A resposta da Santíssima Virgem

“A Encarnação não foi somente obra do Pai, de Sua potência e de Seu Espírito”, disse Nicolau Cabasilas, famoso teólogo bizantino da Idade Média, “mas também uma obra da vontade e da fé da Virgem.”

Que verdade salutar é saber que Deus, podendo fazer tudo sem nós, optou, por um decreto de Sua soberana e sapientíssima vontade, em não deixar sem função nossa liberdade! Pode simplesmente decretar nossa salvação ou nossa perda – e realmente os hereges calvinistas imaginam ser assim -, mas desejou, inflamado de infinito amor por Suas criaturas, que tivéssemos nossa participação no processo de redenção e mesmo de realizar, a cada instante, os Seus desígnios. Pois se, por uma graça atual, somos convidados à manifestação da vontade divina, pelo concurso livre de nossa inteligência, movida pela vontade – e iluminada por outra graça atual -, tornamos operante aquele plano do Senhor, nosso Deus.

Isso foi verdade, igualmente, por ocasião da Anunciação do anjo São Gabriel à Santíssima Virgem. Revelada a vontade de Deus, esperava-se que ela respondesse para que só aí acontecesse a Encarnação. Cabasilas diz bem claro que o fabuloso evento só ocorreu por obra da vontade divina do Criador unida à vontade humana de Maria. E tal vontade manifestou-se pela fé, a qual, por sua vez, foi posta em prática quando Bendita Virgem respondeu de forma positiva ao convite do céu. “V:/ Eis aqui a escrava do Senhor. R:/ Faça-se em mim conforme a vossa palavra.”

Com nossa livre vontade podemos aderir ao plano de Deus. Assim procedeu o Senhor com Nossa Senhora: convidou, respeitando sempre sua liberdade. E ela utilizou de maneira correta. Sim, pois sabemos pela filosofia, que a liberdade não consiste em fazer o que se quer, e sim em fazer o que é correto, em vista do bem absoluto. Livre não é o que faz o que seus apetites e desejos lhe sugerem, mas o que faz o que deve ser feito. Por isso, mais do que todos, Maria Santíssima foi livre, pois usou sua liberdade para fazer o que devia: anuir, por sua vontade livre, isenta de coações externas ou internas, à revelação que o anjo lhe fizera.

Se Cristo não Se tivesse Encarnado, não seríamos salvos. Nos explica, a esse respeito, o pensador máximo da Cristandade, cognominado, por sua doutrina, Doutor Comum ou Doutor Angélico:

“(…) nem por Adão, nem por algum outro puro homem, poderia ser reparada a natureza humana, já porque nenhum indivíduo humano era superior a toda a natureza, já porque nenhum outro homem pode causar a graça. Pela mesma razão, não poderia ser reparada a natureza humana por um Anjo, porque também o Anjo não pode ser causa da graça, nem ser para o homem o prêmio da beatitude perfeita, para a qual o homem devia ser novamente chamado, porque nela são semelhantes. Conseqüentemente, tal reparação só podia ser realizada por Deus. Mas se Deus reparasse a natureza humana por sua vontade apenas ou apenas por sua força, a ordem a justiça divina não estaria observada, porque esta ordem exige satisfação pelo pecado cometido. Ora, é impossível Deus ser sujeito de satisfação ou de mérito, porque um ser sujeito de algo está submetido a outra coisa. Por essas razões, não cabia nem a Deus satisfazer pelo pecado de toda a natureza humana, nem a um puro homem, como se viu acima. Foi conveniente, portanto, que Deus se fizesse homem, de modo que um e o mesmo ser pudesse reparar e satisfazer. Tal motivo da Encarnação divina é declarado por São Paulo, quando escreve: ‘Cristo veio a este mundo para salvar os pecadores’ (I Tim 1,15).” (Santo Tomás de Aquino. Comp. Th., CXCV, 1-2)

A importância da Encarnação está explicada pelo Aquinate. Tendo diante de nós tal demonstração, podemos perceber quão grandiosa era a responsabilidade de Maria, de cuja resposta à vontade de Deus exposta por São Gabriel, dependeria a sorte de nossa salvação. A Santíssima Virgem disse “sim”, e pudemos ter Deus Encarnado. Seu “sim” tornou oportuna a Encarnação do Verbo. Seu “sim” permitiu o nascimento, a vida, a obras, os milagres, a pregação de Nosso Senhor Jesus Cristo. Seu “sim” importou em Jesus morrer na Cruz para o perdão de nossos pecados, e ressuscitar ao terceiro dia para nossa justificação. Seu “sim” fez com que fosse fundada uma Igreja, a una, santa, católica, apostólica e romana, sob São Pedro e seu sucessor, o Bispo de Roma, o Papa. Seu “sim”, em suma, nos deu a salvação conquistada por Cristo.

