabalho foi o surgimento na Internet de artigos que não apenas negam a realidade da presença de Jesus Cristo na Eucaristia, como também se atrevem a ironizá-la. Neste artigo esses autores – e também os nossos leitores – descobrirão se as suas palavras e doutrinas se assemelham àquelas dos antigos cristãos e até mesmo dos hereges de todos os tempos. É importante perceber nitidamente que a Igreja [Católica] não nasceu ontem; esquecer a História da Igreja é negar, na prática, a ação do Espírito Santo nestes últimos 2000 anos.

Com efeito, visto que estes “cristãos evangélicos” se aproximam das Escrituras “sem a mediação de tradições humanas” – segundo nos afirmam com notável insistência – o resultado inevitável é que cada geração de “evangélicos” deve recomeçar sua interpretação das Escrituras, como se eles fossem os primeiros a descobrir as dificuldades apresentadas pela Revelação e o texto bíblico, ou como se fossem os únicos capazes de interpretar as Escrituras “mediante uma exegese adequada”. Deste modo, obtém-se uma situação que, em qualquer outra área do saber humano, se tornaria a maior das negligências, isto é: os problemas, questões e soluções que foram feitos e fixados sobre o Evangelho no decorrer dos séculos tornam a ser tratados como se nunca ninguém os tivessem considerado antes[1].

Sobre a doutrina eucarística, os exemplos são numerosos. O discurso de Jesus em João 6, as palavras de instituição nos Sinóticos e nos testemunhos de Paulo, cuja misteriosa realidade impactou a Igreja de Deus desde sempre e provocou tanta aversão entre os inimigos da Igreja, são agora tratados pelos modernos opositores do mistério eucarístico como nunca ninguém tivesse lido as Escrituras antes deles. E querem desde logo que a Igreja, ou pelo menos os católicos menos instruídos, aceitem essas novas interpretações, que depois certamente terão que abandonar para aceitar as próximas novidades interpretativas do “evangélico” seguinte que decida estudar os textos bíblicos como se fosse o primeiro a concluir e se convencer de que a sua interpretação é a autêntica “exegese adequada”[2].

Diante desta realidade, pareceu-me oportuno apresentar ao leitor o que outras pessoas pensaram e ensinaram acerca da Eucaristia, pessoas estas que conheciam as Escrituras muito melhor que qualquer um destes “evangélicos”, e que foram tidos em vida – e também depois de falecidos – como autênticos discípulos de Cristo, estando muito mais próximos da Igreja Apostólica e possuindo o Espírito Santo tanto ou até mais que qualquer um dos que hoje se apresentam quase que como Sua atual personificação.

Citarei em primeiro lugar algumas expressões que o leitor pode encontrar nesses sites “evangélicos” e, a seguir, proporei os textos patrísticos e dos “reformadores” do século XVI: a contraposição de textos falará por si mesma. Apresentarei também os textos patrísticos que são extraídos desses Sites “evangélicos” como “simbólicos”, por serem lidos fora do contexto e sem o conhecimento das circunstâncias.

OS “CRISTÃOS EVANGÉLICOS”

Usarei textos do Site “evangélico” Conoceréis la Verdade, pertencente à denominação cristã evangélica batista. Há na Internet (…) outros artigos anti-eucarísticos, mas este Site batista apresenta as objeções mais comuns neste sentido. Aí é possível encontrar as seguintes doutrinas sobre a Eucaristia:

– “O Cristianismo evangélico afirma que [a Eucaristia] é apenas uma comemoração do momento em que Jesus representa o sentido de Seu sacrifício expiatório aos Seus discípulos. Por consequência, por ser uma ‘recordação’, o resultado é que o pão continua sendo pão e o vinho continua sendo vinho”[3].

– “E o comer Seu corpo físico seria canibalismo, um ato que Ele não aprovaria e muito menos recomendaria”[4].

Comentando as palavras de Jesus na Última Ceia, diz também:

– “Ninguém poderia ter interpretado literalmente essa declaração, pois Ele estava ali sentado, em seu corpo físico, e sujeitando o pão em suas mãos. É óbvio que o pão era simbólico”.

E ainda:

– “Podemos estar seguros de que nenhum dos discípulos de Cristo imaginou que o pão por Ele sustentado era Seu corpo literal. Que isto fosse o Seu corpo literal e, ao mesmo tempo, Cristo estar ali em seu corpo literal era impossível. Tal fantasia não ingressou na mente dos presentes e não foi inventada a não ser muito tempo depois. Certamente as palavras de Cristo não comunicaram tal coisa, nem temos qualquer razão para crer que os discípulos derivaram delas semelhante significado. Foi o Papa Pio III quem fez do ‘sacrifício’ da Missa um dogma oficial em 1215″[5].

Se lê também nesse Site expressões ofensivas e descaradas, como uma que afirma que a Eucaristia, como presença real de Jesus Cristo, seria parte de um “truque” para manter os católicos na Igreja, visto que fora da Igreja – conforme ensina a doutrina católica – não há celebração eucarística válida e, portanto, não há jeito de se receber o Corpo salvífico do Senhor a não ser participando das celebrações católicas: “O truque está aí”, conclui o apologista batista.

Assim, ou seja, pela doutrina eucarística, “o Catolicismo está separado, por um abismo intransponível, de todas as outras religiões e, especialmente, do Cristianismo evangélico”.

Em um artigo sobre a Ceia do Senhor assinado por Guillermo Hernández Agüero, publicado no Site “Conoceréis la Verdad”, se faz uma fugaz referência ao que “alguns Padres patrísticos” ensinam acerca do pão eucarístico. Não me causa espanto a magra apresentação “patrística” que ali se faz: uma das notas características do evangelismo fundamentalista é precisamente a atitude sectária de rejeitar na prática – e frequentemente também na teoria – a experiência e o pensamento dos cristãos, mártires e santos, pastores e simples fiéis que viveram antes de nós, sem excluir aquelas que são testemunhas valiosas da Igreja Apostólica e Pós-Apostólica.

Digo “magra apresentação patrística” porque esse artigo traz só 2 (duas) citações dos “Padres patrísticos” para ilustrar aos (desprevenidos) leitores do Site batista:

– “Podemos nos aprofundar mais nos Padres, mas nosso tema neste caso é sobre a Santa Ceia[6]. No entanto, há alguns Padres que podem nos dizer algo sobre o nosso tema[7]: ‘Cristo, tendo tomado o pão e o tendo distribuído aos seus discípulos, o tornou seu corpo, dizendo: «Este é meu corpo», isto é, «a figura do meu corpo»’ (Tertuliano, Contra Marcião 4:40). Tertuliano nos dá a entender que não ocorre uma transubstanciação com o pão; ao contrário, nos ensina que isso é símbolo. ‘O pão, depois da consagração, é digno de ser chamado «Corpo do Senhor», ainda que a natureza de pão permaneça nele’ (Crisóstomo, Epístola a Cesarium)[8]. O interessante disto tudo, é que nem nos próprios Padres existe uma clareza sobre a Santa Ceia e menos ainda sobre a transubstanciação”.

Estas duas citações de dois Padres é todo o material patrístico que pode ser encontrado nos artigos “eucarísticos” do Site “Conoceréis la Verdad”. O leitor entenderá o porquê quando terminar de ler a presente [série de] artigo[s].

Hernández Agüero, depois de tentar desvirtuar o testemunho geral dos Padres (para que prevaleça o seu próprio testemunho, como é óbvio, e que ele afirmará ser “o que ensina a Bíblia”), pretende que seus leitores saibam “algo” do que “alguns Padres podem nos dizer acerca do nosso tema”, mas suas duas citações dificilmente podem ser tidas seriamente como “algo”, bem como seus dois Padres apenas podem cumprir o requisito mínimo para que se possa dizer “alguns Padres”.

Pergunto então: pela mente destes “evangélicos”, o que terá ocorrido com o mar de citações onde podemos ver os “Padres patrísticos” ensinarem a doutrina da presença real? Não conhecem elas? Não querem conhecê-las? Não interessa para eles mostrar o que a Igreja pensava nos primeiros séculos? Pois se eles conhecem essas citações, estaríamos diante de uma desonestidade intelectual bastante grosseira. Mas, se pelo contrário, não as conhecem, por que falam do que não sabem, dando aos seus leitores uma visão totalmente falsa da realidade patrística? Bem além do palavreado de Hernández Agüero, em seu artigo o leitor não poderá encontrar virtualmente nada do que os “Padres patrísticos” ensinaram sobre esta matéria. Seja qual for a intenção desta indouta docência “evangélica”, a abandonamos ao juízo de Deus…

A seguir, percorrermos a História da Igreja em seus melhores expoentes – os Santos Padres, os grandes escritores e testemunhas da Fé antiga – de modo que o leitor poderá depois reconhecer qual é a doutrina que está separada “por um abismo intransponível” do que a Igreja ininterruptamente crê desde as suas origens[9]. Apresentaremos também o que os Pais do Protestantismo ensinavam acerca desse tema. E para o benefício do leitor, acrescentaremos ainda uma breve resenha biográfica dos autores citados, que será mais detalhada naqueles mais antigos e mais resumida à medida que formos avançando nos séculos.

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– “Um corpo físico ocupa espaço e, portanto, só pode estar em um só lugar em um determinado tempo” (Daniel Sapia, evangélico).
– “Confesso que o corpo está no céu e confesso também que está no Sacramento. Se isto é ou não contrário à natureza, não me importa, contanto que não seja contrário à Fé” (Martinho Lutero).
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INÁCIO DE ANTIOQUIA

Uma das testemunhas mais importantes da Igreja Pós-Apostólica. Nascido na Síria, por volta do ano 50, mártir em Roma entre os anos 98 e 117 (mais possivelmente por volta do ano 110, devorado pelas feras). Foi o terceiro Bispo de Antioquia, logo após o Apóstolo Pedro e Evódio. Recebeu a doutrina evangélica da boca dos sucessores imediatos dos Apóstolos, sendo que alguns afirmam que foi discípulo direto de São João Evangelista. Conservam-se várias cartas que escreveu às jovens igrejas enquanto era conduzido a Roma para ser martirizado. A ele se deve a mais antiga aplicação da palavra “Eucaristia” (em grego, “ação de graças”) à celebração da Ceia do Senhor.

Nos textos aqui citados deve-se saber que Inácio precisou enfrentar, entre outras, a heresia chamada “Docetismo”, uma forma de Gnosticismo, segundo a qual Jesus Cristo não veio realmente em carne, mas apenas em aparência. Segundo esta heresia, Seu corpo não era real como o nosso, mas seria uma espécie de ilusão. Diziam, por exemplo, que a expressão “E o Verbo se fez carne” (João 1,14) devia ser entendida de modo simbólico, pois é “o espírito” que “vivifica; a carne para nada serve” (João 6,63)[10]. Santo Inácio fala acerca deles ao escrever para os cristãos de Esmirna, dizendo-lhes:

– “Eles se mantêm distantes da Eucaristia e da oração porque não querem confessar que a Eucaristia é a carne de Nosso Salvador Jesus Cristo, carne que sofreu pelos nossos pecados e foi ressuscitada pela bondade do Pai” (Cartas aos Esminenses 7,1).

Interessado em guardar a unidade da Igreja, escreveu também aos cristãos de Filadélfia:

– “Tomai cuidado para não celebrar mais do que uma só Eucaristia, porque não há mais do que uma só carne de Nosso Senhor Jesus Cristo e não há mais do que um cálice para a reunião de Seu sangue. Há um só altar, assim como há um só Bispo com os seus Presbíteros e meus irmãos, os Diáconos” (Carta aos Filadelfos 4).

Inácio reconhece na Eucaristia a única Carne e o único Sangue do Senhor, razão pela qual não pode ser aceita nenhuma celebração “paralela”, à margem da Igreja visível[11] Seguindo a prática da Igreja Apostólica, a Igreja Católica não admite como válidas as celebrações da Ceia do Senhor que não sejam presididas pelo Bispo ou por alguém por este designado, isto é, um Presbítero validamente ordenado[12].

JUSTINO MÁRTIR

Nasceu em Nablos, Palestina, entre os anos 100 e 110, de família pagã. Na sua juventude dedicou-se à filosofia, passando por diversas escolas, até que conheceu o Cristianismo e abraçou a fé. Juntamente com outros companheiros, foi decapitado por professar a religião cristã por volta de 165. As obras que nos chegaram são de caráter apologético, em defesa do Cristianismo contra os que o impugnavam.

Justino escreveu sua 1ª Apologia por volta do ano 155, onde explica ao Imperador Antonino Pio quais eram as verdadeiras práticas dos cristãos, já que sabia que o Imperador era frequentemente informado acerca desta nova religião através de testemunhos falsos ou grosseiras tergiversações, devidas à má vontade do informante ou sua ignorância sobre o culto cristão.

– “Este alimento chama-se entre nós ‘Eucaristia’, do qual ninguém mais é lícito participar senão aquele que crê que a nossa doutrina é verdadeira e que foi purificado com o batismo para o perdão dos pecados e regeneração, além de viver como Cristo ensinou. Porque estas coisas (=o pão e o vinho durante a celebração da Eucaristia) não as recebemos como se fossem pão comum e bebida comum, mas do mesmo modo que Jesus Cristo nosso Salvador se fez carne pela Palavra de Deus e tomou carne e sangue para nos salvar, assim também nos foi ensinado que o alimento convertido em Eucaristia pelas palavras de uma oração procedente Dele (=de Jesus) – alimento com que são alimentados nosso sangue e nossa carne através de uma transmutação – é a carne e o sangue daquele Jesus que Se encarnou por nós. Pois os Apóstolos, nos Comentários por eles redigidos, chamados ‘Evangelhos’, nos transmitiram que assim lhes foi ordenado: que Jesus, tendo tomado o pão e dado graças, disse: ‘Fazei isto em memória de Mim; isto é Meu corpo’ [Lucas 22,19; 1Coríntios 11,24]; e tendo tomado do mesmo modo o cálice, e dado graças, disse: ‘Isto é Meu sangue’ [Mateus 26,28]. E somente eles (=os Apóstolos) foram feitos participantes [dessa Eucaristia]. No que diz respeito aos mistérios (=a refeição) de Mitra, quem ensinou tais coisas foram os malvados demônios, pois sabeis, ou podereis saber, que quando alguém é iniciado neles, oferece-se-lhe pão e um cálice de água, acrescentando certos versos” (1ª Apologia 66).

Justino estabelece um paralelo entre a consagração da Eucaristia e o mistério da Encarnação. Como resultado, o que se tem na Eucaristia é o que se tem na Encarnação: é o corpo e o sangue de Jesus Cristo. E transmite isto com toda simplicidade, como algo aceito por toda a Igreja.

Há uma circunstância em que o texto citado recebe uma força particular: Justino está explicando ao imperador pagão em que consiste uma celebração dominical cristã; entre outras coisas, explica a doutrina que certamente ninguém poderia compreender sem possuir fé, pois pareceria loucura. Apesar disto, Justino, homem prudente e inteligente, diz ao imperador que o alimento eucarístico é a carne e o sangue de Jesus, aquela mesma que foi assumida pelo Verbo de Deus para a nossa salvação. Se a Igreja Pós-Apostólica tivesse acreditado na interpretação simbólica das palavras de Jesus – ao modo “evangélico” moderno – sem dúvida alguma este seria o momento para explicar ao imperador pagão que não era necessário se preocupar com qualquer forma de “canibalismo”, pois o pão e o vinho consumidos nas celebrações cristãs [apenas] simbolizariam o corpo e o sangue de Jesus. No entanto, Justino afirma, sem recuar um passo da doutrina, que o pão e o vinho eucarísticos “é a carne e o sangue daquele Jesus que se encarnou por nós”.

IRENEU DE LIÃO

Segundo Bispo de Lião, na França, sucedeu a São Fotino. Nascido na Ásia Menor por volta de 140, morreu em torno de 202 em Lião, possivelmente martirizado. Em sua juventude foi discípulo do Bispo de Esmirna, Policarpo, que, por sua vez, fora discípulo de São João Evangelista. Sua principal – e importantíssima – obra é “Exposição e Refutação da Falsa Gnose”, melhor conhecida como “Adversus Haereses” (“Contra as Heresias”), que escreveu em grego e a completou por volta do ano 200. É o teólogo mais importante do século II, testemunha universalmente reconhecida da Fé Apostólica.

Ireneu teve que enfrentar a primeira e mais importante heresia do início da Igreja, o Gnosticismo, que encerrava uma grande variedade de formas e erros, mas que segundo a qual havia um grupo de pessoas que, por iniciação secreta, pôde obter o autêntico conhecimento da Divindade e da Salvação. Entre outras coisas, os gnósticos desprezavam a Criação. Ireneu adverte que, agindo assim, desprezavam também o Senhor que tomou para Si mesmo carne e sangue e que, além disso, não seria possível crer na realidade de Eucaristia já que:

– “…o pão sobre o qual é feita a ação de graças é o corpo do Senhor; e o cálice é o Seu sangue” (Contra as Heresias 4,18,4).

E, na mesma obra, escreve de diversas maneiras sobre o mesmo fato:

– “São completamente loucos aqueles que rejeitam toda a economia de Deus ao negar a salvação da carne e desprezar seu novo nascimento, pois dizem que ela não é capaz de ser incorruptível. Pois se esta [carne, nosso corpo] não se salva, então nem o Senhor nos redimiu com Seu sangue, nem o cálice da Eucaristia é comunhão com Seu sangue, e nem o pão que partimos é comunhão com Seu corpo [1Coríntios 10,16]; pois o sangue não pode provir senão das veias e da carne, e de tudo que compõe a substância do homem, pela qual, tendo sido verdadeiramente assumida pelo Verbo de Deus, nos redimiu com Seu sangue (…) Pois Ele mesmo confessou que o cálice, que é uma criatura, é Seu sangue [Lucas 22,20; 1Coríntios 11,25], com o qual faz crescer o nosso sangue; e o pão, que também é uma criatura, declarou que é Seu próprio corpo [Lucas 22,19; 1Coríntios 11,24], com o qual faz crescer os nossos corpos” (Contra as Heresias 5,2,2).

Com efeito, a interpretação “simbólica” da celebração eucarística está em perfeita harmonia com a heresia gnóstica… E se essa tivesse sido a fé da Igreja do século II, todo o discurso de Ireneu não teria sentido nenhum. Pelo contrário, seu argumento está baseado na afirmação de duas realidades intimamente unidas: a realidade do corpo do Senhor na Encarnação e a realidade do corpo do Senhor na Eucaristia. Os gnósticos – concluiu Ireneu – devem forçosamente negar uma e outra se quiserem ser lógicos. Vejamos outros textos no mesmo sentido:

– “Consequentemente, se o cálice misturado (=vinho+água) e o pão fabricado [pelo homem] recebem a Palavra de Deus [em grego, ‘epiklesis’] para converterem-se na Eucaristia do sangue e do corpo de Cristo, e através destes cresce e se desenvolve a carne de nosso ser, como podem eles negar que a carne é capaz de receber o dom de Deus, que é a vida eterna, já que foi nutrida com o sangue e o corpo de Cristo, e foi convertida em membro Seu? Quando o Apóstolo escreve em sua Carta aos Efésios: ‘Somos membros de Seu corpo’ [Efésios 5,30], de Sua carne e de Seus ossos, não fala sobre algum homem espiritual e invisível – pois ‘um espírito não tem carne nem ossos’ [Lucas 24,39] – mas sim daquele ser que é verdadeiro homem, que é formado de carne, ossos e nervos, o qual se nutre do sangue do Senhor e se desenvolve com o pão de Seu corpo” (Contra as Heresias 5,2,3).

– “Como dizem que se corrompe e não pode participar da Vida a carne [de nossos corpos], alimentada com o corpo e o sangue do Senhor? Mudem, pois, de opinião ou deixem de oferecer estas coisas (=a ‘eucaristia’ celebrada pelos gnósticos). Pelo contrário, concordem com o que cremos e, quanto a Eucaristia, [concordem] com a firme Eucaristia em que cremos. Oferecemos o que Lhe pertence e proclamamos, de modo concorde, a união e a comum unidade entre a carne e o espírito, porque assim como o pão brota da terra, uma vez pronunciada sobre ele a invocação (=’epiklesin’) de Deus, já não é pão comum, mas a Eucaristia formada por dois elementos: o terrestre e o celestre; de modo semelhante, também os nossos corpos, ao participarem da Eucaristia, já não são corruptíveis, mas têm a esperança de ressuscitarem para sempre” (Contra as Heresias 4,18,5).

Não quero encerrar as citações de Ireneu sem antes recordar um belo testemunho seu sobre a Eucaristia como Sacrifício:

– “Aconselhando Seus discípulos a oferecer as primícias de Suas criaturas a Deus – não porque Este as necessitasse, mas para que não fossem infrutuosos e ingratos – tomou a criatura pão e, dando graças, disse: ‘Isto é Meu corpo’ [Mateus 26,26]. E, do mesmo modo, o cálice, também tomado entre as criaturas como nós, confessou ser Seu sangue; e ensinou que [este] era o Sacrifício do Novo Testamento. A Igreja, recebendo isto dos Apóstolos, em todo o mundo oferece a Deus, que nos dá o alimento, as primícias de Seus dons no Novo Testamento. Com estas palavras, um dos Doze Profetas, prenunciou: ‘Não me comprazo em vós – diz o Senhor onipotente – e não receberei o sacrifício de vossas mãos, porque desde o Oriente até o Ocidente Meu nome é glorificado nas nações e em todas as partes se oferece ao Meu nome incenso e um sacrifício puro: porque grande é Meu nome nas nações – diz o Senhor onipotente’ [Malaquias 1,10-11]. Com estas palavras, apontou claramente que o antigo povo deixaria de oferecer a Deus e que em todo lugar Lhe seria oferecido o Sacrifício Puro (=a Eucaristia); e Seu nome é glorificado nos povos” (Contra as Heresias 4,17,5)[13].

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– “Deveríamos considerar isto: se Nosso Senhor é Santo, como Ele Se deixaria ser manejado, em um processo de transformação, por pessoas (=os sacerdotes) que são pecadoras por natureza?” (Guillermo Hernández Agüero, evangélico).
– “Por esta palavra (=’Fazei isto’), Cristo faz com que a mão do sacerdote seja a Sua [própria mão]; a boca não é minha; a língua não é minha, mas de Cristo, ainda que eu seja um patife ou um malandro (…) Por pior que seja um sacerdote, o sacramento se concretiza” (Martinho Lutero).
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HOMILIA ANÔNIMA DO SÉCULO II OU III

Trata-se de uma homilia sobre a Páscoa. Reflete a doutrina da Igreja de seu tempo. Pode ser lida em PG 59,735-746, sendo conhecida como “In Sanctum Pascha 6”.

A segunda parte da homilia diz:

– “Esta foi a Páscoa que Jesus desejou padecer por nós. Por sua Paixão nos libertou da paixão; e por sua morte venceu a morte; e através do alimento visível, sua vida imortal nos procurou [cf. João 6,54]. Este era o desejo salvífico de Jesus; este era o Seu amor espiritualíssimo, mostrando por um lado as figuras como figuras e, de outro lado, dando aos discípulos a correspondência com Seu sagrado corpo: ‘Tomai e comei; isto é Meu corpo’; ‘Tomai e bebei; isto é Meu sangue, a Nova Aliança, derramada por muitos, para a remissão dos pecados”.

CLEMENTE DE ALEXANDRIA

Contemporâneo de Ireneu, nasceu em torno de 150 e morreu por volta de 215. Oriundo da Grécia, de família pagã. Uma vez convertido, viajou buscando instrução cristã, o que acabou encontrando junto ao cristão Panteno de Alexandria, a quem sucedeu, após sua morte, no cargo de catequista dos novos cristãos. Perseguido pelo Imperador Septímio Severo, fugiu para o Egito e, finalmente, morreu na Capadócia.

Uma homilia sua sobre Marcos 10,17-31 nos apresenta Jesus dizendo-nos:

– “Eu te regenerei (…) Eu te mostrarei a face de Deus, o Bom Pai (…) Eu sou Aquele que te alimenta, que dou a Mim mesmo no pão [do qual quem provar não experimentará a morte] e dou diariamente a Mim mesmo na bebida da imortalidade” (Quis Dives Salvetur 23).

É bastante claro o sentido realista da presença do Senhor: não é o símbolo que nos pode salvar da morte eterna, mas o próprio Senhor. E isto apesar de Clemente ser um claro representante da Escola Alegórica de interpretação. Este dado deve ser levado em conta sempre que estejamos considerando este ou outros autores alegoristas, como Tertuliano[14].

Creio que seja útil advertir, por ocasião deste texto, que as expressões simbólicas que eventualmente podem ocorrer em autores antigos ou modernos não implicam necessariamente no fato de autor negar a presença real do Senhor na Eucaristia. Por exemplo: Clemente, em sua homilia, faz o Senhor dizer: “Dou a Mim mesmo no pão”; e em nossos dias é comum ouvirmos dos lábios de pregadores católicos: “Jesus se fez pão na Eucaristia” ou expressões semelhantes. Tais expressões não significam que se está negando a presença real do Senhor, mas são na verdade expressões literárias perfeitamente compreensíveis no contexto em que são expressas: o que vemos na Eucaristia é precisamente pão e se os ouvintes ou leitores são fiéis, não é contrário à Fé Católica falar deste modo. Retornando à expressão de Clemente, não esqueçamos que Jesus diz “Dou a Mim mesmo” no pão; se quisermos ser mais exatos, diríamos: “Dou a Mim mesmo (=presença real) sob as aparências de um simples pão (=o que vemos, os acidentes, aquilo que nosso corpo consome empiricamente)”.

TERTULIANO

É a testemunha da Igreja de Cartago. Nascido de pais pagãos por volta de 155, chegou a ser advogado de excelente reputação. Converteu-se ao Senhor em 193. Autor prolífico, de enorme influência no pensamento cristão, excelente conhecedor das Escrituras, seus escritos apresentam um período católico; a seguir, um período de transição (semi-montanista, com tendências rigoristas); e, finalmente, rompe com a Igreja para professar o cisma montanista, que basicamente consistia em um Cristianismo extremamente rigorista. Morreu entre 240 e 250.

O realismo eucarístico de Tertuliano é bastante conhecido. Para ele:

– “A Eucaristia são as delícias do corpo do Senhor” (De Pudicitia 9,16).

Por não atentar-se devidamente às peculiariedades da sua linguagem, tem sido possível o paradoxo de interpretar como simbolista um escritor que com esses mesmos textos está decididamente refutando o Docetismo de Marcião[15]. Vejamos alguns textos para termos uma melhor ideia sobre a mente de Tertuliano:

– “Pelo qual já provamos com o Evangelho pelo mistério do pão e do vinho a verdade do corpo e do sangue do Senhor, ao contrário do fantasma de Marcião” (Contra Marcião 5,8,3).

Aqui, a tradicional relação entre a Encarnação e a Eucaristia é empregada não para provar a realidade – já reconhecida e aceita – da Eucaristia, mas para comprovar a verdade da Encarnação! Isto é: assim como na Eucaristia temos realmente o corpo e o sangue do Senhor – coisa que não se discute – ‘a fortiori’ se deverá aceitar que o corpo do Senhor, pela Encarnação, foi real e não um fantasma: em ambos os casos, trata-se do mesmo corpo e do mesmo sangue do Senhor.

Um texto que normalmente é citado como simbolista é o seguinte[16]:

– “Após ter declarado que desejava muitíssimo comer a Sua Páscoa (=seria indigno que Deus desejasse algo desnecessário), tomando o pão e dando-o aos discípulos, o fez Seu corpo, dizendo: ‘Isto é Meu corpo’, isto é, a figura do Meu corpo. Porém, não seria figura se não fosse um corpo verdadeiro; afinal, algo que é vazio [como um fantasma] não poderia constituir uma figura” (Contra Marcião 4,40,3).

Antes de mais nada, não devemos esquecer que o texto diz que Jesus, ao pão, “o fez Seu corpo”. Por outro lado, é certo que Tertuliano esclarece que trata-se da “figura do Meu corpo”. No entanto, este modo de falar não desvirtua em nada o realismo; ao contrário, o confirma, pois para que algo possa ser figura ou imagem de outra coisa, precisa ter em si mesmo uma realidade, não pode ser um fantasma. E o mais importante: qual é o contexto em que se encontra esta expressão de Tertuliano? Do que ele está falando?

Arguindo a partir da hipótese doceta, diz-se:

– “Se o pão se fez corpo precisamente porque Ele carecia de um corpo real (=coisa ensinada pelos docetas), então o que deveria ter sido entregue por nós era o pão [porém, na realidade o que foi entregue foi o corpo]” (Contra Marcião 4,40,3).

