Por Alessandro Lima

O termo tradição tem origem na palavra Latina tradere que significa entrega. No grego a correspondência está no termo paradósis ( παραδοσις ) que significa transmissão. Logo, tradição é o que foi entregue ou transmitido.

A Revelação Divina foi a entrega ou transmissão do Ensino Divino aos homens através dos Patriarcas, Juízes e Profetas culminando enfim no próprio Cristo. Portanto, devido à sua origem divina e infalivelmente verdadeira (pois Deus não pode enganar-se ou enganar-nos) esta Revelação é referida como Tradição (com “T” maiúsculo, distinguindo-a de tradição com “t” minúsculo, que refere-se à transmissão de uma doutrina meramente humana).

S. Paulo diz em Gl 3,17 que entre Abraão e Moisés passaram-se 430 anos! Moisés é o autor dos primeiros 5 livros bíblicos, chamados também por Pentateuco ou Torá. São eles: Gênesis, Êxodos, Levítico, Números e Deuteronômio. Será que durante todo esse intervalo de 430 anos, o povo hebreu não sabia nada sobre Adão e Eva, Noé, Abraão, Isaac e Jacó; José e outros? Sabiam. No entanto durante todo esse tempo a Revelação Divina foi transmitida UNICAMENTE por via oral.

É a própria Sagrada Escritura que o testifica. Em Gn 17,2-14; 26,3-4; Ex 19,3-6; 20,1-17; Dt 7,7-9 a Tradição Divina é passada de Pai para filho.

Consequentemente ao lado da Lei escrita (Torá), o Judaísmo reconhecia a Lei oral (Massorá). Desta forma a Tradição Divina foi transmitida tanto por meio oral quanto escrita.

Em 1Cor 10,4, São Paulo nos conta uma interessante história que mostra como a Tradição Oral e a Escrita estavam situadas no mesmo nível. Escrevendo sobre os sentidos figurados da Lei de Moisés, tomou um exemplo que não está escrito nela: a rocha da qual manava água (cf. Ex 17,1-7Num 20,2-13) e que acompanhava os Judeus no deserto. Não há nada nas Escrituras sobre uma pedra andando junto com os judeus! E o que é muito mais importante: o Novo Testamento faz uma prefiguração nessa exposição, pois ela prefigura Nosso Senhor!

Também São Paulo, em 2Tim 3,8, informa-nos os nomes daqueles que resistiram a Moisés em Ex 7,8-10: Iannes e Mambres. Tais nomes não se encontram no texto sagrado, logo ele só poderia ter tomado conhecimento deles através da Tradição Oral.

Também quando São Judas nos diz que São Miguel não quis julgar a blasfêmia de Satanás, quando estavam lutando pelo corpo de Moisés, mas deixou-o ao Julgamento de Deus, ele estava também citando a Tradição Oral (cf. Tg 1,9). Ou alguém consegue encontrar esta passagem na Bíblia?

A questão da Tradição Divina aparece novamente no Evangelho de S. Marcos sobre uma disputa entre Jesus e os Fariseus. Estes reclamavam com Jesus pelo fato dos Apóstolos não observarem as prescrições judaicas sobre lavar as mãos antes das refeições:

1.Os fariseus e alguns dos escribas vindos de Jerusalém tinham se reunido em torno dele. 2.E perceberam que alguns dos seus discípulos comiam o pão com as mãos impuras, isto é, sem as lavar. 3.(Com efeito, os fariseus e todos os judeus, apegando-se à tradição dos antigos, não comem sem lavar cuidadosamente as mãos; 4.e, quando voltam do mercado, não comem sem ter feito abluções. E há muitos outros costumes que observam por tradição, como lavar os copos, os jarros e os pratos de metal) 5.Os fariseus e os escribas perguntaram-lhe: ‘Por que não andam os teus discípulos conforme a tradição dos antigos, mas comem o pão com as mãos impuras?’. 6.Jesus disse-lhes: ‘Isaías com muita razão profetizou de vós, hipócritas, quando escreveu: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. 7.Em vão, pois, me cultuam, porque ensinam doutrinas e preceitos humanos. 8.Deixando o mandamento de Deus, vos apegais à tradição dos homens’.” (Mc 7,1-8)