Esse é o resultado da cooperação entre Deus e o homem, da livre resposta da humanidade aos sábios convites do Senhor. Sempre que fazemos Sua vontade, vemos, maravilhas são operadas. Mas para isso Deus não nos força a nada, esperando, pacientemente – até quando? – que nos decidamos em tornar visíveis Seus planos. “(…) nós sustentamos que a vontade humana é de tal modo auxiliada por Deus para praticar a justiça, que, além de o homem ser criado com o dom da liberdade, e apesar da doutrina que o orienta sobre seu modo de viver, receba o Espírito Santo, aquele que infunde na sua alma a misericórdia e o amor do bem incomunicável que é Deus, mesmo agora quando caminha não pela visão, mas pela fé.” (Santo Agostinho. De Spiritu et littera, III)

A Encarnação do Verbo

O Verbo de Deus tornou-Se carne, habitando no meio de nós, ou, como diz outra tradução, armando tenda entre nós. “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio junto de Deus. Tudo foi feito por ele, e sem ele nada foi feito. Nele havia vida, e a vida era a luz dos homens. (…) E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos sua glória, a glória que o Filho único recebe do seu Pai, cheio de graça e de verdade.” (Jo 1,1-4.14)

Deus vem morar no meio do Seu povo, não mais apenas espiritualmente, senão em Corpo, Sangue, Alma e Divindade. As predições dos profetas do Antigo Testamento são confirmadas, e Deus, ainda que somente visto em forma humana, é quem anda conosco em Jesus Cristo – Segunda Pessoa da Santíssima Trindade -, “(p)ois nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade.” (Cl 2,9)

São Paulo é bastante direto ao descrever o que os teólogos orientais, sobretudo bizantinos, denominaram “aniquilação”, i.e., o despojamento de Deus ao fazer-Se igual a nós, assumindo nossa humanidade, tornando-Se Ele próprio homem: “Sendo ele de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens.” (Fl 2,6-7) A Encarnação é um acontecimento maravilhoso! Profetas e homens santos foram enviados por Deus, mas agora é o próprio Criador que vem até nós. E não em uma aparência gloriosa, como convém naturalmente à divindade, senão humildemente, assumindo a natureza do homem. O Criador, por amor à criatura, faz-Se ele mesmo criatura.

Salutar o pensamento acerca do evento fantástico da Encarnação, em que Deus toma a forma humana – um homem de verdade, e não como queriam os hereges docetistas dos primeiros séculos, imaginando que Cristo não fosse realmente humano, mas que tinha uma aparência de corpo apenas. Igualmente salutar é considerar como tudo isso se deu por causa da resposta de uma jovem israelita à vontade de Deus, transmitida por um anjo! Colaborando Maria Santíssima com a graça divina, Cristo pôde fazer-Se carne! Dizendo “sim” ao plano de Deus, o mesmo Deus Encarnou-Se! E por essa Encarnação, “pelo seu sangue, temos a Redenção, a remissão dos pecados, segundo as riquezas da sua graça que derramou profusamente sobre nós, em torrentes de sabedoria e de prudência.” (Ef 1,7-8)

“V:/ E o Verbo Se fez carne. R:/ E habitou entre nós.” É o que dizemos no Angelus. Num primeiro momento, Deus revela Sua vontade: o anjo anuncia a Maria que foi escolhida para ser a Mãe do Salvador. Em seguida, a Virgem responde ser a escrava do Senhor: aceita, com o concurso de sua livre vontade, que se faça segundo a palavra da anjo. A conclusão é quase silogística: Deus realiza Sua vontade, da qual convidou Nossa Senhora para livremente participar, e o Verbo Se faz carne.

O que pedimos quando rezamos o Angelus? Aplicação prática em nossa vida cotidiana

Meditando nessa cena evangélica, tão sucintamente descrita quanto fundamental para a realização do plano divino da salvação da humanidade, podemos perceber como se dá o processo de manifestação da vontade de Deus no mundo. Primeiro mostra o que quer, convidando o homem a decidir-se. Depois o homem dá sua anuência – ou não. Positiva a resposta da vontade do homem à vontade de Deus, torna-se fato o desígnio do Senhor. Pela conjugação das duas vontades – divina e humana -, a terra contempla o espetáculo da realização do plano de Deus.