Uma palavra sobre os “dois elementos, o terrestre e o celeste” de que é composto o pão sobre o qual foi invocado o Espírito santo: nos grosseiros e infames ataques que a Eucaristia recebeu da parte dos gnósticos de todos os tempos, encontra-se também algum tipo de acusação de canibalismo. Porém, isso é desconhecer que a Eucaristia, uma vez pronunciadas as palavras de consagração, continua com todos e cada um dos elementos sensíveis (ou “acidentes” ou “espécies”, na linguagem filosófica posterior) que tinha quando era “pão comum”, coisa que Ireneu define como “elemento terrestre” ou que Tertuliano chama “figura” do corpo do Senhor. Com efeito, não há nenhum canibalismo, pois a presença verdadeira, real e substancial do corpo e sangue do Senhor não se dá nas suas espécies próprias de corpo e sangue de Cristo, mas em espécies alheias, isto é, as do pão e vinho. Em outras palavras: a partir do ponto de vista empírico nada mudou, ainda que a Fé indique ao fiel que, pelo poder de Deus, a substância “já não é pão comum”. Assim, toda tentativa de apontar “canibalismo” às celebrações eucarísticas demonstra uma mentalidade totalmente truncada e fechada. Convido a qualquer gnóstico moderno a apresentar uma acusação de “canibalismo” contra a Igreja Católica diante dos tribunais de seu país e ver que tipo de aceitação terá.

Ou seja: suposta a identidade do corpo físico de Jesus com Seu corpo eucarístico (identidade que para Tertuliano não é discutível porque ele não conhece senão um só e verdadeiro corpo do Senhor), esse corpo real e único cumpre precisamente na Eucaristia uma antiga “figura”: aquela que foi assinalada por Jeremias (11,19), que profetizou: “Coloquemos o lenho em seu pão”. Esta é exatamente a passagem que está sendo comentada por Tertuliano. Para ele, o Profeta Jeremias designa com “o lenho” a cruz e com “o pão” o corpo do Senhor. Como pode o pão designar o corpo do Senhor? Essa figura, cunhada pelo Profeta, é revelada por Jesus quando, com o pão nas mãos, disse: “Isto é Meu corpo”. Foi então que foi explicado o significado do pão naquela profecia. Esta doutrina de Tertuliano encontra-se em Contra Marcião 4,40,3-4 e em 3,19,3-4.

Neste sentido, é compreensível também a expressão relativa ao sangue:

– “Agora consagrou Seu sangue no vinho Aquele mesmo que então fez do vinho figura do sangue [Isaías 63,1; Gênesis 49,19]” (Contra Marcião 4,40,4-6).

Notemos a força da seguinte expressão, onde Tertuliano defende a bondade do corpo humano contra o preconceito gnóstico, de que a carne é coisa má, e proclama, através das coisas sensíveis como instrumentos – os Sacramentos que tocam o corpo – de que Deus santifica a alma:

– “Lava-se a carne [com o Batismo], para que a alma seja limpa. Unge-se a carne [pelo Batismo e Confirmação], para que a alma seja consagrada. Assinala-se a carne [pela Confirmação e Unção dos Enfermos], para que a alma seja protegida. Encobre-se a carne com a imposição das mãos [pela Confirmação e Ordem], para que a alma seja iluminada. Alimenta-se a carne com o corpo e o sangue de Cristo [pela Eucaristia] para que também a alma se sacie de Deus” (Da Ressurreição dos Mortos 8,3).

À luz destas expressões é possível enxergar também estas outras coisas:

– “Porém, é certo que Cristo até agora não reprovou a água do Criador [com a qual lava os seus fiéis], nem o óleo [com o que os unge], nem a mistura de mel e leite [com que os amamenta], nem o pão [que o tornou Seu corpo]. Até para os próprios Sacramentos é necessário mendigar ao Criador!” (Contra Marcião 1,14,3)[17].

– “Ainda que a expressão diga: ‘O pão nosso de cada dia nos dai hoje’, devemos entendê-la melhor espiritualmente, porque Cristo é o nosso pão, já que Cristo é a vida e a vida é o pão [Ele disse: ‘Eu sou o Pão da Vida’; e, um pouco antes: ‘O pão é a Palavra do Deus vivo que desceu do céu’]. Além disso, porque Seu corpo também é autoritativamente designado como ‘pão’: ‘Isto é Meu corpo'” (Da Oração 6,2).

Isto é, o corpo do Senhor é dado na forma de pão, sob as aparências de pão. Porém, o que é consumido não é pão, mas o corpo de Cristo: “Isto é Meu corpo”. Esta é a substância que o fiel consome quando participa da Eucaristia.

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– “Cristo apresentou ao Pai, de uma única vez para sempre, o sacrifício de Si mesmo (Hebreus 9:24-28) e não em cada Missa, como faz novamente o sacerdote ao apresentar ao Pai um novo sacrifício de Cristo” (Guillermo Hernández Agüero, evangélico).
– “Cristo não foi imolado uma única vez em Si mesmo? No entanto, quanto ao Sacramento [da Eucaristia] – que se imola pelos povos não só em todas as solenidades da Páscoa, mas também todos os dias – não mente aquele que responde, caso lhe seja perguntado, que ‘há imolação'” (Santo Agostinho, Bispo, século IV).
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TRADIÇÃO APOSTÓLICA

Este é um documento de enorme importância para o conhecimento da liturgia celebrada na Igreja dos primeiros séculos. A obra é datada do início do século III (215, aproximadamente). Junto com a Didaqué, são os documentos mais importantes sobre a organização da Igreja primitiva.

Tratando da celebração da Ceia do Senhor, o documento distingue entre “pão bento” (em grego, “eulogia”) e “pão eucarístico” (em grego, “eukaristia”), e insiste no cuidado que se deve ter para com este último[18].

– “Cada um tome cuidado para que nenhum infiel prove a Eucaristia, nem algum rato ou outro animal; porque é o corpo de Cristo, que deve ser comido pelos fiéis e não deve ser menosprezado”[19].

Há uma expressão na Tradição que pode, a primeira vista, parecer [nas traduções] apoiar a opinião simbolista:

– “[O Bispo] dará graças sobre o pão para [que seja] o símbolo do corpo de Cristo; e sobre o cálice de vinho misturado para [que seja] a imagem do sangue que foi derramado por todos os que creram Nele”.

A palavra grega original que se encontra sob as palavras “símbolo” e “imagem” no texto acima – trata-se de uma mesma palavra para ambos os casos – é “antítipo”[20]. A questão é saber o que este termo significa propriamente.

“Tipo” designava, na língua helênica, o mesmo que o molde que modela uma imagem (sentido principal) ou a própria imagem já modelada (sentido secundário). Uma diferenciação posterior passou a ser usada para estes casos, apontando “tipo” para o molde e “antítipo” para a imagem; deste modo, o “antítipo” é algo que em sua própria razão de ser possui um caráter de referência essencial ao molde de onde procede. Para São Paulo, todos os acontecimentos do Antigo Testamento são “tipo” dos acontecimentos do Novo (Romanos 5,14; 1Coríntios 10,6); daí que, obviamente, o Novo Testamento é “antítipo” do Antigo. Com efeito, resta natural enxergar na Eucaristia um “antítipo” da morte de Cristo, que Ele mesmo ordenou comemorar nela. No texto acima citado, o pão e o vinho são chamados “antítipos” (imagem, semelhança) do corpo e do sangue de Cristo, porque esses elementos visíveis adquiriram, após a consagração, uma relação essencial com o corpo e o sangue de Cristo, que neles Ele Se nos dá realmente. Em outras palavras: os elementos eucarísticos são “antítipos” do corpo e do sangue de Cristo não em si mesmos – pois não o são de maneira nenhuma – mas enquanto foram feitos, sacramentalmente, o corpo e o sangue de Cristo. Longe de negar o realismo da presença real, essa expressão a supõe como fundamento da própria relação que afirma. Dava-se deste modo uma primeira resposta ao problema da persistência sensível do pão e do vinho apesar da transformação invisível que pela consagração se operou neles. Com a nova e real presença do corpo e do sangue de Cristo, os elementos do pão e do vinho adquiriram um novo sentido do sinal visível de uma nova realidade invisível, que é o corpo e o sangue do Senhor[21].

Existem outros monumentos litúrgicos em que a mesma expressão aparece. Cito alguns:

– “Te damos graças também, Pai nosso, pelo sangue precioso de Jesus Cristo derramado por nós, e pelo precioso corpo, cujos ‘antítipos’ realizamos por Ele nos ter ordenado proclamar a Sua morte” (Constituições Apostólicas 7,25,4).

– “Em lugar do sacrifício de animais, temos o [sacrifício] espiritual, incruento e místico, que é celebrado pelos ‘antítipos’ do corpo e do sangue do Senhor em memória da sua morte” (Constituições Apostólicas 6,23,5).

– “A imagem e semelhança do corpo e sangue de Cristo se realizam na celebração dos mistérios” (Gelásio, Tractatus de Duabus Naturis Adv. Eutychen et Nestorium 14).

– “Aceita, Pai, estes dons (=o pão e o vinho consagrados na Eucaristia) para a glória do teu Cristo e envia sobre este sacrifício o teu Santo Espírito, testemunha dos sofrimentos do Senhor Jesus, para que Ele mostre que este pão é o corpo de Cristo e este cálice é o sangue de Cristo, de tal modo que os que dele participam se fortaleçam para a santidade, alcancem a remissão dos seus pecados, sejam afastados do maligno e dos seus enganos, possam se encher do Santo Espírito, possam ser dignos do teu Cristo e possam obter a vida eterna, vida que cresce na reconciliaçao dos que fizeste partícipes” (Constituições Apostólicas 8,12,22).

O sentido destes textos supõe a mudança que sofrem o pão e o vinho na consagração. Por ela, o que era pão e vinho são agora o corpo e o sangue do Senhor; contudo, ao permanecer igual em seu aspecto visível de pão e vinho, recebem uma nova relação com o corpo e o sangue de Cristo ali realmente presentes e é isso o que expressam os textos com palavras como “figura”, “imagem”, “semelhança”, “antítipo”: para os olhos naturais, continuam sendo vistos pão e vinho; estes são uma “imagem” do corpo e sangue de Cristo, porque sobre eles foi pronunciada a “eucaristia” e já não são apenas pão e vinho[23].

São João Damasceno (séc. VIII) entendeu o problema de modo diverso e oferecia esta solução:

– “Se alguns chamaram o pão e o vinho de figuras [=”antítipos”] do corpo e do sangue do Senhor – como disse Basílio, o Portador de Deus (=Teóforo) – os chamaram assim não após a consagração, mas antes da consagração, dando este nome à oblação em si” (Da Fé Ortodoxa 4,13).

Isto indica que a fé da Igreja universal era unânime em dar para a presença do corpo e do sangue do Senhor na Eucaristia um valor real e não meramente simbólico.

Finalmente, note-se que os adversários da presença real nem sequer poderiam usar em suas homilias as expressões aqui citadas – que poderiam parecer indicar uma interpretação “simbólica” para o nosso tema – já que as mesmas incluem o conceito de “sacrifício” eucarístico, ou o de “celebração dos mistérios”, que jamais são aplicáveis aos cultos que giram em torno da pregação [como os cultos protestantes], sem a existência de um altar e do sacrifício eucarístico.

ORÍGENES

Nascido em 185, em Alexandria, de família cristã. Seu pai foi martirizado durante a perseguição de Septimio Severo. Conheceu Hipólito de Roma. Excelente pregador e catequista. Morreu em Cesareia, por volta do ano 253, em virtude dos maus tratos provocados pelos perseguidores da Fé. Suas obras foram abundantes. Algumas de suas doutrinas ultrapassaram as da Igreja, mas tratam-se de especulações pessoais sobre os mistérios, coisa que o próprio Orígenes se encarregou de assinalar. Seu desejo de interpretar os textos bíblicos com excesso de alegoria e simbolismo costuma provocar confusão em mais de um de seus ensinamentos. Apesar de tudo, é considerado como um dos melhores teólogos da Antiguidade.

No caso de Orígenes, deve-se levar em conta o seu sistema interpretativo, para não retirar as expressões eucarísticas do seu contexto natural. Para compreender o pensamento sacramental de Orígenes, é necessário considerar três fatos:

a) Sua concepção tipológica (as instituições do Antigo Testamento são figuras das realidades invisíveis do Novo).

b) Sua preferência em insistir mais na pregação do que na liturgia.

c) O interesse que, por influxo platônico, tem para ele os sinais visíveis do culto como sinais das realidades sobrenaturais.

Tendo isto em vista, Orígenes jamais nega a realidade da Eucaristia e se é verdade que por essa concepção e preferência está ele inclinado a minimizá-la, seu testemunho – por isso mesmo – tem um valor muito maior[24]. Não se trata de uma antinomia entre realismo e simbolismo; afirma-se um simbolismo ulterior ao que previamente se admite como uma realidade. Há em Orígenes um perfeito paralelismo entre a realidade da Eucaristia e seu ulterior simbolismo em ordem a outras realidades, por um lado, e o sentido literal da Escritura e seu sentido tipológico, por outro. Ele não nega o sentido literal e nem o realismo eucarístico; estes dois são a base necessária para o simbolismo e a tipologia[25].

Há em Orígenes muitos textos em que alude a celebração eucarística; insiste especialmente nas disposições para se receber o corpo do Senhor. Indubitavelmente, ele entende esse corpo do Senhor no sentido literal:

– “Se sobes com Ele para celebrar a Páscoa, te dará o cálice do Novo Testamento e também o pão da bênção; conceder-te-á Seu próprio corpo e Seu próprio sangue” (Sobre Jeremias, Homilia 19,13).

– “Antes, como um enigma, o maná era um alimento; agora, realmente, a carne do Verbo de Deus é o verdadeiro alimento, como Ele diz: ‘Minha carne é verdadeira comida e Meu sangue é verdadeira bebida” (Sobre Números, Homilia 7,2).

Porém, esse corpo e sangue do Senhor, que são algo real na Eucaristia, são ao mesmo tempo símbolo de algo diferente, que pode também ser chamado, em sentido espiritual, de corpo e sangue do Senhor. Por isso, Orígenes chama o corpo de Cristo na Eucaristia de “corpo típico e simbólico”; não porque não seja real, mas porque também é um sinal, um símbolo.

Em outro lugar, Orígenes exorta:

– “Vós que assistís habitualmente os divinos mistérios sabeis como, quando recebeis o corpo do Senhor, o guardais com cuidado e veneração, para que não caia nenhuma só partícula e não desapareça algo do dom consagrado. Porque se por negligência cai alguma coisa, credes ser réus – e com razão[26]. Porém, se dedicais tanto cuidado para conservar o corpo – e tens razão em fazê-lo – como podereis pensar que é algo menos ímpio descuidar da Palavra de Deus?” (Sobre Êxodo, Homilia 13,3).

Em outro ponto, comenta Números 23,24, onde se lê: “Não dormirá até que coma a sua presa e beba do sangue dos feridos”. O próprio tom da frase – diz Orígenes – faz abandonar a letra [do texto] e buscar a alegoria:

– “Que nos digam: que povo é esse que tem o costume de beber sangue? Isso foi o que, também no Evangelho, os judeus que seguiam o Senhor, ao ouvi-Lo, se escandalizaram (…) Porém, o povo cristão escuta e segue Aquele que diz: ‘Se não comerdes a Minha carne e não beberdes o Meu sangue, não tereis vida em vós, porque a Minha carne é verdadeiramente comida e Meu sangue é verdadeiramente bebida'”.

E continua e conclui o alexandrino:

– “Verdadeiramente Quem dizia isto foi ferido por nossos pecados, como disse Isaías (…) Porém, é dito que bebemos o sangue de Cristo não apenas no rito dos Sacramentos, como também quando recebemos as palavras de Cristo, em que se encontram a Vida” (Sobre Números, Homilia 16,9).

Com efeito, Orígenes passa do real – que claramente afirma – para um sentido mais místico nas passagens que comenta[27].

DIONÍSIO DE ALEXANDRIA

Discípulo de Orígenes. Chefe da escola catequética de Alexandria em 231; Bispo de Alexandria em 248. Morreu em 265. Dele restaram duas cartas inteiras e vários fragmentos citados por outros autores.

Em uma carta ao Papa, em que explica o porquê de não reiterar o batismo dos hereges, diz:

– “É precisamente isto o que não me atrevi a fazer, dizendo [a um ancião que me insistia para que lhe renovasse o batismo], que lhe bastava a comunhão [eucarística] em que era admitido há tanto tempo. Quem participou da Eucaristia e pronunciou o ‘Amém’ com os demais, tendo se aproximado do altar e estendido as suas mãos para receber o alimento sagrado, e o tendo recebido e participado do corpo e sangue de Nosso Senhor, a esse eu não me atreveria a refazê-lo desde o início [administrando-lhe novamente o batismo]” (Carta ao Papa Sisto II; cf. Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica 7,9,4).

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– “[Jesus] estava realmente ensinando que devemos comer a Sua carne (fibras, músculos, derme) e beber o Seu sangue (plaquetas, plasma, glóbulos)?” (Daniel Sapia, evangélico).
– “A tua opinião é que pelo consumo espiritual exclui-se o corporal. Os judeus [realmente] imaginaram que tinham que comer Cristo, do mesmo modo que o pão e a carne são colocados no prato, ou como um leitãozinho assado” (Martinho Lutero).
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FIRMILIANO DE CESAREIA

Era também discípulo de Orígenes. Bispo de Cesareia, na Capadócia. Grande amigo de São Cipriano. Morreu por volta de 268.

Em uma carta a São Cipriano, tratando da reiteração do batismo nos hereges, escreveu também:

– “Grande delito é o mesmo daqueles que são admitidos e o daqueles que permitem que o corpo e o sangue do Senhor sejam tocados, temerariamente usurpando a comunhão sem terem sido lavadas suas manchas pelo batismo da Igreja, nem terem sido expostos os seus pecados, uma vez que está escrito: ‘Quem come do pão ou bebe do cálice do Senhor indignamente será réu do corpo e do sangue do Senhor'”[28] (Epistolário de São Cpriano, Epístola 75,21).

CIPRIANO DE CARTAGO

Figura de grande importância na Igreja africana da primeira metade do século III. Nasceu entre os anos 200 e 210. Converteu-se à fé cristã por volta de 246. Foi sacerdote e, a seguir, Bispo de Cartago. Escreveu abundantemente, em particular aos seus sacerdotes. Foi martirizado no ano 258.

O Pe. d’Ales[29] extraiu das obras de São Cipriano as seguintes expressões acerca do pão e do vinho eucarísticos:

– O corpo do Senhor
– O santo corpo do Senhor
– O corpo de Cristo
– A carne de Cristo
– O santo do Senhor
– O alimento de Cristo
– O alimento celeste
– O pão do Senhor
– A graça saudável
– A comida celeste

– O sangue do Senhor
– O sangue de Cristo
– O mistério do cálice
– O cálice do Senhor
– A bebida do Senhor
– A bebida saudável

Comentando a Oração do Senhor (o Pai Nosso), ensina:

– “Porque Cristo é o pão daqueles que tocam o seu corpo; e esse pão é aquele que pedimos que nos seja dado todos os dias, a não ser que nós, os que estamos em Cristo e recebemos todos os dias a Sua Eucaristia como alimento de salvação, nos abstenhamos – por apresentarmos algum pecado mais grave – e não comunguemos, de modo que deixamos de receber o pão celeste e nos separamos do corpo de Cristo, segundo a Sua palavra: ‘Eu sou o pão da vida’ (…) Quando Ele diz que aquele que come o Seu pão vive eternamente, do mesmo modo que é claro que vivem os que tocam o Seu corpo e recebem a Eucaristia por direito de comunhão, ao contrário, devem temer e pedir para que, separando-se do corpo de Cristo e não comungando, não sejam separados da salvação (…). É por isso que pedimos que todos os dias nos dê Ele o pão nosso, isto é, Cristo, para que permaneçamos e vivamos em Cristo, e não nos afastemos da Sua santificação e do Seu corpo” (Da Oração do Senhor 18).

Diante das práticas de alguns, que usavam água na Eucaristia ao invés de vinho, contesta:

– “Que no cálice que se oferece em Sua memória seja oferecida uma mistura de vinho [com um pouco de água], porque tendo dito Cristo: ‘Eu sou a verdadeira vinha’, o sangue de Cristo não é, indubidavelmente, água, mas vinho. Também não pode parecer que no cálice se encontra o Seu sangue – com o qual fomos redimidos e vivificados – se nesse cálice não há vinho, o qual é o sangue de Cristo, predito pelo mistério e testemunhado por todas as Escrituras” (Epístola 63,2).

Nos tempos de perseguição – ensina Cipriano – deve-se dar a Eucaristia para os cristãos não irem desarmados para o combate, mas…

– “…armados com a proteção do sangue e do corpo de Cristo”…

…já que a Eucaristia é feita para isto: para ser defesa dos que a recebem:

– “Se negamos o sangue de Cristo aos que partem para a luta, como podemos ensinar-lhes ou incitar-lhes a derramar seu sangue para confessar o nome [de Cristo]?” (Epístola 57,2)[30].

E no mesmo sentido:

– “Aproxima-se agora uma luta mais difícil e feroz, para a qual os soldados de Cristo devem se preparar com uma fé incorrupta e uma robusta virtude, considerando que por isso bebem diariamente do cálice do Senhor, para que possam também eles derramar seu sangue por Cristo” (Epístola 58,1).

Falando acerca daqueles cristãos que tinham apostatado, pelo menos materialmente, da sua fé e que agora tornavam a se aproximar para receber a Eucaristia sem anter fazer penitência e sem haver se reconciliado, diz:

– “Violenta-se assim o corpo e o sangue [do Senhor] e agora com suas mãos e sua boca pecam ainda mais contra o Senhor do que antes, quando O negaram” (Dos Lapsos 16).

AFRAATES

Testemunha a fé eucarística da Igreja da Síria. Nascido por volta de 280, morreu pouco depois de 345.

Estes dois textos nos servem:

– “Quando alguém, abstendo-se de todo pecado, recebe o corpo e o sangue de Cristo, deve cuidar da sua boca com cuidado, eis que por ela entra o Filho do Rei” (Demonstração 3,2).

– “O Senhor, por suas próprias mãos, deu o Seu corpo para ser comido; e antes da sua crucificação, deu o Seu sangue para que fosse bebido” (Demonstração 12,6).

EFRÉM

Eminente membro da Igreja da Síria. Nasceu em Nísibis por volta do ano 306. Foi ordenado diácono e assim permaneceu por toda a sua vida. Discípulo do Bispo de Nísibis, Tiago. Grande poeta, compôs um grande número de obras espirituais e artísticas, todas de conteúdo cristão. Conservam-se poemas e homilias.

Cito algunos textos:

– “Os sacerdotes dos tempos antigos desejaram ver a tua beleza e não a viram. / Os sacerdotes dos tempos médios odiaram a tua beleza e a rejeitaram / Os sacerdotes da Igreja Te tomaram em suas mãos, / Pão da Vida que desceu [à terra] e se uniu aos nossos sentidos” (Da Virgindade 35,12).

– “Que nos santifiquemos pelo Teu corpo e pelo Teu sangue; e estejam entre os redimidos, nós, que comemos o Teu corpo e bebemos o Teu precioso sangue” (Sermão 1,655-657).

– “O corpo que Ele tomara de Maria esta tornou a tomá-lo no pão e na oferenda” (Da Epifania 8,23).

– “De um jeito novo o Seu corpo se uniu ao nosso e o Seu sangue puro foi derramado em nossas veias; Sua voz no ouvido, Sua luz nos olhos. Por sua piedade, uniu-Se totalmente a nós” (Da Virgindade 37,2).

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– “Cristo nos deixou a sua carne [na Eucaristia] e também subiu [ao céu] com ela” (São João Crisóstomo, Bispo, séc. IV).
– “A Fé diz que Deus pode muito bem e de algum modo, manter o corpo de Cristo no céu e fazer também, de outro modo, que esteja no pão” (Martinho Lutero; W26,414,4-6).
– “Uma fantasia sugere que cada uma das milhões de hóstias é o corpo físico do Cristo completo, íntegro e inteiro, anterior à crucificação, enquanto, ao mesmo tempo, Cristo estaria no céu, com seu corpo ressuscitado” (Daniel Sapia, evangélico).
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CIRILONAS

Temos poucos dados biográficos sobre este autor, embora vários de seus poemas sejam conservados. Suas obras foram escritas em Edessa, no final do século IV.

Os textos que nos chegaram desta testemunha da fé cristã das igrejas que tinham sido fundadas pelos Apóstolos são de um forte realismo eucarístico.

– “Pôs-se de pé [no Cenáculo], elevou-se a Si mesmo por amor e manteve Seu próprio corpo levantado em Suas mãos. Sua [mão] direita era um altar sagrado; Sua mão erguida, uma mesa de misericórdia” (Homilia sobre a Páscoa 1; in: BKV 6,33 [Ausgewählte Schriften der Syrischen Dichter]).

Põe nos lábios de Jesus as seguintes palavras, incentivando Seus discípulos e fiéis a receberem a Eucaristia:

– “Vinde, discípulos meus; recebei-Me. Quero pôr-Me em vossas mãos. Vede: estou aqui, de pé, em inteira verdade; porém, comei também [o Meu corpo] em inteira verdade” (Homilia sobre a Páscoa 1; in: BKV 6,37).

– “Este memorial não deve cessar entre vós até o fim do mundo. Portanto, meus irmãos, deveis fazê-lo em todos os tempos e lembrar-vos de Mim. Comestes o Meu corpo; não Me esquecereis. Bebestes o Meu sangue; não me desprezareis” (Homilia sobre a Páscoa 1; in: BKV 6,38)[31].

JUVENCO

Testemunha da fé da Igreja da Espanha no início do século IV. Chegaram até nós diversas obras poéticas cristãs escritas em latim. Suas obras datam de 330, aproximadamente. São Jerônimo o menciona em vários escritos.

Narrando a instituição da Eucaristia, diz:

– “Dizendo isto, começou a partir o pão com Suas mãos. E, depois de orar santamente, ensinou aos discípulos que dessa forma estariam comendo o Seu próprio corpo. A seguir, o Senhor tomou o cálice cheio de vinho e o santificou com ação de graças, e o deu a beber, ensinando que o que lhes tinha distribuído era o Seu sangue; e disse: ‘Este sangue redimiu os pecados do povo'” (Evangeliorium 4,4,447-453).

EUSÉBIO DE CESAREIA

Considerado o pai da historiografia eclesiástica. Nasceu na Cesareia da Palestina em 263. Discípulo do presbítero Pânfilo e, através deste, de Orígenes. Em 313 foi nomeado Bispo da Cesareia. Durante a disputa ariana, nem sempre se mostrou católico, por desejo de conciliar as duas partes e alcançar a paz. Chegou a ser excomungado pelo Sínodo da Antioquia de 325. Neste mesmo sentido, teve problemas com o Concílio de Niceia, porém finalmente assinou a declaração dogmática da grande Assembleia contra Ário. Sua obra mais importante, sem dúvida alguma, foi a “História Eclesiástica”, que escreveu entre os anos 300 e 325. Muito apreciado como historiador e acadêmico, menos porém como teólogo, por diversas de suas impressões doutrinárias.

Eusébio possui expressões que podem muito bem ser tomadas como “simbólicas” em relação à presença de Jesus na Eucaristia. Falando dos pães da proposição, dizendo que eram “símbolo e imagem” do pão da vida, acrescenta:

Veja também  Se a transubstanciação ocorre porque os celíacos têm problemas ao comungar?

– “Por isso, sabendo Davi (Salmo 33,6) de quem era a imagem do pão da proposição, nos convida a aproximar-nos não daquele pão corpóreo, mas do pão que é representado no corpóreo. Assim, nós que estamos na terra, participamos do pão que desceu do céu e do Verbo que Se esvaziou a Si mesmo e Se abreviou”[32].

Retenhamos o vocabulário: os pães da proposição são “símbolo e imagem” do pão da vida, que é o Verbo que desceu do céu. No mesmo ambiente tipológico, Eusébio comenta Gênesis 49,11 (“Lavará suas vestes no vinho e seu manto no sangue da uva”); Eusébio enxerga aqui uma insinuação da Paixão:

– “Através do vinho, que era símbolo do Seu sangue, purifica os que são batizados no Seu sangue”.

Do versículo seguinte (“Seus olhos estão alegres pelo vinho e seus dentes são mais brancos que o leite”), pensa que expressa de maneira obscura os mistérios do Novo Testamento de Nosso Senhor e, em particular…

– “…a alegria do vinho místico que Ele entregou aos Seus discípulos, dizendo-lhes: ‘Tomai e bebei: este é Meu sangue’ (…) e o esplendor e pureza do alimento místico, porque novamente Ele entregou aos Seus discípulos os símbolos da divina economia, ordenando que se fizesse a imagem do Seu próprio corpo”.

O vinho que é “símbolo” do Seu sangue não é o vinho eucarístico, mas o vinho do texto que Eusébio está comentando. O corpo e o sangue do Senhor são a realização dos símbolos profetizados, que por isso mesmo são chamados de “imagem”, isto é, “reprodução do que foi profetizado”[33].