Os protestantes veem aqui uma atitude do Divino Mestre contra a Tradição. No entanto não é o que ser dá neste episódio. Jesus condena é a tradição humana que os fariseus ensinavam em detrimento à Tradição Divina. Nestes tempos os Fariseus eram os legítimos intérpretes da Lei Mosaica (cf. Mt 23,2), isto é, como a Lei estabelecia princípios gerais, eles criavam ensinamentos para aplica-los aos fatos concretos da vida quotidiana e no exercício desta autoridade que dispunham não raro criavam doutrinas humanas que eram ensinadas como se fossem da própria Lei de Moisés. Desta forma, Jesus “rejeita a tradição farisaica em torno da observância da lei, adverte contra a substituição dos mandamentos divinos por ensinamentos humanos”1. Com efeito, “os rabinos desenvolveram uma noção de tradição segundo a qual os grandes mestres de Israel formavam uma cadeia que retrocedia até Moisés no Sinai. Os fariseus desejavam estender as leis de pureza ritual aplicadas aos sacerdotes no AT a todos os israelitas, tornando, assim, efetiva a visão de um povo sacerdotal”2. Como se vê a questão em disputa não era a Tradição oral, divinamente revelada, mas a tradição humana que aos poucos ia se sobressaindo por influência farisaica.

Júlio Trebolle Barrera, especialista na cultura dos Judeus, observa que “A hermenêutica judaica, haláquica ou hagádica, é uma entidade própria. Constitui o núcleo do judaísmo, definido como a religião da dupla Torá: A Torá escrita, constituída pela Tanak, e a Torá oral, integrada pelo corpo de interpretações autorizadas da Tanak – a Mixná e o Talmude”3. Ainda observa que “O judaísmo desenvolveu a Lei através de uma tradição oral com valor igualável ao da lei escrita.”4. (grifos nossos).

A Tradição Divina seja oral ou escrita, iniciada com os Hebreus, tem seu ápice em Nosso Senhor Jesus Cristo que nada escreveu e que lhe dá um seu devido cumprimento transmitindo seus ensinamentos aos seus Santos Apóstolos mando-os pregar o Evangelho para todos os homens (cf. Mt 28,18; Mc 16,15; Jo 17,19). Eles cumprindo o mandato do Senhor, se espalharam por todo o mundo conhecido transmitindo aquilo que receberam do Divino Mestre: a Tradição Divina. Cabe nota que esta transmissão tanto de Cristo para os Apóstolos e destes para os primeiros bispos da Igreja foi por via meramente oral. E “se mais tarde, depois de trinta ou quarenta anos, deram-se ao trabalho de escrever os ensinamentos e as lições do Senhor, fizeram-no certamente por disposição providencial, com o fim de edificar os fiéis e de demonstrar a Divindade de Cristo e de sua palavra (Jo 20,31); não, porém, por ordem de Jesus. Além disso, com seus escritos não quiseram descrever todo o ensinamento e toda a vida do Senhor, mas somente evidenciar-lhe os pontos principais”5. Drobner é do mesmo parecer pois afirma que “Entre a morte e a ressurreição de Jesus, por volta do ano 30, e o aparecimento da primeira literatura cristã, passaram-se vinte anos. A Doutrina de Jesus foi uma pregação exclusivamente oral, e as comunidades cristãs primitivas não viam no começo nenhuma razão para uma fixação escrita de sua doutrina.”6

