Disponibilizo a seguir o meu primeiro trabalho apologético feito para ser distribuído numa palestra que tive a honra de ministrar a convite da FATADS (Faculdade Teológica das Assembléias de Deus de Santos/SP) em 1991, pouco tempo após minha conversão consciente ao Catolicismo.

Na época (e talvez ainda hoje), os evangélicos confundiam muito a Renovação Carismática Católica como uma dissidência da Igreja Católica, considerando-a como uma nova igreja, uma nova denominação cristã.

Concordo que o presente trabalho poderia ser enriquecido com novos detalhes e informações, uma vez que as perguntas efetuadas permitem um maior aprofundamento doutrinário; entretanto, decidi publicar o trabalho tal como foi apresentado na época em virtude de ter representado muito para mim e por permitir, de forma rápida e objetiva, “matar dois coelhos com uma só cajadada”: saber o que é a Renovação Carismática Católica e conhecer – resumidamente – a doutrina católica.

Obs: as notas de rodapé são esclarecimentos que faço aos visitantes do Agnus Dei e, por conseguinte, não fazem parte do trabalho original.

I. OBJETIVO

Este trabalho tem como objetivo esclarecer[1] sobre a Renovação Carismática Católica (RCC) e apresentá-la de forma mais clara para o curso de teologia da FATADS.

II. ESCLARECIMENTOS NECESSÁRIOS

As perguntas que nos foram formuladas nos dão a parecer que as igrejas protestantes[2] não conhecem a estrutura e organização da RCC, chegando a classificá-la como uma nova “denominação cristã”, ou seja, um movimento fora (ou dentro) da Igreja Católica. Na verdade, a RCC não é uma nova igreja e nem um movimento dentro da Igreja [Católica], mas sim a Igreja em movimento. Não se trata de movimento, mas sim de grupo[3] como tantos outros que lá existem (ex.: círculo bíblico, pastoral carcerária, pastoral da criança, etc…). Ao contrário do que muitos pensam, a RCC não representa nenhuma inovação da doutrina tradicional do catolicismo, mas provoca um esforço redobrado no estudo das doutrinas, maior obediência à hierarquia (portanto, não é sectária) e participação maior nos sacramentos. Seus principais dons são, segundo uma pesquisa interna[4]:

Falar em línguas estranhas – 39%
Discernimento – 21%
Profecia – 17%
Curas – 16%

Nas reuniões da RCC[5] predominam a oração espontânea, o estudo bíblico e a expressão corporal. [Os carismáticos] também dão valor aos testemunhos, orações intercessórias, cânticos e improvisações. Também o silêncio é muito importante para que cada um dos presentes se una mais intimamente a Deus.

Após estes esclarecimentos, gostaríamos de observar que as nove perguntas formuladas foram respondidas baseando-se, primeiramente, na RCC. No entanto, algumas questões (ex.: batismo, salvação…) não correspondem a idéias próprias da RCC, mas sim à doutrina católica; neste caso, optamos por esclarecer a referida doutrina, já que esta, muitas vezes, não é conhecida claramente[6] em seu todo.

Esperamos, assim, que este trabalho ajude-nos a superar as dificuldades hoje existentes, para encontrarmos o caminho da plena união entre os cristãos, lembrando a célebre frase ensinada por Jesus e que bem pode ser aplicada aos nossos dias: “Todo reino dividido contra si mesmo será destruído” (Mt 12,25a).

III – PERGUNTAS E RESPOSTAS

1. Quando, como e por que surgiu [a RCC]?

Durante a realização do Concílio Ecumênico do Vaticano II (1962-1965), o papa João XXIII pediu para que este fosse um “novo Pentecostes”. Terminado o Concílio, começou-se a produzir em todo o mundo um ressurgir dos carismas, recordados no Concílio. Em 1967, um grupo de estudantes da Universidade de Duquesne (EUA), católicos fervorosos, começaram a reler e meditar os Atos dos Apóstolos e oraram pedindo a efusão do Espírito Santo… Tranformaram-se em cristãos irradiantes de alegria e manifestaram a presença de Jesus em suas vidas. Em pouco tempo, surgiram outros grupos de oração e, hoje, a RCC existe em quase todas as partes do planeta. Nos grupos de oração são realizadas as seguintes atividades: oração (de louvor, em línguas, de ação de graças, etc.), cânticos, silêncio, dons carismáticos (profecia, sabedoria, discernimento, etc.), leituras bíblicas, instruções e testemunhos.