O mesmo se pode encontrar em outra passagem, onde o sacrifício de Cristo vem para cumprir as figuras dos antigos sacrifícios judaicos. Os cristãos receberam o mandato de celebrar sobre o altar a memória desse sacrifício…

– “…através dos símbolos de Seu corpo e de Seu sangue salvador, segundo a instituição do Novo Testamento” (Demonstração Evangélica 1,10).

O pão e o vinho têm aqui, como símbolos, uma função de memória em relação com o sacrifício de Cristo[34].

Por outro lado, se Eusébio tivesse tido um conceito simbólico da Eucaristia que excluísse a doutrina católica da presença real do Senhor, então jamais poderia ter dito o seguinte, ao tratar da celebração da Eucaristia:

– “Nós, que pertencemos ao Novo Testamento, celebrando a nossa Páscoa a cada domingo, sempre nos saciamos com o corpo do Salvador; sempre participamos do sangue do Cordeiro” (Da Solenidade Pascal 7).

Em relação a certas passagens patrísticas que podem dar margem a interpretações simbólicas, creio que seja oportuno observar o seguinte: a doutrina católica sobre a presença real de Jesus exclui toda espécie de apresentação grosseira do mistério eucarístico, como a chamada “cafarnaítica”, segundo a qual a carne literal de Jesus será dada de comer aos fiéis. Esta foi a interpretação que despertou escândalo entre os ouvintes de João 6. Esta interpretação é a que se pretende inculcar nos católicos quando se lhes perguntam, por exemplo: “[Jesus] estava realmente ensinando que devemos comer a Sua carne (fibras, músculos, derme) e beber o Seu sangue (plaquetas, plasma, glóbulos)?”[35].

Jesus tinha outra coisa em mente, segundo a qual daria a comer e a beber: sim, Seu próprio corpo e Seu próprio sangue (“Meu corpo é verdadeira comida e Meu sangue é verdadeira bebida” [João 6,55]), mas de tal maneira que seus discípulos simplesmente comeriam pão e beberiam vinho, evitando assim todas as ridicularizações a que recorrem até hoje os inimigos da presença real[36]. Neste sentido, visto que o pão continua sendo apresentado simples e empiricamente como pão e o vinho como vinho, é possível se referir a eles como “símbolos” do corpo e do sangue do Senhor, pois apesar de serem mostrados como pão e vinho, são indicadores de uma realidade invisível que os transcendem; no pão e no vinho eucarísticos, após o relato da instituição da Eucaristia pelo sacerdote, são verdadeiramente, realmente e substancialmente o corpo, sangue, alma e divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo, ainda que as aparências continuem sendo as do pão e vinho. E enquanto aparências, são símbolos de uma realidade diferente, a saber: de Jesus, o Pão da Vida. Isto explica o fato de que em alguns textos que vimos e ainda veremos, alguns Padres falem de certo simbolismo do pão e do vinho em relação ao corpo e sangue do Senhor e, a seguir, ensinem que na Eucaristia o próprio Jesus Cristo é recebido.

HILÁRIO DE POITIERS

O “Atanásio do Ocidente”, assim conhecido por sua defesa das doutrinas anti-arianas do Concílio de Niceia. Converteu-se à Fé cristã após o estudo do Antigo e do Novo Testamento. Embora casado, os sacerdotes e os fiéis de Poitiers, na França, o elegeram como seu Bispo em 350. Sofreu muito pela Fé verdadeira, sobretudo ao ser desterrado. Morreu em 367 e é considerado uma das colunas do triunfo da Fé Nicena contra o Arianismo. Foi proclamado “Doutor da Igreja” pelo Papa Pio IX, em 1851.

Em pleno ambiente anti-ariano, Hilário arguiu a realidade da Eucaristia (indiscutivelemente vivida na Igreja) à verdade da natureza divina de Cristo e escreveu, ao comentar João 17,22-23:

– “Como Cristo está hoje em nós: por verdade da natureza ou por concordância de vontade? Porque se o Verbo verdadeiramente Se fez carne e nós, no alimento do Senhor, verdadeiramente comemos o Verbo feito carne, como se concluirá que Ele não permanece naturalmente conosco? Ele que nasceu do homem, tomou a natureza da nossa carne, inseparável Dele, e, no mistério que nos comunica a Sua carne, uniu a natureza da Sua carne com a natureza da Sua divindade” (Da Trindade 8,13).

– “Porque Ele mesmo disse: ‘Minha carne é verdadeiramente comida e Meu sangue é verdadeiramente bebida. Aquele que come a Minha carne e bebe o Meu sangue permanece em Mim e Eu nele’. Sobre a verdade da carne e do sangue, não há lugar para dúvidas, pois agora, pela profissão do Senhor e pela nossa fé, é verdadeiramente carne e verdadeiramente sangue. E quando essa carne é comida [para o fiel] e o sangue é bebida, então fazem com que permaneçamos em Cristo e Cristo em nós” (Da Trindade 8,14).

– “Recordamos todas essas coisas porque os hereges, mentindo ao dizer que somente existe unidade de vontade entre o Pai e o Filho, empregavam o exemplo da nossa união com Deus, como se estivéssemos unidos ao Filho e pelo Filho ao Pai, apenas por nossa submissão e vontade religiosas e, assim, não se concedera qualquer propriedade de união natural ao sacramento da carne e do sangue. Sendo assim, que o mistério da verdadeira e natural unidade [entre Cristo e aqueles que recebem este sacramento] seja proclamado pela honra que supõe para nós a doação do Filho; e pela permanência segundo a carne do Filho em nós, já que estamos corporal e inseparavelmente unidos a Ele” (Da Trindade 8,17).

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– “No caso do suposto milagre da hóstia, nosso sentido nos diz que esse elemento continha sendo o mesmo pão, de modo que a nossa vista e qualquer um dos nossos sentidos não percebem o suposto milagre na substância. Nossa fé não é cega” (Guillermo Hernández Agüero, evangélico).
– “O aparente pão não é pão (ainda que o seja para o paladar), mas corpo de Cristo; e o aparente vinho não é vinho (ainda que o paladar o queira), mas sangue de Cristo” (São Cirilo de Alexandria, Bispo, Século IV).
– “O que vedes é o pão e o cálice, que é também o que dizem os vossos olhos; porém, naquilo que vossa fé pede para ser instruída, o pão é o corpo de Cristo e o cálice, o sangue de Cristo (Santo Agostinho, Bispo, Século IV).
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DÂMASO

Papa, ocupou a sé de Pedro de 366 a 384. Encomendou a São Jerônimo a tradução [latina] das Escrituras. Poeta, são conservados numerosos epitáfios que compôs para os túmulos dos mártires.

Para o túmulo do jovem mártir da Eucaristia, São Tarcísio, mandou escrever estas palavras:

– “Quando uma mão insana oprimia São Tarcísio, / portador dos sacramentos de Cristo, / para que os expusesse ao profano, / ele preferiu dar a sua vida em meio aos ferimentos / do que entregar aos cães raivosos os membros celestes” (Epigrammata Damasiana, ed. A. Ferrua, 15, PL 13,392).

SIRÍCIO

Eleito papa em 384. Grande amigo de Santo Ambrósio. Consagrou a basílica de São Paulo em Roma.

No ano 385 proibiu os apóstatas de se aproximarem dos sacramentos eucarísticos, dizendo-o desta forma:

– “Ordenamos que estes (=os apóstatas) se afastem do corpo e do sangue de Cristo, pelos quais, em outro tempo, ao renascerem, tinham sido redimidos” (Epístola a Himério 3,4).

AMBROSIASTER

Assim é conhecido um autor cujo nome autêntico é para nós desconhecido. Comentou todas as cartas de São Paulo, com exceção a dos Hebreus. É considerado um dos melhores comentários até a época do Renascimento. Sua doutrina, salvo as inclinações milenaristas, sempre foi tida por ortodoxa por toda a Igreja.

Comentando o texto de Paulo sobre a Eucaristia, escreveu:

– “Já que fomos libertados pela morte do Senhor, recordando esta realidade, ao comermos e bebermos a carne e o sangue que foram oferecidos por nós, queremos significar que neles adquirimos o Novo Testamento” (Sobre 1Coríntios 11,26,1).

– “Recebemos o místico cálice de sangue para a defesa do nosso corpo e alma, pois o sangue do Senhor redimiu o nosso sangue, isto é, salvou o homem inteiro; pois a carne do Salvador para a salvação do corpo e do sangue foi derramado pela nossa alma” (Sobre 1Coríntios 2).

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– “Jesus jamais ensinou a transubstanciação aos seus discípulos, isto é, que o pão literalmente se converteria no Seu corpo” (Guillermo Hernández Agüero, evangélico).
– “Não se trata – como ensina a doutrina da transubstanciação – que o pão se converta em Cristo, mas que Ele é como um pão que dá a vida eterna” (Fernando Saraví, evangélico).
– “Contudo, esse pão é pão antes das palavras dos mistérios; quando ocorre a consagração, do pão se faz a carne de Cristo” (Santo Ambrósio, Bispo, Século IV).
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ATANÁSIO

A grande figura de Santo Atanásio (295-373) preenche uma boa parte do século IV. Como diácono e secretário de seu Bispo, Alexandre, participou do Concílio de Niceia. Foi nomeado Bispo de Alexandria. Por defender a doutrina de Niceia, foi exilado cinco vezes pelas autoridades do Império.

Contrapondo a antiga Pácoa com a celebração pascal cristã, diz:

– “Então (=nos dias do Antigo Testamento) celebravam a festa comendo um cordeiro irracional e afugentavam o [Anjo] exterminador untando os dentes com seu sangue. Mas agora, quando comemos o Verbo do Pai e assinalamos os lábios de nossos corações com o sangue do Novo Testamento, conhecemos a graça que o Salvador nos deu” (Cartal Festal 4,3).

– “O próprio Salvador nosso, passando do figurado para o espiritual, lhes prometeu que de então em diante não comeriam a carne do cordeiro, mas a sua própria [carne], dizendo: ‘Tomai e comei; isto é o Meu corpo e o Meu sangue” (Carta Festal 4,4).

– “Verás os levitas (=os sacerdotes cristãos), que levam os pães e o cálice com o vinho, e os põem sobre o altar. E enquanto não são feitas as orações e invocações, é apenas pão e vinho; mas quando terminam as magníficas e admiráveis preces, então o pão se faz corpo e o cálice [se faz] sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. E novamente: ocorre a realização dos mistérios. Este pão e este cálice, antes das orações e invocações, são puros [pão e vinho]; mas quando sobrevêm as magníficas preces e as magníficas invocações, o Verbo desce ao pão e ao cálice, e se faz o seu corpo” (Sermão aos Batizandos [fragmento]; PG 26,1325)[37].

Tratando dos frutos da comunhão eucarística, escreve:

– “Nos divinizamos, não participando do corpo de um homem qualquer, mas tomando o corpo do próprio Verbo” (Carta a Máximo 2; PG 26,1088).

BASÍLIO

Um dos líderes mais importantes da Igreja da Capadócia. Nasceu por volta de 330. Contam-se em sua família diversos mártires e santos. É considerado um dos fundadores do monaquismo oriental.

Escrevendo a um cristão acerca do proveito da comunhão frequente, diz:

– “É certamente bom e proveitoso receber diariamente a Eucaristia e, assim, participar do corpo e sangue de Cristo, porque Ele diz com toda a clareza: ‘Quem come a Minha carne e bebe o Meu sangue possui a vida eterna’. E quem pode duvidar que participar frequentemente da Vida é a mesma coisa que possuir vida em abundância? Eu comungo quatro vezes por semana: no Dia do Senhor (=Domingo), na 4ª-Feira, na 6ª-Feira e no Sábado; e também em qualquer outro dia, se acontecer a comemoração de algum santo” (Carta 93)[38].

Em outros lugares, fala de “receber o corpo e o sangue de Cristo” e de “participar do santo corpo e sangue de Cristo” (Regra Moral 21,1-2; Regra Breve, Tratado 172).

GREGÓRIO NANZIANZENO

Outro dos grandes Padres Capadócios. Nasceu em 330 e morreu em 389. Trabalhou em grande sintonia com São Basílio e o irmão de Basílio, São Gregório de Nissa. Seu pai foi Bispo de Nanzianzo. Foi ordenado sacerdote em 362. Nomeado Bispo de Niceia, renunciou à esta sé por problemas canônicos. Foi Bispo de Nanzianzo por alguns anos, até que se aposentou, e passou a viver em solidão e oração até sua morte. Seus escritos são de imensa profundidade teológica.

Tratando da celebração eucarística, exorta aos fiéis:

– “Se desejais a Vida, comei o Corpo e bebei o Sangue sem temor e sem dúvidas” (Discurso 45, na Santa Páscoa 19).

E em uma carta:

– “Ó piedosíssimo: não te canses de pedir e advogar por nós, quando por tua palavra fizeres baixar o Verbo; quando pelo fracionamento incruento, usando a voz no lugar da espada, cortares o Corpo e o Sangue do Senhor (=exato momento da fração do pão eucarístico na Missa)” (Carta 171, a Anfilóquio 3).

GREGÓRIO DE NISSA

Irmão de São Basílio e amigo de São Gregório Nanzianzeno. Nasceu em 335 e morreu em 394. Grande místico, teólogo e escritor. Foi consagrado Bispo de Nissa, na Capadócia.

Ensinando aos seguidores de Cristo como se deve entender as Escrituras, diz-lhes:

– “Cremos que também agora o pão santificado pela palavra de Deus se transforma no corpo do Verbo de Deus” (Discurso Catequético 37).

E em outro lugar:

– “Inicialmente, o pão é comum; mas quando o mistério o consagrou, chama-se e se faz corpo de Cristo” (In Diem Luminum; PG 46,581).

Afirma também que Cristo Se ofereceu em sacrifício antes mesmo do Calvário, e diz:

– “Quando se deu isso? Quando aos que estavam com Ele lhes fez Seu corpo ao pão e, à bebida, Seu sangue. Porque é totalmente manifesto que os homens não podem comer um cordeiro se anteriormente não se dá a morte disto que comem. Ele, que deu Seu corpo como comida aos Seus discípulos, manifestou abertamente que já se tinha cumprido o sacrifício do cordeiro” (Discurso 1, na Santa Páscoa; PG 46,612).

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– “[Durante a Santa Ceia,] a igreja (=corpo de fiéis) em que o Senhor está presente (cf. Mateus 18,20), participa – recordando através do pão e vinho, que simbolizam o corpo e sangue de Cristo – do sacrifício perfeito de Jesus na cruz do Calvário” (Guillermo Hernández Agüero, evangélico).
– “Assim, com absoluta segurança, participamos do corpo e do sangue de Cristo, porque na figura do pão te é dado o Corpo, e na figura do vinho te é dado o sangue, para que, participando do corpo e do sangue de Cristo, sejas feito concorpóreo e consanguíneo de Cristo” (São Cirilo de Jerusalén, Bispo, Século IV).
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CIRILO DE JERUSALÉM

Testemunha insígne da fé da Igreja de Jerusalém no século IV, em particular através de suas “Catequeses Mistagógicas”.

Instruindo os recém-batizados, ensinando a fé e a vida da Igreja, comenta o relato paulino da instituição da Eucaristia; e recitando as palavras de Jesus durante a instituição, as comenta desta maneira:

– “Quando Ele mesmo declarou e disse do pão: ‘Isto é Meu corpo”, quem se atreverá a duvidar? E quando Ele mesmo garantiu e disse: ‘Isto é Meu sangue’, quem duvidará, afirmando que não é Seu sangue?” (Catequese Mistagógica 4,1).

– “Em certa ocasião, por um mero desejo Seu, converteu água em vinho durante as bodas de Caná, na Galileia. Não é digno de se crer então que Ele converte o vinho em Seu sangue?” (Catequese Mistagógica 4,2).

– “Portanto, com absoluta segurança participamos do corpo e do sangue de Cristo, porque na figura do pão se te é dado o corpo, e na figura do vinho se te é dado o sangue, para que, participando do corpo e do sangue de Cristo, sejas feito concorpóreo e consanguíneo de Cristo; pois assim somos também portadores de Cristo: tendo Seu corpo e Seu sangue distribuídos por nossos membros. Logo, segundo São Pedro, somos consortes da natureza divina” (Catequese Mistagógica 4,3).

– “Não vejas, portanto, o pão e o vinho como coisas comuns, porque são – segundo a declaração do Senhor – corpo e sangue. Pois ainda que os sentidos te sugiram isso, a Fé te assegura o contrário. Não os julgues pelo gosto, mas pelo o que a Fé te assegura indubitavelmente, tu que foste digno do corpo e do sangue de Cristo” (Catequese Mistagógica 4,6).

– “Com a certeza de que o aparente pão não é pão – ainda que o seja segundo o paladar – mas corpo de Cristo; e que o aparente vinho não é vinho – ainda que o paladar o aponte – mas sangue de Cristo (…), fortifica o teu coração, participando Dele como de um pão espiritual, rejuvenecendo a face da tua alma” (Catequese Mistagógica 4,9).

– “Após nos termos santificado através desses hinos espirituais, invocamos ao bom Deus para que faça descer o Espírito Santo sobre os dons presentes, para que o pão venha a ser o corpo de Cristo e o vinho, o sangue de Cristo” (Catequese Mistagógica 5,7).

– “Não deixeis o juízo à vossa garganta corporal, mas à Fé indubitável, porque quando [ao ter recebido a sagrada comunhão] a estais ingerindo, não é pão e vinho o que ingeris, mas o antítipo do corpo e sangue de Cristo” (Catequese Mistagógica 5,20).

As passagens acima citadas tornam totalmente impossível qualquer dúvida acerca do realismo eucarístico de Cirilo de Jerusalém. Por isso, as últimas palavras somente podem ser entendidas assim: as espécies eucarísticas (o que aparece como pão e vinho) são símbolos que nos levam à realidade que nos é dada, isto é, o corpo e o sangue do Senhor; é o que afirma um texto anteriormente citado: “na figura de pão se dá o corpo”. Esta passagem confirma a interpretação “realista” que fornecemos em outra ocasião, ao tratar dos textos que contêm a difícil expressão grega “antítipo”.

DÍDIMO O CEGO

Monge de Alexandria, mestre dos mestres. Nasceu em 313 e morreu por volta de 398. Apesar de ter perdido a visão aos 4 anos de idade, converteu-se em um dos homens mais sábios do seu tempo. Foi colocado à frente da Escola de Alexandria por Santo Atanásio. Viveu sempre como leigo na periferia de Alexandria.

Em um escrito seu, recentemente encontrado, lemos:

– “Mais condenável e abertamente prejudicial é o jejum praticado por aqueles que se afastam do pão da vida e da carne de Jesus, que são o pão da vida, o pão da verdade descido do céu. Sendo alimento da vida, não convém de maneira nenhuma abster-se dele” (Sobre Zacarias 2,121).

AMBRÓSIO DE MILÃO

Um dos mais importante Padres do Ocidente. Nasceu por volta de 339 e morreu em 397. Tendo recebido uma boa educação, chegou a ser cônsul da região italiana de Ligúria e Emília, tendo estabelecido sua residência em Milão. Quando ainda era catecúmeno, foi eleito para a sé episcopal de Milão, cargo que aceitou em razão do pedido quase que unânime dos fiéis da Diocese. Foi então batizado e ordenado sacerdote e bispo. De vida exemplar, soube conduzir os civis e os governantes segundo o Evangelho. Escreveu numerosos hinos para a celebração da liturgia. Seus sermões e seu exemplo de vida foram responsáveis pela conversão de Agostinho à Fé cristã.

São conservadas muitas expressões acerca da doutrina de Ambrósio sobre a real presença de Cristo na Eucaristia. Proponho aqui apenas algumas:

– “‘Minha carne verdadeiramente é comida e meu sangue, bebida’: Ouvís carne; ouvís sangue; conheceis os mistérios da morte do Senhor e caluniais a divindade? (…) Sempre que nós recebemos os mistérios [na celebração eucarística], que pelo mistério da sagrada oração [eucarística] se transfiguram em carne e sangue, anunciamos a morte do Senhor” (Da Fé 4,10,124).

– “Cristo é alimento para mim; Cristo é bebida; a carne de Deus é comida para mim e o sangue de Deus é bebida. Já não espero as colheitas anuais para saciar-me; Cristo me é servido todos os dias” (Exposição ao Salmo 118,15,28).

A alguém a quem poderia parecer que o milagre do maná não era superado por nada na Igreja, e que ainda poderia imaginar que na celebração eucarística o pão é um pão comum, responde:

– “Porém, esse pão é pão antes das palavras dos mistérios; quando sobrevém a consagração, do pão se faz carne de Cristo. Vamos prová-lo: como é que o pão pode ser corpo de Cristo? Pois, na consagração, com quais palavras e de quem são essas palavras? Do Senhor Jesus (…) É a palavra de Cristo que produz este sacramento” (Dos Sacramentos 4,4,14).

E oferece ainda uma resposta final:

– “Não era corpo de Cristo antes da consagração; mas depois da consagração, te digo que já é o corpo de Cristo. Ele o disse e assim Se fez; ordenou isto e Se criou” (Dos Sacramentos 4,4,16).

Prova com vários exemplos a eficácia da palavra divina e conclui:

– “Sabeis, pois, que do pão se faz o corpo de Cristo e que do vinho, que se encontra com água no cálice, se faz sangue pela consagração celeste. Direis, talvez: ‘Eu não enxergo aparência de sangue’. Mas se assemelha, pois como recebestes o símbolo da morte [mediante o Batismo], assim também bebeis o símbolo do precioso sangue, para que não tenhais horror [ao ver] sangue e, deste modo, seu efeito produza o preço da redenção. Sabeis, pois, que o que recebeis é o corpo de Cristo” (Dos Sacramentos 4,4,19-20).

Ao inegável realismo do corpo e sangue do Senhor é acrescentado aqui uma palavra de terminologia simbólica: “similitudo”, “símbolo”. Partindo da semelhança natural do vinho com o sangue, ao vinho consagrado chama “símbolo do sangue de Cristo”, não porque Ele não esteja ali realmente (não se esqueça que essa bebida, segundo Santo Ambrósio, produz efeitos redentores), mas para que a aparência do vinho evite a repugnância natural que qualquer pessoa teria de beber sangue (a objeção do catecúmeno era: “Eu não enxergo aparência de sangue”).

Mais adiante, alude às palavras da anáfora eucarística e torna a insistir:

– “Antes de consagrá-lo, é pão; mas quando sobrevêm as palavras de Cristo, é o corpo de Cristo (…) Também antes das palavras de Cristo, o cálice está cheio de vinho e água; mas quando atuaram as palavras de Cristo, ali se encontra o sangue Daquele que redimiu o povo. Vede, pois, de quantas formas a palavra de Cristo pode mudar tudo. Finalmente, o próprio Senhor nos atestou que o que recebemos é o Seu corpo e o Seu sangue. Devemos duvidar da autoridade do Seu testemunho?” (Dos Sacramentos 4,5,23).

Em vários de seus sermões Ambrósio nos oferece um exemplo claro de outro aspecto que é importante considerar na hora de compreender os escritos dos antigos Padres da Igreja e, assim, poder deduzir no que realmente acreditavam. Refiro-me à “disciplina do arcano”. O Pe. Ott assim a explica: “Existia então a ‘disciplina arcani’, que era um lei que obrigava os fiéis dos primeiros tempos da Igreja a guardar segredo acerca dos mistérios da fé, e de maneira particular, da Eucaristia. Era uma precaução lógica que tinha por objetivo evitar as calúnias dos pagãos, que podiam tergiversar o sentido da nova doutrina (=a Fé cristã); cf. Orígenes, Sobre Levítico, Homilia 9,10”. Em outras palavras: os cristãos dos primeiros séculos tentavam não tornar pública a doutrina eucarística exatamente porque acreditavam na presença real de Cristo, coisa que, se fosse conhecida dos pagãos, seria objeto de ironia ou perseguição. Um texto de Ambrósio ilustra isso muito bem; falando aos que tinham recebido recentemente o Batismo, após uma longa e consciente instrução, lhes diz:

– “Agora já é tempo de falar dos sagrados mistérios (=a Eucaristia) e explicar-vos o significado dos Sacramentos, coisa que, se o tivéssemos feito antes do Batismo, seria mais apropriadamente uma violação à disciplina do arcano do que uma instrução” (Dos Mistérios 1,7; SC 25bis,156-158).

Em sua explicação dos sacramentos cristãos, tratando da Eucaristia, propõe novamente a objeção: “Talvez direis: ‘Eu enxergo outra coisa. Como me dizes que estou recebendo o corpo de Cristo?’ É isso o que nos resta provar”. Depois de acumular exemplos onde a natureza das coisas foi alterada mediante a intercessão dos santos, responde à objeção:

– “Pois se tanto poder teve a bênção humana que mudou a natureza, o que diremos da própria consagração divina, quando o que age são as próprias palavras de Nosso Salvador? Porque o sacramento que recebeis é feito com as palavras de Cristo. E se a palavra de Elias teve tanto poder para fazer descer fogo do céu, não teria poder a palavra de Cristo para alterar a natureza dos elementos? (…) A palavra de Cristo que pôde fazer do nada o que não existia, não poderá alterar o que existe naquilo que não era [isto é, converter o pão em corpo de Cristo]? É óbvio que a Virgem deu à luz fora da ordem natural; pois também aquilo que consagramos é o corpo nascido da Virgem (…) Sem dúvida nenhuma, foi a verdadeira carne de Cristo que foi crucificada e sepultada; portanto, [a Eucaristia] é verdadeiramente o sacramento da Sua carne” (Dos Mistérios 9,50-53)[39].

E, no final de seu discurso:

– “É o próprio Senhor Jesus quem clama: ‘Isto é Meu corpo’. Antes da bênção com as palavras celestes, chama-se outra coisa [=”pão”]; após a consagração, temos o corpo. Ele mesmo disse que é Seu sangue. Antes da consagração, chama-se outra coisa [=”vinho”]; após a consagração, chama-se “sangue”. E tu dizes: “Amém”, ou seja, “É verdade”. O que a tua boca diz, confesse também o teu espírito. O que soam as palavras, sinta também o afeto” (Dos Mistérios 9,54).

Este impressionante realismo eucarístico não apenas foi expresso constantemente pelo Bispo de Milão, como também ensinado, provado e exigido por ele aos seus fiéis, como pertencente à Fé Cristã. Logo, não há razão para ser obscurecido por uma frase como esta: “Que esta oferenda Te seja agradável, porque é figura do corpo e do sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Dos Sacramentos 4,5,21). Isto porque:

1º) Parece que se trata de uma citação extraída por Santo Ambrósio de uma outra obra;

2º) Ambrósio nunca emprega a palavra “figura” para designar os ritos sagrados, preferindo “similitudo” ou “semelhança” e “símbolo”, deixando a palavra “mistério” para a realidade profunda que encerram essas “similitudo” do pão e do vinho, ou da água e do azeite etc. Recorde-se aqui o que dissemos sobre Cirilo de Jerusalém e outros Padres acerca do emprego das palavras “tipo”, “antítipo” etc.

Uma última citação:

– “É por isso também que a Igreja, tendo em suas mãos tão imensa graça, exorta os seus filhos e amigos a reunirem-se para receber os Sacramentos, dizendo: ‘Comam, meus amigos. Bebam e embriaguem-se, irmãos’ (…) Nesse sacramento [da Eucaristia] Cristo está [presente], pois é o corpo de Cristo; não é, portanto, comida corporal, mas espiritual (…) porque o corpo de Cristo é o corpo do Espírito divino (…) E, finalmente, essa comida fortalece o nosso coração; essa bebida alegra o coração do homem, como anunciou o Profeta” (Dos Mistérios 9,58).

Sirvam estas explicações do século IV também a aqueles que em pleno século XXI interpretam a Eucaristia católica como “canibalismo”, ou como um convite para comer “fibras, músculos, derme (…) plaquetas, plasma, glóbulos”, ou que creem possuir licença para supor que o convite à recepção frequente da Eucaristia – como, p.ex., o de Ambrósio de Milão, no séc. IV – é “mecanismo” para “um truque”[40]. Deve-se manter os dois extremos do mistério, sem destruir nenhum: a presença do corpo de Jesus na Eucaristia é real (não simbólica), ainda que seja dado de comer de maneira espiritual. (…)

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– “Receber Cristo a cada domingo? É claro que só podemos receber algo quando não temos esse algo (isto até me parece óbvio)” (Daniel Sapia, evangélico).
– “É certamente algo bom e proveitoso receber a Eucaristia todos os dias e assim participar do corpo e do sangue de Cristo” (São Basílio, Bispo, século IV).
– “Nossa manjedoura é o altar de Cristo, ao qual vamos todos os dias para comer o corpo do Senhor, alimento de salvação” (Cromácio de Aquileia, Bispo, século IV).
– “Ele é o pão que, semeado na Virgem, fermentado na carne, feito na Paixão, cozido no forno do sepulcro, preparado nas igrejas, levado aos altares, é dado diariamente aos fiéis como manjar celeste” (São Pedro Crisólogo, Bispo, século V).
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GREGÓRIO DE ELVIRA

Em sua obra “De Viris Illustribus” (“Dos Homens Ilustres”), São Jerônimo o louvava como Bispo de Elvira. Morreu por volta de 392.