Não podemos esquecer, entretanto, que mesmo a vontade humana – que impele o intelecto à responder positivamente ao chamado de Deus -, é iluminada pela graça. “Porque é Deus quem, segundo o seu beneplácito, realiza em vós o querer e o executar.” (Fl 2,13) Deus, portanto, participa, num primeiro momento, propondo a Sua vontade, convidando o homem a aceitar Sua graça. Num segundo momento, participa ainda Deus iluminando, novamente com a graça, a nossa vontade, para que livremente correspondamos à primeira.

Portanto, duas coisas tiramos como fruto dessa meditação sobre o Angelus: a) a primeira é que devemos, aos convites de Deus, responder com a nossa vontade livre para que a Sua se realize, e que desse modo é que procede o Senhor para manifestar Seus planos neste mundo; b) em seguida, que por essa nossa vontade, ainda que livre, ser iluminada pela graça, temos de dispor nossas almas aos influxos do amor divino, pois só responderemos ao anúncio de Deus de acordo com o Seu querer. Assim, precisamos, repetimos, adequar nossa vontade à de Deus para que esta última se realize plenamente, e desse consórcio magnífico entre o céu e a terra brotará o plano de Deus em ato, não somente em potência. E, como até sobre nossa vontade brilha a luz da graça do Senhor, devemos rogar a Ele que Se digne derramá-la sempre em nossos corações.

Esse é o teor da oração final, iniciada pela clássica invocação de que rogue a Santíssima Virgem por nós que nos aventuramos a rezar e meditar o Angelus: “V:/ Rogai por nós, Santa Mãe de Deus. R:/ Para que sejamos dignos das promessas de Cristo. Oremos: Derramai, ó Deus, a Vossa graça em nossos corações, para que, conhecendo pela mensagem do anjo, o mistério da Encarnação do Vosso Filho, cheguemos, por Sua Paixão e Cruz, à glória da Ressurreição. Pelo mesmo Cristo, Senhor nosso. Amém.”

Belo resumo de tudo quanto expusemos até aqui. Pela reflexão do que houve no evento da Anunciação do anjo a Maria, tomamos conhecimento de que, agindo de maneira semelhante à Mãe de Deus, que correspondeu à vontade divina com a livre resposta da sua, e contemplando que, por causa da atitude da Virgem, Deus Se fez carne, podemos também nós proporcionar que os planos do Criador se concretizem, bastando, para isso, que imitemos a atitude de Nossa Senhora. Contribuindo para que o desígnio divino seja fato – como a vontade do Pai de que o Verbo Se Encarnasse contou com a correspondência da Virgem em seu “sim” -, o homem responde à graça, e, dessa sorte, se salva. Eis aí o que diz a oração, traduzida em palavras talvez mais simples. Não esquece a prece, todavia, que quem ilumina a nossa vontade para que corresponda à revelação de Deus, e assim seja nossa alma salva pela contribuição na realização do plano divino na terra, é a graça, pelo que, por isso mesmo, imploramos que seja ela derramada em nossos corações. “Portanto, para que corra ao encontro do Senhor, deseje ser dirigido por ele, submeta à dele a sua vontade e se torne com ele um só espírito, conforme o Apóstolo, pela adesão constante, Deus infunde piedade em que ele quer, e somente o homem piedoso é capaz de realizar toda essa obra.” (Santo Agostinho. De gratia Christi et peccato originali, I, XLVI)

E o que é corresponder com nossa vontade à vontade de Deus? Um bom resumo está nas obrigações derivadas do Batismo: esforçar-se por ser santo e por fazer apostolado. Santificação pessoal e empenho apostólico, portanto, devem ser a regra de vida mais comum de todo que, dizendo-se cristão, quer imitar Nossa Senhora, e dizer “sim” ao plano de Deus. Na sua vida cotidiana, diante das situações colocadas por Deus, precisa o crente indagar-se sobre a Sua vontade e, então, corajosamente, levado pela graça, mas sempre respeitada sua liberdade, dar uma resposta à chamada divina.