2. Quais são as doutrinas?

Conforme já foi esclarecido, a RCC não apresenta nenhuma nova doutrina, nem tampouco um programa de ação. Assim sendo, as doutrinas seguidas pela RCC obedecem, na verdade, as doutrinas da Igreja Católica, entre elas: a existência da Santíssima Trindade (Deus uno e trino); Jesus Cristo, verdadeiro Deus e Homem; a ressurreição dos mortos; a fé, a caridade (amor) e os sacramentos como necessidades para a salvação humana; a Bíblia e a Tradição[7] como fontes de fé; a virgindade[8] de Maria Santíssima; conservação dos sete sacramentos (batismo, confirmação, penitência, ordem, matrimônio, eucaristia e unção dos enfermos); etc. Enfim, podemos resumir a doutrina católica através da Profissão de Fé (Credo)[9]: Creio em um só Deus, todo-poderoso, / Criador do céu e da terra, e de todas as coisas visíveis e invisíveis. / Creio em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho unigênito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos; / Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro; / gerado, não criado, consubstancial ao Pai; por Ele todas as coisas foram feitas. / E por nós, homens, e para nossa salvação, desceu dos céus: / e se encarnou pelo Espírito Santo, no seio da Virgem Maria, e se fez homem. / Também por nós foi crucificado sob Pôncio Pilatos; padeceu e foi sepultado. / Ressuscitou ao terceiro dia, conforme as Escrituras, / e subiu aos céus, onde está sentado à direita do Pai. / E de novo há de vir, em sua glória, para julgar os vivos e os mortos; e o seu reino não terá fim. / Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida, e procede do Pai e do Filho / e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado: Ele que falou pelos profetas. / Creio na Igreja, una, santa, católica e apostólica. / Professo um só batismo para remissão dos pecados. / E espero a ressurreição dos mortos / e a vida do mundo que há de vir. / Amém.

3. Como é realizado o Batismo?

Assim como nas [demais] doutrinas, a RCC [por si só] também não realiza nenhum tipo [particular] de Batismo. Desta forma, é a Igreja Católica que realiza os batizados de acordo com seus ritos e normas. O Batismo é necessário para a salvação e pode ser aplicado em crianças[10] ou adultos. A criança pode ser batizada desde que os pais assumam o compromisso de educá-la na fé cristã; o adulto deve manifestar o desejo de querer ser batizado e estar instruído na fé. [O Batismo] pode ser realizado por imersão[11] ou por infusão (derramamento de água). Apenas a água pode ser usada para o Batismo. O Batismo deve ser ministrado pelo padre, na paróquia a que pertence o batizando, mas em caso de extrema necessidade, poderá ser ministrado na própria casa do batizando pelo padre ou por qualquer pessoa. Nenhuma pessoa pode ser rebatizada, mesmo que tenha vindo de outra igreja [cristã], desde que o batismo tenha sido proferido da maneira correta, ou seja, em nome da Santíssima Trindade; se for necessário [aplicar] um rebatismo, este só poderá ser feito sob condição. Os padrinhos de Batismo devem ter mais de 16 anos, serem católicos, terem recebido a Eucaristia e levarem uma vida digna; os não-católicos podem apenas ser testemunhas do Batismo. O sacramento do Batismo é administrado segundo o Código de Direito Canônico, cânones 849 à 878.