Comentando Cântico dos Cânticos 2,4 (“Introduziu-me na casa do vinho”), diz:

– “O que significa ‘a casa do vinho’ senão o mistério da Paixão? Porque este vinho é o sangue de Cristo, que a Igreja sempre dá aos fiéis; o mistério da Paixão do Senhor, como Ele disse: ‘Se não comerdes a carne do Filho do homem – isto é, o pão da vida – e se não beberdes o Seu sangue, não tereis vida eterna” (Tractatus de Ephitalamio 3,24).

E explicando os gestos do Batismo, Confirmação e Eucaristia, que através da carne agem no espírito, ensina aos seus fiéis:

– “A carne é lavada para que a alma seja limpa; a carne é ungida para que a alma seja consagrada; a carne é assinalada para que a alma seja salva; a carne é encoberta pela imposição das mãos para que [a alma] seja iluminada pelo Espírito Santo; a carne come e bebe o corpo e o sangue de Cristo para que a alma seja saciada de Deus” (Tractatus De Libris Sacrarum Scripturarum 17,26).

OPTATO DE MILEVI

Importante personagem na luta contra a heresia norte-africana denominada “Donatismo”. Poucos dados biográficos são-nos conhecidos. Nasceu em torno de 385. Foi Bispo da cidade de Milevi. Alguns de seus escritos foram conservados.

Os donatistas tinham destruído altares do culto católico; então, contra eles, escreve o Bispo Optato:

– “Porque o que é o altar senão a sede do corpo e do sangue de Cristo? (…) Em que vos ofendeu Cristo, cujo corpo e sangue habitavam ali [sobre o altar] em certos momentos? (…) Porém, conseguistes duplicar esse crime monstruoso quando quebrastes também os cálices que portavam o sangue de Cristo” (Contra Parmenianum donatistam 6,1-2).

Os modernos donastistas já não destróem os altares católicos, mas evitam a todo custo que os fiéis participem deles.

MACÁRIO MAGNES

Apologista cristão de finais do século IV. Foi Bispo de Magnésia. Sabemos que participou do Sínodo de Oak de 413. Por volta de 400, escreveu uma defesa do Cristianismo contra uma personagem fictícia que representava as acusações dos pagãos.

Macário responde a diversas objeções dos pagãos de então, que – curiosamente – também se baseavam nos Evangelhos para atacar as doutrinas católicas universalmente aceitas pelas igrejas. Entre outras coisas, o Cristianismo era acusado de “monstruosidade”, por convidar seus fiéis a comer o corpo e beber o sangue do Senhor (as mesmas acusações que atualmente alguns “cristãos evangélicos” nos fazem). Respondendo a esta objeção, diz, entre outras coisas:

– “Com toda razão Cristo, tomando o pão e o vinho, disse: ‘Isto é Meu corpo e Meu sangue’, pois não é figura do corpo, nem figura do sangue [como dizem alguns em sua mente], mas verdadeiramente corpo e sangue de Cristo”.

E um pouco depois:

– “O corpo de Deus, que é terreno, conduz à vida eterna aqueles que o comem. Cristo, portanto, deu aos fiéis o seu próprio corpo e sangue, introduzindo neles a medicina vital da divindade” (Apocrítico 3,23).

JOÃO CRISÓSTOMO

Sem dúvida, é o mais renomado representante da Patrística Grega. Nasceu entre os anos 344 e 354 na Antioquia. Recebeu o Batismo por volta dos 18 anos, das mãos do Bispo de Constantinopla. Desde então, dedicou-se ao estudo das Escrituras, em particular das Cartas de Paulo, que chegou a reter de memória. Após algum tempo como ermitão nas proximidades de Antioquia, foi ordenado sacerdote. Pregou na principal igreja dessa cidade por 12 anos, onde mereceu o apelido “Boca de Ouro” (=”Crisóstomos”). Foi nomeado Bispo de Constantinopla, onde trabalhou incansavel e compromissadamente pela reforma dos costumes, o que lhe rendeu a perseguição por parte da Corte Real e dos clérigos a ela ligados. Morreu em 407, no desterro. Uma grande quantidade de suas obras foram conservadas.

Os textos de Crisóstomo acerca da Eucaristia são numerosos. Menciono aqui apenas alguns. Dirigindo-se aos recém-batizados no dia da Páscoa (de 390), lhes fala da ideia de combate ao demônio, devendo viver como cristãos com as armas dadas pelo Senhor:

– “Porém… O quê? Será que preparou apenas armas? Não, mas também preparou um alimento mais poderoso que qualquer arma, para que não te canses durante a luta, para que venças o inimigo com gosto. Pois basta que te veja voltar da Ceia do Senhor (=a Eucaristia), [o demônio] foge mais rápido que o vento, como se tivesse visto um leão saindo da tua boca. E se mostrares a língua tingida com o precioso sangue, nem poderá conter-se; se lhe mostras a boca vermelha de púrpura, fugirá mais rápido que uma fera” (Catecheses Ad Illuminandos Octo, Homilia 3,12).

E um pouco depois:

– “Então o anjo exterminador viu o sangue marcando as portas e não se atreveu a entrar. Agora, se o demônio já não vê a figura do sangue assinalando as portas, mas o verdadeiro sangue marcando as bocas dos fiéis – que são as portas do templo portador de Cristo – não irá com muito mais razão se deter? Porque se o anjo, ao ver a figura, se deteve, então muito mais o demônio fugirá ao ver a verdade” (Catecheses Ad Illuminandos Octo, Homilia 3,15).

Observamos antes que alguns Padres identificam o corpo eucarístico de Jesus com Seu corpo histórico, sempre de modo sacramental, jamais canibalístico. Crisóstomo ensina o mesmo. Em diversas obras, diz:

– “Feito filho, gozas também de uma mesa espiritual, comendo a carne e o sangue que te regenerou” (Exposição ao Salmo 144,1).

– “Porque o que disse foi isto: que o que está no cálice é aquilo que emanou do lado [aberto de Cristo]; e disso participamos” (Sobre 1Coríntios, Homilia 24,1).

– “Todos nós que participamos do corpo, todos nós que provamos deste sangue, devemos pensar que participamos do corpo que não difere em nada e nem se distinque daquele [corpo histórico de Jesus]” (Sobre Efésios, Homilia 3,3).

– “Elias deixou o manto com seu discípulo, mas o Filho de Deus, ao subir [aos céus], nos deixou Sua própria carne. Elias desnudou-se dele, mas Cristo nos deixou [Sua carne] e também subiu [aos céus] com ela” (De Statuis, Homilia 2,9).

– “Eu te mostro [na Eucaristia] não anjos, nem arcanjos, nem céus, nem céu dos céus, mas o próprio Senhor disso tudo. Percebes como estás vendo a mais preciosa de todas as coisas da Terra e que, não apenas a estás vendo, como também a tocas; e que não apenas a tocas, mas também a comes e, levando-a [em ti], voltas para a tua casa?” (Sobre 1Coríntios, Homilia 24,5).

– “Quantos dizem agora: como eu gostaria de ver a Sua forma, a Sua figura, as Suas vestes, os Seus calçados. Pois aqui [na Eucaristia] O estás vendo, O tocas, O comes. Desejas ver Suas vestes? Ele mesmo Se dá a ti, não só para que O veja, mas também para que O toques e O comas, e O recebas dentro de ti” (Sobre Mateus, Homilia 82,4).

– “Não é o homem quem faz que as coisas ofertadas (=o pão e o vinho) se convertam no corpo e sangue de Cristo, mas o próprio Cristo que foi crucificado por nós. O sacerdote, figura de Cristo, pronuncia essas palavras, mas sua eficácia e graça provêm de Deus. ‘Isto é Meu corpo’ – diz. Esta palavra transforma as coisas ofertadas” (Prod. Jud. 1,6).

A tradicional relação entre Eucaristia e Encarnação resta, assim, afirmada com toda clareza:

– “O que há de igual na economia realizada para nós? Pois Aquele (=Jesus) que era para Ele (=o Pai) o mais precioso de todos os seres, o Filho unigênito, a Esse O deu por nós, seus inimigos. E não apenas O deu, como também, depois de O ter dado, nós coloca Ele também como alimento” (Sobre Mateus, Homilia 25,4).

– “[Cristo diz:] ‘Quis fazer-Me vosso irmão. Por vós, participei da carne e do sangue. Novamente vos dou hoje a mesma carne e o mesmo sangue, pelos quais cheguei a ser parente vosso'” (Sobre João, Homilia 46,3).

– “E em muitos lugares repete a mesma coisa, deixando bem claro que o que se recebe na Eucaristia não é uma recordação de Jesus, mas que na recordação Dele se recebe ‘o próprio Filho de Deus’, ‘o Rei do Universo’, ‘o Senhor do Mundo’, ‘o próprio Cristo’, ‘Sua própria carne’, ‘aquela que brotou do Seu lado [aberto]'”[41].

O sr. Guillermo Hernández Agüero, no artigo que publica no site “Conoceréis la Verdad”, traz as seguintes palavras de Crisóstomo para defender a permanência da substância do pão após a consagração:

– “O pão após a consagração é digno de ser chamado ‘o corpo do Senhor’, mesmo quando a natureza do pão permanece nele” (Carta a Cesário).

Em primeiro lugar, esta obra não provém da pena de João Crisóstomo; é apócrifa (atribuída a Crisóstomo), mas de outro autor na verdade (possivelmente Teodoreto de Ciro).

Em segundo lugar, a frase completa é esta:

– “Do mesmo modo que o pão, antes de ser santificado, é chamado ‘pão’, mas uma vez que tenha sido santificado pela graça divina, através do sacerdote, perde o nome ‘pão’ e é digno de ser chamado ‘corpo do Senhor’, embora a natureza de pão permaneça nele, dizemos, no entanto, que não há dois corpos do Filho, mas apenas um” etc. (texto em Migne 52,758).

Em terceiro lugar, [está claro que o texto] supõe que algo ocorre durante a consagração (ou “santificação”) feita pelo “sacerdote”, de modo que o pão pode ser apropriadamente chamado de “corpo do Senhor” (coisa que os inimigos da presença real jamais fizeram e nem falam de modo semelhante; a “santificação” do pão por obra de Deus através do “sacerdote”, que permite que possamos chamar esse pão de “corpo do Senhor”, todo este vocabulário pertence ao culto católico e de modo algum ao culto “evangélico”).

Em quarto lugar, o texto – independentemente de quem tenha sido o seu autor – afirma que após a consagração o pão continua conservando todas as suas propriedades (coisa que é definida como “a natureza” do pão) e que, bem entendido, não afasta a doutrina da presença real. Não devemos esquecer que o mistério eucarístico foi precisando aos poucos as palavras que o expressam, de modo que seria anacronismo exigir que um autor do século V ou VI empregasse as categorias filosóficas e hermenêuticas que se desenvolveram muito depois na teologia eucarística. Poderíamos dizer muito bem hoje – por exemplo, durante uma homilia – que “o pão conserva sua natureza de pão” desde que se entenda por isto não “a substância” do mesmo, mas todos os seus acidentes naturais: odor, sabor, cor etc. Em outras palavras: é possível compreender muito bem este texto no sentido católico.

Em quinto lugar, devemos saber que o autor menciona esse tema muito de passagem e como exemplo para um outro assunto que está abordando em profundidade, no caso, as duas naturezas de Cristo. É importante saber isto para estimar a importância do texto.

Por fim, se se quer ver neste texto uma expressão favorável [de João Crisóstomo] à presença simbólica, dever-se-ia afirmar também que destoa de todos os demais textos eucarísticos deste mesmo autor.

É interessante notar o “modus agendi” de pessoas como Hernández Agüero: o leitor desprevenido, ao ler a expressão do autor “evangélico”: “Existem alguns Padres que podem nos dizer algo sobre o nosso tema”, poderá pensar que efetivamente está diante de material patrístico abordando a Eucaristia… Mas isso é verdade? Muito pelo contrário! Citar quatro expressões de dois Padres (um dos quais nem sequer sabemos realmente quem foi) e apresentar isso como “o que alguns Padres podem nos dizer” – sabendo que o que eles “podem nos dizer” sobre a Eucaristia enche dois enormes volumes[42] – é lorota pura e simples. E isto não nos surpreende, já que as duas únicas citações escolhidas pretendem ser contrárias à doutrina católica… Honestidade intelectual? O leitor pode encontrar o que “alguns Padres podem nos dizer sobre o nosso tema” em publicações católicas (das quais o nosso trabalho é apenas mero resumo), jamais nos autores “evangélicos” que temos citado aqui. Nestes [autores], a verdade em relação ao que toda a Igreja acreditou por dois milênios brilha, infelizmente, por sua ausência.

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– “Foi o Papa Pio III quem tornou o “sacrifício” da Missa um dogma oficial em 1215″ (Daniel Sapia, evangélico).
– “Quanto ao cálice – também tomado dentre as criatura como nós – confessou ser Seu sangue e ensinou que era o sacrifício do Novo Testamento” (Santo Ireneu de Lião. Bispo, século II).
– “Aceita, Pai, estes dons (=o pão e o vinho consagrados na Eucaristia) para a glória do Teu Cristo, e envia sobre este sacrifício o Teu Santo Espírito” (Tradição Apostólica, século III).
– “Porque aqueles [ouvintes em Cafarnaum [cf. João 6]] tramaram extinguir o Seu corpo, consumindo-o; e estes (=os fiéis cristãos) desejam saciar seu espírito faminto com as Suas carne no sacrifício diário de imolação” (São Gregório Magno, Papa, século V).
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SEVERIANO DE GÁBALA

Contemporâneo de Crisóstomo. Bispo de Gábala, na Síria. Escreveu vários comentários às Escrituras. Sua atividade mais conhecida é em Constantinopla, onde tomou parte contra Crisóstomo nas desavenças ocasionadas pelo governo imperial. Morreu nos primeiros anos do século V.

Em um de seus numerosos sermões, explica ao povo:

– “Cristo veio, instituiu uma mesa [na Última Ceia], propôs a Si mesmo como alimento e disse: ‘Tomai e comei’. E cessando a guerra, deu triunfo à paz (…) Cristo propõe a Si mesmo como comida” (In Ascensionem 11).

CROMÁCIO DE AQUILEIA

Bispo de Aquileia (na atual Itália). Morreu por volta de 407. Conserva-se a correspondência que manteve com Ambrósio de Milão e Jerônimo, que lhe dedicou diversas traduções e comentários feitos a pedido de Cromácio. Conservam-se também 18 tratados sobre textos do Evangelho de Mateus.

Seu realismo eucarístico aparece nestas palavras:

– “O fato de nosso Senhor e Salvador ser posto na manjedoura significa que seria alimento dos fiéis, pois a manjedoura é o lugar para onde os animais vão para se alimentar. Nós, que somos também animais, mas racionais, temos uma manjedoura celeste para onde nos dirigimos: nossa manjedoura é o altar de Cristo, aonde vamos todos os dias comer o corpo de Cristo, o alimento de salvação” (Sermão 32,3).

– “Comemos, portanto, a Páscoa com Cristo, pois Ele mesmo Se dá como alimento àqueles que quer salvar; pois foi Ele quem fez a Páscoa e também quem fez o mistério [da Eucaristia], o qual cumpriu a festividade desta Páscoa precisamente para nos restaurar com o manjar da Sua Paixão e para nos reanimar com a bebida da salvação” (Sermão 17-A,2).

GAUDÊNCIO

Bispo de Bréscia, na Itália. Morreu por volta de 410. Amicíssimo de João Crisóstomo e Ambrósio de Milão. Conservam-se vários sermões pascais.

Na noita da Páscoa, comentando o êxodo do povo de Deus, diz:

– “Na verdade, um morreu por todos e é o mesmo que, em cada uma das igrejas, no mistério do pão e do vinho, restaura imolado, vivifica ao ser crido, uma vez consagrado também santifica os consagrantes. Esta é a carne do cordeiro; este é o sangue; porque o pão que desceu do céu, disse: ‘O pão que Eu vos darei é a Minha carne, para a vida do mundo’. E também se expressa claramente sobre seu sangue na forma de vinho, visto que Ele diz no Evangelho: ‘Eu sou a verdadeira videira’; está declarando aí que o Seu sangue é todo o vinho que é oferecido em figura da Sua Paixão” (Tratado 2).

TEÓFILO DE ALEXANDRIA

Patriarca da igreja de Alexandria entre 385 e 412. Combateu duramente o Paganismo. Conservam-se algumas cartas, entre outros escritos menores.

Em um primeiro momento, Teófico foi amigo de vários monges origenistas, mas logo se converteu em um zeloso impugnador das teorias não-católicas de Orígenes. Entre elas, assinala a afirmação de que Cristo morreu não apenas pelos homens, mas também pelos demônios. Sua refutação é curiosa, pois reflete bem a fé na Eucaristia:

– “Quem sustenta algo, tem que admitir também as consequências. Assim, se afirma que Cristo foi crucificado em favor dos demônios, que mantenha também que deve ser dito a estes: ‘Tomai e comei: isto é Meu corpo’; e ‘Tomai e bebei: isto é Meu sangue’. Isto porque, se foi crucificado pelos demônios – como assegura esse afirmador de novidades – por qual privilégio ou por qual motivo será dado somente aos homens a comunhão no corpo e sangue de Cristo e não também aos demônios, se por estes Ele também derramou Seu sangue na Paixão?” (Carta Festal 16,11).

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– “Esta tradição [da transubstanciação] foi introduzida na Igreja por volta de 300 d.C. [e] tornou-se dogma de fé em 1215” (Marco de Vivo, evangélico).
– “Porque não recebemos estas coisas como se fossem pão comum e bebida comum, pois (…) nos ensinaram que o alimento convertido em Eucaristia (…) é a carne e o sangue Daquele Jesus que Se encarnou por nós” (São Justino, Mártir, século II).
– “Recebendo a palavra de Deus [na consagração, os dons do pão e do vinho] se convertem em Eucaristia, que é o corpo e o sangue de Cristo” (Santo Ireneu, Bispo, século II).
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TEODORO DE MOPSUÉSTIA

Bispo de Mopsuéstia, na Cilícia. Nasceu em 350 e morreu em 428. Com grandes talentos, tornou-se logo homem bastante versado nas Escrituras e na Teologia. Foi ordenado sacerdote. Escreveu muito contra todas as heresias do seu tempo. Foi ordenado Bispo de Mopsuéstia, na Ásia Menor. Participou do Concílio de Constantinopla. Conservam-se numeros escritos exegéticos, sermões, entre outros.

Este destacado pregador ensinava:

– “No entanto, é notável que, ao dar o pão, Ele não disse: ‘Isto é a figura (em grego, ‘tipos’) do Meu corpo’, mas: ‘Isto é o Meu corpo’. E o mesmo fez em relação ao cálice; não disse: ‘Isto é a figura (em grego, ‘tipos’) do Meu sangue’, mas: ‘Isto é o Meu sangue’. Isto porque Ele não quis que olhássemos para a natureza do pão e do vinho, que receberam a graça e a vinda do Espírito Santo, mas que os considerássemos como são: o corpo e o sangue do Senhor” (Homilias Catequéticas 15,10).

– “A oblação foi oferecida para que o que foi apresentado venha a ser, pela vinda do Espírito Santo, o corpo e o sangue de Cristo (…) Ainda que Ele venha até nós, dividindo-Se a Si mesmo [na distribuição do pão eucarístico], Ele está por inteiro em cada parte e próximo de todos nós. Ele se entrega a cada um de nós, para que O tomemos e O abracemos com todas as nossas forças e, assim, demonstremos o nosso amor para com Ele, no paladar de cada um de nós. Assim, o corpo e o sangue do Senhor verdadeiramente nos alimentam e nos fazem esperar sermos transformados em uma natureza imortal e incorruptível” (Homilias Catequéticas 16,25-26)[43].

CIRILO DE ALEXANDRIA

Doutor da Igreja, combateu eficazmente a heresia nestoriana. Foi bastante ativo durante o Concílio de Éfeso. Morreu em 444. Conservam-se numerosos escritos exegéticos, entre outros mais.

A ideia da presença real da carne do Senhor na Eucaristia é matéria frequente nas obras deste importante Padre Oriental. Vejamos alguns textos:

– “O Verbo vivificante de Deus, ao unir-Se à Sua própria carne – do modo que [só] Ele sabe – a tornou vivificante, pois Ele disse: ‘(…) Eu sou o pão da vida (…)’. Portanto, quando todos nós comemos a carne do Cristo Salvador e bebemos o Seu precioso sangue, temos Vida em nós e somos uma só coisa com Ele, permanecendo Nele e também Ele em nós” (Explicação do Evangelho de Lucas 22,19).

– “A verdadeira bebida é o precioso sangue de Cristo, que extirpa pela raiz toda corrupção e destrói a morte que existe na carne humana, já que não é o sangue de um homem qualquer, mas a própria Vida por natureza. Por isso, somos chamados ‘corpo e membros de Cristo’, porque recebemos pela Bênção (=a Eucaristia) o próprio Filho em nós” (Comentário do Evangelho de João 4,2,56).

– “Demonstrativamente, disse: ‘Isto é Meu corpo e isto é Minha carne’, para que não penses que tudo isso é figura, mas que, por razão de algo inefável do Deus todopoderoso, as oblações [do pão e do vinho] se transformam verdadeiramente no corpo e no sangue de Cristo. Ao participarmos delas, recebemos a força vivificante e santificante do Cristo” (Comentário do Evangelho de Mateus 26,27).

PROCLO DE CONSTANTINOPLA

Patriarca de Constantinopla, morreu em 446 ou 447. Conservam-se alguns sermões e cartas.

Comentando as palavras do Senhor em sua aparição ao Apóstolo São Tomé, exclama:

– “Felizes os que com fé enxergam o Invisível! Felizes vós, que em cada festividade O enxergais, O levais aos olhos, O beijais com os lábios e O comeis com os dentes, sem consumi-Lo! Ó extraordinários mistérios, ó tremendos mistérios! Aquele que está sentado à direita do Pai é também encontrado nas mãos dos fiéis! Aquele a quem os anjos louvam é sustentado por mãos impuras e levado pelos indignos de O levarem. Nossas mãos pecadoras não queimam; nossos dedos condenáveis não queimam; o Criador (…) não destrói o barro, mas Ele mesmo exorta, dizendo: ‘Tomai e comei. Tomai e bebei. Trazei vossas mãos e colocai-nas no meu lado [aberto]; consumí os meus membros, porque seja qual for o membro que tomardes, Eu estou nele por inteiro; Eu mesmo, a quem Tomé tocou'” (Homilia 33: In novam dominicam et in infidelitatem Thomae 14,52-55).

TEODORETO DE CIRO

Bispo de Ciro, na Ásia Meridional. Nasceu em 393 e morreu em 457. Douto conhecedor de teologia e exegese bíblica. Grande missionário da sua Diocese e lutador incansável contra o Paganismo. Membro ativo na disputa contra Nestório.

Personagem bastante ativo nas controvérsias cristológicas, tratando da Eucaristia explica:

– “Gozando dos sagrados mistérios, não nos unimos em comunhão com o próprio Senhor, do qual afirmamos que são o corpo e o sangue, já que todos participamos do mesmo pão?” (Interpretação de 1Coríntios 10,16-17).

– “O próprio Senhor não prometeu dar para a vida do mundo uma natureza invisível, mas Seu [próprio] corpo (…) E na instituição dos divinos mistérios, tomando o símbolo, disse: ‘Isto é o Meu corpo” (Carta 131)[44].

– “[O símbolo místico] não se chama apenas ‘corpo’, mas também ‘pão da vida’. Assim o chamou também o Senhor, ensinando que não é um corpo humano comum, mas [corpo] de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é Deus e homem, eterno e recente” (Eranistes 2).

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– “Para os evangélicos [o pão eucarístico] ‘representa’ o corpo de Cristo; para os católicos, ‘é’ o corpo de Cristo” (Luis Romano, evangélico).
– “Não discuto agora se o ‘é’ equivale a ‘representa’. Basta-me o que Cristo diz: ‘Isto é Meu corpo’. Contra isto, nem o demônio pode. O que eu quero é não deixar as palavras ao meu arbítrio, mas ao arbítrio e ordem do Senhor” (Martinho Lutero).
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NILO DE ANCIRA

Morreu por volta de 430.

Expressa seu entendimento eucarístico deste modo:

– “Não nos aproximemos do pão eucarístico como se fosse um simples pão, já que é a carne de Deus: carne preciosa, adorável e vivificante, porque vivifica os homens que morreram em razão dos pecados. A carne comum não pode vivificar a alma e foi isto o que Cristo, o Senhor, disse no Evangelho: ‘a carne’ – isto é, a carne comum e simples – ‘para nada aproveita'” (Carta 3,39).

JERÔNIMO

É desnecessário apresentar a figura desta testemunha da Fé primitiva, uma das colunas mais importantes na transmissão do texto bíblico e na tradução das Escrituras. Nasceu na Dalmácia, em 340, e morreu em Belém, em 420.

Jerônimo atesta a fé oriental e ocidental ao ser um cristão que viveu de algum modo nos dois mundos.

– “Encerrada a Páscoa típica, após ter comido a carne do cordeiro com os Apóstolos, tomou o pão – que conforta o coração do homem – e passou para o verdadeiro sacramento da Páscoa, para que, como havia feito Melquisedec – sacerdote do Deus Altíssimo, que ofereceu pão e vinho como prefiguração – também Ele o apresentou verdadeiramente como Seu corpo e sangue” (Comentário de Mateus 4,26,26-27).

– “Tenhamos fome de Cristo e Ele nos dará o pão celeste; o pão nosso de cada dia Ele nos dá hoje (…) Alguém pensa que o pão celeste faz referência aos mistérios [eucarísticos] e assim o aceitamos, pois é verdadeiramente a carne de Cristo e verdadeiramente o sangue de Cristo” (Tratado sobre o Livro dos Salmos 145,7).

– “Nem foi Moisés quem nos deu o verdadeiro pão, mas o Senhor Jesus. Ele próprio é ‘convidado’ e ‘convite’; Ele próprio é quem come e quem é comido; bebemos o sangue Dele e sem Ele não podemos beber” (Carta 120).

Os textos acima citados não dão margem a dúvidas sobre a sua fé na verdade e realidade do corpo e sangue de Cristo na Eucaristia. Jerônimo possui também um texto que me parece particularmente útil e educativo pelo seguinte motivo: os modernos adversários da doutrina da presença real insistem em dizer que “comer a carne e beber o sangue do Senhor” se refere a “crer Nele”. Quanto a isso, devemos notar que a imagem de “comer o corpo e beber o sangue” de alguém nunca é, nas Escrituras, uma imagem de crer nessa pessoa. Tampouco desconheço qualquer literatura extrabíblica em que essa imagem receba tal interpretação. Em outras palavras: a imagem usada por Jesus não faz com que alguém pense, em primeiro lugar, “comê-Lo através da fé”. Tendo isto em mente, notamos que na História da Igreja muitas vezes os pregadores (até o dia de hoje) têm estendido a imagem, dando-lhe um sentido mais amplo e simbólico, sem que com isto queiram negar o sentido primeiro e realista da intenção de Jesus. E este texto de Jerônimo é um bom exemplo disso:

Veja também  29: jesus está realmente presente na eucaristia

– “Lemos as Santas Escrituras: imagino que o corpo de Jesus é o Evangelho; e imagino que as Santas Escrituras sejam os Seus ensinamentos. E quando diz: ‘Aquele que não come a Minha carne e não bebe o Meu sangue’, ainda que possa também ser entendido quanto ao mistério [eucarístico], não obstante diz respeito à palavra das Escrituras, ao ensinamento do Senhor, pois é verdadeiramente corpo de Cristo e sangue Seu. Quando vemos o mistério [da Eucaristia, quem já é cristão entende:] se uma migalhinha cair [no chão], já ficamos angustiados; então, quando ouvimos a Palavra de Deus, e a Palavra de Deus e o corpo de Cristo e o Seu sangue entram por nossos ouvidos, sendo que estamos [distraídos] pensando em outras coisas, em que perigo nos colocamos?” (Tratado sobre o Livro dos Salmos 147,14).