Com efeito, a Tradição Evangélica e Apostólica foi transmitida ao mundo conhecido, como já dissemos, pela pregação oral dos Apóstolos. São Paulo que mais escreveu ensinou que “A Fé vem pelo ouvido” (cf. Rm 10,17) evidenciando a autoridade da Tradição oral. Essa Tradição não era algo estranho à vida religiosa judaica. Tanto que S. Paulo afirma que Deus depois de ter falado muitas vezes e de muitos modos pelos profetas, “falou-nos Deus ultimamente nestes dias, por Seu Filho” (cf. Hb 1,1-2). Tanto no caso dos Santos Profetas quanto no de Cristo, o Apóstolo refere-se especialmente à transmissão oral da Revelação Divina, evidenciando mais uma vez a sua autoridade doutrinária.

Aos Tessalonicenses exorta para que guardem toda a Tradição Divina, seja oral ou escrita:

Portanto, irmãos, ficai firmes, e conservai bem fortemente os ensinamentos que recebestes, tanto por nossa viva voz, como por meio de carta nossa” (2 Tes 2,15).

S. João também não ensinou tudo por escrito:

Tenho muito a vos escrever, mas não quero fazê-lo com papel e tinta. Antes, espero ir ter convosco e falar face a face, para que nossa alegria seja completa” (2Jo 1,12).”

“Tenho muitas coisas que te escrever, mas não quero fazê-lo com tinta e pena. Espero, porém, ver-te brevemente, e falaremos face a face” (3Jo 1,13-14)

E o que dizer dos demais apóstolos? A esmagadora maioria deles transmitiu a Tradição Divina por via exclusivamente oral. E foi esta Tradição que seus discípulos guardaram e que foram transmitindo a seus sucessores e assim por diante até os tempos atuais. Da mesma forma, como S. Paulo instruiu a Timóteo fazer:

Os ensinamentos que ouviste de mim na presença de muitas testemunhas, transmite-o a homens fiéis, capazes de os ensinar também aos outros” (2Tm 2,2). Grifos nossos.

“Ó Timóteo, guarda o depósito [a tradição] que te foi confiado, tendo horror aos clamores vãos e profanos e às oposições da falsamente chamada ciência [gnose].” (1Tm 6,20).

O primeiro Evangelho surgiu em Roma por volta de 64-67 d.C e tem como seu autor S. Marcos, que foi cooperador de S. Pedro (cf. 1Pd 5,13) e verteu por escrito parte da pregação do Apóstolo. O livro mais recente escrito é o livro do Apocalipse datado normalmente pelo ano de 96. d.C. Desta forma, somente no séc. II é que os livros do NT teoricamente estariam disponíveis para as comunidades eclesiais antigas, pois precisariam de ser copiados e distribuídos tarefa nada fácil, pois os copistas eram raros, seu material de trabalho idem e as viagens muito longas, custosas e perigosas (devemos lembrar que a Igreja era perseguida nestes tempos).

Segundo o Patrólogo Protestante J. N. Kelly, “o reconhecimento formal de uma lista fixa, ou cânon, dos escritos do Novo Testamento pode ser datado de meados do segundo século.”7. Aqui Kelly refere-se à lista de Marcião datada por volta de 144 d.C. Ainda o mesmo autor diz que “as gerações que se estendem da era apostólica até os meados do Segundo século são de especial interesse para nossa investigação. Isso tem origem no fato de que embora os livros do Novo Testamento já existissem, ainda não havia um canon neotestamentário oficialmente sancionado. De onde, então, a igreja retirava seus ensinamentos e como ela julgava a validade deles?”. J. N. Kelly afirma que tal resposta só pode ser encontrada nos escritos dos “chamados pais apostólicos […] e os apologistas gregos […]. Para todos esses, o cristianismo parece ter implicado um complexo de fé e prática (na frase de Clemente [de Roma], ‘a regra da nossa tradição’[…] que, em última instância, remontava ao próprio Cristo”8. Ainda na esteira de J. N. Kelly “não existe nenhum motivo para inferir que a igreja primitiva considerava que o testemunho apostólico estivesse restrito a documentos escritos provenientes dos apóstolos, ou a eles atribuídos”9.