4. Quanto à Salvação, crêem na Eleição ou na Predestinação?

A RCC, logicamente, segue a doutrina definida pela Igreja Católica, segundo a qual Deus não cria ninguém para a condenação, mas, pelo contrário, quer que todos os homens sejam salvos (cf. 1Tm 2,4). Para tanto, oferece a cada um a graça necessária; se a criatura se perde, isto se deve ao abuso de sua liberdade, que a leva rejeitar os dons de Deus. Disse Santo Agostinho: “Deus não abandona a não ser que seja primeiramente abandonado”. Na verdade, Ele nos ama gratuitamente desde toda a eternidade e não pode deixar de nos amar porque se contradiria; ele é Deus e não simples homem; por isso, Ele não pode nos dizer “não” após ter dito “sim” (cf. Os 11,8; 2Tm 2,13).

5. Qual a forma de ministrar a Ceia?

A Ceia do Senhor, na Igreja Católica, é chamada “Eucaristia”. Desde o princípio, a tradição cristã ensinou que a Eucaristia mantém a presença real de Cristo, ou seja, após a consagração – feita por um sacerdote validamente ordenado (padre ou bispo) – o pão torna-se realmente o Corpo do Senhor e o vinho também se torna, realmente, o Sangue do Senhor. Um sacerdote só pode celebrar a Eucaristia uma vez ao dia e, no máximo, três vezes nos domingos e festas de preceito. Qualquer pessoa batizada e livre de pecados graves pode e deve participar da Eucaristia. As pessoas que recebem a Eucaristia (exceto idosos e enfermos) devem estar em jejum há, pelo menos, uma hora. Todos os fiéis devem participar da Eucaristia pelo menos uma vez ao ano. O pão (hóstia) deve ser feito apenas de trigo, e o vinho deve ser natural, do fruto da videira. Não poderá haver consagração, em hipótese alguma, quando faltar uma das matérias. É proibido conservar a Eucaristia em casa ou levá-la para viagens; esta só pode ser conservada na Igreja e em local (=tabernáculo) impossível de ser removido (tipo “cofre”). Nas reuniões da RCC, feitas geralmente nos salões paroquiais do templo, a Eucaristia já é trazida consagrada e, após ser dada aos presentes, é novamente levada para o tabernáculo, no templo.

6. Qual a forma de governo da RCC?

Assim como acontece com os outros grupos existentes na Igreja, a RCC é dirigida por líderes leigos, geralmente dois ou três. Estes líderes têm como tarefa organizar, dirigir e evitar abusos no grupo de oração. Portanto, respondem por seus atos e os de seu grupo perante as autoridades eclesiásticas e obedecem à hierarquia católica (padres, bispos, papa).

7. Ofertas e dízimos:

Não há a arrecadação de ofertas nem dízimos na RCC. Quanto à Igreja Católica, as ofertas são dadas espontaneamente pelos fiéis: o valor destas é livremente determinado por eles. Quanto ao dízimo, este é usado para suprir as necessidades da igreja em particular (pagamento de contas, salário dos funcionários, etc.). Os fiéis têm o dever moral de suprir a Igreja, mas ninguém é obrigado a contribuir com o dízimo. Logo, a pessoa que deseja ser dizimista compromete-se a contribuir mensalmente com a Igreja, com um valor qualquer que quiser. Em outras palavras, a chamada “obrigação dos 10%” não é usada pela Igreja Católica: o fiel que quiser contribui mensalmente com o valor que ele próprio determina.

8. Qual a importância dada ao trabalho missionário?

A RCC [propriamente dita] não possui nenhuma frente de missão. Essa falta é suprida pela Igreja Católica, que ensina que todos os fiéis são seus missionários e, por isso, devem assumir sua parte na obra missionária. Portanto, todos, desde o clero até o último dos leigos, devem anunciar o Evangelho. Por isso, os bispos dispensam especial atenção aos missionários. Para ser missionário, deve-se primeiramente ser instruído e possuir [reconhecida] vivência cristã; dedicar-se-á à doutrina evangélica, aos exercícios litúrgicos e às obras de caridade; para tanto, frequentará institutos especiais para missionários e, ao terminar os seus estudos, será enviado para áreas de missão, no território nacional ou estrangeiro.