Observe-se que Jerônimo pressupõe o respeito pelo corpo do Senhor na Eucaristia e o toma como ponto de partida para acrescentar também que o Evangelho é “corpo de Jesus”, pelo qual devemos dedicar-lhe o mesmo respeito que dedicamos ao Seu corpo eucarístico (=”se uma migalhinha cair [no chão], já ficamos angustiados”). Tenho usado pessoalmente este ideia, com as mesmas palavras ou semelhantes, no ministério da pregação e nem por isso tenho querido anular o sentido eucarístico das palavras “o corpo e o sangue de Cristo” enquanto comida ou pão da vida, ainda que possam ser tomadas em sentido amplo, como “ensinamentos de Jesus” e, deste modo, por consequência, o “comer seu corpo e beber seu sangue” se referirão a crer Nele. Mas pelo que Jesus predisse e realizou, pelo que Paulo nos transmitiu e pelo que a Igreja entendeu, aqui existe um mistério mais profundo do que uma mera imagem da fé em Jesus: trata-se de uma comida real e uma bebida real, consistentes no corpo e no sangue do Senhor, como o próprio Jerônimo pressupõe no texto acima citado[45].

AGOSTINHO DE HIPONA

Como no caso anterior, basta recordar que se trata de um dos Padres da Igreja mais importantes e mais aceitos no mundo cristão. Nasceu em 354 e morreu em 430.

A doutrina eucarística de Santo Agostinho logo deu margem a diversas interpretações, que continuam até os nossos dias[46]. Não vou tratar de toda essa complexa temática, mas agrupar alguns textos em torno de algumas sínteses que são seguras:

a) Agostinho admite que o pão e o vinho eucarísticos são verdadeiramente o corpo e o sangue de Cristo. Comentando o Salmo 98,5, pergunta como é possível adorar o escabelo de Seus pés quando, segundo a Escritura (Isaías 66,1), o escabelo dos Seus pés é a Terra e, em outra parte, a Escritura (Deuteronômio 6,13) proíbe a adoração do que quer que seja, a não ser do próprio Deus. E responde:

– “Volto-me para Cristo, pois é Ele a quem busco aqui; e verifico que, sem cair na impiedade, adora-se o terrestre, e sem impiedade adora-se o escabelo dos Seus pés. Porque Ele tomou a terra da Terra, visto que a carne provém da terra; e tomou a carne da carne de Maria. E porque na própria carne caminhou por aqui, deu-nos de comer Sua própria carne, para a salvação; e como ninguém come essa carne sem adorá-La primeiro, descobrimos como se adora esse escabelo dos pés do Senhor; e não apenas não pecamos adorando-O, como também pecamos ao não adorá-Lo” (Comentário ao Salmo 98,9).

Em certo dia da Páscoa, pregava:

– “O que estais vendo é o pão e o cálice; é também o que vos diz os vossos olhos. Porém, naquilo que vossa fé pede para ser instruída, o pão é o corpo de Cristo e o cálice, o sangue de Cristo” (Sermão 217).

E, em outro momento, dizia aos fiéis reunidos para a Eucaristia:

– “Logo ocorre o que se pede nas preces sagradas, que estais a ouvir: para que, vindo a Palavra, faça-se o corpo e o sangue de Cristo. Isto porque, suprimindo a Palavra [da consagração], é pão e vinho; acrescentando a Palavra, já é outra coisa. É o que é essa ‘outra coisa’? É o corpo de Cristo e o sangue de Cristo” (Sermo Denis 6,3)

Mais alguns textos:

– “Cristo era carregado em Suas mãos quando, entregando Seus próprio corpo, disse: ‘Isto é Meu corpo’, pois tinha esse corpo em Suas mãos” (Comentário ao Salmo 33,1º,10)[47].

– “Cristo quis, por estas coisas, entregar o seu corpo e o seu sangue, o qual derramou por nós para o perdão dos pecados” (Sermão 227).

– “Cristo não foi imolado uma única vez em Si mesmo? No entanto, quanto ao Sacramento [da Eucaristia] – que se imola pelos povos não só em todas as solenidades da Páscoa, mas também todos os dias – não mente aquele que responde, caso lhe seja perguntado, que ‘há imolação'” (Carta 98,9)[48].

– “Reconhecei no pão [eucarístico] Aquilo que pendeu da Cruz; e no cálice, Aquilo que emanou do Seu lado [aberto]” (Sermo Denis 3,2).

– “Grande é a mesa em que os alimentos são o próprio Senhor da mesa. Nenhum dos convidados dá de comer a si próprio; isto quem faz é o Cristo, o Senhor. É Ele quem convida; é Ele o alimento e a bebida” (Sermão 329,1)[49].

– “Não quis ser reconhecido senão aí [na fração do pão, no caminho de Emaús]; por nós, que não iríamos vê-Lo na carne e, no entanto, iríamos comer a Sua carne (…) A ausência do Senhor não é ausência: tem fé e estará contigo Aquele a quem não vês” (Sermão 235,2,3).

– “Comeis aquela carne, da qual a própria Vida disse: ‘O pão que Eu vos darei é a Minha carne” (Sermo Denis 3,3).

– “Quando esta vida tiver passado (…) não teremos mais que receber o sacramento do altar, porque ali estaremos com Cristo, cujo corpo recebemos [aqui]” (Sermão 59,3,6).

– “Cristo Se dá a Si mesmo no pão [sacramental]; reserva-Se a Si mesmo no prêmio [celeste]” (Sermo Guelferbytanus 9,4).

Estes textos – que não são exaustivos – não nos permitem duvidar da doutrina agostiniana da Eucaristia como presença real de Cristo.

b) No entanto, Santo Agostinho, no mesmo contexto dessas frases, afirma com frequência que o corpo de Cristo na Eucaristia são os fiéis que recebem o Sacramento. Eis alguns exemplos:

– “Por isso, também porque padeceu por nós, nos entregou neste sacramento o Seu corpo e o Seu sangue, fazendo também que fôsseis vós mesmos. Isto porque também nós fomos feitos Seu corpo e, por Sua misericórdia, somos o que recebemos” (Sermo Denis 6,1)

– “Se, portanto, vós sois corpo de Cristo e membros Seus, vosso mistério está colocado sobre a mesa do Senhor (=o altar eucarístico); recebestes [na comunhão eucarística] o vosso mistério” (Sermão 272).

– “Tomai e comei o corpo de Cristo; vós fostes também feitos membros de Cristo. Tomai e bebei o sangue de Cristo; não vos vás dissolver. Comei o vosso vínculo” (Sermo Denis 3,3)

– “Se O recebestes bem, sois vós o que recebestes” (Sermão 227).

A intenção do Pregador nestes textos é clara: recordar aos fiéis que se aproximam do corpo e do sangue do Senhor na Eucaristia que eles também são corpo de Cristo e que, portanto, a perfeição de suas vidas cristãs e o amor fraterno devem ser preparação e fruto da comunhão eucarística, sem o quê a recepção meramente carnal do Senhor lhes seria de pouco proveito. Mais uma vez, a interpretação realista da presença eucarística não apenas não exclui como provoca outras interpretações perfeitamente sintonizadas com a doutrina da presença do corpo e sangue do Senhor nas ofertas consagradas e ofertadas aos fiéis. Esta é a ideia que a Igreja sempre transmitiu sobre o sacramento eucarístico como sacramento de unidade. Este também é o motivo pelo qual aqueles que não estão em comunhão com a Igreja não podem se aproximar da Eucaristia que ela celebra. Recorde-se da prática da Igreja primitiva de nem sequer permitir a participação integral na celebração eucarística daqueles que ainda não tinham sido batizados.

c) Santo Agostinho prossegue e contrapõe uma participação do corpo de Cristo que se faz “in sacramento” a outra que se faz “in veritate”. Por exemplo:

– “Para que não comamos a carne de Cristo e o sangue de Cristo apenas no sacramento – como fazem muitos ímpios – mas comamos e bebamos até alcançar a participação do Seu espírito, de modo a permanecermos como membros no corpo do Senhor” (Tratado sobre o Evangelho de João 27,11).

– “Isto – ou seja – o corpo e sangue de Cristo, será vida para cada um, quando aquilo que se toma visivelmente no sacramento seja comido e bebido espiritualmente, na própria verdade” (Sermão 131).

A ideia é clara e forte: a mera recepção do sacramento (que é “o corpo e o sangue de Cristo”) não ajudará aqueles que não o recebem com fé e com as disposições devidas. Se expressa ainda mais claramente em outra oportunidade:

– “Comer aquela carne e beber aquele sangue é isto: permanecer em Cristo e, tendo-O, permanecer Nele. E, por isso, quem não permanece em Cristo e em quem Cristo não permanece, sem dúvida alguma nem come Sua carne, nem bebe Seu sangue; ao contrário, come o sacramento, algo tão enorme, para a sua própria condenação” (Tratado sobre o Evangelho de João 26,18).[50]

A contraposição que existe nestes textos não se refere ao conteúdo do sacramento, claramente afirmado em tantas passagens, mas à recepção frutuosa do mesmo. E mais: a insistência na coerência de vida é sustentada por Agostinho no fato de o crente que recebe a Eucaristia estar recebendo nada menos que “o corpo e o sangue Cristo” e não uma mera “figura” deles.

d) Há, por fim, outros textos, nos quais Agostinho comenta João 6, expressando-se desta maneira:

– “‘Entendei espiritualmente o que Eu disse: não comereis este corpo que estais vendo, nem bebereis o sangue que irão derramar aqueles que Me crucificarão. Vos confiei um sacramento; entendendo-o espiritualmente, vos vivificará; e ainda que seja preciso ser celebrado visivelmente, no entanto deve ser entendido espiritualmente'” (Comentário ao Salmo 98,9).

Estas palavras não comprometem os demais textos citados, exceto se enxergarmos em Agostinho um pregador esquizofrênico. Algumas frases antes desta, comentando o escândalo dos ouvintes de Jesus, diz:

– “Consideraram-No nesciamente; entenderam-No carnalmente e imaginaram que o Senhor iria cortar algumas partes do Seu corpo para dar a eles” (Idem).

Fica claro que não era esse o sentido das palavras de Jesus, como irresponsavelmente querem atribuir à Igreja certos defensores da interpretação simbólica, quer antigos quer contemporâneos. Neste sentido, Agostinho precisa que a comida e a bebida do corpo do Senhor não será um ato de canibalismo, mas se realizará espiritualmente; ou, como já foi dito repetidas vezes, “in sacramento”. É precisamente esta forma “sacramental” que distingue a Eucaristia de toda espécie de ingestão do corpo do Senhor, forma que não possui paralelo em nenhuma outra manifestação humana, razão pela qual resta difícil compreendê-la. Dizer que a comida será “espiritual”, por outro lado, não significa que não será real, mas que não será um ato de antropofagia. “Espiritual” opõe-se a “carnal” e não a “real”; e refere-se não ao corpo de Cristo, mas ao modo sacramental da Sua presença. Por isso, afirma comentando a cena do discurso de Jesus em João 6: “Como se irá comer e qual será a forma de comer este pão, não o sabeis” (Tratado sobre o Evangelho de João 26,15). Saberemos – podemos nós acrescentarmos – por ocasião da Última Ceia, ainda que o mistério tenha permanecido[51].

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– “Certamente nem passava pela cabeça [dos primeiros cristãos] que estes elementos (=pão e vinho) se transubstanciassem ou algo semelhante” (J.P.V., evangélico).
– “O alimento convertido em Eucaristia (…) é a carne e o sangue Daquele Jesus que Se encarnou por nós” (São Justino, Mártir, século II).
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PEDRO CRISÓLOGO

Brilhante e prolífico pregador da Palavra de Deus. Nasceu em Ímola, em 406, e morreu aí também, em 450. Bispo de Ravena, na Itália, entre 425 e 429. Notável defensor da primazia do Bispo de Roma sobre toda a Igreja. Conservam-se uns 170 sermões e escritos sobre temas bíblicos, litúgicos, hagiográficos e teológicos.

Sirvam estes textos, onde a presença real se soma ao aspecto sacrificial da Eucaristia. Comentando a Parábola do Filho Pródigo, afirma:

– “Por ordem do pai [na parábola], mata-se o bezerro; porque era impossível matar Cristo Deus, Filho de Deus, sem que existisse a vontade do Pai (…) Este é o bezerro que diária e perpetuamente é imolado para o nosso banquete” (Sermão 5,6).

E em outro sermão:

– “Ele é o pão que, semeado na Virgem, fermentado na carne, feito na Paixão, cozido no forno do sepulcro, preparado nas igrejas, levado aos altares, subministra diariamente o alimento celeste aos fiéis” (Sermão 67,7; Sermão 5,6).

LEÃO MAGNO

Também renomado Padre da Igreja, Papa de 440 a 461, testemunha da fé da Igreja “Romana” no século V. Conservaram-se numerosos sermões e escritos. Devemos a ele, em grande parte, a conservação da doutrina da realidade da natureza humana de Cristo.

No contexto doutrinário da defesa da realidade humana de Cristo contra Êutiques, o Bispo de Roma afirma:

– “Em que trevas de ignorância, em que letargia de desídia têm jazido até agora, que não ouviram, nem leram o que está na boca de todos na Igreja de Deus, com tamanha unanimidade que nem sequer as línguas das crianças calam a verdade do corpo e sangue de Cristo no sacramento da comunhão! Porque nesta mística distribuição do alimento espiritual é isto o que se dá, é isto o que se recebe: para que, recebendo a força do alimento celeste, nos transformemos na carne Daquele que Se fez nossa carne” (Carta 59 aos Constantinopolitanos 2).

– “Tendo dito o Senhor: ‘Se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós’, tereis que participar da Mesa Santa de uma tal maneira que não duvideis, em absoluto, da verdade do corpo e sangue de Cristo; porque se toma com a boca o que se crê com o coração” (Tratado 91,3).

AUTOR ANÔNIMO DO SÉCULO V

Naquilo que parece ser uma homilia sobre a Eucaristia, este autor [desconhecido] da Igreja, onde hoje é a França, exorta aos seus ouvintes:

– “Enxergas, sem dúvida, pão e vinho, mas é ordenado que creas que são o corpo e o sangue do Senhor; e se não o crerdes, não te salvarás – porque Aquele que te manda crer é o próprio Salvador nosso, que antes da Paixão, ceando com os discípulos, tomou o pão etc. Portanto, isto que vês, atendendo ao que cremos, é o corpo: é o corpo que pela comunhão une a todos em um [só] corpo” (Homilia ‘Do Corpo e Sangue do Senhor’; PLS 4,1952).

– Digno de reverência foi aquele lugar (=o Monte Sinai), onde apareceu a majestade de Deus. Porém, tampouco é menos digno de reverência este [altar], onde Cristo é oferecido. Ali, a nuvem de Deus desceu; aqui, Cristo desce no mistério. Ali, a divindade devia ser ouvida; aqui, deve ser até tocada. Ali, se ia ao colóquia de Deus com temor; aqui, com temor deve-se aproximar do corpo do Senhor” (Idem).

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– “O pão continua sendo pão após a ‘consagração’ e o vinho continua sendo vinho após a ‘consagração’; nem o pão se converte em carne, nem o vinho em sangue, o que demonstra a abominável mentira que os sacerdotes papistas fazem crer aos seus milhões de fiéis católicos!!” (Tito Martínez, “teólogo bíblico”).
– “Já não são meros pão e vinho, mas são – e assim são chamados – o corpo e o sangue de Cristo (…) porque é isso o que dizem os lábios de Cristo e assim são as coisas, eis que Ele jamais pode mentir ou enganar” (Martinho Lutero).
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JOÃO MANDAKUNI

Bispo e confessor da fé na Igreja da Armênia, no século V.

Propõe a fé da Igreja com toda a clareza:

– “No sacrifício comes o corpo do Filho de Deus” (Carta sobre a Penitência 13; BKV 58,67).

– “Tendes desprezado a santidade do corpo e sangue de Cristo que haveis recebido no tremendo e augusto altar” (Sermão sobre o Caráter dos Iracundos 9; BKV 58,155).

– “Porque tratas desrespeitosamente o tremendo e sublime Sacramento? Não sabes que, no momento em que o Santo Sacramento vem ao altar, o céu se abre e dele desce e nos chega o Cristo; que os coros dos anjos voam do céu à terra e rodeiam o altar onde está o Santo Sacramento do Senhor; e que o Espírito preenche a todos?” (Sermão sobre a Devoção e o Respeito ao se Receber o Santo Sacramento 5; BKV 58,226).

MARUTAS DE MAIPHERKAT

Testemunha da fé na Igreja da Síria, no século V.

– “Sempre que nos aproximamos do corpo e sangue de Cristo e o colocamos em nossas mãos, cremos que tocamos o [Seu] corpo e que já somos da Sua carne e dos Seus ossos, como está escrito, já que Cristo não nos chamou ‘tipo’ e ‘figura’, mas: ‘verdadeiramente isto é Meu corpo e isto é Meu sangue'” (Fragmento; em J.S. Assemani, Bibliotheca Orientalis 1, pp. 179-180)

BALAI

Poeta sírio da primeira metade do século V.

Expressa assim a sua fé na Eucaristia:

– “O altar está preparado, realmente coberto / Diante dele está o sacerdote, que acende o fogo / Toma o pão e dá o corpo / Toma o vinho e distribui o sangue” (Poema na Dedicação da Igreja de Qennesrin; BKV 6,65).

RÁBULA DE EDESSA

Nasceu na segunda metade do século IV, de pai pagão e mãe cristã. Converteu-se ao Cristianismo durante uma viagem à Palestina, fazendo-se batizar no rio Jordão por volta de 400. Viveu como monge na Síria. Foi eleito Bispo de Edessa. Participou amplamente do Concílio de Éfeso. Morreu por volta de 435.

– “Se alguém quer comparar o pão da proposição comido por Davi quando estava faminto com o corpo vivificante do Verbo Deus, devemos olhar para esse homem como pessoa sem juízo, pois não se compara o pão da proposição com o corpo e o sangue do Senhor” (Carta a Guemelino).

– “Qualquer partícula do santo corpo que cair no chão deverá ser procurada com cuidado. Se for encontrada, o lugar onde caiu deverá ser raspado; se for de terra, misture-se água a esta e seja dada a massa aos fiéis. Se não for encontrada, a região deverá ser igualmente raspada, como já dissemos. Igualmente, se for derramado algo do sangue: se o lugar onde caiu for de pedra, coloque-se sobre ele carvões acesos” (Cânones; PG 77,1475).

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– “Por ser uma ‘recordação’, o resultado é: o pão continua sendo pão e o vinho continua sendo vinho” (Daniel Sapia, evangélico).
– “Inicialmente, o pão é normal; porém, quando o mistério o consagrou, chama-se e se faz corpo de Cristo” (São Gregório de Nissa, Bispo, século IV).
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ISAAC DE ANTIOQUIA

Prolífico escritor e poeta do século V.

Escreveu um belíssimo poema sobre a fé e a Eucaristia:

– “A fé me convidou a recuperar-me com as suas provisões / Fez-me sentar à Sua mesa (…) / Vi seu jarro misturado, que estava cheio de sangue ao invés de vinho / E, ao invés de pão, estava sobre a mesa o corpo imolado / Vi o sangue e me espantei / Vi o corpo sacrificado e o temor me invadiu (…) / Mostrou-me o corpo que havia sido morto / Pôs [parte] dele nos meus lábios e disse-me carinhosamente / ‘Olha o que comes!’ / A seguir, deu-me a pena do Espírito e exigiu que a pegasse na mão / Peguei, escrevi e confessei: ‘Isto é o corpo de Deus’ / Igualmente, tomei também o cálice e o bebi em Seu banquete / Então senti o aroma daquele calice, daquele corpo que havia comido / E o que eu disse sobre o corpo, que era ‘o corpo de Deus’ / atestei o mesmo agora sobre o cálice: ‘Isto é o sangue de nosso Salvador'” (Poema sobre a Fé; BKV 6,139-140).

JACÓ DE SARUG

Poeta sírio que morreu em 521.

Cantando em honra da Eucaristia, dizia:

– “O Esposo desce para ver a sua Esposa (=a Igreja) casada com Ele / Vai tu (=esposa) agora para a câmara nupcial, para que Ele te veja! / Não deixes a habitação do Esposo real, que desce para ver-te e traz as riquezas da casa de Seu Pai / O sacerdote que enviastes, O tem invocado [na consagração] / Espera-O, porque se vier e não te vir, ficará desgostoso / Com o sacerdote, toda a multidão suplica ao Pai para que envie o seu Filho / Para que desça e repouse sobre a oferenda [do pão e do vinho] / E o Espírito Santo faz Sua força habitar no pão e no vinho / e os santifica, e os torna corpo e sangue” (Homilia Métrica 95, Sobre a Recepção dos Santos Mistérios; ST 233,412).

– “Em um banquete nupcial, colocou seu corpo e seu sangue diante dos convidados / para que comam e vivam eternamente com Ele / No salão da festa, Nosso Senhor é comida e bebida / Bendito Aquele que deu Seu corpo e Seu sangue para comermos!” (Idem; ST 233,418).

– “Partiu o pão, o fez Seu corpo e o deu aos Seus Apóstolos / E o sabor do pão que contém a Vida estava nas suas bocas / No momento em que Ele o tomou [nas mãos] e chamou de ‘corpo’ / Já não era pão, mas corpo; e O comeram maravilhados” (Homilia Métrica 53, Sobre a Crucificação; ST 233,397).

PROCÓPIO DE GAZA

Poeta sírio, que também morreu em 521.

Em seus comentários bíblicos, coleta as exposições anteriores dos Santos Padres. Em seu comentário à primeira Páscoa (Êxodo 12), enxerga constantemente a Páscoa de Cristo. Neste contexto, escreve:

– “Ele quer nos dar o seu corpo como alimento. Por isso, sofre com que seu sangue seja derramado, por cuja aspersão faz com que o perseguidor e inimigo fuja; porque após sermos ungidos ou encharcados com o Seu sangue – isto é, após ter crido em Cristo – é que poderemos nos aproximar para comer da Sua carne” (Comentário sobre Êxodo 12,8)[52].

LEÔNCIO DE JERUSALÉM

Escreveu em meados do século VI.

Dele são estas palavras:

– “O Cristo glorificado – que para nós é Deus adorável e para vós [nestorianos] é apenas um homem – (…) apresenta aqui [na Eucaristia] seu próprio e verdadeiro corpo e carne, que foram atravessados pelos pregos e pela lança, visto que eram seus membros, dos quais diz: ‘Perfuraram as minhas mãos e os meus pés’. Mostrou também que a comunhão mística do pão da Eucaristia era a doação de Sua própria carne, dizendo: ‘Aquele que come a Minha carne e bebe o Meu sangue’; e, em outro lugar: ‘Isto é Meu corpo'” (Contra os Nestorianos 7).

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– “Ninguém poderia ter interpretado essa declaração [de Cristo sobre o pão, ‘Isto é Meu corpo’] literalmente, porque Ele estava ali sentado, em Seu corpo físico, e sujeitando o pão em Suas mãos” (Daniel Sapia, evangélico).
– “Cristo era elevado em Suas mãos, quando entregou Seu próprio corpo, dizendo: ‘Isto é Meu corpo’, pois elevava esse corpo em suas mãos” (Santo Agostinho, Bispo, século IV).
– “Pôs-Se de pé e Se elevou a Si mesmpo por amor e manteve elevado Seu próprio corpo em Suas mãos” (Cirilonas, Bispo, século IV).
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ROMANO, O MELODISTA

Diácono, foi o hinógrafo mais importante da Igreja bizantina. Nasceu na Síria e passou a maior parte da sua vida em Constantinopla. Morreu em 560.

[Disse:]

– “Quando Cristo, com o Seu poder, manifestamente transformou a água em vinho, toda a gente se alegrou, considerando o seu gosto admirável. Hoje, todos nós nos alimentamos no banquete da Igreja, porque o vinho se transformou no sangue de Cristo e o bebemos com santa alegria, glorificando o grande Esposo” (Kontákion 18, Das Bodas de Caná 20).

– “Todos os anjos que estão nos céus ficam admirados com o que ocorre na terra: os seres humanos terrestres, que habitam abaixo [do céu], se elevam em espírito e alcançam o alto, feitos partícipes do Cristo crucificado; porque, todos juntos, comem do Seu corpo, adorando fervorosamente o pão da vida e aguardando Dele a salvação imortal. Embora simplesmente se veja o pão, espiritualmente Ele o santifica como pão celeste da imortalidade. O próprio Senhor foi o primeiro a ensinar isso a todos nós, pois quando se dirigia voluntariamente à Paixão, Cristo partiu o pão da salvação e disse aos Seus Apóstolos, como está escrito: ‘Vinde agora, comei isto e, comendo, recebereis a vida eterna, porque este alimento é Minha carne, já que Eu – a quem estais vendo – sou o pão celeste da imortalidade” (Kontákio 24, Da Multiplicação dos Pães 1-2: o Pão que tomamos é a carne do Emanuel).

EUTÍQUIO DE CONSTANTINOPLA

Patriarca de Constantinopla. Nasceu na Frígia em 512 e morreu em 582.

Pregava assim o mistério eucarístico:

– “Misticamente Se imolou a Si mesmo quando, após a ceia, tomando o pão em Suas próprias mãos, tendo dado graças, o mostrou e o partiu, misturando-Se a Si mesmo no antítipo. Igualmente, misturando o cálice cheio do fruto da videira, tendo dado graças e apresentando-o a Deus, Seu Pai, disse: ‘Tomai e comei’; e: ‘Tomai e bebei’; ‘Isto é Meu corpo e isto é Meu sangue’. Portanto, todos tomam o santo corpo por inteiro e o precioso sangue do Senhor, ainda que apenas tomem uma parte deles” (Sermão da Páscoa e da Santa Eucaristia 2).

FULGÊNCIO DE RUSPE

Nasceu em Telepte, na África, em 467. Monge, presbítero e, pouco depois, Bispo de Ruspe. Insígne defensor da doutrina católica contra o Arianismo, em razão do qual sofreu o desterro.

[Sobre a Eucaristia, disse:]

– “Esta edificação espiritual do corpo de Cristo se faz através da caridade (…) Afirmo que esta edificação espiritual nunca é mais oportunamente pedida do que quando o próprio corpo de Cristo – que é a Igreja – oferece no sacramento do pão e do cálice o próprio corpo de Cristo e Seu sangue” (Ad Monimum 2,11,1).

VERECUNDO DE JUNCA

Bispo de Junca, na África, em meados do século VI.

[Sobre a Eucaristia, escreveu:]

– “O sangue da uva (cf. Deuteronômio 32,14) é o sangue dos mártires ou, com certeza, o sangue da própria Paixão do Senhor, com o qual nos saciamos diariamente a partir dos altares sagrados; [sangue] que embriaga a nossa mente para que abandonemos o terreno e façamos uso do celeste” (Commentarii Super Carmina Ecclesiastica 2,14).

– “O Senhor nos nutre com alimentos não apenas corporais, mas também espirituais (…): indubitavelmente, com a Palavra das Escrituras, com a ciência para compreendê-las e com os víveres do corpo de Cristo e da bebida do sangue Daquele que todos os dias é [incruentamente] imolado nos santos altares” (Commentarii Super Carmina Ecclesiastica 2,18).

REMÍGIO DE REIMS

Apóstolo dos francos, Bispo de Reims na primeira metade do século VI.

Mandou esculpir a seguinte inscrição em um cálice que consagrou:

– “Que o povo extraia daqui a Vida / do sangue sagrado nele colocado / daquilo que o Cristo eterno derramou de seu lado [aberto]” (Versos do Cálice; 125,1135).

CESÁRIO DE ARLES

Nasceu por volta de 470. Fez-se monge em Lérins e chegou a ser Abade e Bispo de Arles. Grande pastor, sobretudo entre os mais pobres, e prolífico teólogo.

Exorta diversas vezes em suas obras a que se consuma a Eucaristia para crescer na fé e vice-versa. Por exemplo:

– “Rogo e advirto: trabalhemos o quanto pudermos com o auxílio de Deus, para que naquele dia [de Natal] possamos nos aproximar do altar do Senhor com a consciência pura e sincera, com o coração limpo e o corpo casto, para que mereçamos receber o Seu corpo e sangue não para a condenação, mas para a saúde da nossa alma; porque a nossa vida consiste no corpo de Cristo, como o próprio Senhor disse: ‘Se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o Seu sangue, não tereis vida em vós’. Portanto, quem quiser receber a Vida deverá mudar de vida” (Sermão 187,1).

A comparação entre a Palavra de Deus e o corpo de Cristo que já tínhamos visto em Santo Inácio de Antioquia, Orígenes, Jerônimo, Agostinho e outros, encontramos também neste texto de São Cesário:

– “Vos pergunto, irmãos e irmãs: O que vos parece maior? A Palavra de Deus ou o corpo de Cristo? Dizei-me! Se quereis responder com a verdade, seguramente tereis que dizer que a Palavra de Deus não é menor que o corpo de Cristo. E, por isso, o mesmo cuidado que temos de não deixar cair no chão nada do corpo de Cristo que nos é administrado, devemos ter também para com a Palavra de Deus que nos é partilhada: nada dela pode se perdida no nosso coração por estarmos pensando ou falando outras coisas” (Sermão 78,2)[53].