Desse modo, ao lado da grande vontade de Deus, que deve reger nossa vida sempre – santificar-se, fazer apostolado -, o fiel irá, nas situações concretas, com seus atos, seus pensamentos, suas palavras, responder “sim” ou “não” ao que o Senhor propõe. Não basta aceitar colaborar com a graça uma vez, de modo geral. Não bastam bons propósitos de santidade e apostolado. É preciso que sejam essas duas resoluções renovadas no dia a dia, com profissões de fé, claro, mas também com atitudes práticas. Até disso nos dá exemplo, novamente, a Santa Mãe do Salvador: “A vida de Maria foi o cumprimento até às últimas conseqüências daquele primeiro fiat (faça-se) pronunciado no momento da Anunciação” (Sua Santidade, o Papa João Paulo II. Exortação Apostólica Redemptoris Custos, 17)

Temos de ser santos! É uma ordem de Deus! Para isso, não nos resta alternativa senão obedecer. E o faremos se soubermos, como nos ensina essa oração do Angelus, dizer, como Maria, ecce ancilla Domini, eis a escrava do Senhor. Temos, outrossim, de fazer apostolado. E a receita é a mesma: fiat mihi secundum verbum tuum, faça-se em mim segundo a vossa palavra.

O texto da oração do Angelus, sobre o qual meditamos com estas linhas, é uma explanação da obra feita por Deus a partir da resposta da Virgem ao convite transmitido pelo anjo. Por essa razão, a finalidade de rezarmos o Angelus consiste em refletir sobre a obra da Encarnação – essencial na História da Salvação, e, portanto, na teologia e piedade católicas! -, sobre as disposições da Mãe do Céu à revelação de São Gabriel, sobre o “sim” firme e corajoso de Maria Santíssima, e sobre nossa obrigação de imitá-la em sua atitude decidida de submeter-se ao Senhor, colaborando com a graça; rezar o Angelus é evocar as maravilhas nascidas da união da vontade do homem à vontade de Deus, mediante a entrega de nossas potências a Ele pela fé sobrenatural; enfim, rezar o Angelus é pedir que o Salvador nos ajude a agir da mesma maneira que agiu a Beatíssima Virgem.

Disposto para ser recitado duas vezes por dia, criam-se condições de sua mensagem estar sempre à nossa lembrança. Pois não somente em momentos especiais é que devemos dizer “sim” a Deus, porém a cada instante de nossa curta existência na terra.

Tenhamos certeza de que, à semelhança do que houve na Encarnação, o fruto de nossa livre associação à vontade de Deus, santificando-nos e fazendo apostolado, será maravilhosamente belo!

Uma última recomendação a dar é que, sendo uma oração com uma marca acentuadamente mariana, o Angelus deve ser recitado com um coração cheio de confiança em que Nossa Senhora irá nos auxiliar, pondo-se entre Cristo e nós, para rogar do Senhor, seu filho, que, por Seus méritos, Se digne infundir a graça em nós, predispondo-nos para respondermos sempre ao convite celeste de acordo com a vontade divina, fazendo bom uso de nossa liberdade para a execução dos planos do Criador na terra. “A Igreja sabe e ensina que ‘todo o influxo salutar da Santíssima Virgem em favor dos homens se deve ao beneplácito divino e … dimana da superabundância dos méritos de Cristo, funda-se na sua mediação, dela depende absolutamente, haurindo aí toda a sua eficácia; de modo que não impede o contato imediato dos fiéis com Cristo, antes o facilita.’ Este influxo salutar é apoiado pelo Espírito Santo, que, assim como estendeu a sua sombra sobre a Virgem Maria, dando na sua pessoa início à maternidade divina, assim também continuamente sustenta a sua solicitude para com os irmãos do seu Filho.” (Sua Santidade, o Papa João Paulo II. Encíclica Redemptoris Mater, 38)

A reza do Glória, por fim, demonstra a esperança do cristão de que o que foi pedido será alcançado, e que por isso deve ser bendito o nome do Senhor. “Àquele que se assenta no trono e ao Cordeiro, louvor, honra, glória e poder pelos séculos dos séculos.” (Ap 5,13)

PER REGNUM CHRISTI AD GLORIAM DEI!

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* Rafael Vitola Brodbeck é jurista, graduado pela Universidade Católica de Pelotas. Membro do Regnum Christi , desenvolve seu apostolado em favor da Igreja e dos homens, de acordo com o carisma do Movimento, em estrita fidelidade ao Santo Padre, o Papa, e à Tradição. Tem ministrado conferências sobre Doutrina Social da Igreja, e o Direito e a Ciência Política à luz de Santo Tomás de Aquino e do Magistério Pontifício; elaborado artigos e estudos para diversos veículos informativos e jornalísticos, dentre os quais se destaca o site Veritatis Splendor – www.veritatis.com.br -; participado de diferentes debates apologéticos em defesa da Santa Igreja Católica e sua doutrina; pregado retiros e recolhimentos espirituais; e coordenado missões entre populações urbanas e rurais através dos programas da Juventude Missionária.

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