9. Quanto a disciplina, o que se faz quando o pastor[12] descobre que algum fiel está em pecado?

Na Igreja Católica existe o sacramento da Penitência. Desta forma, o padre não precisa pesquisar a vida dos seus fiéis e “descobrir” se estes estão ou não em pecado. Primeiro, porque estaria se intrometendo na vida alheia; segundo, que forçaria um arrependimento não voluntário. Ora, todas as pessoas cometem pecado! Assim como elas têm a liberdade para cometer pecado, também têm a liberdade para arrepender-se ou não. A pessoa que comete pecado e se arrepende, simplesmente procura o sacerdote e faz a confissão. Se o sacerdote perceber que tal pessoa não está sinceramente arrependida, poderá negar-lhe o perdão. O sacerdote está obrigado ao sigilo sacramental, ou seja, em hipótese alguma revelará para quem quer que seja a confissão prestada pelo penitente. Todo fiel católico é obrigado a se confessar pelo menos uma vez ao ano e o fiel pode escolher livremente o confessor que quiser. Quanto às penas máximas, estão sujeitos à excomunhão os hereges, os apóstatas e os cismáticos; quem jogar fora ou reter (com uma má finalidade) a Eucaristia; quem cometer violência física contra o papa; o sacerdote que perdoar o cúmplice em pecado contra o sexto mandamento (adultério); o bispo que conferir a consagração episcopal sem o mandado pontifício; o confessor que violar diretamente o sigilo sacramental…

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NOTAS:
[1] Esclarecer os protestantes, é claro… * [2] O curso de teologia da FATADS se diz “interconfessional”, isto é, atende estudantes de diversas denominações protestantes. * [3]Que possui o aval e o respaldo da hierarquia católica. * [4] Conforme o folheto “A Renovação Carismática e os seus Grupos”. * [5] Ainda que realizem reuniões específicas – os chamados “grupos de oração” – o santo sacrifício da Missa é o clímax para os carismáticos. * [6] O presente trabalho serviu como material de apoio, de forma que muitos detalhes doutrinários não expressos nesta “obra” foram transmitidos oralmente, durante a realização da palestra. * [7] Implicitamente englobando o Magistério eclesiástico. * [8] Virgindade perpétua, é claro: antes, durante e depois o parto de Jesus. * [9] Segundo o “Símbolo Niceno-Constantinopolitano” (séc. IV), que é uma exposição mais detalhada do “Símbolo dos Apóstolos” (séc. I ou II d.C.). * [10] A questão do batismo de crianças gerou um efeito interessante nos palestristas: em razão do curso de teologia da FATADS ser “interconfessional”, contando com fiéis das mais diversas denominações protestantes, alguns começaram a levantar dúvidas sobre a validade de tal procedimento, enquanto que outros – protestantes mais tradicionais como luteranos e presbiterianos – ajudaram-me a defender a posição católica, citando passagens bíblicas e testemunhos do período patrístico. É por esse motivo que particularmente não acredito muito nesses cursos interconfessionais pois como é que se pode ensinar teologia não podendo descer em “detalhes” ou omitindo as diferenças que existem entre as igrejas participantes?? Seria lícito falar para um presbiteriano: “Olha, você não fala sobre batismo de crianças e eu não falo sobre o problema da predestinação!” ou outras propostas do gênero?? Acredito que não! * [11] Eis outro ponto alto da palestra: quando mencionei que a Igreja Católica também batizava por imersão, uma professora da FATADS levantou-se e disse-me: “Eu fui católica por 25 anos e nunca ouvi falar disso”. Então abri o meu Código de Direito Canônico no cân. 854 e li bem alto: “O batismo seja conferido por imersão ou por infusão, observando-se as prescrições da Conferência dos Bispos”. Completei, dizendo-lhe: “Acho que a senhora abandonou a Igreja Católica sem a conhecer realmente”. Ela, vermelha, sentou-se e não falou mais nada até o final. * [12] Embora no trabalho que entreguei para a instituição eu tenha preferido usar a palavra “padre”, o fato é que a pergunta original que me foi feita usava a palavra “pastor”, bem mostrando que achavam que a RCC tinha se separado da Igreja Católica. Na verdade, o que fiz naquele momento, foi adaptar a palavra “pastor” para seu “equivalente de liderança” na Igreja Católica, isto é, o padre.

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