EUSÉBIO GALICANO

É conservada uma coleção de homilias da época de Cesário de Arles sob o nome de “Eusébio Galicano”.

Resgatamos os seguintes textos de uma das suas homilias, que ecoam a fé de toda a Igreja primitiva:

– “Porque o sacerdote invisível (=Cristo), com sua palavra, com seu poder secreto, converteu as criaturas visíveis (=pão e vinho) na substância do Seu corpo e do Seu sangue, falando assim: ‘Tomai e comei: Isto é Meu corpo’; e repetindo a santificação: ‘Tomai e bebei: Isto é Meu sangue” (Homilia 17, Da Páscoa 6,2)[54].

– “Quando as criaturas (=pão e vinho) são colocadas sobre os sagrados altares para serem abençoadas com as palavras celestiais, antes de serem consagradas pela invocação do Nome Supremo, ali está a substância do pão e do vinho; porém, após as palavras de Cristo, são o corpo e o sangue de Cristo” (Homilia 17, Da Páscoa 6,8).

– “Quando subires ao venerável altar para seres saciado com o alimento, olha com fé para o sagrado corpo e sangue do teu Deus; admira-O com veneração; toca-O com a mente; toma-O com a mão do coração; e, sobretudo, bebe-O internamente” (Homilia 17, Da Páscoa 6,3).

– “E, assim, porque ia Se retirar da frente dos nossos olhos e levar para o céu o corpo que assumiu, foi necessário consagrar neste dia o sacramento do corpo e do sangue, para que Ele fosse continuamente venerado no mistério que de uma vez [por todas] ofereceu como preço; para que, da mesma forma que diária e incansavelmente ocorre a redenção para a salvação dos homens, também fosse perpétua a oblação da redenção, vivendo aquela Vítima perene na recordação e estando sempre presente na doação” (Homilia 17, Da Páscoa 6,1).

VENÂNCIO FORTUNATO

Um dos poetas mais importantes da língua latina. Nasceu em Treviso por volta de 530. Excelente conhecedor das Escrituras e dos Padres da Igreja, bem como dos escritores clássicos. Bispo de Poitiers a partir de 597. Morreu em 690. São-lhe atribuídos os hinos “Pange Lingua” e “Vexilla Regis”.

– “Pois o pedir o pão de cada dia [na oração do Pai Nosso] parece insinuar que, caso seja possível, deveremos reverentemente tomar todos os dias a comunhão do Seu corpo; pois Ele, nossa Vida, é alimento nosso etc.” (Exposição sobre a Oração do Senhor 54-55).

GREGÓRIO MAGNO

Outro dos grandes Padres da Igreja ocidental. Nasceu em torno de 540. Chegou a ocupar o cargo de Prefeito ou Alcaide da cidade de Roma. Enviado pelo Papa a Constanstinopla como embaixador, foi eleito Papa e exerceu o pontificado entre 590 e 604. Conservam-se numerosas pregações de conteúdo bíblico e pastoral.

Comentando Jó 31,31 (“Por acaso não disseram os homens do meu povo: ‘Quem pode encontrar alguém que não tenha ficado saciado com a sua carne?'”), disse:

– “Esta frase também pode ser entendida misteriosamente na boca do Redentor, pois os varões do seu povo desejaram se saciar com as Suas carnes, quer os judeus perseguidores, quer os gentios fiéis. Isto porque aqueles tramaram extinguir o Seu corpo, como se O consumissem; e estes desejam saciar o seu espírito faminto com as Suas carnes no sacrifício diário da imolação” (Moralia 22,13,26).

É impressionante também – assim como vimos em muitos dos autores citados – o testemunho de Gregório Magno acerca da Eucaristia como recepção diária do sacrifício de Cristo.

EULÓGIO DE ALEXANDRIA

Patriarca de Alexandria de 580 a 607. Notável defensor da primazia da Igreja de Roma. Defensor da doutrina católica contra o Monofisismo e o Nestorianismo.

Estas palavras do orador do século VI respondem as objeções que ouvimos até hoje contra a Missa:

– “O venerando sacrifício que oferecemos do corpo do Senhor não é oblação com vítimas diferentes, mas memória do sacrifício que de uma vez por todas foi oferecido. Disse [Jesus]: ‘Fazei isto em minha memória'” (Homilia dos Evangelhos 14,1).

ISIDORO DE SEVILHA

Homem de vastíssima cultura, desempenhou um papel de protagonista na sociedade e Igreja do seu tempo. Presidiu o Concílio de Toledo de 633. Morreu em 636. Escreveu obras de caráter gramatical, histórico e enciclopédico, entre as quais se sobressai aquela intitulada “Etimologias”.

Falando sobre Melquisedec, diz:

– “Os fiéis [cristãos] já não oferecem aquelas vítimas judaicas como as que ofereceu o sacerdote Aarão, mas como aquelas que Melquisedec, rei de Salém, imolou, a saber, pão e vinho, que é o verdadeiríssimo sacramento do corpo e sangue do Senhor” (Da Fé Católica contra os Judeus 2,27,2).

– “A sabedoria de Deus – Cristo – fez para Si uma casa – a Santa Igreja – na qual sacrificou as hóstias do Seu corpo, na qual misturou o vinho do Seu sangue no cálice do sacramento divino (…) ‘Vinde: comei do Meu pão e bebei do vinho que misturei para vós’ (cf. Provérbios 9,5); isto é: ‘Tomai o alimento do corpo santo e bebei o vinho que misturei para vós’; ou seja: ‘Recebei o cálice do sangue sagrado'” (Da Fé Católica contra os Judeus 2,27,3).

Pregando sobre a necessidade de se conservar o jejum eucarístico (abter-se de comer antes de comungar), diz:

– “Na boca do cristão primeiro entra o corpo do Senhor, antes de todos os demais alimentos” (Do Ofício Eclesiástico 1,18,3).

BRÁULIO

Bispo de Saragoza. Exerceu grande influência nos governantes da Península [Ibérica]. Participou ativamente do Concílio de Toledo. Morreu em 651.

Em uma carta onde responde a algumas perguntas sobre supostas relíquias do sangue de Cristo, escreve:

– “Vamos ao que é verdadeiro e seguro; ao que nenhum cristão autêntico e retamente católico pode pôr em dúvida ou discussão, a saber: segundo as palavras do próprio Senhor e também conforme as Sagradas Escrituras ordenadas pelo Espírito Santo, o pão e o vinho oferecidos a Deus por nós no Sacramento é o corpo e o sangue verdadeiro de Cristo” (Carta 42; “Estudios Onienses”, vol. 1, 2ª ed., J. Madoz, p. 183).

SOFRÔNIO DE JERUSALÉM

Nasceu em Damasco em 550. Foi monge em Jerusalém. Viajou por várias das mais importantes igrejas do seu tempo: Egito, Constantinopla, Roma. Foi eleito Patriarca de Jerusalém em 634. Lutou particularmente contra a heresia monotelita. Morreu em 638.

[Escreveu:]

– “A Luz (=Cristo), tomando o pão, o deu aos iniciados, dizendo: ‘Comei o Meu corpo para o perdão dos pecados’. E tendo misturado o cálice agradável [a Deus], o deu, dizendo estas palavras: ‘Bebei o meu sangue, que tira os pecados’. Ó amor, ó caridade pela qual Cristo deu aos homens a Sua própria carne como alimento!” (Anacreônticas 8,87-94.99-100).

ANASTÁCIO SINAÍTA

Escritor eclesiástico do século VII. Abade do mosteiro do Monte Sinai.

Redigiu um diálogo com um herege monofisita, onde lemos:

– “Ortodoxo: […] ‘A comunhão dos santíssimos corpo e sangue de Cristo que ofereces e recebes é o verdadeiro corpo e sangue de Cristo, Filho de Deus, ou é pão comum como aquele que é vendido nas casas [de comércio] e antítipo do corpo de Cristo, como o sacrifício do cordeiro oferecido pelos judeus?’ / Gaiaita: ‘Longe de nós dizer que a sagrada comunhão é antítipo do corpo de Cristo ou pão comum; nós o recebemos verdadeiramente como o próprio corpo e sangue de Cristo, Filho de Deus, encarnado e nascido da Santa Mãe de Deus e sempre Virgem Maria’. / Ortodoxo: ‘Nisso cremos e confessamos, tal como Cristo disse aos Seus discípulos na ceia mística, ao dar-lhes o pão vivificante: ‘Tomai e comei: Isto é Meu corpo’; e do mesmo modo, dando-lhes o cálice, disse: ‘Isto é Meu sangue’. Ele não disse: ‘Isto é o antítipo do Meu corpo e do Meu sangue'” (Viae Dux 23; PG 89,297)[55].

ANDRÉ DE CRETA

Aos 15 anos, fez-se monge na laura de São Sabas, em Jerusalém. Participou do Concílio de Constantinopla. Foi nomeado Bispo de Gortina, Creta, onde morreu em 740. Grande pregador e poeta.

Sobre a celebração eucarística, escreveu em versos:

– “Revelando o grande mistério da Tua encarnação, / Tu, ó amante dos homens, / sentado durante a ceia com os discípulos, disseste: / ‘Comei o pão vivente; bebei com fé o sangue vindo da ferida do lado [aberto] de Deus / (…) / Cristo é a Páscoa grande e santa, / comido como pão e sacrificado como cordeiro / pois foi Ele oferecido como vítima por nós. / Todos recebemos piedosa e misticamente o Seu corpo e sangue” (Triodion in Sancta et Magna Feria 4, Ode 8).

E em uma homilia da Semana Santa:

– “Poderemos receber também e fazer habitar substancialmente em nós, todo por inteiro, Aquele que por nós continuamente Se imola sem imolação; porque Se imola sacrificado por nós nos símbolos antítipos, ou seja, Aquele que é comido como pão e crido como cordeiro” (Homilia in Ramos Palmarum; PG 97,993-996).

Observe-se mais uma vez a fé da Igreja na Eucaristia como sacrifício.

JOÃO DAMASCENO

Nasceu em Damasco por volta de 676, de família árabe-cristã. Foi monge em São Sabas, em Jerusalém, onde foi ordenado sacerdote. Conserva-se dele abundante literatura. Defensor do bom uso das imagens contra os hereges iconoclastas. A data da sua morte é desconhecida.

Resume a tradição patrística sobre a Eucaristia em seu livro “Da Fé Ortodoxa”. Apresento apenas alguns textos. Após o relato bíblico da instituição da Eucaristia, comenta:

– “Se o próprio Verbo de Deus por Sua vontade tornou-se homem (…) não pode fazer com que o pão seja Seu corpo e o vinho e a água sejam Seu sangue?” (Da Fé Ortodoxa 4,13, Exposição de Fé 86).

– “O corpo está verdadeiramente unido à divindade – aquele corpo de procede da Santa Virgem – não porque desce dos céus o corpo que subiu, mas porque o pão e o vinho se mudam no corpo e sangue de Deus” (Idem; PG 94,1144-1145)[56].

– “Chama-se ‘comunhão’ (=a Eucaristia) e assim o é verdadeiramente porque por ela participamos com Cristo e recebemos Sua carne e Sua divindade, e por ela nos comunicamos e nos unimos mutuamente, visto que, ao participarmos de um só pão, todos nós, feitos concorpóreos de Cristo, chegamos a ser corpo de Cristo, sangue e membros uns dos outros” (Idem; PG 94,1153).

– “O pão e o vinho [consagrados] não são figura (=tipo) do corpo e sangue de Cristo. Nada disso! São o próprio corpo divinizado do Senhor, pois Ele disse: ‘Isto é – não a figura do Meu corpo – mas O corpo’; e: ‘Isto é – não a figura do Meu sangue – mas O sangue'” (Idem; PG 94,1148-1149).

– “E se alguns chamaram o pão e o vinho de ‘figura’ (=’antítipo’) do corpo e sangue do Senhor (…) não o afirmaram depois de terem sido santificados, mas antes de serem santificados, assim denominando a própria oblação” (Idem; PG 94,1152-1153).

– “E os chamam ‘antítipos das coisas futuras’ não como se não fossem verdadeiramente corpo e sangue de Cristo, mas porque agora participamos da divindade de Cristo através deles, e depois intelectualmente apenas pela visão” (Idem; PG 94,1153)[57].

CONCILIÁBULO DE HIÉRIA

Por ocasião da controvérsia iconoclasta[58], foram feitas declarações sobre a presença eucarística. O Imperador Constantino Coprônimo convocou um Concílio para se reunir em seu pálacio de Hiéria (junto a Constantinopla) no ano 754, em apoio às suas ideias iconoclastas. No documento final do Conciliábulo – jamais aceito pela Igreja universal – se polemiza contra as imagens de Cristo, sustentando que a única imagem legítima da humanidade de Cristo é o pão e o vinho eucarísticos, por se tratarem das únicas formas escolhidas por Ele. Assim se expressa aquele documento:

– “Como a carne de Cristo animada segundo a natureza intelectual foi ungida pelo Espírito Santo para a divindade, de maneira semelhante também a imagem da Sua carne dada por Deus – isto é, o pão divino – foi preenchida pelo Espírito Santo com o cálice do sangue de seu lado [aberto], portador da vida” (Lido no II Concílio de Niceia; Mansi 13,264).

Logo surgiu um documento, de autor desconhecido para nós, refutando as ideias do Conciliábulo e refletindo a doutrina da Igreja. Ali se lê:

– “Nunca o Senhor, nem os Apóstolos, nem os Padres chamaram de ‘imagem’ ao sacrifício incruento oferecido pelo sacerdote, mas sim Seu próprio corpo e Seu próprio sangue. Antes da celebração da santificação (=consagração eucarística) pareceu a alguns dos Santos Padres chamar-lhes piedosamente de ‘figuras’ (antítipos) (…) porém, após a santificação, chamam-se, são e se creem corpo e sangue de Cristo”.

Ambos os documentos acima foram lidos no 2º Concílio de Niceia (787) e este se declarou de acordo com a refutação, reinvindicando a memória dos Padres condenados pelo Conciliábulo[59].

DOGMATA ORTODOXA

Sob este título foi conservado um compêndio da doutrina da fé, de autor desconhecido, talvez de final do século VIII, onde lemos:

-“O dom sagrado, do qual os cristãos participam, não é figura (=antítipo) do corpo e sangue de Cristo, nosso Deus, mas o próprio santo corpo e precioso sangue do Senhor. Daí que aqueles que dele dignamente participam se enchem da santidade e glória do Filho de Deus” (PG 98,1236).

TEODORO STUDITA

Nasceu em Constantinopla em 759. Monge e sacerdote. Por se opor ao divórcio do imperador, sofreu o desterro. Regressou como abade do mosteiro de Studion, que se converteu no centro espiritual da reforma da Igreja bizantina e bastião da luta contra os iconoclastas. Morreu em 826.

Polemizando com os iconoclastas, escreveu:

– “Como chamais aquilo que se faz liturgicamente, em meio a cânticos (=Eucaristia): imagem ou verdade? Se ‘imagem’ – ó absurdo! – ireis de blasfêmia em blasfêmia (…); se ‘verdade’ – como realmente é fato, pois os fiéis, segundo a doutrina do Senhor, confessam que é o próprio corpo e sangue de Cristo – por que converteis os mistérios da verdade em imagens (=’tipos’)?” (Antirrheticus Adversus Iconomachos 1,10; PG 99,340).

BEDA O VENERÁVEL

Nasceu em 672. Monge beneditino na Inglaterra, onde recebeu a ordenação sacerdotal. Levou uma intensa vida de oração e pregação. Escreveu uma história da Igreja na Inglaterra e comentou alguns livros bíblicos.

Em certa homilia, explicou:

– “Certamente, por causa do principal sacramento, [o Senhor] escolheu para Si, ao nascer, o lugar onde os animais costumam vir para comer (=manjedoura), porque já então insinuou que deveria alimentar todos os fiéis na mesa sagrada do altar, com os mistérios de sua própria encarnação” (Homilia 1,6: No Natal do Senhor; PL 94 337).

BEATO E ETÉRIO

Santos espanhóis do século VIII. A obra que citamos foi escrita em conjunto contra as doutrinas adocionistas[60]:

– “O que se pode oferecer e receber de modo tão agradável quanto a carne do nosso sacrifício, o corpo perfeito de Cristo, nosso Sacerdote? (…) O pão, que é o corpo de Cristo, foi preparado no lenho da Cruz; com ele faremos para nós um pão. E se também nós formos preparados na Cruz, seremos Seu corpo. Quem não come este pão, que é o corpo de Cristo, não vive, assim como também não vive na carne quem não come o pão material (…) O vinho, que é oferecido sobre o altar, é o sangue de Cristo, daquela verdadeira Videira que disse: ‘Eu sou a verdadeira videira'” (Epístola a Elipando 1,67-68).

TESTEMUNHO DAS ANTIGAS LITURGIAS

Os testemunhos sobre a doutrina da presença real que nos chegaram das antiguas liturgias das igrejas locais são bastante abundantes e, como é óbvio, de primeira importância. Estes livros litúrgicos que coletam o culto celebrado pela Igreja em todo o mundo cristão datam dos séculos IV a VIII. Os mais importantes são: “Sacramentarium Veronense”, “Sacramentarium Hadrianum”, “Sacramentarium Gelasianum”, “Sacramentarium Gregorianum”, “Sacramentarium Tiplex”, “Missale Gothicum”, “Missale Gallicanum Vetus”, “Liber Mozarabicus Sacramentorum”, Anáfora de São João Crisóstomo e Anáfora de São Basílio.

Em todas estas liturgias encontra-se dispersa a fé na presença real do Senhor na celebração eucarística: “o corpo santo e o sangue de nosso Senhor Jesus Cristo”, “que sejamos contados como membros Daquele de cujo corpo e sangue participamos”, que Deus “santifique os dons oferecidos para que nos façam corpo e sangue do Teu Unigênito”, “ó Deus Pai, esta é a hóstia viva, a hóstia salvadora, pela qual o mundo foi reconciliando contigo; este é aquele corpo que pendeu na cruz; este também é o sangue que emanou do sagrado lado”, “esta é a hóstia que pendeu do lenho; esta é a carne que ressuscitou do sepulcro” e vai aqui um gigantesco etc.[61].

Estes testemunhos são particularmente impressionantes se considerarmos que a Igreja Católica e também a Igreja Ortodoxa continuam celebrando da mesma maneira e com a mesma doutrina até o dia de hoje.

Concluímos aqui as citações dos Padres e Escritores Eclesiásticos primitivos. As citações do segundo milênio são ainda mais abundantes, mas não as iremos publicar aqui. Cabe acrescentar que o que foi exposto até agora é somente uma pequena amostra, já que os textos eucarísticos que tratam da presença do Senhor na Eucaristia, o aspecto sacrificial da mesma, a necessidade que os cristãos têm de participar do sagrado banquete, as disposições da alma e os efeitos que nela produzem a recepção do [Santíssimo] Sacramento são extremamente abundantes.

Antes de passar para os “reformadores” do século XVI, quero mencionar dois importantes escritores do século XVI: São Pascásio Radberto (+859, autor do primeiro tratado sistemático sobre a Eucaristia, o “De Corpore et Sanguine Domini”; PL 120,1267ss) e Berengário de Tours (999-1088). O primeiro é conhecido por sua interpretação quase-cafarnaítica da presença real; já o segundo, é conhecido por se tratar da reação simbolista. Este último exercerá grande influência nos albigenses, valdenses e cátaros, como também em alguns “reformadores” posteriores. Em razão destes e de outros autores, as controvérsias suscitadas vão levando a Igreja a precisar sua terminologia eucarística, exatamente como ocorreu com todas as demais verdades da fé.

É interessante observar que a doutrina nitidamente simbolista surgiu com Berengário, no século XI, e que a mesma surgiu como resposta para uma posição quase-cafarnaítica, isto é, uma posição não-católica.

Por fim, deixo de lado as doutrinas de John Wycliff (+1384) e John Huss (+1415), pois estes teólogos mantiveram em essência a doutrina simbólica, contra os quais se levantaram escritores, sínodos locais, Papas e o Concílio de Constança, professando todos a fé na presença real, tal como o tinham entendido São Paulo e os Padres da Igreja[62].

Passaremos, então, a ver as doutrinas dos “reformadores” mais importantes…

MARTINHO LUTERO

Fundador do longo e complexo processo da assim chamada “Reforma Protestante”. Nasceu em Eisleben, Alemanha, em 1483. Monge e sacerdote agostiniano. Obteve o título de Doutor em Teologia. A partir de 1517 declarou sua discordância com diversas doutrinas católicas. Entre 1520 e 1521 suas doutrinas foram condenadas. Conservam-se muitas obras suas e comentários bíblicos. Traduziu grande parte da Escritura para o alemão, razão pela qual é considerado um dos pais do alemão moderno. Entrou em conflito com vários príncípes e “reformadores”. Morreu em 1546.

Lutero, que em outros aspectos do mistério eucarístico rejeitou a doutrina tradicional da Igreja, não apenas manteve a presença real de Cristo na Eucaristia como também a defendeu decididamente (e até violentamente) contra o que era ensinado por outros “reformadores”[63].

Apesar de sua pregação clara, outros “reformadores” negaram a presença real de Cristo no pão eucarístico, como foi o caso de Karlstadt, Ecolampádio e Zwínglio, entre os mais notáveis. Em 1527, Lutero publicou sobre esse tema uma obra com este sugestivo nome: “Que as palavras de Cristo ‘Isto é Meu corpo’ permanecem firmes contra os Fanáticos” (WA 23,64-320), na qual defende sem meias-palavras a interpretação tradicional da Igreja. Um ano depois, escreveu outra obra: “Confissão da Ceia de Cristo” (WA 26,261-509), com o mesmo tom. Nestas obras, Lutero, indignado, trata os “simbolistas” (a quem chama “sacramentários”) de “racionalistas” e “pelagianos”, e fundamenta sua doutrina em uma detalhada exegese dos textos bíblicos.

Ainda que coincidisse com os católicos na doutrina da presença real, não aceitava a transubstanciação, afirmando, de modo diverso, que tanto o pão quanto o corpo de Cristo estão presentes (doutrina da consubstanciação ou impanação) – explicação esta que a Igreja [Católica] rejeitaria no Concílio de Trento. No entanto, no que toca à Eucaristia, Lutero preferia ficar com os católicos a se juntar com os “sacramentários”, já que no essencial estava mais de acordo com aqueles do que com estes[64]:

– “Que o vinho permaneça [no sacramento após a consagração] não me interessa, pois basta para mim saber que o sangue de Cristo está ali. Que ocorra com o vinho o que Deus quiser. E ao invés de sustentar com os visionários que ali só há vinho, prefiro me unir ao Papa e pensar que ali só há sangue” (WA 26,462,3-6-7)

Palavras realmente impressionantes! Para Lutero o mais importante era afirmar a presença real; e sobre o “como se dava” essa presença, preferia não tomar posição.

As diferenças doutrinárias entre os diversos “reformadores” em torno da presença real iam se tornando a cada dia mais irreconciliáveis. Em razão disso e compreendendo as vantagens de contar com uma frente unida contra os católicos, para tornar possível seus planos políticos, o “landgrave” de Hessen tentou obter a unidade mediante um colóquio que se celebraria na cidade de Marburg em finais de setembro de 1529. Os principais participantes do colóquio foram, de um lado, Zwínglio e Ecolampádio, e de outro, Lutero e Melancton. Desse encontro, realizado entre setembro e outubro de 1529, temos relatos bem detalhados. Sugiro ao leitor interessado que leia o essencial do colóquio de Marburg no documento publicado a parte[65]. Para o nosso estudo, basta assinalar que, após vários dias de discussão, os presentes firmaram um documento com 15 artigos; só o último deles tratava do corpo e sangue de Cristo (que era o tema único do colóquio!); esse artigo afirmava que “o sacramento do altar é o sacramento do verdadeiro corpo e sangue de Cristo” (coisa que é negada atualmente pelos “cristãos evangélicos”) e acrescentava:

– “E ainda que não tenhamos chegado a um acordo sobre se o verdadeiro corpo e sangue de Cristo está ou não corporalmente no pão e no vinho, no entanto os de um lado darão aos do outro lado provas de caridade cristã enquanto lhes for permitido pela sua consciência; e cada parte rogará instantemente ao Deus todopoderoso para que Ele nos confirme pelo Espírito Santo na inteligência da verdade” (WA 30/3).

Passados 475 anos da desejada “confirmação na inteligência da verdade” a que anseiavam os “reformadores”, esta ainda não chegou… Ou melhor, parece que o problema foi solucionado de outra forma: foi morto pela indiferença.

Em 1530, a assim denominada “Confissão de Augsburgo”[66] declarou-se desta maneira:

– “Na Ceia do Senhor encontra-se verdadeiramente o corpo e o sangue de Cristo, e reprovamos quem nega esta doutrina” (Artigo 10).

Em 1537, Lutero estabeleceu:

– “Sustentamos que na Ceia o pão e o vinho são os verdadeiros corpo e sangue de Cristo” (Artigos de Smalcada, WA 50,242).

O “reformador” Karlstadt dizia que quando Cristo afirmara na Última Ceia: ‘Isto é Meu corpo’, estava, na verdade, apontando para si mesmo[67]… Contra esta e outras aventuras exegéticas, Lutero explica em um texto antológico:

– “Neste santo texto, ‘Isto é Meu corpo’, Karlstadt torce a palavra ‘Isto’; Zwínglio torce a palavrá ‘É’; Ecolampádio torce a palavra ‘Corpo’; outros, torcem o texto inteiro, invertendo a palavra ‘Isto’, jogando-a para o final, e dizem: ‘Tomai, comei; Meu corpo, que será entregue por vós, é isto’; alguns torcem o texto na metade, colocando a palavra ‘Isto’ no meio, e dizem: ‘Tomai, comei; o que será entregue por vós, isto é Meu corpo’; outros torcem o texto assim: ‘Isto é Meu corpo em Minha memória’, isto é: ‘Meu corpo não precisa estar aqui naturalmente, mas apenas uma recordação do Meu corpo’; por isso, o texto soa assim: ‘Tomai, comei; isto é a recordação do Meu corpo, que será entregue por vós’. Sobre todos estes [textos], em sétimo lugar vêm aqueles que dizem que não se trata de nenhum artigo de fé, de modo que não há porquê disputar sobre isso, devendo crer nisso quem quiser e como quiser” (Dass diese Wort Christi Das ist mein Leib etc. noch fest stehen widder die Schwermgeister, WA 23,107-109).

Outros textos de Lutero sobre a presença de Cristo na Eucaristia:

– “Pois bem. O que é o sacramento do altar? Resposta: É o verdadeiro corpo e sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, sob o pão e o vinho, que nós, cristãos, devemos receber segundo a ordem da Palavra de Cristo: ‘Comei e bebei’ (…) Eu digo que é a Palavra quem realiza e diferencia este Sacramento, de tal modo que já não são meros pão e vinho, mas são, e são chamados, o corpo e o sangue de Cristo” (Catecismo Maior 14,5).

– “Com esta Palavra [de Cristo] podes fortalecer a tua consciência e dizer: Se cem mil demônios juntamente com todos os fanáticos se lançarem contra mim, gritando: ‘Como podem o pão e o vinho serem o santo corpo de Cristo? etc.’, eu sei que todos os espíritos e doutores unidos não são mais sábios que a Divina Majestade em seu dedo mindinho. Pois bem: eis as palavras de Cristo: ‘Tomai, comei; isto é Meu corpo. Bebei todos do cálice: é o novo testamento no Meu sangue’ etc. Daqui não nos movemos e eu gostaria de ver aqueles que se constituíram como seus próprios mestres fazer as coisas de modo diverso de como Ele (=o Senhor) as fez. É bem certo que se omites a Palavra, irás considerar estes elementos sem as palavras [de Deus] e então não terias outras coisas senão simples pão e vinho. Mas se as palavras permanecem com eles – como o farão e devem fazê-lo – então, em razão delas, é verdadeiramente o corpo e o sangue de Cristo. Porque os lábios de Cristo o dizem, assim são as coisas, já que Ele jamais pode mentir ou enganar” (Idem)[68].

– “Porque comprovamos que há pessoas que se tornaram tíbias sobre [a recepção do sacramento da Eucaristia] e há muitos que ouviram o Evangelho e, considerando que as loucuras do Papa foram abolidas (=os preceitos sobre a recepção frequente do sacramento), acham que agora estamos livres das suas leis e coerções. Estes tais passam um, dois, três ou até mais anos sem receber o sacramento do altar, como se fossem tão bons cristãos que já não tivessem necessidade [do sacramento da Eucaristia] (…) Alguns acham que esta é uma questão que deve ser deixada à liberdade de cada um, não sendo algo necessário, e que é suficiente crer sem precisar receber o sacramento. Assim, a maioria está tão distante deste assunto que realmente se embrutece e finalmente acaba desprezando quer o sacramento, quer a Palavra de Deus” (Sermão sobre a Recepção do Santíssimo Sacramento; “The Sermons of Martin Luther”, Grand Rapids, MI, II, 223-237)[69].