A lista completa dos 27 livros do Novo Testamento tal qual a conhecemos tem seu registro datado por volta do ano 367 d.C. na Epístola 39 de Santo Atanásio, Bispo de Alexandria. Sobre isso também afirmou Drobner: “Alguns séculos foram necessários para a formação dos 27 livros escritos que compõe o atual canon do Novo Testamento, muito embora fizessem parte do acervo literário do cristianismo mais primitivo”10. Ora, como se vê até aqui, até o quarto século pelo menos, a lista dos livros sagrados para os cristãos estava em plena discussão, fruto do desenvolvimento doutrinário e amadurecimento teológico. Como então poderia ser o Cristianismo dos primeiros séculos uma religião da Bíblia?

Se os protestantes do século XVI até hoje não conseguiram alcançar uma unidade doutrinária (cf. Ef 4,5) possuindo uma mesma lista de livros sagrados, como explicar o milagre dos primeiros cristãos sem uma lista única de livros sagrados definidas terem alcançado tal unidade?

A Igreja oriunda de Cristo e dos Apóstolos guardava toda a Tradição Divina, seja oral ou escrita. Tal é o testemunho da própria Escritura: “E [os cristãos] perseveravam na doutrina dos apóstolos [tradição], na comunhão, no partir do pão e nas orações.” (At 2,42). Como demonstramos, a Tradição Divina seja oral ou escrita sempre teve autoridade, seja no judaísmo antigo ou na Igreja primitiva.

No entanto, a Tradição Divina necessita que alguém a receba e guarde fielmente (cf. 2Tm 2,2; 1 Tm 6,20). Deus é o seu remetente, porém alguém autorizado (enviado por Ele) deve ser responsável por transmiti-la e interpretá-la (cf. 2Pd 1,20). Aquele que recebe a Tradição Divina para guarda-la e ensiná-la (magister) é investido por Deus de um poder ou autoridade especial: a do Magistério Divino, pois ensina em nome de Deus, como seu enviado. Com efeito, Jesus disse aos apóstolos a quem enviou em seu nome: “Quem vos ouve a mim ouve” (Lc 10,16).

Esse agente na Nova e Eterna Aliança é a Igreja fundada por Cristo, confirmada e gerada pelos Apóstolos, isto é, a Igreja Católica, conforme confessa o Credo Niceno dos primeiros séculos e não as seitas criadas pelo homem, como é o caso das igrejas protestantes. É a própria Escritura que diz que a “A Igreja é Coluna e Fundamento da Verdade” (cf. 1Tm 3,15).

Aqui tratamos da Tradição Divina. O Magistério Divino abordaremos em um trabalho futuro.

 

Notas

 

  1. Novo comentário bíblico S. Jerônimo do Novo Testamento, item 47. Pág 94.
  2. Ibidem, pág. 95.
  3. BARRERA, Julio Trebolle. A Bíblia Judaica e a Bíblia Cristã – Introdução à história da Bíblia. Tradução de Ramiro Mincato. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995. 2ª. Edição. Pág 20.
  4. Ibidem, pág 25.
  5. BARTMAN, Bernardo. Teologia Dogmática, Vol. I. Tradução de Pe. Vicente Pedroso. São Paulo, SP: Edições Paulinas, 1962. Pág 51.
  6. DROBNER, Hubertus R. Manual de Patrologia. Tradução de Orlando dos Reis e Carlos Almeida Pereira. Petrópolis, RJ: Vozes, 2003. Pág. 17.
  7. KELLY, J. N. Patrística – Origem e desenvolvimento das doutrinas centrais da fé cristã. Tradução Márcio Loureiro Redondo – São Paulo: Vida Nova, 1994. Pág. 42.
  8. Ibidem Pág. 22.
  9. Ibidem Pág. 24.
  10. Ibidem nota 6. Pág. 21.
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