Recentemente, o site de apologética protestante chamado Centro Apologético Cristão de Pesquisas (CACP) publicou um artigo, de autoria de Paulo Cesar Pimentele publicada no Jornal Desafio das Seitas, edição 32, de 2004, questionando a veracidade do testemunho do ex-pastor batista Francisco Almeida Araújo, que pode ser lida no Veritatis neste link, e com a devida réplica no texto “Pastor questiona testemunho de conversão“. O autor, tentando desclassificar tal testemunho, o chama de “fantasia”.

Contudo, este mesmo site publicou um famoso testemunho, cujo personagem principal é Alberto Rivera. Talvez sua história seja pouco conhecida no Brasil, mas criou muita polêmica nas publicações norte-americanas. Foi divulgada por Jack Chick, ícone do anti-catolicismo americano, e dono da “Chick Publications“, que produz livros, folhetos e outros meios de divulgação das suas idéias. Para o leitor se familiarizar, o texto traduzido pode ser lido em http://www.cacp.org.br/ex-padre4.htm. A Revista, em http://www.chick.com/reading/comics/0349/0349_allinone.asp

Alberto Magno Romero Rivera nasceu em 1937 nas Ilhas Canárias e faleceu em 1997. Alega que participou de um plano secreto dos padres jesuítas para se infiltrar e destruir as igrejas e demais instituições protestantes. Segundo ele, foi tão bem sucedido que fora ordenado bispo! Então, segundo ele, voltou-se para Cristo e se tornou um missionário protestante, e ainda salvou a vida de sua irmã, uma freira que foi encontrada quase morta no convento. A partir de então, o objetivo da vida de Alberto teria sido, segundo suas próprias palavras e reproduzidas no texto do CACP: “1. Expor o catolicismo romano para o mundo e obtruir seu programa de trabalho. 2. Trazer o evangelho para um bilhão de católicos romanos presos em um sistema religioso sem salvação“.

Conheceu Jack Chick em 1970, e foi quando a sua história começou a ser publicada pela empresa de Chick. Surgiram vários títulos, onde são encontradas as principais acusações de Chick, tais como: A Igreja Católica havia originado o islã, o comunismo, a maçonaria e o Ku Klux Klan. Que controla a máfia, o movimento New Age, que criou o mormonismo e os testemunhas de jeová e, além disso, possui em seu banco de dados o nome de todas as igrejas protestantes do mundo, para mais tarde dar fim a elas.

O texto do CACP coloca que “a Igreja católica romana começou seu plano de boicotar esta operação“, mas na realidade a Igreja Católica não agiu sozinha. Os livros de Jack Chick começaram a ser repudiados pelas instituições protestantes, e sua leitura passou a não ser recomendada, exatamente pelos absurdos de suas afirmações. A CBA (Christian Booksellers Association) considerou expulsar Chick de seu quadro, mas o próprio se retirou antes [1]. Resultado, muitas livrarias protestantes retiraram de suas lojas os livros publicados por Chick. A Igreja Cristã Reformada, Publicações Zondervan e a mesa diretora da Escola Dominical da Igreja Batista do Sul proibiram suas lojas de vender a revista “Alberto“, por considerá-la falsa. À primeira vista, o CACP deixa a entender que as críticas contra este relato de conversão partiu de entidade católicas, citando como exemplo a revista “Cristianismo Hoje” e o artigo de Gary Metz. Mas nós podemos afirmar que tanto o autor como a revista são protestantes, e não católicas! (a revista foi fundada por Billy Graham) Os próprios protestantes se encarregaram de pesquisar e desmascarar Alberto Rivera e Jack Chick. Não ganhariam nada apenas por defender a Igreja Católica, o que, sem dúvida, não é de interesse dos protestantes, mas ganhariam algo mais por defender a justiça dos fatos.