Veja também  São Bento de Núrsia

– “No entanto, devemos saber que aqueles que se privam e se afastam por tanto tempo do santo sacramento [da Eucaristia] não podem se autoconsiderar cristãos, pois Cristo não instituiu este sacramento para ser tratado como se fosse um jogo, mas ordenou aos Seus cristãos que O comessem e O bebessem e, deste modo, O recordassem” (Idem).

– “Em primeiro lugar, temos ensinado que devemos professar com grande alegria e crer firmemente que sob o pão está o verdadeiro corpo de Cristo, e sob o vinho, o verdadeiro sangue de Cristo. Esta é a primeira coisa sobre a qual temos insistido bastante; e se conseguimos plantar este ensinamento nas pessoas, devemos nos dar por pregadores de sucesso (…), pois se posso crer que Cristo ressuscitou dentre os mortos, e que passou através da pedra da entrada do sepulcro sem deixar vestígio, e se posso crer que atravessou portas fechadas sem arrombar ou abrir nada, de tal modo que a madeira e o Seu corpo ocuparam o mesmo espaço – e, não obstante, a verdadeira carne e [o verdadeiro] sangue estavam ali; se posso crer em tudo isto, também estou pronto para crer que o corpo e o sangue de Cristo estão presentes no pão [eucarístico]” (Idem).

CALVINO

Nasceu em 1509. Estudou em Paris, Orleans e Bourges. Em 1533, aderiu à “Reforma”. Escreveu muito; sua principal obra é “Instituições da Religião Cristã”. Exerceu enorme influência na formação de comunidades “reformadas” em Genebra. Morreu em 1564.

Calvino tentou uma via média entre Lutero e os “Sacramentários”, já que nem a explicação de um nem a dos outros o satisfazia; logo no início a “Reforma” começou a padecer dos seus próprios principios… Eis aqui alguns textos:

– “Confessamos unanimemente que, ao receber na fé o sacramento segundo a ordem do Senhor, somos verdadeiramente feitos partícipes da própria substância do corpo e do sangue de Jesus Cristo” (Petit Traicté de la Saincte Cène; CR 5,460).

– “Do qual Ele nos dá na Ceia um ensinamento tão certo e manifesto, que é preciso estar seguro, indubitavelmente, que Cristo, com todas as Suas riquezas, está ali presente não menos como se estivesse na presença dos nossos olhos e fosse tocado com as nossas mãos” (De la Cène du Seigneur; CR 22,69-70).

– “Digo, portanto, que no mistério da ceia, pelos símbolos do pão e do vinho, Cristo Se nos dá verdadeiramente, e Seu corpo e Seu sangue” (Institutio Christianae Religionis 4,17,11).

– “Se nos é perguntado, no entanto, se o pão é o corpo de Cristo e o vinho Seu sangue, responderemos que o pão e o vinho são sinais visíveis que nos representam o corpo e o sangue, mas que lhes são atribuídos esses nomes e esses títulos de corpo e sangue porque são como que instrumentos pelos quais o Senhor Jesus nos los distribui” (Petit Traicté de la Saincte Cène; CR 5,438-439) Por isso, “prostrar diante do pão da ceia, para adorar Jesus Cristo ali, como se Ele ali estivesse contido, é fazer um ídolo ao invés de sacramento” (Idem; CR 5,452)

Esse “reformador” sustentava que o pão eucarístico é pão e o vinho [eucarístico] é vinho mas, pela ação do Espírito Santo, comunicam verdadeiramente o corpo e o sangue de Jesus Cristo. Como quer que seja, esta doutrina também está longe da moderna doutrina “evangélica”, que não aceita de modo algum que o corpo e o sangue de Cristo são de alguma maneira “distribuidos” mediante o pão e o vinho eucarísticos.

A Igreja [Católica] respondeu às dúvidas e novidades dos “reformadores” com o Concílio de Trento, mantendo e especificando a doutrina tradicional tal como vimos em todos os Padres da Igreja anteriormente citados.

O MAGISTÉRIO DA IGREJA CATÓLICA

À apresentação Patrística e aos textos dos principais “reformadores” acrescento agora algumas definições papais e conciliares. Trata-se, certamente, de manifestações relativamente tardias, já que a Igreja hierárquica não precisou definir tais questões em épocas anteriores. Em praticamente todo o primeiro milênio, dada a aceitação universal da doutrina da presença real de Cristo na Eucaristia, não foi necessário definir nada – como restou provado em todas as citações anteriores. Transcrevo, então, apenas algumas citações a título de amostra.

As diferenças que por ventura se tenham dado nas explicações desta presença de maneira nenhuma a negam; pelo contrário, supõem e afirmam o uníssono ensino eucarístico. Quando, entretanto, surgiram doutrinas que se opunham à fé que a Igreja sempre manteve, então foi expresso de maneira autoritativa, através dos seus pastores reunidos em Concílio. Eis aqui alguns exemplos:

Sínodo de Roma (Ano 1079)

– “Eu, Berengário[70], creio de coração e confesso de boca, que o pão e o vinho que se colocam no altar, pelo mistério da sagrada oração e pelas palavras de nosso Redentor, convertem-se substancialmente na verdadeira, própria e vivificante carne e sangue de Jesus Cristo, Nosso Senhor; e que após a consagração são o verdadeiro corpo de Cristo, que nasceu da Virgem, que foi oferecido pela salvação do mundo, que esteve pendente na cruz e está sentado à direita do Pai; e o verdadeiro sangue de Cristo, que foi derramado de seu lado [aberto], não apenas por sinal e virtude do sacramento, mas na propriedade da natureza e na verdade da substância”.

Papa Inocêncio III (Ano 1202)

– “Perguntas: quem acrescentou no cânon da Missa a forma das palavras expressas pelo próprio Cristo quando transubstanciou (=’transsubstantiavit’)[71] o pão e o vinho em Seu corpo e sangue, o que não se lê [na Bíblia] ter sido expresso por algum dos Evangelistas (=trata-se das palavras “mistério da fé”, que são ditas em cada Missa no momento da consagração) (…) Pois bem: dessas palavras sobre as quais Tua Paternidade questiona, isto é, “Mysterium fidei”, alguns imaginaram obter apoio para seu erro, dizendo que no sacramento do altar não se encontra verdadeiramente o corpo e o sangue de Cristo, mas apenas a imagem, a aparência e a figura, fundamentando-se no fato de que às vezes a Escritura recorda que o que se recebe no altar é sacramento, mistério e exemplo. Porém, tais pessoas caem no laço do erro porque nem entendem convenientemente os testemunhos da Escritura, nem recebem reverentemente os sacramentos de Deus, ignorando tanto as Escrituras quanto o poder de Deus (Mateus 22,29) (…) Diz-se “Mistério da fé” porque se crê ali em coisa diversa do que se vê e vê-se coisa diversa do que se crê; porque vê-se ali as aparências de pão e vinho, e crê-se então na verdade da carde e do sangue de Cristo, e na virtude da unidade e da caridade (…) Deve-se distinguir sutilmente, no entanto, entre as três coisas diferentes que há neste sacramento: a forma visível, a verdade do corpo e a virtude espiritual. A forma é a de pão e vinho; a verdade, a da carne e a do sangue; a virtude, a da unidade e caridade. O primeiro é sinal e não realidade; o segundo é sinal e realidade; o terceiro é realidade e não sinal. Porém, o primeiro é sinal de ambas as realidades; o segundo é sinal do terceiro e realidade do primeiro; o terceiro é realidade de ambos os sinais. Cremos assim que a forma das palavras, tal como se encontra no cânon, os Apóstolos a receberam de Cristo, e por estes, seus sucessores” (Carta “Cum Marthae Circa” ao Arcebispo João de Lião, de 29 de novembro de 1202).

Papa Clemente VIII (Ano 1267)

– [Nos chegou a notícia de que tu] disseste que o corpo santíssimo de Nosso Senhor Jesus Cristo não Se encontra substancialmente no altar, mas que isso é indicado apenas como um sinal; e acrescentaste que esta é uma opinião bastante difundida em Paris. Posteriormente esse discurso se difundiu (…) e quando finalmente chegou até nós, nos escandalizou muitíssimo e não tem sido fácil crer que tenhas dito estas coisas que contêm uma heresia manifesta e anulam a verdade daquele sacramento, no qual a fé é exercida mais avantajadamente quanto mais supera os sentidos, cativa o intelecto e submete a razão às Suas leis (…) Guarda firmemente o que a Igreja guarda em comum (…): que com certeza, sob as espécies do pão e do vinho, após as santas palavras proferidas pela boca do sacerdote segundo o rito da Igreja, há verdadeira, real e essencialmente o corpo e o sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, ainda que Ele Se encontre no céu” (Carta “Quanto Sincerius” ao Arcebispo Maurino de Narbona, de 28 de outubro de 1267).

Concílio de Trento (Ano 1551)

– “Em primeiro lugar, o sacrossanto Concílio ensina e confessa de modo claro e simples, que após a consagração do pão e do vinho, Se contém no saudável sacramento da Santa Eucaristia [de forma] verdadeira, real e substancialmente Nosso Senhor Jesus Cristo, verdadeiro Deus e homem, sob as espécies daquelas coisas simples; pois não repugna, com efeito, que o próprio Cristo nosso Salvador esteja sempre sentado no céu à direita do Pai, segundo o modo natural de existir, e, ao mesmo tempo, nos assista sacramentalmente com a Sua presença, e [esteja] em Sua própria substância em muitos outros lugares com tal modo de existir, que ainda que apenas o possamos declarar com palavras, podemos não obstante alcançar com o nosso pensamento ilustrado pela fé, e que é possível a Deus, de forma que devemos crer nisso firmissimamente. Assim professaram clarissimamente todos os nossos antepassados, todos os que viveram na verdadeira Igreja de Cristo e que trataram deste santíssimo e admirável sacramento; isto é, a saber: que nosso Redentor O instituiu na última ceia, quando após ter abençoado o pão e o vinho, atestou aos Seus Apóstolos, com claras e enérgicas palavras, que lhes dava o Seu próprio corpo e o Seu próprio sangue. E sendo constante que essas palavras, mencionadas pelos santos Evangelistas e depois repetidas pelo Apóstolo São Paulo, incluem em si mesmas aquele significado próprio e patentíssimo, segundo o compreenderam os Santos Padres, é, sem dúvida alguma, execrável maldade que certos homens contenciosos e corruptos as tenham torcido, violentado e explicado em sentido figurado, fictício ou imaginário, de modo a negar a realidade da carne e do sangue de Jesus Cristo, em oposição à inteligência unânime da Igreja, a qual, sendo coluna e fundamento da verdade, sempre detestou, [reputando] como diabólicas essas ficções suscitadas por homens ímpios, e conservando indelével a memória e gratidão deste tão brilhante benefício que Jesus Cristo nos fez” (Sessão XIII, em 11 de outubro de 1551; Decreto sobre o Sacramento da Eucaristia)[72].

Papa Paulo VI (Ano 1965)

– “Tal presença [de Jesus na Eucaristia] chama-se ‘real’, não por exclusão, como se as outras [formas de presença de Cristo no mundo] não fossem reais, mas por antonomásia, porque é também corporal e substancial, pois por ela certamente se faz presente Cristo, Deus e homem, inteiro e íntegro. Explicaria de modo falso esta forma de presença quem imaginasse uma natureza – como dizem – “pneumática” e onipresente, ou a reduzisse aos limites de um simbolismo, como se este augustíssimo Sacramento não consistisse senão em um sinal apenas eficaz da presença espiritual de Cristo e de sua íntima união com os fiéis do Corpo Místico (…) Esta voz [da Igreja] que, com efeito, constitui um eco perene da voz de Cristo, nos assegura que Cristo não se faz presente neste sacramento senão pela conversão de toda a substância do pão em seu corpo e de toda a substância do vinho em seu sangue; conversão admirável e singular, que a Igreja Católica justamente e com propriedade chama ‘transubstanciação’. Ocorrida a transubstanciação, as espécies do pão e do vinho adquirem, indubitavelmente, um novo significado e um novo fim, visto que já não são pão comum e bebida comum, mas o sinal de uma coisa sagrada e sinal de um alimento espiritual; porém, já por isso adquirem um novo significado e um novo fim, visto que contêm uma nova realidade que, com razão, denominamos ‘ontológica'[73], porque sob tais espécies já não existe o que havia antes, mas algo completamente diverso; e isto não tão somente pelo juízo da fé da Igreja, mas pela realidade objetiva, visto que, convertida a substância ou natureza do pão e do vinho no corpo e no sangue de Cristo, já não resta nada do pão e do vinho, mas tão só as espécies: sob elas, Cristo, todo inteiro, está presente em Sua realidade física, mesmo corporalmente; porém, não à maneira que os corpos estão em um lugar”[74] (Encíclica “Mysterium Fidei”, de 3 de setembro de 1965).

Concílio Vaticano II

– “A sagrada Eucaristia, com efeito, contém todo o bem espiritual da Igreja, isto é, o próprio Cristo, nossa Páscoa e Pão da Vida, que concede a vida aos homens através do Espírito Santo” (PO 5).

CONCLUSÃO

Citávamos no início as palavras do apologista evangélico-batista, que afirmavam que pela doutrina eucarística da Igreja Católica “o Catolicismo está separado, por um abismo intransponível, de todas as outras religiões e, especialmente, do Cristianismo evangélico”.

Porém, muito além das interpretações exegéticas mais ou menos “adequadas” que se possam apresentar (e que foram tratadas em um outro artigo meu[75]), o que ficou bem claro nesta Antologia Patrística é que a doutrina católica sobre a presença real de Cristo na Eucaristia é doutrina comum da Igreja desde sempre e em todo o mundo, enquanto que a posição meramente simbólica dos “cristãos evangélicos” modernos, que exclui a presença real do corpo e do sangue do Senhor na Eucaristia, não só reflete a doutrina e os ataques de diversas heresias antigas, como também [reflete] a doutrina e os ataques do Paganismo anticristão de todos os tempos – uma coincidência que não deixa de ser surpreendente!

Com simplicidade e realismo, Pedro fala pela voz do Papa João Paulo II:

– “Juntamente com a Tradição da Igreja, nós cremos que sob as espécies eucarísticas Jesus encontra-Se presente” (Mane Nobiscum Domine 16).

Pe. Juan Carlos Sack, VE
No Ano Eucarístico de 2004/2005.

