Artigos (por Carlos Ramalhete)

A retificação dos nomes

Confúcio dizia que para tirar uma nação do mau caminho a prioridade deve ser o que ele chamava de “retificação dos nomes”: é preciso prestar atenção em como chamamos as coisas, para que não as tomemos por outras.

Podemos ver, no campo do trabalho humano, como a nossa bela língua precisa ter os nomes retificados o quanto antes.

Só para começar, está cheio de gente procurando um “emprego”. Ora, “emprego” é “uso”; ferramentas são “empregadas” por alguém – um ser humano, ao contrário delas – para fazer algo. Ao chamarmos de “emprego” o trabalho, já nos habituamos a ver o trabalhador como uma mera ferramenta, como alguém que tem utilidade, mas não personalidade, prazer no que faz ou nem sequer responsabilidade.

As relações monetárias com o trabalhador, dentro de uma firma, são geralmente da alçada do departamento de “recursos humanos”. Sim, “recursos”, como os recursos hídricos ou minerais: algo que se usa até gastar, que se exaure, algo arrancado da terra e tratado como objeto industrial.

A contratação de um trabalhador é uma “admissão” – da mesma origem etimológica de “míssil”, “algo que é atirado”. O trabalhador é atirado ao trabalho, mais uma vez como objeto. Sendo demitido – palavra da mesma origem –, ele é atirado fora do trabalho.

O pagamento que recebe é um mero “salário”, ou “ração de sal”. O mesmo sal que não se aceita quando se pede um quilo de alimento como ingresso para algo: uma coisa que não é nutritiva, que não cumpre o dever moral do empregador de possibilitar uma vida digna para seu empregado. Uma coisa que serve para dar apenas um gostinho a mais àquilo que se come, sem ser por si só um alimento.

As relações entre o empregador e o trabalhador são regidas pela legislação do trabalho, que aponta “direitos”. “Direito” é o que é reto, sem curvas, como se todos os trabalhadores e todos os empregadores fossem iguais; como se o trabalho fosse não a obra das mãos e da cabeça de uma pessoa única fazendo um determinado serviço de sua maneira pessoal, com seus talentos individuais, mas o uso (o “emprego”) de um objeto inanimado (de um “recurso”).

Os “nomes” que usamos são todos, afinal, maneiras de tornar o trabalhador um objeto impessoal, negando-lhe a humanidade ao fingir que ele é uma peça intercambiável com qualquer outra. Para alguns empregos, pede-se um diploma (etimologicamente, um “papel dobrado”, um salvo-conduto). Para outros, mera experiência (“tentativa”, em latim). Em todos, contudo, é negada a humanidade do trabalhador.

Retifiquemos os nomes, pois.





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