 Eis algumas conclusões da revista Christianity Today sobre sua pesquisa do tema “Alberto Rivera”:

Ele está sendo processado numa corte de Los Angeles (1981) por um homem que disse que Alberto, para beneficiar a Hispanic Baptist Church, tomou um empréstimo de mais de 2 mil dólares para investir em propriedades, mas nunca sequer comprou uma terra. quando o homem quis cobrar de volta o dinheiro, recebeu um recibo “em reconhecimento à sua contribuição” [2]

Em outra ocasião, a revista relata:

Em outubro de 1967 Alberto foi trabalhar na Church of God of Prophecy, em Tennessee, e começou a arrecadar dinheiro para uma escola em Tarrassa, Espanha. Quando a Igreja perguntou à direção dessa escola se Alberto tinha autorização para essa arrecadação, descobriu que ele havia recebido autorização para coletar donativos apenas no mês de julho. A escola também descobriu que ele nunca havia sido padre, apesar de se apresentar como sendo um padre católico…A escola também relatou que ele deixou para trás débitos em nome da paróquia de São Lorenzo e que era procurado pela polícia espanhola por “autêntica fraude”. Finalmente, afirmaram que jamais receberam dinheiro da coleta de Alberto. Em uma carta endereçada ao Departamento de Justiça americano, Charles Hawkins, da Church of God of Prophecy, relatou que o Banco onde Alberto possuía conta havia entrado em contato com ele porque Alberto assinou um cheque de uma conta que já não existia.

Em 1969 dois mandados preventivos de prisão foram expedidos em seu nome. Um a respeito do roubo ao BanckAmericard: a divisão criminal do Banco da América afirma que ele sacou mais de dois mil dólares do cartão de crédito. O outro, pelo uso “impróprio” de um carro. Rivera abandonou o carro em Seatle e foi para a Califórnia, onde organizou alguns grupos.[3]

A respeito da suposta libertação de sua irmã de um convento, diz a Christianity Today:

O livro seguinte [a Alberto], Double-Cross, dedica suas nove primeiras páginas para descrever como Alberto foi para Londres e procurou uma igreja batista, que o ajudou a resgatar sua irmã, Maria, debilitada, de um convento. Na verdade, a igreja que ele procurou responde pelo nome de Delmar Spurling, um membro da Church of God of Prophecy. Spurling disse em uma entrevista que Alberto não resgatou sua irmã de nenhum convento, porque ela nem sequer era uma freira, mas sim uma empregada doméstica em um lar londrino. [4].

Ser padre:

A Igreja Católica nega o mais importante argumento de Alberto Rivera, de que havia sido padre. Para comprovar essa afirmação, a revista Alberto mostra um documento dito “oficial” do arcebispado de Madrid-Alcala, na Espanha, de 1967. Ele identifica Rivera como padre e permite que viaje para fora do país em seu ministério. Não há, entretanto, nenhum outro documento eclesial, como um certificado de ordenação. Uma pessoa da Califórnia, por desconfiar de tal afirmação, em 1973, escreveu à arquidiocese de Madrid-Alcala perguntando se Alberto Rivera tinha registro de padre. A resposta que obteve foi que Alberto não possuía registro em Madrid-Alcala, como também em nenhuma diocese da Espanha, e que o documento de viajem, que era pouco mais que uma carta formal, foi “adquirida mediante fraude e outros artifícios” para permitir a Alberto um passaporte [5]

Alberto Rivera não somente não era padre, como também teve dois filhos durante o período em que alegava estar vivendo uma vida celibatária, assim como Jesus Cristo.

Apesar das afirmações de Alberto de que teria crescido e estudado em um seminário jesuíta, um conterrâneo seu chamado Bonilla, disse que ele havia morado durante certo tempo com uma mulher, na Costa Rica, chamada Carmen Lydia Torres (a revista Alberto diz que ele fora para a Costa Rica para destruir um seminário protestante e que uma mulher chamada Carmen estava com ele, como se fosse sua namorada. O seminário não foi citado). O próprio Alberto relatou em um formulário de emprego que estava casado com Torres desde 1963. Seu filho, Juan, nasceu em Hoboken, New Jersey, em 1964, enquanto Alberto trabalhava para a Christian Reformed Church. Juan morreu em El Paso em julho de 1965, após seus pais saírem da cidade, deixando numerosos débitos e um mandato de prisão por seus golpes com cheques irregulares. O casal teve dois outros filhos, Alberto e Luis Marx. As duas primeiras crianças nasceram exatamente no período em que Alberto ser padre jesuíta na Espanha. [6]