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NOTAS:
[0] Trabalho dedicado a Silvana, Adrián, Carlos e Pablo, José Luis e Claudio, que ou já regressaram ao lar (=a Igreja Católica), ou então já estão a caminho… Perseverança! OBS.: [A] Os comentários que aqui são feitos têm por finalidade esclarecer o contexto histórico das citações ou ressaltar algum aspecto importante. As citações bíblicas que aparecem nos textos entre colchetes ou parêntesis são sempre acréscimos; o que segue entre colchetes nos textos patrísticos ou de outros autores são acréscimos feitos para se compreender o contexto. [B] O artigo [completo] contém textos de 80 autores patrísticos e ainda alguns outros. (…)
[1] Devemos, no entanto, matizar esta afirmação, já que na verdade ninguém consegue se libertar de toda espécie de tradição na hora de ler as Escrituras, de modo que até os “evangélicos” “mais bíblicos” receberam, juntamente com as Escrituras, uma certa chave de interpretação. Tendo deixado isto bem claro, também é correto o que afirmamos, a saber: as correntes “evangélicas” fundamentalistas pretendem fazer uma leitura das Escrituras ignorando tudo o que os outros cristãos antes deles pensaram sobre as mesmas; costumam a chamar isso de “leitura sem preconceitos”.
[2] A expressão “exegese adequada” aplicada aos textos eucarísticos encontra-se pelo menos no Site “Conoceréis la Verdad”, onde se afirma, no artigo “A Teoria da Transubstanciação”, que o crente deveria rejeitar a interpretação da Igreja Católica baseado no “senso comum” e numa “exegese adequada”. Resta averiguar com base em quê se poderia chamar “adequada” a exegese desse Site e “não adequada” ou “falta de senso comum” à exegese de Justino [de Roma] e Inácio de Antioquia (séculos I e II), ou a de Agostinho [de Hipona] e João Crisóstomo (séculos IV e V), ou a de Tomás de Aquinho (século XIII), para mencionar apenas alguns.
[3] O autor dessas linhas se apresenta tacitamente como o portavoz do Cristianismo evangélico… Pode então ser comparado, por exemplo, com o que Lutero pensava sobre este tema (ver mais adiante, nesta série de artigos).
[4] As acusações de canibalismo, repetidas aqui pelo “evangélico” batista, não são senão repetição das mesmas acusações feitas pelos pagãos anticristãos dos dois primeiros séculos. Uma coincidência que não deixa de causar surpresa!
[5] A presença real de Cristo na Eucaristia e o aspecto sacrificial da celebração, ainda que intimamente ligadas, são dois aspectos diferentes do mistério eucarístico, que o autor batista aqui confunde. Quão errônea é a afirmação segundo a qual a interpretação realista das palavras da Última Ceia são tão tardias quanto o século XIII poder-se-á comprovar ao longo [desta série de artigos]. Além disso, o que é de 1215 (ou mais exatamente 1202) é o surgimento da palavra “transubstanciação” em um documento da Igreja. E, finalmente, o Papa Pio III reinou em 1503 e não em 1215. Logo, o Papa em questão é, na verdade, Inocêncio III.
[6] O que até aqui Hernández Agüere fez em seu artigo não foi “aprofundar” nos Padres, mas tentar desautorizá-los por suas supostas “contradições”.
[7] Há “alguns Padres que podem nos dizer algo sobre o nosso tema” – diz Hernández, citando [só] DOIS Padres. Espero que após ler este artigo, o sr. Hernández Agüero possa encontrar mais alguns que possam nos “dizer algo” sobre o nosso tema.
[8] Retornaremos a estas citações de Tertuliano posteriormente.
[9] Uma coleção mais ampla de textos em espanhol encontramos em “A Presença Real de Cristo na Eucaristia”, de José A. de Aldama, Edicep, Valência, 1993; empregarei este livro em muitas citações. [Em inglês, temos] também “The Faith of the Early Fathers”, em 3 volumes, de William A. Jurgens. A melhor coleção em espanhol é, sem dúvida, “Textos Eucarísticos Primitivos”, do Pe. Jesús Solano (sj), em 2 volumes. Uma coleção mais simples, porém com muitíssimo material apologético, temos em “Bíblia y Eucaristia”, de Ernesto Bravo (sj). O fato totalmente indiscutível é que qualquer cristão que queira saber o que ensinaram antes de nós todos os melhores líderes do Cristianismo primitivo acerca da presença de Cristo na Eucaristia terá que recorrer à literatura católica. Por que será?
[10] Este mesmo raciocínio dos primeiros inimigos do Cristianismo nascente, visando negar a realidade da encarnação, se repete literalmente hoje em dia na exegese “evangélica” simbólica do discurso do Pão da Vida (João 6,25ss), visando agora negar a realidade da presença real de Cristo na Eucaristia. Isto merece a mais séria atenção (…).
[11] Sobre isso, escreve na carta aos esmirnenses: “Que ninguém faça nada de importante para a Igreja sem o consentimento do Bispo. A Eucaristia válida é aquela celebrada pelo Bispo ou por quem ele designar (…) Nem lhe seja permitido, sem o consentimento do Bispo, batizar ou celebrar o ágape. Quem for aprovado pelo Bispo é agradável a Deus, de modo que o que fizer será seguro e válido” (8,1-2). Compare-se com o que ocorre hoje: enquanto nas igrejas católicas se continua celebrando o único Sacrifício eucarístico em torno do Bispo “ou de quem foi por ele designado” (=os sacerdotes), numerosas denominações “evangélicas” se reúnem por iniciativa própria à margem do Bispo e o que celebram não é, com certeza, a Eucaristia, ainda que muitas vezes a parodiem, repartindo – estes sim – pão e vinhos comuns.
[12] Por outro lado, a Igreja reconhece a validade das ordenações episcopais das igrejas ortodoxas, razão pela qual a Eucaristia ali é validamente celebrada.
[13] Neste artigo, não abordamos diretamente a Eucaristia como Sacrifício. Em todo caso, é bom lembrar que, assim como a presença real de Jesus nas celebrações eucarísticas válidas é uma verdade de Fé virtualmente testemunhada por todos os mais importantes Padres da Igreja, assim também podemos encontrar uma grande quantidade de textos patrísticos que testemunham a Fé da Igreja primitiva na realidade sacrificial da Eucaristia, sem que encontremos neles qualquer dificuldade em admitir a unicidade do sacrifício expiatório de Cristo na Cruz e sua celebração sacramental na Eucaristia até o fim dos tempos. Falam disto como sacrifício: Justino, Didaqué, Cipriano, Cirilo de Jerusalém, João Crisóstomo, Ambrósio, Agostinho, entre outros. Nenhum deles inventou nada, apenas transmitiram a Fé Apostólica. Será que estes homens não sabiam que Cristo Se ofereceu de uma vez por todos, como ensina Hebreus 7,27?
[14] Seria o caso deste outro texto de Clemente: “O Verbo é tudo para a criança: pai e mãe; e, por sua vez, pedagogo e alimentante. Ele disse: ‘Comei o Meu corpo e bebei o Meu sangue’. Estes são os alimentos, bem apropriados para nós, que o Senhor dá: oferece Sua carne e dá Seu sangue; nada falta às crianças para que cresçam” (Pedagogo 1,6,42,3).
[15] A heresia docetista ensinava, substancialmente, que a Encarnação não fôra real, mas aparente, uma espécie de ilusão: nem o Verbo se fez carne realmente, nem morreu realmente na cruz, etc.
[16] Citado em parte por Hernández Agüero no Site “Conoceréis la Verdad”.
[17] É óbvio que Tertuliano acreditava que Jesus tinha Se convertido em pão… O contrário é que deve ser entendido, como já mencionamos em uma nota anterior, acerca do modo poético de se falar da Eucaristia. Certamente, nenhum “pão” pode nos dar nada no plano da salvação, salvo se esse “pão” agora for “o corpo do Senhor”. Nesta chave, todos os textos patrísticos podem ser compreendidos.
[18] O “pão bento” é conservado nas celebrações do Rito Bizantino, mas não nas do Rito Romano.
[19] Espero que esta afirmação da Igreja dos primeiros séculos aplaque o medo de Hernández Agüero, que propõe: “Pensemos agora: se por acaso um rato, por descuido, vier a comer uma hóstia consagrada, falando no bom sentido, poderíamos dizer então que ‘comeu Deus’?” Fiquemos apenas com a parte em que o rato não come o pão eucarístico, porque é o Corpo de Cristo e deve ser tratado como tal. Porém, o argumento do “rato comendo Deus” não parece ter debilitado a fé da Igreja primitiva na presença real.
[20] Neste antigo documento ocorre em outras passagens o uso da palavra “antítipo”: o pão do ágape, segundo a Tradição, “é uma ‘eulogia’, não uma Eucaristia, ‘antítipo’ do corpo do Senhor” (distinção mais do que importante para não confundir o ágape fraterno com a Eucaristia propriamente dita); e também: “Recebeste o cálice em nome de Deus como o ‘antítipo’ do sangue de Cristo”.
[21] O tema foi estudado detalhadamente por A. Wilmart, em seu artigo “Transfigurare”, Bulletin d’Ancienne Littérature et d’Archeologie Chrétiennes 1 (1911), pp. 285-288.
[22] Avalie-se o peso desta afirmação: o pão e o vinho eucarísticos produzem nos que os recebem: fortaleza para a santidade, remissão dos pecados, afastamento do maligno, recepção do Espírito Santo em plenitude, o sermos dignos de Cristo e a obtenção da vida eterna. Poderia tudo isto ter por causa um símbolo? É claro que não. Portanto, a fé que representa este importante documento da Antiguidade cristã é uma fé na presença real do Corpo e Sangue de Cristo nos elementos eucarísticos. Quem são os que representam esta fé hoje? E quem são aqueles que a combatem?
[23] Não se deve esquecer que a Teologia, isto é, a reflexão sobre os mistérios da fé, vai se desenvolvendo de maneira gradual: a Igreja recebe o mistério e reflete sobre ele, guiada pelo Espírito, sem eliminar os elementos que transcendem sua capacidade intelectiva – os mistérios propriamente ditos – ainda que busque obter deles um conhecimento e uma compreensão cada vez maiores. Neste processo secular, a Teologia avança também na expressão das verdades que recebeu e que transmite de geração a geração, atormentada precisamente por expressões que davam margem à dúvida ou confusão, ou somente imperfeitas em demasia. Assim ocorreu com todos os dogmas da Igreja, não apenas com a Eucaristia; pense-se, por exemplo, na evolução das expressões acerca da humanidade e divindade do Senhor: só com o passar dos séculos e após disputas que muitas vezes se tornaram violentas, a Igreja foi capaz de expressar o mistério de uma maneira mais perfeita, coisa que não exclui uma melhor expressão no futuro. Quando o Concílio Niceno-Constantinopolitano abordou a pessoa divina de Jesus e suas naturezas divina e humana, estava expressando com autoridade o que por séculos foi motivo de debates e lutas de não pequena monta, visto que as Escrituras pareciam dar razão para as duas partes em questão manter posições contrárias; e na pregação do mistério da Encarnação, aqui e acolá soavam expressões que a Igreja, iluminada pelo Espírito da Verdade, foi discernindo, esclarecendo e definindo.
[24] Estes pensamentos não são ideias minhas. Podem consultar-se os melhores estudiosos de Orígenes e os Padres do seu tempo; p.ex.: H. U. von Balthasar, “Le Mysterion de Origène”, in: Recherches de Science Religieuse 26 (1936), pp. 513-562; 27 (1937), pp. 38-68; H. de Lubac, “Histoire et Esprit. L’intelligence de l’Écriture d’après Origène” (Paris 1950), pp. 355-358; H. Crouzel, “Origène et la structure du sacrement”, in: Bulletin de Littérature Ecclésiastique 63 (1962), pp. 81-104 ; L. Lies, “Wort und Eucharistie bei Origenes” [Innsbrucker theologishe Studien, 1] (Innsbruck-Wien-München 1978), pp. 97-148 ; J. Daniélou, “Origène” (Paris 1948), p. 74. Todos estes autores são as autoridades mais importantes no estudo de Orígenes em nosso tempo.
[25] Sobre a antiga concepção de “símbolo” que não nega a realidade mas a afirma, projetando-a para uma outra realidade superior, veja-se A. von Harnack, “Lehrbuch der Dogmengeschichte”, t. 1 (Tübingen 1909), p. 476.
[26] Neste espírito, a Igreja sempre protegeu os sagrados elementos eucarísticos contra toda espécie de profanação, maltrato ou roubo. Daniel Sapia, webmaster do Site batista “Conoceréis la Verdad”, quer desacreditar este interesse da Igreja, quando cita ironicamente a preocupação de Mons. Estanislao Karlic, então presidente da Conferência Episcopal Argentina, quando tomou conhecimento do roubo cometido contra uma senhora que levava consigo a eucaristia para um doente. Comentou o webmaster batista: “O Redentor da humanidade era carregado ‘na carteira da mulher…'”.
[27] Esta última citação de Orígenes confirma o que sugerimos anteriormente: a fé na presença real de Jesus na Eucaristia não exclui um discurso mais amplo, simbólico, que podemos encontrar nos Padres (e também em pregadores católicos atuais); o texto citado, p.ex., nunca poderia ser pronunciado por um “evangélico”, pois ele não poderia dizer: “bebemos o sangue de Cristo no rito dos Sacramentos”, enquanto que um católico poderia, sem nenhum problema, pronunciar a frase inteira: “bebemos o sangue de Cristo não apenas no rito dos Sacramentos, como também quando recebemos as palavras de Cristo”.
[28] Firmiliano cita as severas palavras do Apóstolo em 1Coríntios 11,27. Alguém poderia ser considerado “réu do corpo e do sangue do Senhor” se o pão que é consumido nas celebrações fosse um simples simbolismo?
[29] “La Théologie de Saint Cyprien” (Paris 1922), pp. 263-264. Aí se encontram as referências para cada expressão.
[30] Observe-se a força da expressão: a Eucaristia como presença real do sangue de Cristo é o fundamento para a fortaleza daqueles que irão derramar seu próprio sangue em testemunho da sua Fé.
[31] Os adversários da presença real costumam afirmar que Jesus pediu para que a Eucaristia fosse celebrada “em Minha memória”, como se essa “memória” fosse contrária à “presença” de Jesus. Nos Padres da Igreja, como também na doutrina católica, os conceitos de “memória” e “presença” não se opõem: em memória de Jesus celebramos “isto” (segundo as palavras do Senhor: “Fazei isto em Minha memória”) e “isto” faz também referência à oferta do Seu corpo e do Seu sangue (“Isto é o Meu corpo entregue por vós”).
[32] Comentário ao Salmo 33,6.
[33] Para maiores informações sobre o tema, veja-se Dufort, “Le Symbolisme Eucharistique aux Origines de l’Église”, pp. 33-35.
[34] Veja-se a obra de J. Betz, “Die Eucharistie in der Zeit der Griechischen Väter”, tomo 1/1 (Freiburg 1955), que é fonte obrigatória para o estudo da linguagem eucarística dos Padres gregos.
[35] Daniel Sapia, em seu artigo “A Teoria da Transubstanciação”. Esta ridícula apresentação que o Webmaster batista quer colocar na boca da Igreja nunca foi doutrina católica, como demostram, entre outros, Santo Agostinho, ao assinalar que “eles (=os ouvintes de Jesus em João 6) entenderam a carne como aquela que se solta de um cadáver, ou como aquela que é vendida no mercado, não a que se encontra animada pelo Espírito”; e: “entenderam-No carnalmente e imaginaram que o Senhor iria cortar algumas partes do Seu corpo para dar a eles”; ou São Cirilo de Alexandria, quando pregava que “quando ouviram [Jesus] dizer: ‘Em verdade, em verdade vos digo: Se não comerdes a carne do Filho do homem, se não beberdes o Seu sangue, não tereis vida em vós’, imaginaram que estavam sendo convidados para algo cruel, próprio das feras: que desumanamente seriam obrigados a comer carne e a beber sangue; que seriam obrigados a fazer coisas que, só de ouvir, qualquer um já estremece”; ou o próprio Martinho Lutero, que afirmava: “Os judeus pensaram que deveriam comer Cristo, do mesmo modo que se come o pão e a carne do prato, ou como um leitãozinho assado”. A Igreja rejeita toda apresentação grosseira do mistério eucarístico e entende o comer a carne de Cristo no sentido real, porém sacramental e místico, não como que extraído de um cadáver ou como se fosse um leitãozinho assado.
[36] A ridícula acusação de canibalismo, por exemplo.
[37] Alguns colocam este texto em dúvida, não obstante a maioria dos críticos hoje o tenham como um escrito autêntico de Atanásio.
[38] Compare-se o escrito de São Basílio Magno com estas expressões de Sapia no artigo já citado (com as ênfases do original): “Este sacerdote [católico] disse [ao terminar uma Missa]: ‘Queridos irmãos: vos convido a retornar todo domingo para receber Cristo, que por sua grande humildade Se transforma em hóstia por amor a nós…’ Pergunto: Receber Cristo todo domingo? É claro que somente podemos receber algo quando NÃO TEMOS esse algo (o que me parece óbvio). Significa, então, segundo se depreende das palavras do sacerdote, que Cristo ‘abandona’ o católico em algum momento da semana, já que no domingo [seguinte] deverá assistir à Missa para novamente recebê-Lo… e assim sucessivamente ao longo de toda a sua vida… Isto não apenas é antibíblico como também ilógico. No entanto, os fiéis católicos aceitam, creem e obedecem a isto… Eles creem na Igreja Católica Romana e isso os conforma para supor que estão cumprindo [seus deveres para] com Deus. O verdadeiro cristão recebe Cristo UMA ÚNICA VEZ em sua vida: no instante de reconhecê-Lo como seu único e suficiente Salvador, entregando-Lhe seu coração e todo o seu ser; o que a Bíblia chama de “nascer de novo” (algo que dificilmente ocorre com quem supõe receber Cristo pela ingestão de uma hóstia)”. É claro que cada um tem uma visão diferente do que significa “receber Jesus” e não necessariamente coincidirá com a definição de tipo dogmático expressa por Sapia, sobre como “o verdadeiro cristão” recebe a Cristo (leia-se: ele e os que pensam como ele); como se existisse uma única forma de “receber” Jesus! Entretanto, o que eu quero apontar aqui é que a fé do evangélico batista é diferente da Fé da Igreja primitiva, daquela Fé que coincide com a daquele sacerdote católico que convida os fiéis a regressarem à Igreja todo domingo para “receber a Cristo”. Vemos então que São Basílio Magno, na distante Capadócia, naquele já distante século IV, “cria na Igreja Católica Romana” e isso “o conformava para supor que estava cumprindo [seus deveres para] com Deus”. Há outros testemunhos neste artigo onde os Padres recomendam ou louvam a recepção diária da Eucaristia.
[39] Em seu artigo sobre “a teoria da transubstanciação”, Daniel Sapia menciona as palavras de um sacerdote argentino que, ao mostrar a hóstia consagrada, antes da comunhão, disse: “Este É o corpo de Jesus, O MESMO que nasceu da Santa Virgem Maria (…) Felizes os convidados para o banquete celestial”. O autor batista fica escandalizado com estas palavras, escritas sobre um momento especial, inclusive acrescentando uma breve filmagem desse instante, em que é possível ver e ouvir o referido sacerdote. Curiosamente, Ambrósio de Milão, testemunha indiscutível da Igreja primitiva, não inventou nada (está apenas transmitindo a fé recebida) e diz, dezesseis séculos antes: “[Na Eucaristia] o que consagramos é o corpo nascido da Virgem”. E se Ambrósio for considerado testemunho tardio, vamos regredir então ao século II e interpelar um discípulo dos Apóstolos: Inácio de Antioquia ensinava que a Eucaristia “é a carne de Nosso Salvador Jesus Cristo, aquela que padeceu por nossos pecados”. É claro que a expressão do sacerdote argentino está em perfeita sintonia com o que a Igreja primitiva sempre acreditou, enquanto que o autor batista está em sintonia não com a Fé da Igreja primitiva, mas com a heresia doceta, contra a qual São João Evangelista tanto lutou em suas cartas. Inácio de Antioquia nos afirma claramente: “Da Eucaristia e da oração [os docetas] se afastam, porque não confessam que a Eucaristia é a carne de Nosso Salvador Jesus Cristo, aquela que padeceu pelos nossos pecados; aquela que, por Sua bondade, o Pai ressuscitou”.
[40] As expressões entre aspas são de Daniel Sapia. Segundo a doutrina católica, o corpo que se recebe na Eucaristia é o corpo glorioso de Cristo, o corpo que se levantou no sepulcro. Trata-se do próprio corpo de Cristo, embora transformado, glorificado, que adquire dimensões que o nosso corpo atualmente não possui, mas que virá a ter por ocasião da ressurreição da carne. Tentando evitar possíveis incongruências, Sapia chega ao extremo de negar que o corpo do Cristo Ressuscitado tivesse sangue. Suas palavras são estas: “O novo corpo de Cristo, no qual Ele agora reside à direita do Pai no céu, não possui sangue”. Acredito que este “ex abrupto” teológico tenha surgido para explicar, entre outras coisas, como as “fibras, músculos, derme (…) plaquetas, plasma, glóbulos” fizeram para ingressar na casa onde estavam os discípulos com as portas fechadas. Porém, levantamos esta questão: É possível sustentar que o Ressuscitado era o próprio corpo de Cristo se, por outro lado, não possuía sangue? O que teria este “corpo” para ser realmente o corpo de Cristo? Ou por acaso o Corpo Ressuscitado foi uma simples ilusão de ótica dos Seus discípulos? Isto não é realmente negar a realidade? Ou teria mesmo sido uma farsa? O que Tomé tocou na segunda aparição aos Apóstolos? Se o que viu e tocou não era um fantasma, isto se deve ao fato de ter tocado um corpo real, com sangue e tudo o mais que um corpo possui, ainda que sob nova dimensão: a dimensão do Ressuscitado. Quem comeu diante dos Apóstolos não foi a alma de Cristo, mas Seu corpo real (Lucas 24,39 e seguintes não dá margem a fantasias). Comeu mesmo Jesus com seus discípulos após Sua ressurreição? Aceitará também o “cristianismo evangélico” – do qual Sapia se autocoloca implicitamente como porta-voz nesta questão que agora nos ocupamos – esta doutrina da não-identidade real do corpo de Cristo antes e depois da ressurreição?
[41] Por exemplo: Sobre Mateus, Homilia 25,4; Sobre 1Coríntios, Homilia 24,2; Sobre 2Coríntios, Homilia 11,2; Sobre Efésio, Homilía 3,5, etc.
[42] Na edição de Jesús Solano são dois grossos volumes mas, com certeza, não se trata de um trabalho exaustivo.
[43] Certa expressão de Teodoro de Mopsuéstia tem dado o que pensar sobre a clareza do seu pensamento acerca da presença real de Jesus na Eucaristia, mas tratam-se de palavras de difícil interpretação encontradas nos seus escritos de especulação teológica, jamais na pregação da Fé aos fiéis. O texto em questão diz: “Receberemos a imortalidade comendo do pão sacramental, visto que, embora o pão não seja de tal natureza, no entanto, quando recebeu o Espírito Santo e a graça que Dele provém, é capaz de guiar para o gozo da imortalidade aqueles que o comem. Isto não ocorre por sua natureza, mas em virtude do Espírito Santo que habita nele; do mesmo modo que Nosso Senhor, de quem este [pão eucarístico] é figura, por virtude do Espírito Santo recebeu a imortalidade e a deu aos demais, não a possuindo verdadeiramente pela Sua própria natureza”. Notemos que no pão eucarístico a imortalidade é recebida porque esse pão recebeu o Espírito Santo; o Espírito Santo habita nele, ainda que logo a seguir seja dito que esse pão é “figura” do Senhor. É óbvio que nem tudo é símbolo, mas realidade salvífica, ainda que seja apresentado como “figura” do Senhor. Considerando os outros textos de Teodoro – já citados -, que explicitamente negam que o pão eucarístico seja tão somente uma “figura”, estas palavras devem ser lidas segundo esse contexto e devem ser sempre interpretadas à luz do que dissemos anteriormente sobre a questão da “figura” e do “tipo-antítipo” nos Padres [primitivos]. Assim, a teologia típica de Teodoro – segundo a qual a realidade está nos céus e aqui na terra tudo o que se encontra é figura – deve ser enquadrada no processo histórico de ajustamento da linguagem sobre o mistério eucarístico. Obras que tratam detalhadamente dessa matéria: W. de Vries, “Der ‘Nestorianismus’ Theodors von Mopsuestia in seiner Sakramentenlehre”: Orientalia Christiana Periodica 7 (1941), pp. 91-148; J. Lécuyer, “Le Sacerdoce Chrétien et le Sacrifice Eucharistique selon Théodore de Mopsueste: Recherches de Science Religieuse 36 (1949), pp.481-516. Não custa repetir aqui o que dissemos antes, a saber: que inclusive esta linguagem “figurativa” não poderia ser empregada pelos atuais adversários da doutrina da presença real, pois continua sendo demasiadamente realista.
[44] Teodoreto fala frequentemente de “símbolos do corpo” ao abordar a Eucaristia, porém, esta maneira de falar refere-se às espécies ou aparências do pão, de modo que “o símbolo é tomado”, “é fracionado”, “é distribuído” etc.
[45] Já Inácio de Antioquia sustentava que a carne de Cristo foi a que sofreu pelos nossos pecados (p.ex., na Carta aos Esmirniotas 7,1), porém, disse também que a carne de Cristo é o Evangelho (p.ex., na Carta aos Filadelfos 5,1). Não há aqui oposição, nem exclusão.
[46] Os textos eucarísticos de Santo Agostinho foram muito bem coletados por H. Lang, “S. Aurelii Augustini Episcopi Hipponensis Textus Eucharistici Selecti”, Florilegium Patristicum 35 (Bonn, 1933). Entretanto, existem diversas obras sobre o tema.
[47] Em outro lugar, explica de uma maneira um pouco diferente: “Ele mesmo, de algum modo, Se elevava a Si mesmo…” (Comentário ao Salmo 33,2º,2), onde o “quodam modo” refere-se à incerteza de como tal coisa pode ocorrer; não negando o fato, mas afirmando-o. O mesmo se pode dizer deste outro texto: “De algum modo, o sacramento do corpo de Cristo é o corpo de Cristo; [e] o sacramento do sangue de Cristo é o sangue de Cristo” (Carta 98,9). Este “Cristo elevar-Se a Si mesmo em Suas mãos” é considerado “uma fantasia” por Daniel Sapia, coisa esta que jamais pareceu à Igreja. Que Santo Agostinho não inventou esta doutrina fica claro por todos os textos anteriores e posteriores.
[48] Mais uma objeção “evangélica”: a Missa não pode ser a oblação de Cristo porque esta foi feita “de uma vez por todas” (Hebreus 7,27). Em primeiro lugar, a doutrina da Carta aos Hebreus foi ensinada pela Igreja Católica desde o início até o dia de hoje, e assim o fará até a consumação dos tempos. Agostinho explica aquilo que certamente é um grande mistério, dizendo que a imolação de Jesus realizou-se “em Si mesmo” uma vez, porém essa imolação “sacramentalmente” ou “no sacramento” se perpetua até o fim dos tempos. Temos visto nos textos citados de muitíssimos Padres dos primeiros quatro séculos a doutrina da Eucaristia como “oferta” ou “sacrifício” (“thusia”, em grego), mesmo que não tenhamos procurado textos sobre esse aspecto da Eucaristia, atendo-se somente à presença real. Cabe ao leitor julgar a exatidão destas palavras de Sapia: “Foi o Papa Pio III quem fez do ‘sacrifício’ da Missa um dogma oficial em 1215”. Agostinho prega isso em fins do século IV, isto é, cerca de 800 anos antes da data proposta pelo autor batista! O “dogma oficial” nada mais faz do que repetir a doutrina católica de todos os séculos. Se o “dogma oficial” não surgiu antes é porque até então não se negava a sacrificialidade da Eucaristia.
[49] “Qual é a grande mesa, senão aquela da qual tomamos o corpo e o sangue de Cristo?” (Sermão do Antigo Testamento 31,2).
[50] É o que Paulo afirma em 1Coríntios 11,28-29: “Cada um examine a si mesmo e então coma do pão e beba do cálice. Porque aquele que come e bebe sem discernir corretamente o corpo do Senhor, come e bebe do juízo de condenação para si mesmo”. A comida e bebida de salvação não devem ser tomadas sem o devido discernimento e preparação, do contrário pode ser motivo de condenação. Paulo entendia a Eucaristia como um mero símbolo? Pode a relação com um símbolo ser causa de condenação?
[51] Já mencionamos a questão das interpretações “cafarnaíticas”, ao falar anteriormente de Eusébio de Cesareia. Santo Agostinho aborda bastante esta questão e quer educar os seus ouvintes no entendimento espiritual – embora real – das palavras de Jesus em João 6, e não em “chave cafarnaítica”, chave esta que não é doutrina da Igreja, mas uma paródia da mesma. Agostinho chama essa interpretação distorcida de “a primeira heresia” (Comentário ao Salmo 54,23 etc.).
[52] Coletando a Fé de toda a Igreja, o poeta cristão do séc. V não faz uma falsa dialética entre o “receber Cristo na fé” e o “recebê-Lo no sacramento”. É doutrina católica que ninguém pode aproveitar-se do Santíssimo Sacramento se não tiver fé e se primeiramente não recebeu Cristo na fé. Porém, este “recebê-Lo na fé” é renovado toda vez que é recebido sacramentalmente. A postura fundamentalista “evangélica” mostra-se particularmente míope neste tema, já que afirma que “o católico, por receber Jesus todo domingo na Eucaristia” teria perdido Ele durante a semana, por isso, precisa recebê-Lo novamente, como lemos em algum Site da Internet. Ora, se aceitarmos esta lógica totalmente preconceituosa, deveremos dizer também que quando o “cristão evangélico” vai cultuar o Senhor uma vez na semana, ou uma vez ao mês, ou uma vez ao ano na Santa Ceia é porque… teria se esquecido Dele durante todo esse tempo [entre uma Ceia e outra].
[53] Compare-se [essa citação] com este texto do Concílio Vaticano II: “A Igreja sempre venerou as Sagradas Escrituras da mesma forma que o próprio Corpo do Senhor, não deixando de tomar da mesa e de distribuir aos fiéis o pão da vida, tanto a palavra de Deus como o Corpo de Cristo, sobretudo na Sagrada Liturgia” (Dei Verbum 21). Isto é, “o pão da vida” é Jesus, a Palavra de Deus, e também é o Corpo de Cristo na celebração eucarística.
[54] É de se notar a expressão “converteu [o pão e o vinho] na substância do Seu corpo e do Seu sangue”. Transubstanciação no século VI? Sejam quais fores os termos técnicos adotados pela Igreja no decorrer dos tempo, a realidade da transubstanciação é tão antiga quanto a Fé Apostólica. Observe-se, no mesmo sentido, a citação seguinte.
[55] Este texto é impressionante, pois o monofisita e o católico professam a mesmíssima fé na presença real do corpo e sangue do Senhor na Eucaristia, e o professam como algo que ninguém pode duvidar. Sapia, o apologista batista, apoiado em uma suposta “exegese adequada” das Escrituras, diz que Jesus, durante a sua pregação, usou outras expressões com o verbo “ser” (p.ex.: “Eu sou a porta” etc.) e que ninguém as interpretaria literalmente, de modo que tampouco – diz ele – se deve interpretar literalmente a expressão “Isto é Meu corpo” etc. Deixando de lado a discussão exegética, cabe levantar algumas questões de sentido comum: (A) Será então que todas as vezes em que o verbo “ser” aparece dever-se-ia entendê-lo simbolicamente, só porque às vezes deve ser entendido simbolicamente? (B) Será que todos os cristãos da História – aqueles que defenderam a presença real – não pereceberam tal diferença? Ou será que detectaram sem maiores dificuldades que realmente há alguma diferença entre “Eu sou a porta” e “Isto é Meu corpo”? (C) Será que alguma vez alguém imaginou que uma porta poderia ser Jesus verdadeiro, real e substancialmente? Por que a expressão “Eu sou a porta” e outras semelhantes jamais produziram qualquer dificuldade, enquanto que a expressão eucarística “Isto é Meu corpo” toda a Igreja, sempre e em todos os lugares, creu que não deveria ser interpretada simbolicamente? Por acaso, expressões como “Eu sou a porta” ou “Eu sou a luz do mundo” ou outras parecidas, provocaram o abandono dos discípulos, tal como ocorreu em João 6? E por que não?
[56] Eis o testemunho de um Padre importante, do século VIII, acerca do pão e do vinho que “se mudam”, ou seja, se transubstanciam.
[57] A ideia geral do emprego dos termos gregos “tipos” ou “antítipos” (=figura, imagem) aplicados à Eucaristia torna-se mais clara com a explicação de Damasceno. Não se deve perder de vista, em primeiro lugar, que os Padres ou Escritores eclesiásticos antigos, que empregavam ocasionalmente esta terminologia em relação ao pão e vinho eucarísticos, também se expressavam firmemente no sentido realista da presença de Jesus no sacramento – como vimos anteriormente – de tal modo que uma explicação simplesmente simbolista da linguagem patrística nesses casos não respeitaria a realidade no seu conjunto. Em segundo lugar – como já dissemos em relação a outros Padres – a presença real do Senhor nos elementos eucarísticos não destrói os simples elementos do pão e vinho que continuam sendo como que imagens de outra coisa, embora a fé afirme que a sua substância deixou de ser o que era para converter-se no corpo e sangue do Senhor; a última expressão de João Damasceno o afirma muito bem: “E os chamam ‘antítipos das coisas futuras’ não como se não fossem verdadeiramente corpo e sangue de Cristo, mas porque agora participamos da divindade de Cristo através deles, e depois intelectualmente apenas pela visão”. Os acidentes do pão e do vinho continuam mediando o nosso contato com o Senhor e, neste sentido, apontam para uma realidade que os transcendem. A doutrina católica sustentada por toda a Igreja desde o início, segundo a qual a presença de Jesus Cristo na Eucaristia é real, de modo algum inclui uma reta doutrina simbólica enquanto que permite o uso de uma linguagem simbólica com base nos acidentes eucarísticos que seguem apontando para outra realidade; disse o Senhor: “O pão que Eu darei é Minha carne para a vida do mundo” (João 6,51). Esta verdade misteriosa foi o que o “reformador” Martinho Lutero quis expressar quando afirmou a presença simultânea do pão e do corpo na Eucaristia (doutrina conhecida como “impanação”); a Igreja [Católica] não aceitou esta explicação, mas proclamou a Fé cristã de todos os tempos mediante a doutrina da Transubstanciação, em que a substância do pão e do vinho se transforma na do corpo e do sangue do Senhor, embora os acidentes ou simples elementos permaneçam intactos.
[58] “Iconoclasta”: do grego “?????????????”, destruidor de imagens. 1) Adjetivo: diz-se do herege do século VIII que negava o culto devido às imagens sagradas, as destruía e perseguia quem as veneravam [D.R.A.E.].
[59] Sessão VI (Mansi 13,204-364). A reinvindicação de João Damasceno, Germano de Constantinopla e Jorge de Chipre encontram-se no final das atas da Sessão VII (cf. Mansi 13,400).
[60] “Adocionista” – 1. Adj. Diz-se de certos hereges espanhóis do século VIII, que supunham que Cristo, enquanto homem, era Filho de Deus não por natureza mas por adoção do Pai [D.R.A.E.].
[61] Essas citações podem ser vistas na obra de Aldama, “La Presencia Real de Cristo en la Eucaristía”, pp.164-169.
[62] Até o dia em que este trabalho foi [originalmente] escrito, ainda não estava disponível a tradução espanhola dos artigos correspondentes a Berengário, Wycliff, Huss etc. na “Enciclopédia Católica”. Quando estiver concluída, será possível ao leitor encontrar material suficiente para obter uma melhor ideia das controvérsias eucarísticas no período entre o século IX e o XV.
[63] Na carta aos cristãos de Estrasburgo (1524), escreveu que gostaria muito de ter algum motivo para negar a doutrina da presença real, já que não via meio melhor para causar dano ao Papado (WA 15,394). Lutero se jactava de defender a presença real melhor que os “papistas” (Boyer, “Luther”. Sa doctrine, Roma, 1970, pp.171-172). No entanto, é certo que não a defendeu tão bem assim, já que a maioria dos seus “seguidores”, com o passar do tempo, a abandonaram, enquanto que a Igreja Católica continua professando. Esta é a diferença entre a Igreja de Deus e as “igrejas dos homens”, por mais atrativas que circunstancialmente possam parecer e apesar da aparente palidez daquela. E quantas outras doutrinas defendidas por Lutero foram abandonadas pelos seus seguidores e ainda são mantidas pela Igreja de Deus!
[64] Para ilustrar: “Em 1520, Lutero também dizia que quem assim o desejasse poderia permanecer conservando a doutrina da transubstanciação. Posteriormente, a rejeitaria sem maiores entusiasmos; e ainda podia muito bem falar da sua posição contrária à dos suiços e concorde com a de Roma, a favor da questão da presença real” [1520 sagte er noch, wer wolle, möge die Transsubstantiationslehre beibehalten. Und auch später lehnte er sie ohne besonderen Ton ab und konnte den Schweizern gegenüber sein Zusammenstehen mit Rom in der Realpräsenz erwähnen]. Também são suas estas palavras: “Ainda que eu confesse com Wycliff que o pão permanece, no entanto também sustento com os sofistas (=os católicos) que o corpo de Cristo está ali presente” (W. 26,439,26-29).
[65] O colóquio está à disposição do leitor [por ora, em espanhol, sem tradução para o português] na url http://apologetica.org/eucaristia.htm. De forma simplista, o batista Sapia diz em algum lugar do seu site: “Quão simples são as palavras de Deus em contraste com o labirinto doutrinário da Igreja Católica Romana!”. Porém, na verdade, não é tanto assim: as “palavras de Deus” a que se refere o autor evangélico são as palavras da Escritura, como é óbvio. Pois bem: Lutero, pai indiscutível do Evangelismo, dizia que sobre as quatro palavras da Bíblia (“Isto é Meu corpo”) ele podia contar oito interpretações diferentes. Por outro lado, o “labirinto doutrinário da Igreja Católica Romana” há muito tempo definiu, com clareza solar, como estas quatro palavras devem ser entendidas. Com efeito, o leitor seguramente encontrará um labirinto doutrinário no mar de interpretações particulares do Evangelismo e não na doutrina católica. As palavras de Deus são simples quando interpretadas conforme a doutrina dos Apóstolos (Atos 8,30-31.35) e não quando são arrancadas do ambiente eclesiástico onde nasceram e para o qual foram inspiradas. O colóquio de Marburg é um exemplo perfeito já que todos os “reformadores” saíram de lá tão divididos como quando haviam entrado, apesar de todos eles basearem-se apenas na autoridade da Escritura.
[66] Declaração em 28 artigos, apresentada ao Imperador Carlos V em 25 de junho de 1530, que resumia a posição das igrejas “reformadas” sobre diversas questões.
[67] Variante sustentada hoje, entre outros, por algumas Testemunhas de Jeová; estas estranhas variantes são sempre fruto de alguma “exegese adequada”… E vá você dizer algo para eles…
[68] De tudo o que foi dito pelo “reformador” conclui-se claramente que a doutrina eucarística dos “evangélicos” é tida por “fanática e demoníaca” por Lutero. Por outro lado, alguns “evangélicos” modernos sustentam que a Eucaristia tal como é entendida pelos católicos seria “uma fraude diabólica”. Ou seja: Lutero declara demoníaca a doutrina de alguns “evangélicos” modernos e estes, por sua vez, apontam como “fraude diabólica” a doutrina de Lutero sobre a presença real. Paradoxos da História!
[69] Estas palavras são proféticas! Compare-se este texto de Lutero com as palavras de Sapia, e apliquemos o duro qualificativo ao “reformador” alemão: “Receber Cristo a cada domingo? É claro que somente podemos receber algo quando NÃO O TEMOS (parece-me até óbvio). Significa então (…) que Cristo ‘abandona’ o católico em algum momento da semana, já que no domingo [seguinte] deverá assistir à Missa para tornar a recebê-Lo (…) e assim sucessivamente ao longo de toda a sua vida…” E mais adiante declara, com timbres de definição dogmática, como age o “verdadeiro” cristão: “O verdadeiro cristão recebe Cristo UMA SÓ VEZ na sua vida: no momento de reconhecê-Lo como seu único e suficiente Salvador, entregando-Lhe seu coração e todo seu ser…”.
[70] A pedido deste Sínodo Romano [de 1079], esta profissão de fé foi feita por Berengário (o qual negava a presença real de Jesus Cristo na Eucaristia e que, por isso mesmo, fôra condenado por diversos sínodos locais anteriores: Roma, Verselli, Tours). Esta profissão de fé manifesta o constante ensinamento da Igreja e o seu zelo para transmitir a todas as gerações a doutrina bíblica em toda sua força.
[71] Segundo o que pude averiguar, esta foi a primeira aparição da palavra “transubstanciação”, em forma verbal, em um documento do Magistério. É, pois, erro grosseiro imaginar que só porque apenas nesta época [ano 1202] surgiu o verbo “transubstanciar”, a doutrina [da presença real de Cristo na Eucaristia] teria sido invenção deste Papa. Já bastam as dezenas de exemplos que citei neste trabalho para provar que a Igreja sempre creu que após a consagração já não há mais “pão comum”, mas “o verdadeiro corpo do Senhor”. A definição surgiu muito depois porque os erros que negavam esta doutrina começaram a ser difundidos na Igreja em época bem tardia.
[72] Palavras impressionantes! Curiosamente, Lutero desferiu palavras ainda mais duras contra os “embrutecidos” e “fanáticos” que negavam a presença real, aos quais não duvidava de colocar ao lado de “mil demônios”, como vimos anteriormente.
[73] É de se observar que o Papa emprega aqui também uma terminologia simbólica, exemplificando aquilo que havíamos dito antes, a saber: que a doutrina da transubstanciação, clarissimamente expressa neste texto de Paulo VI, não exclui o significado simbólico que as espécies do pão e do vinho continuam mantendo; é neste contexto que podemos entender as expressões de caráter simbolista de alguns Padres primitivos, os quais expressam também, com toda clareza, sua fé na realidade da presença de Cristo na Eucaristia.
[74] Os que estão pouco interessados em conhecer a verdade das coisas insistem em assinalar uma apresentação “cafarnaítica” da doutrina católica, como se a Igreja ensinasse que o modo da presença de Cristo na Eucaristia fosse idêntico ao modo da presença que Ele teve há dois mil anos atrás. Cristo está presente em sua realidade física, mas não do modo como o estão normalmente os corpos físicos: após tudo, o corpo de Cristo foi glorificado. Com efeito, o modo de existir de Jesus Cristo na Eucaristia é único e chama-se, precisamente, “eucarístico” ou também “sacramental”, razão pela qual restam excluídas todas as representações ridículas deste grande mistério.
[75] Ver o meu artigo em espanhol, em http://apologetica.org/eucaristia.htm.


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