Alberto também alegava ter se tornado bispo. Mas Metz afirma, na revista Cornerstone:

Alberto também afirmava ser um bispo jesuíta. Porém nenhum de seus associados lembra de essa afirmação fazer parte de seu testemunho, até 1973. O rev. Wishart, que fora pastor da First Baptist Church de San Ferando, que questionou o próprio Alberto sobre esse caso, relatou que ele reconheceu que não havia sido tornando bispo em momento algum, e só queria usar o título para obter prestígio. Apesar desta confissão, Alberto continuou a usar este título em sua própria igreja, a Hispanic Baptist Church, em Oxnard, Califórnia. [7]

A Christian Research Institute (CRI), sobre Alberto Rivera, descobriu que:

Bartholomew F. Brewer, um ex-padre que hoje é diretor da Mission to Catholics International, em San Diego, nos disse que Alberto, alguns anos atrás, havia desejado participar do projeto da Mission to Catholics. Após uma entrevista, Brewer decidiu não aceitá-lo no seu ministério. Depois de um certo tempo, Brewer, após uma pesquisa sobre a pessoa de Alberto, chegou à conclusão de que ele não conhecia a teologia católica, não havia sido padre, muito menos bispo. Examinando a revista, podemos perceber que o que o dr. Brewer concluiu é verídico, que o sr. Rivera aparentemente não conhece a doutrina católica, história da igreja e outras informações.

Por exemplo: a revista sugere, indiretamente, que o celibato é um sacramento. Também indica que não era permitido aos seminaristas ler a Bíblia. E, ainda, que para a doutrina católica, Maria é igual a Deus, o Pai. Tudo não passa de distorção dos fatos.

Alberto também pretende credibilidade no assunto ao afirmar que os jesuítas foram os mentores da inquisição. O que é impossível, porque a inquisição começou por volta de 1200, e os jesuítas não existiam até 1540. [8]

Curiosamente, Rivera respondeu à CRI, dizendo que seu fundador, Walter Martin, estava aliado ao vaticano, um “agente de Roma”, contra ele [9]. A CRI respondeu que:

Após nossa pesquisa inicial nos ter dado razão para questionar a veracidade dos fatos, tentamos contactar tanto Jack Chick quanto Alberto Rivera. Não obtendo sucesso em falar com Alberto, enviamos duas mensagens formais à Chick Publications. Nelas demonstramos nossa preocupação quanto às informações discrepantes contidas na história de Alberto, e queríamos respostas. Como não fomos respondidos, ligamos para ele e soubemos que Chick não nos daria resposta alguma. Disse que não responderia a nada e que a revista ficaria como estava [10].

Alberto fundou Antichrist Information Center, hoje conduzido por sua viúva, Nuzy. Faleceu em 1997 de câncer de cólon. Infelizmente, muitos protestantes, hoje, são fortemente influenciados em sua atitude mediante a Igreja Católica, pelas idéias expostas nas revistas de Jack Chick. E a história de Alberto Rivera é uma delas. Se tal história é verdadeira, ou falsa, podemos deixar o leitor retirar sua conclusão, ou pesquisar mais a respeito.

Uma parte das referências foram retiradas do artigo The Nightmare World of Jack T. Chick, uma boa dica de leitura mais completa sobre o assunto.

 

Referências

  1. Booksellers? Group May Expel Chick,” Christianity Today, October 23, 1981, 62.

  2. Gary Metz, “Jack Chick?s Anti-Catholic Alberto Comic Book Is Exposed as a Fraud,” Christianity Today, March 13, 1981

  3. Ibid.

  4. Ibid.

  5. Ibid.

  6. Ibid.

  7. Gary Metz, “Alberto Rivera?s False Anti-Catholic Story,” Cornerstone (www.cornerstonemag.com/pages/show_page.asp?228).

  8. Brian Onken, “Alberto: The Truth about His Story,” Forward, February 25, 1983.

  9. Ibid.

  10. Ibid.

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